As quadras festivas em Moçambique

Faz dias eu queria ter publicado um post sobre como seria o dia 25 de dezembro aqui, data em que se comemora o Natal em muitos países e em todas as casas cristãs. Mas os dias iam passando e eu não conseguia saber como seria. Cada pessoa falava uma coisa e então achei melhor esperar acontecer para contar.

E foi o seguinte: quando foram se aproximando as quadras festivas (forma como chamam o período do fim do ano em Moçambique, assim como em Portugal), os estabelecimentos comerciais, inclusive restaurantes, colocaram avisos para seus clientes de que estariam fechados de tal a tal data. Normalmente, de 20 de dezembro a 17 de janeiro. São férias coletivas, como em muitos países da Europa se usa fazer também. Deve ser herança dos recentes tempos de colonização portuguesa.

A prática não tem necessariamente a ver com a comemoração do Natal, porque mesmo comércios onde os donos não são cristãos fecham no fim do ano. Os estrangeiros (ou pessoas com parentes no exterior) que têm condições, viajam para fora do país. Em Maputo, quem está de férias busca refúgio do calor nas praias. A cidade, a parte “cimento”, como dizem aqui, fica bem mais tranqüila.

Nas ruas, raríssimas alusões ao Natal, como um Pai Natal (o Papai Noel) gigante na frente de uma loja de bebidas e também o boneco de Papai Noel que dança e luzes piscantes na frente do mercado chinês, que nesta época comercializa enfeites e árvores de Natal.

No calendário, 25 de dezembro consta como feriado nacional: dia da Família. Aliás, Moçambique é um Estado laico, o que muitos países europeus pregam mas na prática não fazem, assim como o nosso Brasil, com seus crucifixos em repartições públicas e salas da Justiça. Aqui em Moçambique há liberdade de prática religiosa, mas não há feriados religiosos.

O censo de 2007 feito no país mostra que a religião católica é a que mais crentes tem (23,8%). Resultado da colonização portuguesa. Mas as pessoas sem religião estão quase no primeiro lugar com 23,1%. No entanto, a análise do censo destaca: “É possível que uma parte destas pessoas pratique, de facto, alguma religião não organizada como, por exemplo, crenças animistas”. Em terceiro lugar estão os muçulmanos (17,8%) e, quase ao mesmo nível, os que praticam a religião sião/zione (17,5%). Apesar dos muçulmanos, aos olhos de quem anda pelas ruas, deixarem a impressão de maioria, provavelmente, porque são facilmente identificados pelo uso de roupas típicas.

Esse quadro pode explicar porque o Natal é tão pouco presente em Moçambique. Além disso, há as questões históricas. Os portugueses, católicos, chegaram aqui no final do século XV. Na segunda metade do século XX, em 1964, a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) inicia a luta armada contra o poder colonial. Em 1975, Moçambique conquista a independência e é implantado o socialismo no país. As religões passaram a ser mal vistas. Eram tidas como uma forma de enganar e manipular o povo. Nos anos 80 teve início a guerra civil com a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), que durou cerca de 16 anos. No meio dela, em 1986, o presidente Samora Machel morreu em um acidente de avião e seu sucessor, Joaquim Chissano, implantou um governo que abriu as portas para o capitalismo, favorecendo a iniciativa privada e reduzindo a intervenção do Estado. Nessa época vieram para cá muitos comerciantes muçulmanos e as religiões em geral voltaram a ganhar algum espaço.

Assim chegamos ao Natal que temos hoje. E, como o feriado é tido como dia da Família, muitas famílias, independente do que professa sua fé (ou não fé), reúnem-se nesse dia para um almoço ou um momento de confraternização e recuperação das forças para o ano que está por vir.

A passagem de ano também será assunto no Mosanblog, claro, para a semana que vem.

Quisse Mavota: laudo final?

Em maio de 2010, relatei o mistério de Quisse Mavota: em menos de 20 dias, cerca de 70 alunas do ensino secundário de uma escola de Quisse Mavota, na periferia de Maputo, sofreram desmaios.

No comecinho de junho, contei que tinha sido feito lá um ritual tradicional, mhamba, para evocar espíritos dos corpos que tinham sido enterrados no terreno, em um antigo cemitério que existia onde foi construída a escola. Havia a crença de que faltara o cumprimento de algum ritual para a construção da escola, e, como consequência disso, os espíritos estavam zangados.

