Bélia e a televisão

O fato do Eduardo e eu sermos um casal, faz com que muitos de nossos leitores conheçam os dois e visitem tanto o Mosanblog quanto o ElefanteNews, o que é bem interessante para nós e cria certa complementariedade em termos de informação para os leitores. Então, quem já visita o ElefanteNews, conhece um pouco a Bélia, que é produtora de TV e trabalha com o Eduardo. Quem não conhece ainda, pode ver os posts sobre ela no ElefanteNews aqui e aqui.

a produtora Bélia

Bélia: "não me imagino com outro nome"

Outro dia ela fez tranças no meu cabelo. Enquanto ela trançava – o que demorou quase três horas – eu aproveitei para fazer uma entrevista. Bélia é uma figura que vale. Nasceu aqui mesmo em Maputo, no bairro Xamanculu, onde viveu até os 12 anos, quando a família se mudou para o bairro das Maotas, onde ela está até hoje. “A mudança foi muito brusca. Para o positivo. Lá as condições eram precárias. Em um terreno, pode ter mais de 50 casas. Na casa onde vivíamos, dividíamos o banheiro com mais seis famílias. Era difícil ficar na bicha [fila, por aqui] de manhã para tomar banho”, lembra.

Então, ela começou a mexer no meu cabelo. Separou um tanto para cá, um tanto para lá, e começou o trança-trança. Eu tinha comprado mechas, para as tranças ficarem todas do mesmo tamanho e volume, como eu expliquei nos últimos posts.

mechas compradas no Mercado Central de Maputo

Mechas que eu comprei no Mercado Central de Maputo, quase da cor do meu cabelo

E eu começo perguntando: Qual é o seu nome completo?
Bélia Enoque Machava.

Mosanblog: De onde vem o nome Bélia?
Bélia: Meus pais sempre gostaram de ter nomes diferentes para os filhos. Quase todos temos nomes exclusivos. Minha mãe gostava de uma cantora chamada Mbilia Bell, africana. Então, ela queria colocar Mbilia. Mas depois ela pensou no Bell. Não sei como, ela juntou os dois e ficou Bélia. Um dia fui achar significados de nomes e achei na bíblia o nome Belial. E não é um nome bom, é um nome negativo. Eu fiquei mal. Mas também, não me imagino com outro nome.

Mosanblog: E as suas irmãs? Como são os nomes?
Bélia: A minha irmã mais velha chama-se Topázia, do nome da pedra preciosa. A outra tem o nome da mamá (mamá é como eles chamam mamãe aqui. É mamá e papá), que chama-se Olga. Depois tem uma que tem o nome de Vinólia, em homenagem a uma sulafricana conhecida por ser super inteligente. Depois veio o menino, que ganhou o nome de meu pai. Enoque José Machava Júnior.

Mosanblog: Você tem um filho, não?
Bélia: Tenho sim, um filhinho. Vai fazer 4 anos dia 30 de agosto. Layton [fala-se Láiton].

Mosanblog: E esse nome?
Bélia: Layton foi o pai que deu, eu nem sei de onde veio. Foi no dia do parto. Eu tinha certeza que era menina. Já vou pensando no nome feminino que vou dar. Ia ser Giovanna. Por causa da novela da Jade, aquela do Clone. Então fui ver o nome real da Jade. Mas quando de repente vi que era um rapazito, nem imaginava que nome dar. O pai falou Layton. Eu gostei na hora. Porque não gosto de coisas vulgares. Tem que ser exclusivo. Que nem Bélia. Meu nome eu só vi em uma mulher em França, na TV. A minha xará está em França! Depois disso eu conheci um Bélio. E só.

