Os números de 2015

Afinal, 2016 chegou e os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório sobre o ano de 2015 do Mosanblog. Vamos ver o que descobriram…

Apesar de só ter dois novos posts publicados, o blog seguiu no seu ritmo de receber muitas visitas. Para se ter uma ideia, a sala de concertos em Sydney, Opera House tem lugar para 2.700 pessoas. O Mosanblog foi visto cerca de 50.000 vezes em 2015. Se fosse um show na Opera House, precisaria de aproximadamente 19 shows lotados para que todas essas pessoas pudessem vê-lo.

As visitas vieram de 115 países! A maior parte de Moçambique, União Europeia e Brasil. O post mais visitado foi o que explica o que é Mulungo. Se você não leu ainda, pode ler clicando aqui.

Clique aqui para ver o relatório completo

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De volta

Visitar um lugar ao qual você já pertenceu é sempre uma surpresa. Na preparação da viagem e durante o percurso Brasília – Maputo, eu sempre me pegava pensando como seria chegar aqui novamente, depois de mais de seis meses. A resposta: foi fácil como voltar para casa.

O curioso é que quando se vive em muitos lugares a casa vai sendo sempre um pouco de cada um, o que mais gostamos de cada um… assim é Maputo, cheio de coisas que gosto muito. Amigos, lugares, hábitos, comidas, pessoas desconhecidas que geram empatia só por te olhar.

Passar pela imigração e falar meu primeiro kanimambo (obrigada em changana) depois de meses, foi divertido. Achei graça até nos jovens nas ruas vendendo de tudo, como corrente com coleira para cães, mas “que também pode ser para o marido”, como sugeriu o vendedor. E se você não quer a coleira, tem o spray para não sei o que, o triângulo para carro, o macaco para trocar pneu… de tudo. O importante é você deixar com ele uns meticais para o almoço. “Tenho fome, patroa”.

E agora lá vou eu, procurar um menino de colete amarelo, que há em cada esquina, para comprar dele crédito para o celular e poder fazer contato com os amigos, avisar que cá estou. E sei que vou engrenar na conversa com o vendedor, saber de que província vem, que vida leva, quais seus sofrimentos. Assim é Moçambique. As pessoas – até as menos sociáveis – estão sempre a se relacionar, a conversar, a não perceber o tempo passar.

Por outro lado, é curioso ver a vida aqui com distanciamento, não sendo mais parte, não sendo mais peça da engrenagem. De certa forma, te impõe menos culpa, mas alguma urgência. A certeza de que vou ficar por pouco tempo, dá a sensação de que esse pouco tempo tem que render muito. Fazer o máximo para contribuir com quem cruzar o meu caminho. Mas já tem outra certeza que marca esse primeiro retorno a Moçambique: a de que é apenas o primeiro. Outros, muitos, virão.

O moçambicano e a autoestima

Moçambique é um país maravilhoso. Tem belezas naturais inimagináveis, tem fauna e flora riquíssima, tem solo fértil e rico, tem um povo simpático, acolhedor, bem humorado, respeitador. Mas continua com um dos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) mais baixos do mundo. Tem alguns problemas e dificuldades tão entranhados no país, que o brilho de tudo isso que é bom acaba por se apagar.

Depois de conviver e conhecer mais a fundo esse povo e esse país tenho acreditado cada vez mais que o que falta aqui é autoestima. O moçambicano precisa acreditar mais em seu potencial e valorizar o que faz, o que tem, o que é. Vivendo em Maputo, no sul do país, estamos muito perto da fronteira com a África do Sul. Não sei se o mesmo se repete em outros pontos do país, mas aqui chega a ser enervante o quanto o moçambicano valoriza seu vizinho, sem aplicar a ele o mesmo senso crítico que aplica a si próprio.