Alguns dias depois, contei que não houve mais desmaios na escola. Então, citei Miguel de Cervantes: “Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay.”

Mas o Ministério da Saúde, cumprindo seu papel, continuou as investigações e agora, cinco meses depois dos desmaios, informa o resultado: tratou-se de um caso de histeria coletiva. À época, foi mesmo uma das possibilidades levantadas pelo ministério. Eu, da minha parte, continuo nas citações. Dessa vez recorro a Sócrates (o filósofo, não o camarada do futebol): “só sei que nada sei”.

Leia mais sobre o desfecho (por enquanto) dessa história, em matéria que o Eduardo Castro fez para a Agência Brasil e divulgou no ElefanteNews.

Aqui também tem bicho-papão

imagem do bicho papão retirada do site Brasil EscolaO site Brasil Escola conta que o bicho-papão é uma figura mundialmente conhecida. Está no site: “É uma das maneiras mais tradicionais que os pais ou responsáveis utilizam para colocar medo em uma criança, no sentido de associar esse monstro fictício à contradição ou desobediência da criança”.

Aberrações de comportamento à parte (eu acho que conseguir a obediência pela imposição do terror é caso de internação), o curioso é essa coisa do comportamento se repetir em diferentes culturas, diferentes realidades, diferentes momentos.

Descobri recentemente que aqui em Moçambique, o hábito também existe. Ou existia, em tempos de menor controle dos direitos da criança. Quando os pequenos estivessem a perturbar, bastava dizer em voz grave: “vem aí o Lipanyangule, metam as crianças nos celeiros ou ele acabará com elas”. Pronto, não havia mais criança desobediente no local. Nem era preciso meter no celeiro. Bom, para mim, que sou analfabeta nos idiomas bantu, só o nome Lipanyangule já assustaria.

E qual é a história dele? A origem do nome é makonde. Sua existência remonta aos tempos da expansão européia pela região de Moçambique. Lipanyangule nasceu nos anos 1800, representante do povo bantu. Sobreviveu a várias guerras de expansão, até que, cansado de lutar, resolveu esconder-se. Em 1914, seu esconderijo foi invadido. Já sem forças para resistir, fugiu. Pouco tempo depois voltou ao esconderijo, que considerava seu paraíso. Em 1960, escapou à matança a que os moçambicanos foram sujeitos pela tropa colonial portuguesa, quando da guerra da independência. Fugiu de novo. Ficou conhecido como o “comedor de crianças que nunca morria”. Porque “nunca morria”, compreendo. Não achei na história onde o pobre pegou a fama de comer as crianças. Acho que só mesmo na imaginação de pais terroristas.

O Brasil Escola lembra ainda outros “bichos-papões” que aterrorizaram as criancinhas pelo mundo afora, em todos os tempos: na época das Cruzadas, “os muçulmanos projetavam esta figura no rei Ricardo, Coração de Leão, afirmando que caso as crianças não se comportassem da forma esperada, seriam escravizadas pelo melek-ric (bicho-papão)”. Em Portugal também é utilizado o termo bicho-papão, como no Brasil. Nos Países Baixos, o monstro leva o nome de zwart Piet (Pedro negro), que leva as crianças desobedientes para o Mar Negro ou para a Espanha (acho que depende do tamanho da desobediência). Em Luxemburgo, o bicho-papão (housecker) é um indivíduo que coloca as crianças em um saco e fica batendo em suas nádegas com uma vara de madeira.

Curioso como os elementos são os mesmos. Eu lembro que na minha terra também havia o “homem do saco”, que colocava as crianças malcriadas em um saco e levava embora. Não se podia brincar na porta de casa, porque aparecia o homem do saco. Na verdade, o objetivo era afastar as crianças das ruas, em especial quando moravam em avenidas movimentadas. Como eu sempre morava em apartamentos, isso não fazia muito sentido para mim. Mas para conhecidos que moravam em casa, era certeiro: eles até iam para a porta, mas ficavam a brincar na garagem, escondidos atrás dos carros. Imagino que hoje estejam todos na terapia.

Se quer saber mais sobre o Lipanyangule, clique aqui.

