Jimmy Dludlu em Maputo

Amanhã, 30 de setembro, o compositor e guitarrista moçambicano Jimmy Dludlu, lança, em Moçambique, seu mais recente CD, Tonota in Groove, com vários ritmos, como tradicionais moçambicanos, jazz e sons latinos.

Jimmy começou a carreira nos anos 80, interpretando músicas do seu ídolo Wazimbo. Com sua voz doce e muito talento, não foi difícil ganhar vida própria. Logo desenvolveu as habilidades de guitarrista de forma plena e hoje é conhecido como um dos mais versáteis intérpretes do estilo afro jazz.

Radicado há muitos anos na África do Sul, onde fez licenciatura em música, seu primeiro álbum foi lançado em 1997. Tonota in Groove é o sétimo desde então. O lançamento será às 21h, no Franco-Moçambicano, depois de cinco anos sem que Jimmy se apresente em Moçambique. E, para quem não pode estar lá, aqui vai um pouco do som de Jimmy Dludlu.

Veja mais sobre o lançamento de amanhã, em matéria do jornal O País.

P.S. Os ingressos estão sendo vendidos no próprio Centro Cultural Franco Moçambicano e no site www.bilhetesonline.net e custam MT 1.300,00.

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Mafalala

Domingo nublado em Maputo, aproveitamos para fazer um passeio a pé pelo bairro da Mafalala. O bairro é um centro de cultura e história de Moçambique e lá viveram personagens importantes do país, como os presidentes Samora Machel e Joaquim Chissano, o jogador de futebol Eusébio, músicos e outros artistas como Wazimbo e Tabasile.

O bairro é historicamente o ponto de convergência dos moçambicanos que vêm das províncias para a capital. Por isso, é uma mistura das diferentes culturas dos mais diversos povos do país. É um lugar colorido, que transpira cultura e diversidade, de forma tranquila e harmônica.

Mas não foi sempre assim. Na época da colônia (devo ressaltar que isso não tem 40 anos), os moçambicanos não podiam transitar livremente. Viviam confinados na Mafalala e para ir a outros pontos da então Lourenço Marques (hoje Maputo), tinham que ter autorização. “Só podiam sair os que tinham a autorização para o trabalho”, explica o guia Samuel.

Sim, o passeio é acompanhado por guias. No nosso caso foram o Samuel e a Lourdes. O bairro é muito grande. Hoje tem mais de 21 mil habitantes — vale observar que cerca de 45% estão desempregados. As ruas são estreitas e labirínticas. Sozinhos nos perderíamos e não conseguiríamos encontrar os pontos importantes, uma vez que não estão identificados.

E os guias são relevantes, porque eles é que nos nos dão a história do lugar. Não basta ver, tem que se saber o que se passou por lá. Por essas ruas labirínticas, por exemplo, quando o dia começava a escurecer passavam cavalos treinados e, em cima deles, homens da polícia da colônia com correntes de ferro nas mãos iam jogando as correntes de um lado para outro, para atingir quem estivesse no caminho. Era o delicado toque de recolher do colonizador.

Lá não se podia manifestar religião ou cultura que não fosse a assimilada pelos católicos portugueses. Então, mesquitas eram camufladas como casas comuns. A Massjid Baraza era uma delas. Existia desde 1928, mas só após a independência pôde receber as inscrições no exterior que a identificam. Hoje o bairro tem mais quatro mesquitas e uma Igreja Mundial do Poder de Deus.

Também nos contaram que no bairro da Mafalala começaram as primeiras conversas sobre a independência e formação da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique).

Esta casa era ponto de encontro dos revolucionários que discutiam a independência de Moçambique

E por falar em conversa, uma herança do colonizador por lá é a língua portuguesa. Por receber pessoas de diversas etnias de Moçambique, o português acaba por ser a língua de ligação entre os vizinhos na Mafalala.

Essa diversidade étnica do local nos permitiu conhecer, por exemplo, a dança tufo, que vem das províncias de Nampula e Cabo Delgado, no extremo norte do país. O tour acabou com uma bonita apresentação das mulheres de Nampula. Pelo que li no site Moçambique Tradicional, a dança foi introduzida no país por meio da presença do Sultanato de Angoche, que fazia comércio de especiarias e escravos por essa rota. É resultado da fusão cultural entre árabes e os povos moçambicanos kotis e macua. A dança Tufo é dançada apenas por mulheres, bem trajadas, de forma muito tradicional, acompanhadas por percussionistas. O rosto coberto por Mussiro (massa branca e espessa, resultante do friccionamento do caule da árvore Muciro em pedra). As letras retratam a vida cotidiana e a beleza do lugar onde vivem.