Sim, a África do Sul é mais rica, tem mais desenvolvimento tecnológico e seu Índice de Desenvolvimento Humano é melhor. Mas a África do Sul está bem longe de ser o exemplo do tudo perfeito que os moçambicanos vêem. Estou hoje em Cidade do Cabo, a quarta cidade que conheço da África do Sul. As outras foram Nelspruit, Joanesburgo e Pretória, sem contar o Kruger Park, que é um mundo à parte.

Em todos esses lugares sofri com atendimento ineficiente, vi lixo na rua (bem menos que em Maputo, é verdade, mas vi), vi favelas, encontrei gente pedindo esmola, convivi com serviços mal feitos e gente sem educação, enfim, vivenciei problemas. Mas quando o moçambicano fala da África do Sul, fala do país perfeito, de cidades sem favelas, do lugar onde todos têm emprego e ganham bem (verdade que ganham mais que em Moçambique, mas gasta-se mais também), do lugar limpo onde o povo não faz xixi na rua.

Ou seja, os moçambicanos tendem a não ver os problemas que também existem (talvez em menor escala) no seu vizinho. E mais: não percebem que os problemas que não existem no vizinho dependem, em muito, da atitude do próprio povo. Quem faz xixi na rua em Maputo? Os postes? Não, o povo. Quem joga lixo a céu aberto? As árvores? Não, o povo. Talvez, falte ao moçambicano perceber que se ele cuidar do que está a volta dele, pode conseguir um ambiente melhor e ter o que tanto acha bonito no seu vizinho.

Isso me lembra muito a atitude de alguns brasileiros com relação aos Estados Unidos. Vivem dizendo que “se fosse nos Estados Unidos não seria assim”, “lá as coisas funcionam”, “lá as pessoas são sérias”… Eu vivi lá e pude ver de perto e sentir na pele que não, não é nada disso…

Talvez se o moçambicano notar o seu valor, as suas cidades bonitas e a sua terra fértil, consiga fazer com que tudo isso seja igual ou melhor do que o que está no vizinho. Falta se perceber capaz, se valorizar e não se deixar abalar por uma fronteira. O mesmo moçambicano que passa o dia na África do Sul sem fazer xixi na rua, o faz quando chega em Maputo. Por quê? Porque “aqui é assim mesmo”. E se cada um resolver que não quer mais que seja?


Obs.: escrevendo este texto, lembrei de um outro, muito bom, escrito pelo Guilherme alguns meses atrás no Na ponta do lápis, chamado Miragem, e da Carta aberta a todo moçambicano e moçambicana, do ‘nando Aidos, publicada aqui no Mosanblog.

Tambores do mundo em Maputo

Ritmo e tambor são duas palavras que sempre relaciono com África. Depois de viver aqui e de tantas Quintas Quentes, então, isso nunca poderá ser de outra forma. E parece que não sou só eu que penso assim. Um documentário que será lançado na quinta-feira, dia 15 de setembro, chamado Tambores, faz uma incrível viagem musical por seis países, apresentando os ritmos de seus tambores. O continente africano é o mais representado no filme: Moçambique e Zâmbia. O documentário viaja também pelo Brasil, China, Catar e Portugal.

O vídeo foi produzido e idealizado pela Cinevídeo, em parceria com a Cine Internacional — a filial da Cinevídeo no continente africano — e mostra que a percussão está presente em diversos momentos em muitas culturas: homenagem a ancestrais, passagem de ano, luto, culto aos deuses, nascimento e os mais diversos rituais. O canto e a dança de muitas comunidades são marcados pelo compasso forte do tambor, que em cada região do mundo tem um significado próprio.

Chaisson e primo

Chaisson (direita) com um primo

No documentário, o tambor moçambicano é representado por Chaisson Meja, jovem que perdeu sua mãe quando tinha apenas um mês, vítima da guerra civil. Desde pequeno ele teve a vida conectada com o tambor pela influência de seu avô, que fabricava o instrumento, e de seu tio, músico.