Mosanblog: Qual seu objetivo profissional?
Bélia: Sempre tive o sonho de ser repórter, locutora de rádio, apresentadora de TV. Por alguns anos trabalhei como locutora de rádio. Foi emocionante. Fazia aquilo que eu gostava: lidar com música, conversar com os ouvintes…

Mosanblog: Em qual rádio?
Bélia: Passei em várias rádios, uma foi a RTK [aqui a letra k fala-se kapa]. O kapa é de Klinton, o primeiro dono da rádio, mas ele perdeu a vida já há muito tempo… Então, brasileiros compraram a rádio e modificaram para K FM. Lá eu fiz um programa infantil.

Mosanblog: Como era esse programa infantil?
Bélia: Tinha muita música de criança. Eu era fanzona da Eliana. Então, fui fazer o programa. Eu imitava a Eliana. Na escola chamavam-me Eliana de Moçambique. Eu sabia quase tudo dela. Mesmo que na época não tínhamos internet para acessar as informações. Eu ouvia pela rádio e via na televisão Miramar [hoje, Record], que transmitia os programas da Eliana aqui. Aquilo era uma coisa! Aquele mundo colorido… Aqui a gente não estava acostumado a ver aquilo, aqueles cenários bonitos. Aqui não era assim. As crianças conheciam só brincadeira da terra.

Mosanblog: Que brincadeiras vocês faziam nessa época?
Bélia: Uma era a mathocozana. Faz-se uma covinha no solo, de um centímetro, depois arranja-se pedrinhas e coloca-se lá. Eram 12 pedrinhas e uma bolinha, para a bolinha usávamos limão pequenino. Jogava a bola para o alto, tirava e repunha as pedras na covinha e tinha que pegar a bolinha antes dela cair nas pedras. Quando chega o programa da Eliana, saímos daquele mundo. As crianças ficaram muito mais sedentárias, porque só queriam saber de televisão. [Ela está falando de coisas de uma década atrás, mais ou menos].

Mosanblog: E quanto tempo durou seu programa infantil na rádio?
Bélia: Seis meses. Aí mudei. Fiz um de promoção de bebidas. Mas eu não fazia sozinha. Éramos três. Tinha um animador, eu e um outro homem. Comentava sobre a bebida, que estava a patrocinar a rádio. Falávamos com o ouvinte, dávamos a bebida de prêmio, líamos anedotas. Era muito bom, porque estávamos a rir. As bebidas eram Boss Whisky, Dolar Gin, American Queen… eram quatro, mas a quarta já não estou a recordar. Mas eu não bebia, só falava, só.

[E ri. E trança.]

Bélia a trançar e rir

Mosanblog: Por que você queria ser repórter?
Bélia: O sonho sempre foi fazer rádio, televisão. Queria ser apresentadora, igual a Eliana. Mas os sonhos foram mudando. Os programas de jornalismo da Miramar traziam matérias quentes. Eu via uma reportagem, ficava pensando: “como é que conseguiu fazer isso?” Tinha uma repórter que era do Ceará – eu não sei onde é que é isso – eu via o programa para ver o que ela ia fazer, porque ela só fazia matérias boas. Eu ficava no espelho em casa, tipo: tô na televisão. Eu começava a falar: boa noite, está a começar mais um programa… Meu avô queria que eu fosse médica. No décimo ano eu reprovei umas três vezes. E era pelas ciências. Nas letras eu ia bem. Português, história, geografia… Eu passei as letras todas, ciências reprovei tudo. Nas letras, vem uma pergunta difícil, se tu souberes argumentar, vais bem. Nas ciências não. Tens que saber exato. Portanto é difícil fazer medicina. O que acontece é não há nada melhor do que fazer aquilo que nós gostamos.

Mosanblog: Você continua com o mesmo sonho hoje?
Bélia: Hoje meu sonho ainda é fazer jornalismo. Ainda não fiz faculdade de jornalismo, mas eu vou chegar lá. É uma questão de perseverança. Se o que eu quero é isso, vamos lá. Hei de aprender, ainda que não saiba. Estou aprendendo, graças a deus. Vou vasculhando mais. Acredito que a lei é ser curioso.

