A educação e eu

Tenho poucas lembranças de minha infância. Todas muito vagas. Dentre essas poucas, vejo-me brincando de escolinha. Eu, professora. Os alunos eram imaginários. Adorava aquilo.

No entanto, no final do período escolar, ao escolher a profissão fui para outro caminho. E, mais tarde, larguei esse caminho para trilhar outro, mas ainda não a docência. É fato que ao longo do tempo fui professora em empregos paralelos, aqui e ali. Ensinei português para estrangieros quando morei nos Estados Unidos e inglês a brasileiros, no Brasil. Também participei de algumas ações em projetos de alfabetização de jovens e adultos. Mas nunca foi minha atividade principal.

Mesmo assim, minha paixão de criança pela educação nunca apagou. Meu primeiro voto para presidente da República foi para Leonel Brizola, que empunhava a bandeira da educação. Li muito Paulo Freire e fiz vários cursos rápidos na área.

Agora, parece que finalmente vou me render ao destino e minha ocupação principal será relacionada à educação.

Tenho tabalhado há alguns meses na Associação Chance, que realiza diversos projetos de inserção social em Moçambique. Vou continuar esse trabalho porque a área social é o que oxigena meu corpo. Mas vou também encarar um grande desafio com a educação: ser diretora de um estabelecimento de cursos técnicos e profissionalizantes.

Será inaugurada em Maputo, Moçambique, a Academia de Comunicação. logomarca Academia de ComunicaçãoVamos oferecer oportunidade de qualificação profissional com instrutores do mercado local e internacional, para que um número cada vez maior de moçambicanos tenha acesso às novas tecnologias de informação e conhecimento das melhores técnicas profissinais na área de comunicação.

Espero, com sinceridade, contribuir com o país e seus ciadãos nesse momento de desenvolvimento. Afinal, como sabemos, a educação é a base para que tudo dê certo e as pessoas tenham melhor qualidade de vida.

Feliz 2011, África

No início de dezembro de 2010, o programa Moçambique em Concerto, da TVM, foi apresentado ao vivo (ou em directo, como dizemos aqui) da província da Zambézia, mais especificamente de sua capital, Quelimane. No final, o apresentador Gabriel Júnior brindou a todos os espectadores com uma linda surpresa, com o grupo moçambicano Os Garimpeiros e um show de luzes protagonizado pela platéia.

Vale pela cena, pela letra, pela música e, claro, pela iniciativa do Gabriel. Achei que combinava com a última Quinta Quente do ano.

Que 2011 produza boas notícias por aqui.

Jardim dos Namorados?

Em uma tarde quente de dezembro em Maputo, o Jardim dos Namorados transforma-se em Jardim da família…

famílias no Jardim dos Namorados

e os namorados que lá foram para apreciar a tranqüilidade do Índico…

Jardim dos Namorados vista para o Índico

renderam-se e viraram crianças outra vez:

sorvetes no Surf do Jardim dos Namorados

Published in: on 29/12/2010 at 07:43  Comments (1)  
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Afasta magricela

Nas nossas pesquisas na internet sobre Moçambique, antes de mudar para cá, encontramos um comercial de TV muito bem pensado, da galinha nacional de Moçambique, patrocinado pela Associação Moçambicana de Avicultores (AMA). Passei dias me divertindo com a música do comercial e divertindo o pessoal do trabalho também. Eu e a Nat até fazíamos encenações do anúncio…

Bem, cheguei aqui e já não vi a tal propaganda na TV. Parece que foi ao ar no início do segundo semestre de 2009. No entanto, cumpri a promessa que fiz lá no Brasil de, sempre que encontrasse, comprar galinha nacional e não a importada, geralmente brasileira, geralmente frango e não galinha…

Outro dia, no entanto, ao andar pelas ruas aqui perto de casa, me deparo com um outdoor novo:

outdoor da galinha Nacional

E isso me fez lembrar das risadas que dava quando via o anúncio ainda lá no Brasil e o quanto eu já estava em Moçambique mesmo antes de vir. Abaixo, mais duas peças da campanha:

Profissão: instalador de vedação para elefantes

Outro dia participei do seguinte diálogo:

blog ElefanteNewsA senhora: — Meu marido viaja muito, a trabalho.
Eu: — Ah, sim? E o que ele faz?
A senhora: — Vedação para elefante.
Eu: — ?????