Quem está em Maputo poderá ter acesso ao lançamento internacional deste vídeo e conhecer as histórias dos tambores dos outros cinco países. Será, às 18h do dia 15 de setembro, no Centro Cultural Franco Moçambicano, como parte da 6a edição do Festival Dockanema. A entrada é gratuita. Após o filme, os espectadores poderão assistir também apresentação do grupo cultural da Associação de Jovens de Nacala – AJN, que participa do filme e se apresenta em Maputo pela primeira vez.

Vou conferir e depois trago as impressões para aqueles que não estão por aqui ficarem com mais água na boca.

cartaz Tambores

P.S. Clique aqui para ver o vídeo de divulgação do documentário.

Paisagem

Manhã de agosto na fronteira de Namaacha, entre Moçambique e Suazilândia, a 600 metros de altitude.

Fronteira com neblina

Matriarcal e machista?

Falei ontem das letras e clipes de mau gosto do cantor Ziqo e de como ele é admirado pela juventude moçambicana. Seu vídeo clipe é mais um entre tantos exemplos da “coisificação” da mulher, as garotas que participam, provavelmente, nem percebem o que estão a significar e muitas que assistem devem admirá-las.

Escrevi e fiquei pensando o quanto as pessoas aqui em Maputo são machistas. A questão da violência doméstica contra a mulher, da obrigação de parir, cuidar dos filhos, trabalhar para trazer dinheiro para casa e ainda cuidar da casa, a famosa jornada dupla onde maridos que dividem as tarefas de casa são vistos como fracos. (No Brasil, pelo menos, já estamos no estágio em que eles até se vangloriam de dizer que “ajudam” a mulher. Como se houvesse uma obrigação dela cuidar da casa. Mas o machismo do Brasil é assunto para outro blog. Aqui, falamos de Moçambique.)

Enfim, pensando em tudo isso, me vi espantada com a contradição, porque sempre eu ouvia falar da importância das culturas matriarcais em Moçambique. Então, espera aí: uma cultura de matriarcado permitiria desvalorização tão grande das mulheres?

Antes de continuar, já logo aviso que não sou especialista nas questões de gênero, nem tão pouco em sociologia, mas analiso o mundo à minha volta, penso e chego a conclusões. Quero apenas dividir meus pensamentos e encontrar novas opiniões. Então, não esperem ler aqui nenhuma tese de mestrado, mas apenas minha opinião a respeito do que encontro no meu caminho.

Voltando à minha reflexão, resolvi pesquisar um pouco para entender onde foi que se perdeu essa cultura de matriarcado. Afinal, não é nada parecido com isso que eu vejo aqui em Maputo. Eis que, mais uma vez, me deparo com o horror da colonização. No post Povos x nações observei que as fronteiras como estão determinadas hoje fazem com que em um mesmo espaço geográfico, determinado por guerras e acordos da humanidade, haja mais de um povo, assim como há povos divididos em mais de uma nação.

A África teve reinos e cidades-estados com registro histórico há mais de cinco mil anos. No entanto, os donos do mundo do momento (Bélgica, França, Alemanha, Grã-Bretanha, Itália, Portugal e Espanha), no século passado, acharam que podiam (e podiam, tanto que assim o fizeram) dividir o mundo e as pessoas que nele habitam de acordo com seus interesses. Tribos, reinos e países foram divididos ou anexados para contemplar interesses comerciais dessas ditas potências.

Moçambique fez parte disso e hoje é uma colcha de retalhos de culturas. Em texto de Ana Luísa Teixeira sobre a construção sociocultural de ‘gênero’ e ‘raça’ em Moçambique, é possível aprender que as províncias do norte, com predomínio do grupo étnico Macua, e do centro de Moçambique (Tete, Zambézia, Sofala e Manica) são essencialmente matrilineares. Segundo ela, o matriarcado determina que os casais coabitem no terreno herdado pela mulher, e que as crianças mantenham o nome do clã materno. Contrastivamente, nas províncias do sul – Gaza, Inhambane e Maputo – a organização familiar de patriarcado é dominante, fazendo-se a sucessão por linha paterna.

Isso explica minha confusão. Eu tinha aprendido que Moçambique tinha tradição de cultura matriarcal. No entanto, isso representa verdade para uma parte do país. E Maputo não está nessa parte. Está no sul, onde a cultura é oposta.