Mosanblog: Você já assistiu a TV Brasil, para onde trabalha?
Bélia: Já. Quando eu vi: ê! O canal é diferente. Muito mais evoluído com relação aos canais nacionais. Está bem que o Brasil é independente há muito tempo. Moçambique ficou independente há 35 anos. No Brasil, dizem que tem pobreza, mas nós, quando vemos novela não vemos isso. A gente sabe que novela é mentira, mas nós não colocamos isso na cabeça quando vemos. Em tudo o Brasil é evoluído. Futebol. Brasil foi pentacampeão. Músicas. No Brasil, fazem letras incríveis. Moçambique chega lá um dia. O Brasil quando ficou independente também não foi de cá pra lá. Houve um tempo.

[Filosofa… e trança]

Bélia pensa e trança

Mosanblog: Mas mechas não tem no Brasil. Pelo menos não como aqui, em todo canto…
Bélia: Sério? Não é possível. É possível, porque… mas não… dona Sandra! Nas novelas a gente vê aquelas negras. Elas usam mechas sim. Aquilo não é cabelo delas… Mas a maior parte das pessoas no Brasil são brancos. Algumas mechas vendem lá, sim. Com certeza.

Mosanblog: E o que são as tais mechas?
Bélia: Mechas são cabelos que nós africanos usamos junto com o nosso, por termos cabelos que não crescem muito, e é lento, muito lento, não é como os brancos e mulatos. À medida que nós cobiçamos as novelas, começamos a cobiçar aquele cabelo longo, a gingar… É quando inventam-se as mechas. Na época eram menos sofisticadas que as atuais. A gente só trançava. A evolução também trouxe as extensões e fica mesmo cabelo assim, que nem de branco. Cobiçávamos ter cabelo longo, que é possível passar um pente. Quando surgem as extensões, foi um sonho!

[Sonha… e trança]

Bélia não para de trançar

Mosanblog: Quando você começou a trançar seu cabelo e a usar mechas?
Bélia: Desde criança. Eu era maluquinha. Ia numa casa que estavam a trançar e pegava as mechas que restavam no chão. E comecei já a trançar na minha cabeça. Eu aprendi a trançar na minha cabeça. Saía mal, mas eu persistia. Com o tempo comecei a trançar bem. Normalmente a mão de obra é um pouco cara. Se for para gente de fora, ainda mais. As pessoas vão vendo o teu cabelo, a tua roupa e já cobram mais.

Mosanblog: Eu já percebi isso. Tem o preço para os mulungos [estrangeiro, branco] e para os daqui…
Bélia: Aqui é assim. Se estão a ver pessoas claras, com cabelo longo, já pensam que está cheia de dinheiro. Lembram das pessoas da novela e acham que tem dinheiro igual. Olham pra ti e depois estipulam o preço. Cobram 500 meticais o que pode ser 50.

E no fim: Dona Sandra, eu falo tanto… Rádio me estragou. Meu chefe não gostava de colocar música. Ele dizia: “Eu contratei você para falar; para colocar música, saia da minha rádio, eu coloco um disco”. Fiquei assim.

E eu, fiquei assim:

tranças de ladotranças atráscom faixa na cabeçade lado

ElefanteNews em Ruanda

Já ouviu falar em Ruanda? Sabe onde fica? Sabe o que está acontecendo por lá?

Talvez já tenha ouvido falar porque o país ficou tristemente conhecido devido ao genocídio ocorrido lá na década de 1990, que matou 10 % da população do país.

