Daily Edition

Uma coletânea automática de reportagens sobre a África

Se você está lendo esse post, há grandes chances de ser alguém com interesse pelas coisas da África. Então, deixo hoje a dica valiosa do novo serviço criado pelo Eduardo Castro no ElefanteNews: o Daily Edition, onde é possível encontrar diariamente uma seleção de notícias sobre a África.

O serviço ainda não está disponível em português, mas já tem espanhol, francês, alemão e inglês. Vá direto clicando aqui.

Published in: on 31/01/2011 at 07:13  Comments (1)  
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Teatro Gil Vicente

Em um passeio pelo centro de Maputo, descemos a pé a avenida Samora Machel e passamos em frente ao Teatro Gil Vicente (no número 45 da avenida), hoje também usado como cinema.

Eduardo e Guilherme em frente ao teatro Gil Vicente, em Maputo

Povo no poder

Na Quinta Quente da semana passada eu trouxe aqui um grupo de rap marroquino, o Fnaïre. Já que estamos no ritmo, vou apresentar mais um rapper, agora moçambicano. Não, eu não sou fã de rap. Na verdade, nada contra, nada a favor, mas acho que tem pouca musicalidade.

No entanto, não cairia nem bem falar de rap no Mosanblog e não citar o Azagaia, um artista moçambicano, conhecido dentro e fora do país, por toda África e além. Então, vou apresentá-lo aqui, assim consideramos o rap bem representado e pronto.

Seu nome é Edson da Luz. O primeiro álbum lançado foi em 2007, aos 23 anos. Como acontece com muitos rappers, ele tem um importante papel de conscientização social. “Eu julgo que o povo tem de começar cada vez mais a tomar o poder, a participar mais da vida política do país; A Marcha é mesmo o convite às pessoas para que estas se insurjam”, afirmou em entrevista à BBC Para África.com.

Após a greve geral de setembro de 2010 no país, ele lançou a música Povo no Poder, que tem uma letra forte e corajosa. Quem se lembra dos acontecimentos de setembro de 2010, da tensão por aqui, há de compreender a importância de ter um artista a mostrar ao povo sua própria força. Se não conhece essa história, veja o post Greve de ninguém.

“Só agora é que (o presidente) reúne esse conselho de ministros. O povo nem dormiu, está reunido há muito tempo”… “governação irracional parece que contamina”…

Na mesma entrevista ao site da BBC Para África, ele falou coisas como “as pessoas devem começar a conhecer melhor os seus direitos”… “a Constituição da República, em Moçambique, tem que ser tomada como uma bíblia e divulgada pela população”… “porque diariamente os nossos direitos são violados, por exemplo, pela própria polícia”.

Esse ímpeto conscientizador para a mudança e defesa dos direitos humanos é o que me agrada nele. Mais que a música em si. E como a Quinta é quente, nada como um artista que gosta de colocar lenha na fogueira. 😉

Veja também entrevista do Azagaia no blog Diário de um Sociólogo.

Visita ilustre

Lembra do Wazimbo? Cantor moçambicano de voz maravilhosa… foi da Orquestra Marrabenta Star… canta Nwahulwana… então, esse mesmo.

Hoje ele foi conhecer a Academia de Comunicação, escola de cursos técnico-profissionalizantes da qual sou diretora (ou directora, como me chamam aqui). Foi muita honra receber em meu gabinete o cantor que tanto admiro. Aproveitei e mostrei para ele o post que escrevi em 11 de novembro de 2010 sobre ele. Para minha satisfação, ele gostou.

E então me presenteou com uma longa conversa sobre cultura e história de Moçambique. Citou dois ministros da Cultura que o país teve e que foram grandes incentivadores das artes no país: Graça Machel e Luís Bernardo Honwana.

Lembrou ainda que Samora Machel foi um presidente muito preocupado com a questão da cultura no país. Eu observei que ele fora presidente em uma época turbulenta, logo após a independência, quando o país enfrentava uma guerra civil. Mas Wazimbo garantiu que, mesmo no meio de tudo isso, Samora nunca deixou de dar atenção à cultura, trazia grupos de outros países para se apresentarem nas praças em Moçambique e incentivava o despertar de artistas locais.

Wazimbo contou que entrou para a Rádio Moçambique em 1978. Ele ainda está lá. Teve suas idas e vindas, como o período que esteve em turnê pela Alemanha, com a Orquestra Marrabenta Star, quando lançou dois discos.