Em uma fração de segundos, muitas idéias passaram pela minha cabeça. Mas o que era de fato, não. Então, a senhora com quem eu travava o diálogo explicou: são cercas elétricas feitas a uma altura não atingível pelo homem, mas sim pelo elefante. A energia não é suficente para machucar o animal, mas se ele encostar não vai insistir em passar, então, não sai da área que lhe foi destinada. A energia é garantida por meio de painéis solares.

Ela contou ainda que o marido faz vedação também para os Big Five (cinco grandes), que são: leão, elefante, búfalo, leopardo e rinoceronte. Aí, a cerca é até o chão, trançada em losangos grandes.

Em geral, ele trabalha para os parques nacionais, reservas naturais de responsabilidade dos governos dos países. A contratação é feita por licitação (aqui chamada de concurso público) e a manutenção dos equipamentos de energia e das cercas é feita pela administração do parque.

Os elefantes não costumam ser animais violentos, mas, muitas vezes, as vedações são necessárias para garantir que eles não destruam as machambas (plantações) nas aldeias próximas. Depois de meses de trabalho na roça, quando os pequenos agricultores estão quase por colher os frutos de sua dedicação, a visita de um único animal pode acabar com tudo. É o prejuízo de um ano.

O trabalho de vedação para elefantes é feito nesses lugares. São regiões quase sempre sem acesso à rede de água e energia elétrica. Os representantes da empresa responsável dormem em barracas e levam quase todo suprimento necessário para as duas semanas que costumam ficar no local. Depois voltam para a cidade e outra equipe vai para o local. Assim se revezam até o fim do trabalho que, dependendo do tamanho da área a ser cercada pode levar dois anos para ser concluído. Alimentos perecíveis, como carne, são conquistados na própria região, com caça a animais de pequeno porte, por exemplo. Os trabalhadores que montam a cerca são, normalmente, pessoas das próprias aldeias da área, que são treinados pela empresa. Essa costuma ser uma exigência do concurso público, para contribuir com a geração de renda das populações locais.

Vedação para elefante. Taí um trabalho que no Brasil não tem como ser exercido.

Mais sobre o trabalho de vedação para animais em notícias do Parque Nacional das Quirimbas e do Sapo.mz.

Bolo de noz com creme de gemas

Aqui em Moçambique as pastelarias (docerias) vendem doces com muita influência das receitas portuguesas. Aqueles maravilhosos doces conventuais, de muita gema e açúcar e todo colesterol do mundo.

Eu não tenho a menor vocação para a cozinha. Pelo menos não para fazer as coisas. Para comer tenho muita, até. Tudo que é feito com facilidade pelas pessoas que se dão bem na cozinha, para mim é altamente complexo. Sem contar minha falta de paciência. Não posso com nada que demore mais de meia hora para ser feito e ainda precise esfriar, degelar, assentar ou qualquer verbo que signifique espera para sentir o sabor. Por isso, recorro muito às pastelarias e tenho me deliciado com os doces portugueses por aqui. Mas como sou muito formiga, adoro açúcar em qualquer forma, acabo me aventurando vez ou outra em uma receita de doce. E, algumas vezes, dá até certo. Raras vezes, confesso.

Como são tão raras, chegam a merecer divulgação. Esses dias fiz um bolo de nozes com creme de gemas, bem português, que é um desses casos. Eu já havia feito o bolo antes, ainda no Brasil, mas na altura não existia o Mosanblog. Agora, divido com vocês essa maravilha que encontrei certa vez na internet.

A receita é para 6 a 8 porções e divide-se em duas partes: creme de gemas e bolo de noz.

Para o creme de gemas vai ser preciso:
– 8 gemas peneiradas
– 8 colheres de sopa de açúcar peneiradas
– 8 colheres de sopa de água.
papel filme

É só misturar tudo até que fique um preparado homogêneo. Depois, leve a fogo brando, mexendo constantemente, até que engrosse. O creme não deve nunca ferver. Se for necessário, ponha e retire do fogo, mexendo constantemente. O creme está na consistência certa quando ao mexer, começa a fazer estrada no fundo da panela (deve deixar um sulco que permanece durante alguns segundos deixando ver o fundo). Então, retire do fogo e continue a mexer até que o creme esfrie.