O massacre
O país estava dividido em dois grupos rivais: hutus e tutsis. Os colonizadores — inicialmente alemães e depois belgas — atribuíram privilégios e cargos de comando apenas a uma restrita elite dos tutsis. Isso despertou o ódio dos hutus. Com a independência do país, o poder foi para as mãos dos hutus, que eram maioria. Entre janeiro de 1993 e março de 1994, graças sobretudo a financiamentos franceses, Ruanda adquiriu quase 600 mil armas, chegando a ser o terceiro maior importador de armas da África, mesmo com suas pequenas dimensões e grande pobreza. Em 6 de abril de 1994, o presidente de Ruanda, Juvenal Habyarimana, representante dos hutus, foi morto. Isso deflagrou a perseguição dos tutsis por parte da guarda presidencial, do exército e de esquadrões da morte.

As eleições
Mas o que aconteceu lá essa semana pouca gente comenta. Eleições presidenciais. O general tutsi Paul Kagame foi reeleito na segunda-feira, dia 09 de agosto, para um mandato de sete anos. E o Eduardo Castro foi lá para contar essa história. As matérias que ele fez para a Agência Brasil e TV Brasil, você vê no ElefanteNews.

Daqui de Maputo a Kigali, capital de Ruanda, são quase 4 mil quilômetros, e não se chega nem no meio da África, esse enorme, diverso e maravilhoso continente.

Para saber mais sobre o país e sua história, clique aqui — foi da revista Mundo e Missão n.º 85 que retirei quase todos os dados históricos desse texto — ou leia o livro, que virou também documentário: Shake Hands With the Devil, de Romeo Dallaire, general que comandava as tropas da Organização das Nações Unidas (ONU) no país à época do massacre.

Hoje foi dia de Andebol para o Brasil

Andebol é como se chama aqui a modalidade esportiva que no Brasil tratamos por Handebol. Nos VII Jogos da CPLP, que estão sendo realizados em Maputo, as brasileiras venceram hoje Cabo Verde por 23 x 3.

No sábado, Portugal ganhou de São Tomé e Príncipe por 51 x 2 e Angola ganhou por 38 x 7 de Guiné-Bissau.

Ontem, Angola ganhou de Cabo Verde por 25 x 4 e São Tomé ganhou de Guiné-Bissau por 22 x 8. As brasileiras jogaram ontem também, e ganharam de Moçambique por 20 x 14, como já vimos aqui.

Na pontuação geral dos jogos, Angola lidera na modalidade, com 7 pontos em três jogos, seguida de Portugal e Brasil, ambas equipes com 6 pontos em dois jogos. Moçambique segue em quarto com 4 pontos em dois jogos.

Tênis feminino
Sábado, 31 de julho, Angola venceu Cabo Verde com resultado de 3-0, Moçambique ganhou de Guiné-Bissau por 2-1

Ainda no tênis feminino, as moçambicanas Cláudia Sumaia e Kiara Maher venceram, ontem, 1 de agosto, na partida de duplas, as angolanas Helena Gunza e Agostinha Armando por 2-0, com parciais de 6-1 e 6-4.

No simples, Cláudia Sumaia venceu Helena Gunza com parciais de 6-2 e 6-2. A moçambicana Kiara Maher venceu a outra angolana, Agostinha Armando com os parciais 6-2 e 6-0.

Na pontuação dos jogos, Portugal e Moçambique estão em primeiro, com 6 pontos, Angola tem 5 pontos e Guiné Bissau está em último com 4 pontos.

Tênis masculino
Sábado, Angola teve o mesmo resultado que o feminino, com 3-0 contra Cabo Verde. Portugal venceu Timor Leste também por 3-0 e o mesmo resultado foi visto na vitória de Guiné-Bissau contra Moçambique.

No domingo, Angola bateu Moçambique por 3-0, Portugal venceu Cabo Verde com o mesmo resultado e Timor Leste ganhou de Guiné-Bissau por 2-1.

Basquete masculino
No basquete, sábado, Moçambique ganhou de Cabo Verde por 92/43 pontos, Guiné-Bissau ganhou de Angola por 82/45 pontos e Brasil venceu Portugal (mais detalhes aqui) por 63/60.