Como autêntico moçambicano, tem vários filhos, cinco. O mais novo de 10 meses e a mais velha de 35 anos. Com ele em meu escritório estava o jovem Humberto Michel. E o nome do Wazimbo é Humberto também. Humberto Carlos Benfica. Como surgiu o Wazimbo ele prometeu contar em outra oportunidade. Sinal que ainda posso receber outras visitas…

Wazimbo e Michel na Academia de Comunicação

Wazimbo e Michel na Academia de Comunicação lendo o post 'Wazimbo'

Descanso

Dia desses nos demos o direito de descansar um pouco no bar da piscina do Hotel Cardoso, enquanto apreciávamos a baía de Maputo. A camisa que uso é de Cabo Verde, tecido aparentemente grosso e quente, mas, quando vestimos, não deixa o calor passar, é uma delícia.

Sandra no Hotel Cardoso

Published in: on 24/01/2011 at 21:51  Comments (3)  
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O desenvolvimento para alguns

A primeira página do jornal O País, do dia 21 de janeiro trouxe o que, aparentemente, é uma boa notícia: Moçambique entre os países do mundo que mais cresceram na última década. A informação é da revista britânica The Economist e coloca Moçambique em oitavo lugar, com um crescimento de 7,9%.

O estudo aponta ainda que na última década o crescimento real do Produto Interno Bruto (PIB) da África foi de 5,7%, enquanto a América Latina cresceu 3,3%. A perspectiva do estudo é que entre 2011 e 2015 sete países africanos estejam na lista dos 10 países do mundo com maior crescimento econômico. Eduardo Castro publicou no ElefanteNews matéria sobre esta perspectiva de crescimento dos países africanos.

Seria para comemorar se não estivesse ainda na cabeça notícia divulgada no final de novembro de 2010, no site Prestígio.co.mz: Moçambique entre os 49 países mais pobres do mundo.

Rolf Traeger, da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (CNUCED), observou à época que, nos últimos seis anos, o PIB moçambicano cresceu 50%, mas a percentagem da população que vive abaixo da linha da pobreza não se reduziu. Isso, considerando que a linha da pobreza limita pessoas que vivem com até um dólar por dia.

O economista ressalta ainda que nos últimos seis anos surgiram em Moçambique mais dois milhões de pobres. A pergunta dele — e de todo mundo — é: “Como é que o PIB, a economia, pode crescer 50%? Como é que o PIB per capita cresce cinco por cento ao ano e o número de pobres aumentou em dois milhões?”.

Andar nas ruas de Maputo traz a resposta: ao mesmo tempo que temos pessoas paupérrimas buscando sua sobrevivência nos contêiners de lixo que ficam a céu aberto pela cidade, encontramos casas maravilhosas, de três ou quatro andares, com acabamento de luxo, muitos carros caros na garagem e seguranças por todo lado. Resumindo em uma palavra: desigualdade. Tem pouca gente comendo mais do que precisa e muita gente passando fome.

Lá de cima

Em dezembro de 2008, passamos parte das férias em Marrocos. Foi uma escolha acertadíssima. O país é lindo, cheio de história e paisagens únicas. Só não aproveitamos mais pela dificuldade de comunicação, por não dominarmos os idiomas falados lá: árabe e francês (nem sempre, aliás). Não conheci, por exemplo, quase nada da música. Só tivemos contato com aquelas tradicionais, que tocam nos shows para turista ver.

Mas a amostra já deixou claro que o marroquino é um povo muito musical. Nos jantares que participamos sempre havia muita música, com danças em roupas coloridas, muitas palmas a acompanhar e todos a cantar. Agora, procurando aqui e ali música da África… encontrei no site do João Leitão o grupo Fnaïre (lanterna ou farol), classificado em alguns textos da internet como o conjunto musical que mais tem movimentado o país, grupo de rap que arrebenta.

Marrocos é habitado, em sua maioria, por árabes. O país tem, no entanto, em vários aspectos culturais grande troca com a Europa, especialmente com a região sul da Espanha, pela proximidade geográfica. Fnaïre é um grupo de quatro jovens (Khalifa, Achraf, DJ Van e Tizaf) que apresenta uma música muito moderna, o rap, com forte influência da música árabe. Achei linda a mistura dos sons típicos da tradicional música árabe na batida também muito típica do moderno rap.

Não preciso dizer que não entendi nadica do que se diz na música. Também não encontrei tradução. Mas é rap, não tenho dúvida que é forte. Pelo que li, as músicas deste grupo tratam da união marroquina e dos diferentes povos que habitam o país e que, ao longo dos séculos, não têm conseguido um convívio amistoso.

Vamos ouvir Yed el Henna. Tudo que consegui descobrir é que a tradução do título da música é Mão de henna. Pela tradição muçulmana, em diversos tipos de eventos festivos as mulheres enfeitam suas mãos e pés com desenhos feitos de henna, que ficam parecendo tatuagens.

A delícia das frutas da época

Quando eu vivia no Brasil, nem me dava conta de quais frutas eram as da época, uma vez que lá temos quase todas o ano todo. No máximo, eu sabia que agosto era tempo de morango, porque a doceria Amor aos Pedaços fazia o famoso Festival de Morango e em Brazlândia, perto de Brasília, tinha também uma feira ou festival ou qualquer coisa parecida que não me lembro agora temática dos morangos. No mais, esse negócio de frutas da época me soava como algo do passado. A tecnologia na agricultura já tinha solucionado essa questão.

