Doce voz guineense

Eneida Marta é uma das referências culturais da Guiné-Bissau radicada em Portugal. Mas não nega sua origem e é hoje uma das vozes africanas mais vibrantes. E mais doces também.

Eneida canta nos ritmos Gumbé, Tina (que é um ritmo e um instrumento da Guiné), Singa, Djanbadon, Afro-beat e em diversas línguas: Mandinga, Fula, Criolo e Português.

Eneida conta com a parceria com o produtor Juca Delgado, uma referência na área musical em Portugual, especialmente em produção de música africana, e já teve colaborações em trabalhos com artistas como Aliu Bari, Rui Mingas, Bonga, Manecas Costa, entre outros.

Seu primeiro álbum foi Nô Storia (Minha história), em 2001. Um ano mais tarde, Eneida lança o segundo trabalho Amari. Em 2006, lançou seu terceiro disco, Lôpe Kai.

Em julho de 2005, Eneida ficou em primeiro lugar na categoria de World Music, em um concurso realizado em Portugal. A canção premiada foi Mindjer Dôlce Mel, que ouvimos agora.

Veja mais sobre a cantora no site Gumbé.

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Acordo?

Outro dia li a notícia Português ainda não é igual para todos no jornal O País e fiquei surpresa com algumas informações, como, por exemplo, que Angola e Moçambique ainda não ratificaram o novo acordo ortográfico, que visa homogeneizar as diversas formas de escrever português.

Eu bem estava achando estranho o assunto andar tão fora de pauta por aqui. Os textos são todos escritos sem a aplicação do acordo e eu nunca tinha visto nada na mídia sobre o assunto. Até agora só tinha ouvido comentários de alguns amigos sobre o acordo, observando as dificuldades que essa ou aquela mudança podem causar.

Depois de ler a notícia é que entendi porque o assunto está tão fora de pauta. Moçambique sequer reconhece o acordo. Em Cabo Verde parece que a adoção já está em andamento, ainda que classificada na matéria como “devagar”. São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Timor ratificaram mas não iniciaram a aplicação. Apenas o Brasil e Portugal ratificaram e já criaram mecanismos para a implementação.

No Brasil, a nova ortografia entra em vigor no país em 1 de janeiro de 2012. A data é determinada em decreto presidencial de setembro de 2008. Em Portugal, o novo acordo ortográfico entrou em vigor em janeiro de 2009. Mas, até 2015, decorre um período de transição, durante o qual ainda se pode utilizar a grafia atual.

Em entrevista também ao jornal O País, o escritor e jurista Jorge de Oliveira, secretário-geral da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), opina que o parlamento de Moçambique já deveria ter aprovado o acordo ortográfico. Ele vê as novas regras do acordo como pontos que “ajudariam muito a crescer em termos de redacção e simplificação da escrita”. Para Jorge, Moçambique está a ficar para trás.

O ministro da Educação de Moçambique, Zeferino Martins, citado na matéria do jornal O País, afirma que “No momento certo, levaremos o assunto ao Conselho de Ministros e à Assembleia da República para aprovação. O nosso objectivo é que os moçambicanos participem suficientemente no debate”. Mas se não se fomenta o debate? Como é que os moçambicanos participarão?

Acesse aqui um guia rápido para a nova ortografia.

Um destaque da Mama Djombo

Outro dia falamos aqui da Orquestra Super Mama Djombo, que fez sucesso na Guiné-Bissau nos anos 1970 e 1980. Hoje, vou descatar um nome da banda, que é um dos mais influentes músicos do país até os dias atuais: Zé Manel.

Baterista e guitarrista desde os sete anos, foi um dos principais nomes da Super Mama Djombo. Desde 1982 tem carreira solo e seu primeiro álbum nesse caminho, Tustumunhos di Aonti, teve repercussão política tão forte que ele precisou sair do país. Ficou inicialmente em Portugal, depois passou um tempo na França, para se fixar mesmo nos Estados Unidos. Foi nesse país que, em 2004, produziu o CD African Citizen, que recebeu o prêmio de melhor álbum e melhor canção do ano na categoria de música africana.