Ainda no basquete, domingo foi dia de Guiné-Bissau e Moçambique, com vitória para Guiné, por 72/51. Portugal ganhou de Cabo Verde com resultado final 72/40 pontos. Brasil levou a melhor contra São Tomé e Príncipe por 104 a 19, como já vimos aqui.

Futebol masculino
No domingo, Portugal ganhou de Angola por 2 x 0 e Moçambique de Cabo Verde por 3 x 0.

Vôlei masculino
No sábado, Portugal bateu Angola por 2 – 0, São Tomé venceu Guiné-Bissau por 2 – 1 e Moçambique ganhou de Cabo Verde por 2 – 0.

No domingo, Moçambique venceu Angola por 2 – 0 e Portugal conseguiu o mesmo resultado contra Guiné-Bissau. Cabo Verde ganhou de São Tomé por 2 – 1.

Vôlei feminino
Também no sábado, Moçambique ganhou de Cabo Verde no feminino pelo mesmo resultado do masculino: 2 – 0. E os outros dois jogos também foram por 2 – 0: Portugal ganhou de Angola e Guiné-Bissau de São Tomé.

Ontem, Cabo Verde venceu São Tomé por 2 – 1, Moçambique ganhou de Angola por 2 – 0 e Portugal teve o mesmo resultado contra Guiné-Bissau.

logomarca dos jogos no centro do ginásio

Na classificação geral dos VII Jogos da CPLP, Portugal está na liderança, por 6 pontos. Conforme eu conseguir os resultados, vou postar aqui no Monsanblog. Mas confesso que está sendo um trabalho quase que de investigação chegar a eles. Os do Brasil são mais fáceis de conseguir, porque tenho o contato da delegação, mas os outros… Há pouquíssima cobertura da imprensa. Encontro algo em um jornal especial da TVM, no começo da noite, e no site Sapo.mz. Além disso, tem a cobertura da TV e Agência Brasil, que você vê no ElefanteNews, e os jogos que vou tentar assistir pessoalmente até o fim da semana.

Sábado bem brasileiro

Depois da tradicional feijoada com os amigos Sandra, Ricardo e Vasco, nesse sábado continuamos o dia brasileiro assistindo ao time de basquete do Brasil nos VII Jogos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

logomarca dos jogos no centro do ginásio

Os jogos da CPLP estão sendo realizados aqui em Maputo, com atletas de até 16 anos. O Brasil veio com os equipes de basquete masculino, handebol feminino e atletismo masculino e feminino. As outras modalidades dos jogos são futebol masculino, tênis masculino e feminino e vôlei de praia masculino e feminino.

Para saber mais sobre o evento, veja as matérias que o Eduardo Castro fez para a TV Brasil e Agência Brasil, aqui.

No jogo que assistimos, no Pavilhão Esportivo de Maxaquene, o Brasil venceu Portugal por 63/60 pontos. Durante quase todo o jogo, o time brasileiro ficou à frente no placar, com uma folga maior, por volta de 8 pontos. Mas no último quarto, Portugal se recuperou, ficando a apenas um ponto do Brasil. Para nossa sorte, o tempo acabou antes que a recuperação se tranformasse em superação e o Brasil venceu.

Foi muito legal torcer pelos meninos do Brasil aqui em Moçambique! Desejo sorte a todas nossas equipes nos próximos dias.

Abaixo, algumas fotos que fiz durante a disputa de hoje:

ataque do Brasil durante jogo basquete Brasil e Portugal 31 de julhojogo basquete Brasil e Portugal 31 de julho

jogo e torcida no ginásio de Maxaquene

Published in: on 31/07/2010 at 20:19  Comments (3)  
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Papo de manicure

Fui à manicure. E manicure, cabeleireiro, depilação, são lugares onde se filosofa sobre a vida. Cada hora em um desses lugares renderia um tratado sociológico. Hoje não foi diferente.