Acho que Moçambique ficou conhecido por suas sociedades matriarcais, porque os Macuas, etnia mais populosa do país, assim o são. Essa tribo banto era marcada, inclusive, pela poliandria (uma só mulher tem dois ou mais maridos ao mesmo tempo). Devido à catequisação dos missionários católicos, esse aspecto hoje está mudado, mas a dominação da mulher ainda permanece e é ela que escolhe livremente seus parceiros e aponta o rumo para o qual a comunidade vai seguir.

Paulina Chiziane, escritora que trabalha em um programa das Nações Unidas para a promoção da mulher na Zambézia, uma das províncias de Moçambique, em entrevista ao blog Alguma Prosa explica que na Zambézia (e daí para o norte do país) as cidades são marcadamente matriarcais. As mulheres têm voz mais ativa, têm lugar social e têm poder. Por exemplo, o “prazer sexual é um direito importante da mulher e as pessoas falam disso abertamente, nos seus grupos. Convocam a família para expor a situação”. E contrapõe: “Já no sul do país isso acontece pouco. Se o homem é impotente, não tem um desempenho saudável, a mulher tem que suportar, porque ela foi adquirida para isso, para suportar e mais nada”.

A origem dessa diferença, de acordo com ela e reforçando o que já vimos com Ana Luísa Teixeira, está no sistema matriarcal. A partir da Zambézia, caminhando para o norte, todas as regiões são matriarcais. A linhagem é pela via feminina. Quando há um casamento é o homem que se desloca para a família da mulher e lá fica, constrói a família e a casa. No sul, a mulher faz de tudo: penteia-se, pinta-se, faz danças na frente do homem para que ele lhe diga algo. No norte não. A mulher diz ao homem: “gostei de ti, quero casar contigo”, tranqüilamente. Se no sul uma mulher faz isso, recebe os apelidos mais horríveis. No dia seguinte todos falarão mal dessa mulher.

Apesar das regiões patriarcais serem tão machistas, Chiziane destaca que Moçambique é um dos poucos países africanos onde a posição da mulher em termos políticos e em termos sociais, em geral, é boa.

Já é alguma coisa…

Leia a entrevista completa de Paulina Chiziane ao blog Alguma Prosa, aqui.

Veja mais sobre a sociedade Macua no blog Perspectivas.

Veja aqui o texto de Ana Luísa Teixeira, A construção sociocultural de ‘gênero’ e ‘raça’ em Moçambique: continuidade e ruptura nos períodos colonial e póscolonial.

A ONU, o milênio e os objetivos

Em junho de 2010, o Secretário-Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), Ban Ki-moon, afirmou que suas sucessivas visitas ao continente africano serviam para reforçar sua convicção de que a região irá cumprir as Metas do Milênio. Eu não sei se o camarada é muito mal informado ou muito otimista. Mas, vendo a estrutura da ONU na África, tenho a impressão de que é mal informado.

Claro que tem gente fazendo trabalho sério aqui. Claro que tem funcionário da ONU que entende a realidade onde está. Mas não sei se são muitos. O que eu vejo são grandes estruturas, casas bem localizadas, com dezenas de escritórios, computadores, aparelhos de fax e tudo mais que é necessário para mandar os mais bem elaborados relatórios para o sr. Ban. Os funcionários são muito bem pagos e vivem com uma série de regalias (justo, afinal estão vivendo o sacrifício, não é?). Os carros nos quais eles andam, nem vou comentar…

Enquanto isso, a 30 minutos da capital de Moçambique, crianças morrem de fome e comunidades inteiras são dizimadas pela Aids. Há alguns dias, o ministro da saúde de Moçambique, Alexandre Manguele, disse estar envergonhado com a alta taxa de mortalidade materna no país, estimada em 579 mortes por cada 100 mil nascimentos, de acordo com notícia da Agência Lusa.