Bélia e a televisão

O fato do Eduardo e eu sermos um casal, faz com que muitos de nossos leitores conheçam os dois e visitem tanto o Mosanblog quanto o ElefanteNews, o que é bem interessante para nós e cria certa complementariedade em termos de informação para os leitores. Então, quem já visita o ElefanteNews, conhece um pouco a Bélia, que é produtora de TV e trabalha com o Eduardo. Quem não conhece ainda, pode ver os posts sobre ela no ElefanteNews aqui e aqui.

a produtora Bélia

Bélia: "não me imagino com outro nome"

Outro dia ela fez tranças no meu cabelo. Enquanto ela trançava – o que demorou quase três horas – eu aproveitei para fazer uma entrevista. Bélia é uma figura que vale. Nasceu aqui mesmo em Maputo, no bairro Xamanculu, onde viveu até os 12 anos, quando a família se mudou para o bairro das Maotas, onde ela está até hoje. “A mudança foi muito brusca. Para o positivo. Lá as condições eram precárias. Em um terreno, pode ter mais de 50 casas. Na casa onde vivíamos, dividíamos o banheiro com mais seis famílias. Era difícil ficar na bicha [fila, por aqui] de manhã para tomar banho”, lembra.

Então, ela começou a mexer no meu cabelo. Separou um tanto para cá, um tanto para lá, e começou o trança-trança. Eu tinha comprado mechas, para as tranças ficarem todas do mesmo tamanho e volume, como eu expliquei nos últimos posts.

mechas compradas no Mercado Central de Maputo

Mechas que eu comprei no Mercado Central de Maputo, quase da cor do meu cabelo

E eu começo perguntando: Qual é o seu nome completo?
Bélia Enoque Machava.

Mosanblog: De onde vem o nome Bélia?
Bélia: Meus pais sempre gostaram de ter nomes diferentes para os filhos. Quase todos temos nomes exclusivos. Minha mãe gostava de uma cantora chamada Mbilia Bell, africana. Então, ela queria colocar Mbilia. Mas depois ela pensou no Bell. Não sei como, ela juntou os dois e ficou Bélia. Um dia fui achar significados de nomes e achei na bíblia o nome Belial. E não é um nome bom, é um nome negativo. Eu fiquei mal. Mas também, não me imagino com outro nome.

Mosanblog: E as suas irmãs? Como são os nomes?
Bélia: A minha irmã mais velha chama-se Topázia, do nome da pedra preciosa. A outra tem o nome da mamá (mamá é como eles chamam mamãe aqui. É mamá e papá), que chama-se Olga. Depois tem uma que tem o nome de Vinólia, em homenagem a uma sulafricana conhecida por ser super inteligente. Depois veio o menino, que ganhou o nome de meu pai. Enoque José Machava Júnior.

Mosanblog: Você tem um filho, não?
Bélia: Tenho sim, um filhinho. Vai fazer 4 anos dia 30 de agosto. Layton [fala-se Láiton].

Mosanblog: E esse nome?
Bélia: Layton foi o pai que deu, eu nem sei de onde veio. Foi no dia do parto. Eu tinha certeza que era menina. Já vou pensando no nome feminino que vou dar. Ia ser Giovanna. Por causa da novela da Jade, aquela do Clone. Então fui ver o nome real da Jade. Mas quando de repente vi que era um rapazito, nem imaginava que nome dar. O pai falou Layton. Eu gostei na hora. Porque não gosto de coisas vulgares. Tem que ser exclusivo. Que nem Bélia. Meu nome eu só vi em uma mulher em França, na TV. A minha xará está em França! Depois disso eu conheci um Bélio. E só.

Mosanblog: Qual seu objetivo profissional?
Bélia: Sempre tive o sonho de ser repórter, locutora de rádio, apresentadora de TV. Por alguns anos trabalhei como locutora de rádio. Foi emocionante. Fazia aquilo que eu gostava: lidar com música, conversar com os ouvintes…

Mosanblog: Em qual rádio?
Bélia: Passei em várias rádios, uma foi a RTK [aqui a letra k fala-se kapa]. O kapa é de Klinton, o primeiro dono da rádio, mas ele perdeu a vida já há muito tempo… Então, brasileiros compraram a rádio e modificaram para K FM. Lá eu fiz um programa infantil.