No pequeno salão onde só se faz manicure e pedicure, éramos cinco: duas manicures, duas clientes sendo atendidas (entre elas, eu) e uma terceira esperando. A moça que esperava e eu podíamos ser consideradas as “tias” do lugar. As outras três tinham lá seus 20 anos, uns a mais, uns a menos.

Havia também um sexto elemento importantíssimo: a televisão. Afinal, em geral, os assuntos tratados nesses locais são baseados ou no que está a passar na televisão ou no que está escrito nas revistas de fofoca. Nesse salão não há revistas de fofocas à disposição. Logo, o assunto é pautado pela TV.

Na tela, Celso Zucatelli e sua turma no programa Hoje em Dia, da TV Record. Os assuntos: caso do goleiro Bruno, que seria responsável pelo desaparecimento de Eliza Samudio, e um outro caso de crime passional que eu ainda não tinha ouvido falar e agora não lembro os nomes dos envolvidos.

Então começam os comentários. Vale dizer que brasileira ali, só eu.

— Vocês brasileiros vivem muito a paixão. Não diferenciam paixão e amor, disse a manicure que não me atendia.

— É verdade, depois, quando acaba, porque paixão ou acaba ou vira amor, acabam com a mesma intensidade. Não é terminar um relacionamento. É tirar a pessoa do mundo, filosofou a que me atendia.

— É por isso, eles vivem a paixão. E é tudo muito rápido, voltou a falar a primeira.

— A gente sempre está a ver esses casos na televisão, lá vocês são muito violentos com as coisas de amor, disse a cliente que estava a ser atendida ao meu lado.

E a manicure que me atendia:

— No Brasil tem muito essas histórias de conhecer e já ir beijando, vocês não valorizam um beijo, um gesto de amor, tudo é muito fácil.

— Aquela Giovanna Antonelli, já casou umas quatro vezes. E toda vez é para sempre. Os brasileiros são assim: conhecem a pessoa, já beijam, já tudo… e em algumas semanas fazem tatuagem com o nome do outro no corpo e casam para sempre. E não dura um ano, analisou friamente a minha colega cliente.

Então, a manicure que a atendia contou seu caso particular:

— Outro dia saí com um gajo. Fomos com uma turma tomar uma cerveja, ver um jogo de futebol do Mundial. Depois, ele disse que ia me deixar em casa. Estávamos a chegar em casa, encostou o carro e conversamos um pouco. Para mim estava bom parar ali e nos vermos de novo outro dia. Mas ele já veio logo querer me beijar. E eu “Espera lá! Nem conheço você. Nos falamos duas vezes por telefone, hoje saímos, vamos com calma. Não vou estar a te beijar assim”.

E ela reclamou para nós que o tal gajo teria dito imaginar que ela fosse uma pessoa “moderna”. Ela respondeu que se “isso” é ser moderna, ela não é não. E estava lá no salão, toda convencida de ter feito a coisa certa, “não ia ser assim que ia sair a beijar um gajo”.

Ao fim, a manicure que me atendia acusou:

— É isso. A gente valoriza o que faz. Não vamos sair a beijar assim. Meu beijo vale muito. Tenho que sentir que vai ser bom para mim também e vai ter algum sentido. Mas agora, aqui estão a querer que seja assim como lá. Já estão a inventar esse negócio de ficar.

É, minhas amigas, é a influência da televisão brasileira em vossas vidas…

Aliás, sobre isso já falou Eduardo Castro, no ElefanteNews, com uma matéria da TV Brasil. Veja aqui.

Aids e a cultura local

Uma das coisas mais importantes quando se faz uma ação para contribuir com o bem-estar da população e melhoria da qualidade de vida é ter a preocupação de não ir contra a cultura do público com o qual se vai trabalhar. Com essa preocupação, é possível perceber que pode haver diferentes visões de bem-estar e qualidade de vida. Eu preciso de certos itens na minha vida para ter bem-estar, meu vizinho precisa de outros, alguém que mora em outro país precisa de outros que não têm nada a ver com os dois primeiros. Ou seja, cada indivíduo é único, tem suas crenças e suas preferências e deve ser respeitado como tal.