Na visita, vimos também a dança da mesma origem conhecida como dança da corda, uma dança de lazer que tradicionalmente é praticada pelas jovens, para demonstrar sua agilidade e talento corporal, enquanto são apreciadas por seus pretendentes. Faz parte do rito de iniciação das mulheres.

Veja abaixo dois pequenos vídeos que fiz na Mafalala, durante a apresentação cultural.

Veja a localização da Mafalala na Wikimapia.

E leia mais no Moçambique para Todos.

Visite também o site da empresa Mapiko Tours, que organiza a visita à Mafalala. Apesar do site indicar o preço de US$ 35, pagamos US$ 22,50. Taí, uma vez mulungo tinha que se dar bem! rsrsrs.

Reconciliação

Primeiro apresentei aqui no Mosanblog, o Wazimbo, depois, o José Mucavele, mas o que eu não sabia, é que eles não se falavam. E o motivo da discórdia era justamente a música Nwahulwana, que eu apresentei na voz do Wazimbo.

Pois outro dia, foi no programa Moçambique em Concerto, do Gabriel Júnior, que soube do desentendimento entre os dois. E soube exatamente porque o Gabriel promoveu a reconciliação dos artistas.

Os dois eram amigos antes mesmo de serem artistas. Quando as carreiras avançaram, passaram a ser parceiros. No entanto, quando a música Nwahulwana ficou famosa, brigaram por questões de direitos autorais. A briga durou cerca de dez anos.

Mas graças à iniciativa conciliadora do Gabriel, que corajosamente levou os dois ao programa para conversarem, a paz reinou. “Zé é uma luva para as minhas mãos e um sapato para os meus pés, por isso lamento pela situação que sempre me entristeceu, pelo que lhe peço desculpas”, disse Wazimbo ao vivo no programa. A resposta foi que Wazimbo é “único músico que sabe interpretar minhas composições”, disse Mucavele.

O programa contou ainda com a participação por telefone do ministro da Cultura, Armando Artur, convidado por Gabriel para acompanhar a reconciliação. O ministro marcou encontro pessoal com os dois músicos e o apresentador para celebrar momento tão importante para a cultura moçambicana.

E a dupla já prometeu apresentar, em breve, novas músicas compostas por Mucavele e interpretadas por Wazimbo. Aguardamos ansiosamente.

Veja mais sobre a reconciliação em notícia do jornal O País.

Visita ilustre

Lembra do Wazimbo? Cantor moçambicano de voz maravilhosa… foi da Orquestra Marrabenta Star… canta Nwahulwana… então, esse mesmo.

Hoje ele foi conhecer a Academia de Comunicação, escola de cursos técnico-profissionalizantes da qual sou diretora (ou directora, como me chamam aqui). Foi muita honra receber em meu gabinete o cantor que tanto admiro. Aproveitei e mostrei para ele o post que escrevi em 11 de novembro de 2010 sobre ele. Para minha satisfação, ele gostou.

E então me presenteou com uma longa conversa sobre cultura e história de Moçambique. Citou dois ministros da Cultura que o país teve e que foram grandes incentivadores das artes no país: Graça Machel e Luís Bernardo Honwana.

Lembrou ainda que Samora Machel foi um presidente muito preocupado com a questão da cultura no país. Eu observei que ele fora presidente em uma época turbulenta, logo após a independência, quando o país enfrentava uma guerra civil. Mas Wazimbo garantiu que, mesmo no meio de tudo isso, Samora nunca deixou de dar atenção à cultura, trazia grupos de outros países para se apresentarem nas praças em Moçambique e incentivava o despertar de artistas locais.

Wazimbo contou que entrou para a Rádio Moçambique em 1978. Ele ainda está lá. Teve suas idas e vindas, como o período que esteve em turnê pela Alemanha, com a Orquestra Marrabenta Star, quando lançou dois discos.

Como autêntico moçambicano, tem vários filhos, cinco. O mais novo de 10 meses e a mais velha de 35 anos. Com ele em meu escritório estava o jovem Humberto Michel. E o nome do Wazimbo é Humberto também. Humberto Carlos Benfica. Como surgiu o Wazimbo ele prometeu contar em outra oportunidade. Sinal que ainda posso receber outras visitas…

Wazimbo e Michel na Academia de Comunicação

Wazimbo e Michel na Academia de Comunicação lendo o post 'Wazimbo'

Wazimbo, por Bélia

A Bélia os leitores do Mosanblog ou do ElefanteNews já conhecem. Se você não conhece ainda, veja entrevista com ela aqui. Val’apena, como se diz por aqui. E a Bélia agora é nossa leitora também.