Mosanblog: Como era esse programa infantil?
Bélia: Tinha muita música de criança. Eu era fanzona da Eliana. Então, fui fazer o programa. Eu imitava a Eliana. Na escola chamavam-me Eliana de Moçambique. Eu sabia quase tudo dela. Mesmo que na época não tínhamos internet para acessar as informações. Eu ouvia pela rádio e via na televisão Miramar [hoje, Record], que transmitia os programas da Eliana aqui. Aquilo era uma coisa! Aquele mundo colorido… Aqui a gente não estava acostumado a ver aquilo, aqueles cenários bonitos. Aqui não era assim. As crianças conheciam só brincadeira da terra.

Mosanblog: Que brincadeiras vocês faziam nessa época?
Bélia: Uma era a mathocozana. Faz-se uma covinha no solo, de um centímetro, depois arranja-se pedrinhas e coloca-se lá. Eram 12 pedrinhas e uma bolinha, para a bolinha usávamos limão pequenino. Jogava a bola para o alto, tirava e repunha as pedras na covinha e tinha que pegar a bolinha antes dela cair nas pedras. Quando chega o programa da Eliana, saímos daquele mundo. As crianças ficaram muito mais sedentárias, porque só queriam saber de televisão. [Ela está falando de coisas de uma década atrás, mais ou menos].

Mosanblog: E quanto tempo durou seu programa infantil na rádio?
Bélia: Seis meses. Aí mudei. Fiz um de promoção de bebidas. Mas eu não fazia sozinha. Éramos três. Tinha um animador, eu e um outro homem. Comentava sobre a bebida, que estava a patrocinar a rádio. Falávamos com o ouvinte, dávamos a bebida de prêmio, líamos anedotas. Era muito bom, porque estávamos a rir. As bebidas eram Boss Whisky, Dolar Gin, American Queen… eram quatro, mas a quarta já não estou a recordar. Mas eu não bebia, só falava, só.

[E ri. E trança.]

Bélia a trançar e rir

Mosanblog: Por que você queria ser repórter?
Bélia: O sonho sempre foi fazer rádio, televisão. Queria ser apresentadora, igual a Eliana. Mas os sonhos foram mudando. Os programas de jornalismo da Miramar traziam matérias quentes. Eu via uma reportagem, ficava pensando: “como é que conseguiu fazer isso?” Tinha uma repórter que era do Ceará – eu não sei onde é que é isso – eu via o programa para ver o que ela ia fazer, porque ela só fazia matérias boas. Eu ficava no espelho em casa, tipo: tô na televisão. Eu começava a falar: boa noite, está a começar mais um programa… Meu avô queria que eu fosse médica. No décimo ano eu reprovei umas três vezes. E era pelas ciências. Nas letras eu ia bem. Português, história, geografia… Eu passei as letras todas, ciências reprovei tudo. Nas letras, vem uma pergunta difícil, se tu souberes argumentar, vais bem. Nas ciências não. Tens que saber exato. Portanto é difícil fazer medicina. O que acontece é não há nada melhor do que fazer aquilo que nós gostamos.

Mosanblog: Você continua com o mesmo sonho hoje?
Bélia: Hoje meu sonho ainda é fazer jornalismo. Ainda não fiz faculdade de jornalismo, mas eu vou chegar lá. É uma questão de perseverança. Se o que eu quero é isso, vamos lá. Hei de aprender, ainda que não saiba. Estou aprendendo, graças a deus. Vou vasculhando mais. Acredito que a lei é ser curioso.

Mosanblog: Você já assistiu a TV Brasil, para onde trabalha?
Bélia: Já. Quando eu vi: ê! O canal é diferente. Muito mais evoluído com relação aos canais nacionais. Está bem que o Brasil é independente há muito tempo. Moçambique ficou independente há 35 anos. No Brasil, dizem que tem pobreza, mas nós, quando vemos novela não vemos isso. A gente sabe que novela é mentira, mas nós não colocamos isso na cabeça quando vemos. Em tudo o Brasil é evoluído. Futebol. Brasil foi pentacampeão. Músicas. No Brasil, fazem letras incríveis. Moçambique chega lá um dia. O Brasil quando ficou independente também não foi de cá pra lá. Houve um tempo.

[Filosofa… e trança]

Bélia pensa e trança

Mosanblog: Mas mechas não tem no Brasil. Pelo menos não como aqui, em todo canto…
Bélia: Sério? Não é possível. É possível, porque… mas não… dona Sandra! Nas novelas a gente vê aquelas negras. Elas usam mechas sim. Aquilo não é cabelo delas… Mas a maior parte das pessoas no Brasil são brancos. Algumas mechas vendem lá, sim. Com certeza.