Para atingir as metas que a ONU estabeleceu para serem alcançadas até esse início de milênio (ano de 2015), o número teria que cair de 579 mulheres mortas para 250. Apesar de Moçambique vir registrando redução contínua nesse índice (sim, era pior!) e da ONU dizer que o país “tem potencial” para atingir a meta, quem conhece a vida real está preocupado. “A realidade é que a mortalidade infantil continua elevada, a mortalidade materna continua a envergonhar-nos, a prevalência da malária e a tuberculose continuam a preocupar-nos. A desnutrição continua a ser o pano de fundo da maioria das doenças na infância”, por isso, “a saúde está longe daquilo que todos desejamos que seja o nosso país”, reconheceu o ministro, em citação da Agência Lusa.

Há um ano atrás, notícia da Agência de Informações de Moçambique informava que complicações de gravidez e parto matam onze mulheres por dia. Estudo divulgado pelo Ministério da Saúde referia ainda que, em cada mil crianças que nascem vivas por ano, 48 morrem, entre os zero e 28 dias de vida, por razões aliadas a problemas ocorridos durante a gravidez e o parto.

Ao trabalhar em diferentes tipos e tamanhos de projetos sociais, aprendi muitas coisas e uma delas é que relatório de trabalho social não é avaliação de escola, onde você sempre tem que ter bom resultado. O mais importante em um projeto social é o relatório ser transparente e realista. Mesmo que isso signifique dizer que todo o trabalho dos últimos meses não resultou em nada ou até a situação está pior. Afinal, só analisando friamente é que se pode intervir da melhor forma, revendo métodos, ferramentas, pessoal e tudo mais que for preciso para levar o projeto para o caminho certo. Mas, infelizmente, acredito que muitos consultores têm medo de assumir que não estão tendo sucesso e acabam por “maquiar” os dados.

Na matéria da Agência Lusa, o ministro da Saúde de Moçambique ainda observa que “a qualidade dos dados (da saúde) em geral é um assunto que merece uma reflexão”. Na verdade, acho que os dados que chegam ao sr. Ban carecem de ser mais realistas. Afinal, o milênio já está aí!

Finalmente, Kruger

No dia que completamos um ano da chegada em Moçambique (que aconteceu em 16/04/2010), fomos ao nosso primeiro safari. Afinal, como era possível estar em África por tanto tempo sem ter feito ainda um safari, não é mesmo?

A expedição foi no Kruger Park, o mais antigo da região e um dos mais famosos do mundo. A reserva foi criada em 1898, pelo então presidente sul-africano Paul Krüger. O parque como se conhece hoje é de 1926 e tem uma área de 20.000 km², entre África do Sul (a oeste e a sul), Moçambique (a leste) e Zimbabwe (a norte). Em seu território vivem os chamados “big five” (cinco grandes animais da região): leão, elefante, rinoceronte, leopardo e búfalo, além de girafas, impalas, hipopótamos e muitos outros. São mais de quinhentas espécies de aves, 112 de répteis e 150 de mamíferos.

Saída de casa às 5h20. Chegada na fronteira pouco depois das 6h. Carimba daqui, carimba dali e saímos de Moçambique. Anda um pouco, carimba daqui, carimba dali e entramos na África do Sul. Às 8 horas entramos no Kruger pelo portão de Malelane.

O passeio não foi com guia, nem em carro do parque. Tem essa possibilidade, mas optamos por ir sozinhos, seguindo as indicações no mapa que o atendente da entrada do parque fez. Para entrarmos três pessoas com carro próprio pagamos ZAR 540,00 (R$ 125,00). Não sei exatamente quanto foi por pessoa e quanto é a taxa do carro.

Lá dentro, há a estrada principal, em asfalto, cuja velocidade máxima é de 50 km/hora, estradas secundárias, de terra, cuja velocidade permitida é 40 km/hora. Mas, muitas vezes, andamos a muito menos que isso, para apreciar melhor os movimentos dos animais.