Cubra com papel filme sem que haja ar entre este e o creme (para que não se forme uma película dura por cima) e coloque na geladeira enquanto prepara o bolo.

Para o bolo de noz vai ser preciso:
– 250g de açúcar peneirados
– 250g de nozes
– 8 ovos
papel vegetal

Antes de começar a preparar a massa, pré-aqueça o forno a 180ºC, unte uma forma de uns 22 cm de diâmetro e forre o fundo com papel vegetal.

Moa as nozes até que fiquem finas, como uma farinha. Para isso, use liquidificador ou triturador ou pilão. Bata as gemas com o açúcar até que tripliquem de volume e fiquem espessas e esbranquiçadas.
Misture a noz moída com as gemas, com cuidado, usando uma colher ou espátula.
Bata as claras em neve. Adicione as claras à mistura de açúcar, gemas e nozes, aos poucos, com movimentos suaves.
Deite a massa na forma até ¾ da sua altura.
Coloque no forno pré-aquecido e deixe durante 30 a 40 minutos, comprovando o ponto certo com um palito, que deverá sair seco do centro do bolo.
Retire o bolo do forno e deixe esfriar dentro da forma.
Desenforme e corte ao meio longitudinalmente, para rechear com o creme de gemas entre as duas partes de bolo. Passe o restante do creme de gemas sobre a parte de cima do bolo, para cobrir.

Mas, se for muito preguiçoso, como eu, ou não tiver habilidade para tal, como eu também, pode usar todo o creme apenas para cobrir o bolo, sem precisar cortar no meio.

Depois, decore com nozes. Eu também decorei com fios de ovos, comprados prontos. Se você for do nível “pós-graduação em culinária” pode fazer os fios de ovos em casa. Veja a receita aqui.

bolo de noz com creme de gemas

As quadras festivas em Moçambique

Faz dias eu queria ter publicado um post sobre como seria o dia 25 de dezembro aqui, data em que se comemora o Natal em muitos países e em todas as casas cristãs. Mas os dias iam passando e eu não conseguia saber como seria. Cada pessoa falava uma coisa e então achei melhor esperar acontecer para contar.

E foi o seguinte: quando foram se aproximando as quadras festivas (forma como chamam o período do fim do ano em Moçambique, assim como em Portugal), os estabelecimentos comerciais, inclusive restaurantes, colocaram avisos para seus clientes de que estariam fechados de tal a tal data. Normalmente, de 20 de dezembro a 17 de janeiro. São férias coletivas, como em muitos países da Europa se usa fazer também. Deve ser herança dos recentes tempos de colonização portuguesa.

A prática não tem necessariamente a ver com a comemoração do Natal, porque mesmo comércios onde os donos não são cristãos fecham no fim do ano. Os estrangeiros (ou pessoas com parentes no exterior) que têm condições, viajam para fora do país. Em Maputo, quem está de férias busca refúgio do calor nas praias. A cidade, a parte “cimento”, como dizem aqui, fica bem mais tranqüila.

Nas ruas, raríssimas alusões ao Natal, como um Pai Natal (o Papai Noel) gigante na frente de uma loja de bebidas e também o boneco de Papai Noel que dança e luzes piscantes na frente do mercado chinês, que nesta época comercializa enfeites e árvores de Natal.

No calendário, 25 de dezembro consta como feriado nacional: dia da Família. Aliás, Moçambique é um Estado laico, o que muitos países europeus pregam mas na prática não fazem, assim como o nosso Brasil, com seus crucifixos em repartições públicas e salas da Justiça. Aqui em Moçambique há liberdade de prática religiosa, mas não há feriados religiosos.

O censo de 2007 feito no país mostra que a religião católica é a que mais crentes tem (23,8%). Resultado da colonização portuguesa. Mas as pessoas sem religião estão quase no primeiro lugar com 23,1%. No entanto, a análise do censo destaca: “É possível que uma parte destas pessoas pratique, de facto, alguma religião não organizada como, por exemplo, crenças animistas”. Em terceiro lugar estão os muçulmanos (17,8%) e, quase ao mesmo nível, os que praticam a religião sião/zione (17,5%). Apesar dos muçulmanos, aos olhos de quem anda pelas ruas, deixarem a impressão de maioria, provavelmente, porque são facilmente identificados pelo uso de roupas típicas.