Mosanblog: E o que são as tais mechas?
Bélia: Mechas são cabelos que nós africanos usamos junto com o nosso, por termos cabelos que não crescem muito, e é lento, muito lento, não é como os brancos e mulatos. À medida que nós cobiçamos as novelas, começamos a cobiçar aquele cabelo longo, a gingar… É quando inventam-se as mechas. Na época eram menos sofisticadas que as atuais. A gente só trançava. A evolução também trouxe as extensões e fica mesmo cabelo assim, que nem de branco. Cobiçávamos ter cabelo longo, que é possível passar um pente. Quando surgem as extensões, foi um sonho!

[Sonha… e trança]

Bélia não para de trançar

Mosanblog: Quando você começou a trançar seu cabelo e a usar mechas?
Bélia: Desde criança. Eu era maluquinha. Ia numa casa que estavam a trançar e pegava as mechas que restavam no chão. E comecei já a trançar na minha cabeça. Eu aprendi a trançar na minha cabeça. Saía mal, mas eu persistia. Com o tempo comecei a trançar bem. Normalmente a mão de obra é um pouco cara. Se for para gente de fora, ainda mais. As pessoas vão vendo o teu cabelo, a tua roupa e já cobram mais.

Mosanblog: Eu já percebi isso. Tem o preço para os mulungos [estrangeiro, branco] e para os daqui…
Bélia: Aqui é assim. Se estão a ver pessoas claras, com cabelo longo, já pensam que está cheia de dinheiro. Lembram das pessoas da novela e acham que tem dinheiro igual. Olham pra ti e depois estipulam o preço. Cobram 500 meticais o que pode ser 50.

E no fim: Dona Sandra, eu falo tanto… Rádio me estragou. Meu chefe não gostava de colocar música. Ele dizia: “Eu contratei você para falar; para colocar música, saia da minha rádio, eu coloco um disco”. Fiquei assim.

E eu, fiquei assim:

tranças de ladotranças atráscom faixa na cabeçade lado

Hoje, as mechas

Ontem falei aqui sobre as tranças africanas. Hoje vamos tentar entender as mechas. Primeiro, o conceito: aqui chamam de mechas, punhados de cabelos que são comprados para serem agregados aos cabelos originais nos penteados. Podem ser da mesma cor do cabelo da pessoa que vai usar ou não. Podem ser sintéticos ou naturais. Tudo vai depender da criatividade e do bolso da usuária. Uma mecha simples, de cabelo artificial, custa MT 25,00 (R$ 1,20). Já uma de cabelo natural, geralmente importada da Índia ou do Brasil, pode custar até MT 3.000,00 (R$ 145,00).

Mechas a venda no Mercado Central de Maputo

Mechas a venda no Mercado Central de Maputo

Mechas a venda no Mercado Central de Maputo

Mechas a venda no Mercado Central de Maputo

E as moçambicanas andam alucinadas pelas mechas. Não se contentam com o cabelo que o destino lhes deu. A cada semana é uma nova cabeça, um novo cabelo. Parece-me que é moda nova, mas já está virando marca de um povo. Explicaram-me por aqui que o cabelo natural de algumas moçambicanas é de difícil crescimento e em pouca quantidade. Assim, não permite muita criatividade nos penteados. As mechas vieram para permitir. Permitir tudo, inclusive que a cada semena a mulher tenha um novo visual.

Com as mechas, é possível fazer um enorme rabo de cavalo, um coque (ou totó) bem charmoso, tranças (todas as que conhecemos ontem!) ou simplesmente, deixar o cabelo solto ao sabor do vento.

Mas quem entende mesmo de mechas, tranças e muito mais é a Bélia, que trabalha como produtora de TV. Aliás, o Eduardo já falou sobre ela e o cabelo dela no ElefanteNews. E amanhã vai ter muito mais da Bélia, aqui no Mosanblog.

As tranças, as mechas e a Bélia

São três assuntos e, portanto, serão três posts, afinal: uma coisa por dia, um dia de cada vez. Mas como estão relacionados, vou tratá-los em uma seqüência e o primeiro tem no título os três temas.

Vamos às tranças, uma tradição africana. Vou tentar esclarecer o que são, porque há muita confusão entre nagô, tererê, rastafari e dreadlocks.