No Mosanblog já citei algumas vezes a questão da Aids na África (veja aqui e ali). É algo muito presente, porque há um grande número de pessoas infectadas e esse número cresce assustadoramente, inclusive entre as crianças. Então, o assunto está sempre nos jornais, seja porque vão construir uma fábrica de anti-retrovirais, seja porque saiu uma nova pesquisa com o número de infectados, seja porque em algum país só um tipo de profissional está tendo acesso ao tratamento, enfim, todo dia temos notícia sobre Aids. E, em geral, não são das melhores.

Todo dia também tem muita campanha sobre o tema. Na televisão e no rádio, em especial, há propagandas institucionais em todos os horários. Há um consenso de que ninguém quer ter Aids. Aliás, parece que, em geral, ninguém quer ficar doente, não é mesmo? Só quem já tem alguma doença, como um desvio psicológico. Então, fazer campanhas para evitar a disseminação de uma doença é muito louvável.

Mas não é nada louvável ignorar o público para quem se está falando nessas campanhas. Enquanto o vírus HIV/Sida (Aids) está sendo descontroladamente transmitido na África, a USAID (Agência dos Estados Unidos para Desenvolvimento Internacional, na sigla em inglês) patrocina uma propaganda na televisão de Moçambique (e deve fazer em outros países da África também), claramente ignorando as culturas locais, apresentando como solução para a questão da Sida a diminuição de múltiplos parceiros sexuais. É só isso que eles sabem dizer: “sexo só com sua esposa ou seu marido”.

Pela lei moçambicana, a poligamia contraria uma das regras essenciais do matrimônio, que é a igualdade dos cônjuges e foi ilegalizada com a Lei da Família, de 2004. No entanto, a poligamia é aceita e praticada em vários pontos do país. Sabe aquela história da lei que não pega? Então…

O artigo Poligamia: tudo em nome da “tradição”, de Yolanda Sithoe, que está no site da WLSA observa que a questão da poligamia em Moçambique “é interiorizada e socialmente aceite”. Yolanda conta: “Encontrei professores primários com 24 anos de idade, já com duas esposas e vivendo em situação conjugal (casamento e união de facto) há mais de três anos. Questionados sobre o porquê desta opção, respondiam que “a primeira não conseguia conceber, então tive que arranjar uma outra”. Entre os camponeses e vendedores, a situação era justificada com respostas do tipo, “precisava de mais alguém para ajudar na machamba [terreno agrícola para produção familiar] porque o trabalho é muito duro, tenho duas, três machambas e sozinho é difícil”.

Vejam bem. Não estou aqui pregando a poligamia. Até porque seria incoerente com a minha atitude pessoal. Mas ocorre que não podemos impor aos outros o nosso estilo de vida. Eu sou monogâmica, mas entendo que não seja assim para todo mundo.

“No norte de Moçambique, por exemplo, de maioria muçulmana, a poligamia é prática comum. No litoral da mesma região, relações com múltiplos parceiros, especialmente entre os jovens, são aceitas como regra. Já no sul, de maioria católica, os negros com algum poder ou dinheiro têm várias amantes e namoradas, além da mulher em casa.” Essa análise foi feita pelo jornalista Aureliano Biancarelli, no documeno Diário de Moçambique.

O Diário de Moçambique foi produzido pelo programa brasileiro de DST/Aids, que veio ao país por meio de um acordo de cooperação. Ele revela ainda que há a informação de que “os fundos que chegam do governo dos EUA, por exemplo, vêm com o carimbo de que não podem ser usados para incentivar o uso do preservativo. Devem ser gastos para pregar a abstinência, o retardo no início das relações e a redução no número de parceiros. Algumas instituições religiosas vão pelo mesmo caminho.” Como assim? Mandam o dinheiro para resolver um problema tão sério, mas mandam junto seus valores, suas convicções, seus padrões de comportamento e, assim, o recurso se torna muito menos eficaz.