Logo de início nos impressionamos com a belíssima paisagem. Ao longo do dia entramos por algumas das estradas de terra, quando víamos algo interessante a ser observado. Mas quase todo o tempo nos mantivemos na via principal.

Em pouco tempo já tínhamos visto os famosos impalas (macho com chifre, fêmea sem), que são um dos símbolos do parque.

Macaco com filhote agarrado na barriga, em um restaurante do Krueger

O dia estava fresco, um pouco nublado. Isso fez o passeio ainda mais agradável, porque não tinha o calor africano sobre nós. Perto do meio-dia, pausa para almoçar em uma das áreas de descanso, onde há espaço para acampar, se hospedar em quartos ou bangalôs típicos da região, restaurante, café e loja onde se pode comprar lembranças do parque e artigos de conveniência.

Almoçamos à beira de um rio, onde pudemos apreciar macacos, pássaros e hipopótamos. Após a pausa, voltamos para o carro e seguimos em direção ao portão Crocodile. Não sei se foi o fato da tarde estar fresca, se foi pelo horário ou pelo caminho que fizemos, mas depois do almoço vimos os animais mais interessantes (para mim, pelo menos) e mais ousados. Girafas, zebras, elefantes e macacos literalmente cruzaram nosso caminho.

Elefante derrubando árvore para se alimentar

Zebra vai ao encontro das amigas para almoçar

Pouco depois das 17 horas, passamos pela Crocodile Bridge (ponte do crocodilo) e saímos do parque.

Estrada. Fronteira. Fronteira. Estrada. Antes das 19h estávamos em casa, com a certeza de que o passeio ainda vai se repetir outras vezes.

P.S. No mês de agosto, voltamos ao parque e escrevi o post Outro Kruger.

Nos sites Alma de Viajante e Girafamania é possível ler mais informações sobre o parque e o passeio.

Em matéria do site 360graus.com.br é possível ver um incrível vídeo feito por alguns turistas.

Visite também o site do parque.

Acordo?

Outro dia li a notícia Português ainda não é igual para todos no jornal O País e fiquei surpresa com algumas informações, como, por exemplo, que Angola e Moçambique ainda não ratificaram o novo acordo ortográfico, que visa homogeneizar as diversas formas de escrever português.

Eu bem estava achando estranho o assunto andar tão fora de pauta por aqui. Os textos são todos escritos sem a aplicação do acordo e eu nunca tinha visto nada na mídia sobre o assunto. Até agora só tinha ouvido comentários de alguns amigos sobre o acordo, observando as dificuldades que essa ou aquela mudança podem causar.

Depois de ler a notícia é que entendi porque o assunto está tão fora de pauta. Moçambique sequer reconhece o acordo. Em Cabo Verde parece que a adoção já está em andamento, ainda que classificada na matéria como “devagar”. São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Timor ratificaram mas não iniciaram a aplicação. Apenas o Brasil e Portugal ratificaram e já criaram mecanismos para a implementação.

No Brasil, a nova ortografia entra em vigor no país em 1 de janeiro de 2012. A data é determinada em decreto presidencial de setembro de 2008. Em Portugal, o novo acordo ortográfico entrou em vigor em janeiro de 2009. Mas, até 2015, decorre um período de transição, durante o qual ainda se pode utilizar a grafia atual.

Em entrevista também ao jornal O País, o escritor e jurista Jorge de Oliveira, secretário-geral da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), opina que o parlamento de Moçambique já deveria ter aprovado o acordo ortográfico. Ele vê as novas regras do acordo como pontos que “ajudariam muito a crescer em termos de redacção e simplificação da escrita”. Para Jorge, Moçambique está a ficar para trás.

O ministro da Educação de Moçambique, Zeferino Martins, citado na matéria do jornal O País, afirma que “No momento certo, levaremos o assunto ao Conselho de Ministros e à Assembleia da República para aprovação. O nosso objectivo é que os moçambicanos participem suficientemente no debate”. Mas se não se fomenta o debate? Como é que os moçambicanos participarão?

Acesse aqui um guia rápido para a nova ortografia.