A trança nagô é feita junto ao couro cabeludo e pode ser em linhas retas ou em desenhos desenvolvidos pelo artista trançador. Sim, porque há de ser um artista para fazer esse trabalho. Em cabelos não muito longos, como o meu, para tranças em linha reta, sem desenhos elaborados, é trabalho para duas horas e meia. Pode ser feita só com o cabelo original da pessoa ou com aplicação de outros fios. Aqui em Moçambique adoram usar os outros fios, que são comprados como “mechas”. A junção das mechas ajuda a dar um volume maior às tranças e também a manter um padrão de tamanho em toda a cabeça. Mesmo que a pessoa tenha menos volume de cabelo em determinada parte do couro cabeludo, as mechas preenchem isso e parece que o volume é homogêneo.

A nagô pode ser feita em qualquer tipo de cabelo, com qualquer tamanho e volume. Quanto mais puxa e deixa bem rente à cabeça, mais tempo dura. E a textura do cabelo também ajuda: cabelo fino como o meu, não agüenta muito, vai despontando. Além disso, eu não gosto de sentir dor (alguém gosta?) e não acho que nenhuma beleza justifica tal sofrimento, então, minha trança não foi muito puxada. Dependendo das condições do cabelo e do humor de quem o carrega com relação à dor, as tranças nagô podem durar até um mês ali, bonitinhas. Ah, e pode molhar, viu? Não pensem que fica cheirando mal a vida toda. Passa-se xampu líquido, enxagua-se bem e elas ficam bonitas e cheirosas. O ideal é depois secar com secador na temperatura fria. E para conservar mesmo, dormir de toca é a dica.

A trança nagô pode ser invertida. Ou seja, em cabelos curtos, começa da nuca e termina na testa, ficando uns fios de trancinhas pedentes em volta do rosto. Um charme pueril.

Os tererês são apliques de uma linha colorida sobre uma trança de cabelo natural. Essa linha pode ser fio médio de crochê ou lã. Um tererê pode ser feito com combinação de fios de cores diferentes ou em uma só cor. Primeiro é feita a trança. Depois, a partir da base da trança, o fio é passado pelos encontros dos cabelos, envolvendo toda a trança até a cabeça. Nessa técnica, o cabelo pode ou não ficar aparente.

Dreadlock (ou simplesmente dread) é mais uma aventura ou uma filosofia de vida do que apenas uma maneira de ter o cabelo. Eles dão o visual rastafari. Esse penteado ficou muito conhecido por ser usado pelo cantor de reggae da Jamaica, Bob Marley, e, na cultura africana, tem um significado relacionado a uma forma de afirmação da identidade negra. O dread é feito pela separação do cabelo em diversas partes que são enroladas nelas mesmas, no sentido vertical (observe, enroladas, não trançadas). A aplicação de cera de abelhas ou óleo de copaíba ajuda a manter os fios juntos e é tanto mais necessária quanto mais lisos e finos são os cabelos. O penteado dura anos. Então, conforme os cabelos crescem, devem ser enrolados nos rolos já definidos. Mais uma vez, quem pensa que o estilo tem a ver com sujeira ou deixa mal cheiro, se engana: o cabelo com dreadlock também pode ser lavado e, mais uma vez, deve ser seco com ar frio. Se foi usada cera para fixar os dreads, ela deve ser reaplicada depois do cabelo estar novamente seco. É preciso saber: como a cera fica entranhada nos fios, não é possível eliminá-la e desfazer o penteado. Então, para tirar o dread, os cabelos devem ser cortados na altura dos fios que estão nascendo.

As tranças, em geral, são técnicas desenvolvidas pelos povos africanos. A maneira de cada trança ser feita indicava, originalmente, desde o status social da pessoa até seu estado civil. Hoje, estão relacionadas mesmo à vaidade. E eu não ia deixar de fazer as minhas. Escolhi a nagô básica.

Sandra de nagô com faixa na cabeça

Sandra com nagô de perfilSandra de nagô com rabo de cavalo

Amanhã vamos falar das mechas.

Leia mais, e veja outras fotos, sobre os tipos de tranças, no site Beleza Pura.

E um post interessante sobre o assunto, no blog Casa de Luanda, que conta uma história em Angola, que também poderia ser em Moçambique.