Esse quadro pode explicar porque o Natal é tão pouco presente em Moçambique. Além disso, há as questões históricas. Os portugueses, católicos, chegaram aqui no final do século XV. Na segunda metade do século XX, em 1964, a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) inicia a luta armada contra o poder colonial. Em 1975, Moçambique conquista a independência e é implantado o socialismo no país. As religões passaram a ser mal vistas. Eram tidas como uma forma de enganar e manipular o povo. Nos anos 80 teve início a guerra civil com a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), que durou cerca de 16 anos. No meio dela, em 1986, o presidente Samora Machel morreu em um acidente de avião e seu sucessor, Joaquim Chissano, implantou um governo que abriu as portas para o capitalismo, favorecendo a iniciativa privada e reduzindo a intervenção do Estado. Nessa época vieram para cá muitos comerciantes muçulmanos e as religiões em geral voltaram a ganhar algum espaço.

Assim chegamos ao Natal que temos hoje. E, como o feriado é tido como dia da Família, muitas famílias, independente do que professa sua fé (ou não fé), reúnem-se nesse dia para um almoço ou um momento de confraternização e recuperação das forças para o ano que está por vir.

A passagem de ano também será assunto no Mosanblog, claro, para a semana que vem.

Fusão de jazz e tradição africana

A experiência de João Carlos Schwalbach em um palco com as músicas que apresenta hoje foi em 1993. Mas, só agora, 17 anos depois, o disco saiu da gaveta. E já nem se chama disco, agora é CD. O pianista, compositor e produtor musical ficou mais conhecido nos últimos anos pelo trabalho que exerce em sua produtora, a Ekaya, estabelecida em Maputo. Na Ekaya são produzidos alguns dos principais jingles publicitários e trilhas sonoras para cinema de Moçambique.

Antes de ter a produtora, Schwalbach formou-se em Música Popular pela Universidade de Campinas, em São Paulo, Brasil. Agora, em dezembro de 2010, foi o momento de Despertar – nome do CD. E a promessa é que saia muita coisa da gaveta. O lançamento desse mês foi do volume 1. Já há promessa de mais dois com o mesmo nome.

“Despertar é mesmo isso, é o meu despertar como compositor, como solista. Toco em várias bandas e, em estúdios gravo para muita gente e acho que está na hora de ter os meus discos, porque as pessoas só sabem que sou o João que toca nos Ghorwane, que toca com Stewart, para Mucavel, agora vão ver o João que toca para João”, explicou em entrevista ao jornal O País.

O álbum em questão tem influência da música tradicional moçambicana, com fusão do afro e do jazz. Técnica pela qual Schwalbach já é conhecido: usar acordes e sonoridades ocidentais na música tradicional africana.

Abaixo, trago um vídeo publicado no canal do jornal @ Verdade do Youtube, do dia do lançamento do CD Despertar. O som não é da melhor qualidade, por ter sido gravado a partir da platéia, mas é possível sentir o talento.

Veja mais sobre o artista no site Mozambique Music Awards e no site da Rádio Moçambique.

Conheça o site de sua produtora, Ekaya.

Não deixe de ver também alguns vídeos da banda Ghorwane, na qual Schwalbach participa, no Youtube, aqui e aqui.

Tranqüilidade

Baía de Maputo

Tarde de dezembro na baía de Maputo

Published in: on 22/12/2010 at 22:39  Comments (3)  
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24 horas, todos os dias

Aqui em Maputo acho que não tem (ou pelo menos não conheci ainda) nenhum mercado que funcione 24 horas por dia. Também não vi nenhum café ou padaria com esse perfil. Mas descobri recentemente que em alguns postos de combustível da Galp há lojas de conveniência que funcionam sem parar.

Na avenida Eduardo Mondlane esquina com a rua Dr. Redondo, por exemplo, há um. Todos os dias do ano, todos os feriados, todas as horas. Além de combustível nas bombas, na loja de conveniência é possível comprar alimentos, bebidas e alguns produtos de higiene básica. Lá também é posto de venda da EdM (Eletricidade de Moçambique), para quem compra energia pré-paga, e de botijão de gás de cozinha.

posto Galp da avenida Eduardo Mondlane

Avenida Eduardo Mondlane, 2.275. Telefone: 21-329-212