Isso é muito triste, porque mostra claramente que não estão querendo resolver o problema e sim mudar a cultura de um povo. Talvez a poligamia deva mesmo ser discutida, devido à questão das igualdades de direitos entre homens e mulheres, pelo subjugar de um gênero pelo outro e porque podemos vir a entender que não é o melhor. Mas isso leva décadas para acontecer. Não se muda crenças religiosas e culturas tradicionais assim, com campanha na televisão. E a questão da Sida é urgente.

O que vejo como solução mais imediata é a disseminação do uso da camisinha. Com quantos parceiros a pessoa tiver, usar sempre o preservativo. E, em paralelo, a realização do teste de HIV. Porque a questão da procriação aqui também é muito forte. Não ter filhos não é o normal. Logo, usar preservativo, que evita engravidar, também não é normal. Desta forma, o melhor é fazer campanha para ter o teste e, uma vez detectado que aquele casal não tem HIV, aí sim, que se deixe engravidar. Além disso, é preciso informação, muita informação, especialmente para esses que decidem engravidar e vão ter relações sexuais sem camisinha. Mas informação útil e adaptada ao público ao qual se destina.

Campanhas nessa linha são feitas pelo próprio governo de Moçambique, com o slogan “Prova teu amor, faça o teste de HIV/Sida comigo”, e pelo governo brasileiro aqui na África, com distribuição de camisinhas. Eduardo Castro mostrou na TV Brasil uma ação que foi feita em África do Sul, durante a Copa 2010. Acompanhe aqui.

Espaço para os Palops

Dando continuidade à apresentação de artistas dos Palops na Quinta Quente, como já vimos em Qual é a música? e Quinta Quente no Quinto — quando um autêntico representante dos Palops, o amigo David Borges, apresentou-se —, vamos hoje à Cabo Verde.

Mas antes, o que são os Palops, sigla muito falada aqui em África? São os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, nomeadamente Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique e São Tomé e Príncipe.

Por indicação do artista do nosso blog, David, trago hoje Bana. Nascido em 1932, começou a fazer sucesso na década de 1960, quando saiu de Cabo Verde pela primeira vez e foi apresentar-se em Dacar, fazendo espetáculos e participações em rádio.

Em 1966, juntamente com Luís Morais (no clarinete), Morgadinho (no trompete) e Toy de Bibia (na guitarra), formou o Conjunto Voz de Cabo Verde. O auge de sua carreira foi na década de 70, quando passou a produzir discos e chegou a lançar cerca de cinquenta do que seriam hoje os CDs. É considerado um embaixador da cultura musical caboverdiana pelo mundo.

Este mês ele foi entrevistado pelo programa Nova África, da TV Brasil. Confira aqui.

Com sua influência no meio musical, ajudou a formar e lançar músicos atualmente consagrados como Cesária Évora, Tito Paris, Paulino Vieira e outros que ainda veremos aqui no Mosanblog.

Com vocês, Bana, em dois momentos distintos, que mostram sua versatilidade e grande capacidade de interpretação:

Espaço para publicidade :)

Desculpa lá, mas não consigo resistir… O que a TV Brasil está fazendo na Copa está demais.

Tudo bem, o Eduardo é meu marido e fico suspeita para avaliar. Mas tenho capacidade de crítica. E não é só a TV, tem a Agência Brasil (as fotos, em especial, estão ótimas) e a rádio Nacional também. Enfim, o pessoal está mandando bem!

    Já viram as matérias dele? Está muito bom e tem tudo lá no ElefanteNews. Vejam e façam suas próprias avaliações:

blog ElefanteNews

Published in: on 13/06/2010 at 10:19  Comments (2)  
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