Aids e a cultura local

Uma das coisas mais importantes quando se faz uma ação para contribuir com o bem-estar da população e melhoria da qualidade de vida é ter a preocupação de não ir contra a cultura do público com o qual se vai trabalhar. Com essa preocupação, é possível perceber que pode haver diferentes visões de bem-estar e qualidade de vida. Eu preciso de certos itens na minha vida para ter bem-estar, meu vizinho precisa de outros, alguém que mora em outro país precisa de outros que não têm nada a ver com os dois primeiros. Ou seja, cada indivíduo é único, tem suas crenças e suas preferências e deve ser respeitado como tal.

No Mosanblog já citei algumas vezes a questão da Aids na África (veja aqui e ali). É algo muito presente, porque há um grande número de pessoas infectadas e esse número cresce assustadoramente, inclusive entre as crianças. Então, o assunto está sempre nos jornais, seja porque vão construir uma fábrica de anti-retrovirais, seja porque saiu uma nova pesquisa com o número de infectados, seja porque em algum país só um tipo de profissional está tendo acesso ao tratamento, enfim, todo dia temos notícia sobre Aids. E, em geral, não são das melhores.

Todo dia também tem muita campanha sobre o tema. Na televisão e no rádio, em especial, há propagandas institucionais em todos os horários. Há um consenso de que ninguém quer ter Aids. Aliás, parece que, em geral, ninguém quer ficar doente, não é mesmo? Só quem já tem alguma doença, como um desvio psicológico. Então, fazer campanhas para evitar a disseminação de uma doença é muito louvável.

Mas não é nada louvável ignorar o público para quem se está falando nessas campanhas. Enquanto o vírus HIV/Sida (Aids) está sendo descontroladamente transmitido na África, a USAID (Agência dos Estados Unidos para Desenvolvimento Internacional, na sigla em inglês) patrocina uma propaganda na televisão de Moçambique (e deve fazer em outros países da África também), claramente ignorando as culturas locais, apresentando como solução para a questão da Sida a diminuição de múltiplos parceiros sexuais. É só isso que eles sabem dizer: “sexo só com sua esposa ou seu marido”.

Pela lei moçambicana, a poligamia contraria uma das regras essenciais do matrimônio, que é a igualdade dos cônjuges e foi ilegalizada com a Lei da Família, de 2004. No entanto, a poligamia é aceita e praticada em vários pontos do país. Sabe aquela história da lei que não pega? Então…

O artigo Poligamia: tudo em nome da “tradição”, de Yolanda Sithoe, que está no site da WLSA observa que a questão da poligamia em Moçambique “é interiorizada e socialmente aceite”. Yolanda conta: “Encontrei professores primários com 24 anos de idade, já com duas esposas e vivendo em situação conjugal (casamento e união de facto) há mais de três anos. Questionados sobre o porquê desta opção, respondiam que “a primeira não conseguia conceber, então tive que arranjar uma outra”. Entre os camponeses e vendedores, a situação era justificada com respostas do tipo, “precisava de mais alguém para ajudar na machamba [terreno agrícola para produção familiar] porque o trabalho é muito duro, tenho duas, três machambas e sozinho é difícil”.

Vejam bem. Não estou aqui pregando a poligamia. Até porque seria incoerente com a minha atitude pessoal. Mas ocorre que não podemos impor aos outros o nosso estilo de vida. Eu sou monogâmica, mas entendo que não seja assim para todo mundo.

“No norte de Moçambique, por exemplo, de maioria muçulmana, a poligamia é prática comum. No litoral da mesma região, relações com múltiplos parceiros, especialmente entre os jovens, são aceitas como regra. Já no sul, de maioria católica, os negros com algum poder ou dinheiro têm várias amantes e namoradas, além da mulher em casa.” Essa análise foi feita pelo jornalista Aureliano Biancarelli, no documeno Diário de Moçambique.

O Diário de Moçambique foi produzido pelo programa brasileiro de DST/Aids, que veio ao país por meio de um acordo de cooperação. Ele revela ainda que há a informação de que “os fundos que chegam do governo dos EUA, por exemplo, vêm com o carimbo de que não podem ser usados para incentivar o uso do preservativo. Devem ser gastos para pregar a abstinência, o retardo no início das relações e a redução no número de parceiros. Algumas instituições religiosas vão pelo mesmo caminho.” Como assim? Mandam o dinheiro para resolver um problema tão sério, mas mandam junto seus valores, suas convicções, seus padrões de comportamento e, assim, o recurso se torna muito menos eficaz.