Outro dia ela comentou que tinha visto o texto sobre Wazimbo e a música Nwahulwana e que sabia escrever e traduzir a música. Ficou de mandar para mim. A promessa foi cumprida, chegou por e-mail letra e tradução, seguidas do seguinte comentário: é mais ou menos isso, a mensagem é a mesma sempre e o resto é a melodia, que é linda. A palavra Nwahulwana é dificil de definir com exatidão, mas penso que é uma forma de chamar uma prostituta de maneira suave. Ainda vamos investigar essa palavra.

E com vocês, a letra de Nwahulwana:

iyo maria ntombi yanga u ta tekua ha mani makwezo (ô Maria, minha menina, quem irá te casar)

iyo maria ntombi yanga u ta tekua ha mani makwezo (ô Maria, minha menina, quem irá te casar)

ni ngo leswi swaku famba usiko loko dzi pelile a swi yaki munti maulwana (digo isso porque essa mania de que quando anoitece tu sais de casa, isso não é produtivo não dar-te-á lar querida)

ni ngo leswi swaku famba usiko loko dzi pelile a swi yaki munti maulwana (digo isso porque essa mania de que quando anoitece tu sais de casa, isso não é produtivo não dar-te-á lar querida)

ni ngo leswi swaku famba usiko loko dzi pelile a swi yaki munti maulwana (digo isso porque essa mania de que quando anoitece tu sais de casa, isso não é produtivo não dar-te-á lar querida)

ni ngo leswi swa ku tsama ma bare loko dzi pelile u ta tekua ha mani maulwana o. o. o.
(digo essa mania de ficares nos bares quando anoitece. Quem te irá casar querida. oh)

ni ngo leswi swa ku tsama ma bare loko dzi pelile u ta tekua ha mani maulwana o. o. o.
(digo essa mania de ficares nos bares quando anoitece. Quem te irá casar querida. oh)

swi ni tcxela ni uswete maria a ku kala un nga tsami kaya maria
(é deprimente. Dá até pena, Maria, o facto de não ficares em casa quando anoitece, Maria.)

Obrigada, Bélia.

Published in: on 20/11/2010 at 19:38  Comments (3)  
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Wazimbo

Em artigo de 7 de agosto de 2010 do jornal O País, Amosse Macamo descreve a voz de Wazimbo como “de exigência concreta de um milagre chamado canto. Se Wazimbo não fosse cantor, seria cantor”. E é exatamente a voz dele que me encanta. A música Nwahulwana toca sempre na rádio RDP África e não canso de ouvir.

Wazimbo desenvolveu o seu talento com a Orquestra Marrabenta Star, tendo despontado nas rádios nos anos 80 e 90. Mas a carreira havia começado já na década de 50, juntamente com os músicos Hortêncio Langa e Miguel Matsinhe, no grupo Os Rebeldes do Ritmo, que viria mais tarde ser conhecido como Silver Stars. Só em 1998 Wazimbo lançou seu primeiro disco solo, intitulado Makwero.

A música que vamos ouvir faz parte da trilha sonora do filme A Promessa, dirigido por Sean Penn, com Jack Nicholson, Patricia Clarkson, Beau Daniels, Benicio del Toro e Dale Dickey. Ela fala de uma mulher “Maria Nwahulwana”, que passa todas as noites visitando os bares da cidade e não vai nunca ter um homem dela porque tem esse comportamento.

Em entrevista no jornal O País, em 2009, Wazimbo explicou a canção: “um nome fictício de mulher, que eu louvo pelos seus feitos e encorajo a batalhar pela vida. Não é que esta ‘Nwahulwana’ exista de facto, não é uma pessoa concreta, mas sim uma criação que vem da minha inspiração. Não é que exista uma rapariga com o nome Maria Nwahulwana, é uma homenagem a todas as mulheres”.

Não consegui a letra da música, nem tão pouco a tradução, mas parece ser algo entre o romantismo e a melancolia. Vamos a ela:

P.S. Alguns dias depois de escrever o post recebi uma colaboração com letra e tradução. Estão no post Wazimbo, por Bélia.

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