No entanto, cheguei em Moçambique em abril do ano passado e por muitos meses não vi melancia, fruta que adoro. Como o clima aqui é parecido com o brasileiro, eu esperava encontrá-la. Mas acabei pensando que não a encontraria. Depois de algum tempo me dei conta que podia não ser época dela. Então fui pesquisar e descobri que ela é fruta da época das chuvas. Agora que estamos na tal época a melancia apareceu com força total. Delícia. Tenho aproveitado cada uma que encontro pela frente, porque sei que depois vou ficar tempo sem vê-la. E não é que isso faz dela uma fruta ainda mais saborosa?

melancia comprada no Shoprite de Maputo

Comentário de mau gosto cabe, informação, não

Moçambicano gosta muito de futebol. Mesmo que os times daqui não apresentem os melhores espetáculos, o pessoal sempre acompanha qualquer campeonato que passe na televisão. E passam muitos, do mundo todo.

Assim, as notícias do mundo futebolístico sempre ganham destaque aqui, até mesmo nas colunas de fofoca, como o caderno Tindzava do jornal O País. Mas não é porque é tindzava que tem que ser menos informativo. Pelo menos como leitora eu penso assim. No jornal O País de 13 de Janeiro, há a notícia Prémio Fifa Ballon D´Or 2010 (sic).

A nota conta que o Messi foi eleito melhor jogador do mundo. Conta que é um jovem argentino, data de nascimento, local, onde começou a jogar… problemas de saúde… abandono dos estudos… namorada…e acabou. NÃO DIZ EM QUE TIME O MELHOR JOGADOR DO MUNDO SE APRESENTOU EM 2010.

Abaixo fala da melhor jogadora, a brasileira Marta. A mesma coisa: quantas vezes já foi eleita, é embaixadora da Boa Vontade pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), não tem namorado… e ainda termina com o questionamento de mau gosto: “diz que namorar é complicado para as mulheres jogadoras, pois viajam muito. Será esse o verdadeiro motivo?”. MAS NÃO CONTA EM QUE TIME A MULHER JOGA.

Ainda bem que tenho agora a presença do Guilherme para complementar as informações: “o Messi joga no Barcelona, tia, e a Marta, no Santos”.

Eu sei que provavelmente até as pedras da rua sabem disso, mas como já comentei aqui no texto Ruim de serviço se eu souber, ler de novo não me faz mal. Se eu não souber, o jornal não me informou.

Infelizmente, na edição pela internet do jornal não consegui encontrar a matéria que li no impresso para publicar aqui. Mas há outra, do caderno de esportes, que trata do mesmo assunto: Mourinho, Marta e Messsi os melhores de 2010. Nesta, também não falam o time da Marta e me parece que informam o do Messi quase que sem querer, porque dizem no começo que os três concorrentes ao título eram do mesmo time, o Barcelona. Não fosse por isso, talvez a informação também não constasse.

O fantasma da inflação está por aqui

Em 2010, a inflação média anual de Moçambique foi de 12,7%, de acordo com o Instituto Nacional de Estatísticas (INE), 3% acima da projeção inicial do governo. As medidas de austeridade e de redução de custo de vida — tomadas após as manifestações de um e dois de setembro de 2010 — continuam até março de 2011. No entanto, análise do Banco de Moçambique conclui que foram medidas insuficientes para travar o aumento do preço de produtos alimentares no país.

Nos últimos meses do ano, a inflação era possível de ser vista em nossas mãos: no fim de cada mês, sempre muitas cédulas novas de metical passavam a circular. Era o governo imprimindo notas novas. De acordo com comunicado recente do Banco Central de Moçambique “as medidas combinadas de natureza fiscal, orçamental e monetárias implementadas em Setembro de 2010, para atenuar o custo de vida revelaram-se importantes para amortecer a pressão inflacionária e contrariar as expectativas de inflação inercial, mas não se revelaram suficientes para anular o surto inflacionário e a pressão sazonal associada à quadra festiva”.

Um fator crucial tem sido a crise mundial da economia, que leva a restrições por parte de produtores de alimentos. Assim, os países menos industrializados, dependentes da importação, como Moçambique, sofrem mais. E isso já está visível nas prateleiras dos mercados. Alguns produtos que encontrávamos facilmente todos os meses, nesse começo de janeiro já não estavam à venda.

De acordo com a notícia Inflação assombra economia do país, do jornal O País, as projeções de organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), não são das melhores, pois apontam para uma subida dos preços de arroz, trigo, carnes, entre outros produtos básicos, uma vez que 2011 deverá ter inflação alta de matérias-primas.

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