Isso é muito triste, porque mostra claramente que não estão querendo resolver o problema e sim mudar a cultura de um povo. Talvez a poligamia deva mesmo ser discutida, devido à questão das igualdades de direitos entre homens e mulheres, pelo subjugar de um gênero pelo outro e porque podemos vir a entender que não é o melhor. Mas isso leva décadas para acontecer. Não se muda crenças religiosas e culturas tradicionais assim, com campanha na televisão. E a questão da Sida é urgente.

O que vejo como solução mais imediata é a disseminação do uso da camisinha. Com quantos parceiros a pessoa tiver, usar sempre o preservativo. E, em paralelo, a realização do teste de HIV. Porque a questão da procriação aqui também é muito forte. Não ter filhos não é o normal. Logo, usar preservativo, que evita engravidar, também não é normal. Desta forma, o melhor é fazer campanha para ter o teste e, uma vez detectado que aquele casal não tem HIV, aí sim, que se deixe engravidar. Além disso, é preciso informação, muita informação, especialmente para esses que decidem engravidar e vão ter relações sexuais sem camisinha. Mas informação útil e adaptada ao público ao qual se destina.

Campanhas nessa linha são feitas pelo próprio governo de Moçambique, com o slogan “Prova teu amor, faça o teste de HIV/Sida comigo”, e pelo governo brasileiro aqui na África, com distribuição de camisinhas. Eduardo Castro mostrou na TV Brasil uma ação que foi feita em África do Sul, durante a Copa 2010. Acompanhe aqui.

Quisse Mavota sem desmaios

Como já contei aqui, entre os dias 13 e 28 de maio, cerca de 70 alunas do ensino secundário da escola Quisse Mavota, na periferia de Maputo, sofreram desmaios. Isso dá uma média de quase seis por dia, se considerarmos só os dias letivos.

No dia 29 de maio, foi feito um ritual tradicional, com sacrifício de animais, para acalmar os espíritos que poderiam estar causando os desmaios. O ritual chama-se “mhamba” e falei dele aqui também.

Bem, desde o ritual, oito dias úteis se passaram e não há mais notícia de desmaios na escola. Portanto, muitos poderiam, diante dessa constatação, se render e citar Miguel de Cervantes: “Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay.”

Eu, particularmente, jamais diria que não creio em bruxas ou em qualquer coisa.

Sobre o assunto, o ritual e tudo mais, o Eduardo fez uma matéria bem interessante para a TV Brasil, que foi ao ar nessa segunda-feira, dia 7 de junho. Como ele já aprendeu a dizer: valapena clicar aqui e assistir.

Aproveito a oportunidade e trago um link para o blog Diário de um sociólogo, de Carlos Serra, que também escreve a partir de Moçambique. Ele teve acesso aos registros médicos que foram feitos nas consultas com as alunas em questão. Veja lá.

Published in: on 09/06/2010 at 13:42  Comments (3)  
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Quisse Mavota: o ritual está feito

Sábado passado publiquei nesse blog a informação de um ritual tradicional que ocorreria em uma escola, para acabar com desmaios de alunas, que já chegavam na casa dos 70. Veja aqui. O ritual foi realizado. Participaram representantes da comunidade local e os familiares envolvidos com o terreno e com as meninas que sofreram os desmaios.

A cerimônia realizada é chamada “mhamba” e consiste no sacrifício de animais de pequeno e grande porte (no caso bois e cabritos), rezas e outros rituais tradicionais, com o objetivo de evocar os espíritos dos que lá foram enterrados.

Até agora, não houve novos registros de desmaios. Vale observar que, em geral, os desmaios vinham acontecendo no final da semana, na quinta-feira e na sexta-feira. Então, aguardemos mais alguns dias para ter certeza do resultado. Aliás, o Eduardo, do ElefanteNews, está preparando uma matéria completa sobre o assunto para a TV Brasil.

Também é relevante saber que a Associação dos Médicos Tradicionais de Moçambique (Ametramo) tem dado declarações, por meio de sua vice-presidente e de seu porta-voz, informando que a associação não foi contatada pelas autoridades locais sobre o caso e não foi nenhum de seus associados que realizou a cerimônia. Dessa forma, a Ametramo não pode saber se foram respeitadas todas as etapas dos rituais para que os resultados venham a ser positivos.

Manterei os leitores deste blog informados.

Published in: on 02/06/2010 at 16:56  Comments (2)  
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