Em 2006 lançou Povo Adormecido, com letras em inglês, francês, português e crioulo, a língua materna da Guiné-Bissau, falada por todas as etnias. O título do CD é uma homenagem ao espírito indomável do povo africano e um desafio a todos, para que ultrapassem as suas limitações, quando confrontados com inúmeras dificuldades.

Apresento aqui uma música que escolhi pela força de sua letra e para mostrar seu lado político, mas aconselho a passearem pelo site oficial do artista, onde é possível conhecer várias músicas, com suas diversas batidas africanas, na parte da discografia.

AFRIKA UNITE

Corruption is a disease (Corrupção é uma doença)
In Afrikan govermment (Nos governos africanos)
Disease (doença)
Is a disease (é uma doença)
Dictatorship is a disease (ditadura é uma doença)
In the Afrikan continent (no continente africano)
Disease (doença)
Is a disease (é uma doença)
Tha’s why we have war (é por isso que temos guerra)
Tha’s why we have starvation (é por isso que temos fome)
That’s why we have instability (é por isso que temos instabilidade)
We gotta unite (temos que nos unir)
There is no other choice (não há outra opção)
We gotta unite (temos que nos unir)
To save the continent (para salvar o continente)
We gotta unite (temos que nos unir)
To save our people (para salvar nossos povos)
Nation of south Afrika (nações do sul da África)
Unite (unai-vos)
Nation of north Afrika (nações do sul da África)
Unite (unai-vos)
Nation of East Afrika (nações do leste da África)
Unite (unai-vos)
Nation of west Afrika (nações do oeste da África)
Unite (unai-vos)
Nation of Central Afrika (nações da África central)
Unite (unai-vos)
Nation of All Afrika (nações de toda a África)
Unite (unai-vos)
War in the North (guerra no norte)
War in the North (guerra no norte)
War in the Southern Afrika, oh (guerra no sul da África)
War in the east (guerra no leste)
War in the east (guerra no leste)
War in the west (guerra no oeste)
War in the west (guerra no oeste)
War in the central Afrika, oh (guerra na África central)
Can somebody help (alguém pode ajudar)
Stop the fighting (a parar com as lutas)

Gravação da Islândia na nossa Quinta Quente

A banda fez história em Guiné-Bissau nas décadas de 1970 e 1980. História e muita música. As letras das músicas refletiam o otimismo político pós-independência, assim como a alegria mesclada com as preocupações do povo naquele momento. Quase todas suas canções tinham letras em crioulo, idioma falado por várias etnias em Guiné-Bissau.

A primeira formação do grupo ficou conhecida como Orquestra Super Mama Djombo e foi dissolvida em 1986. Somente em 2007, seis dos antigos membros do grupo, entre eles Zé Manel, Dulce Neves e Atchutchi, juntaram-se a outros oito músicos guineenses e retomaram a trajetória dos Mama Djombo. E os novos componentes estão à altura do nome que carregam. Agora, o grupo regressa aos palcos, com a nova formação e antigas missões: fazer história e boa música.

O álbum de regresso é chamado Ar Puro e foi produzido na gravadora Smekkleysa, da Islândia. Mas como a quinta é quente não vamos falar de terras frias e sim do calor que passa a música dos Mama Djombo. Aliás, vamos parar de falar e curtir esse som delicioso, que faz o corpo se mexer sozinho.

Abaixo, apresentação da nova formação em TV da Islândia.

Aqui, pela foto, imagino que seja a interpretação da formação original, mas não consegui mais informações a respeito. Se alguém souber, por favor, nos conte.

Leia mais sobre o regresso da banda aos palcos aqui e aqui. Na página 17 da edição eletrônica da revista Parq, você encontra a história da primeira gravação após tantos anos.

David indica para a Quinta Quente no Quinto

Que o meu amigo David Borges é um artista musical, todo mundo sabe. Bom, se você não faz parte desse todo ou desse mundo, pode passar a fazer, lendo esse texto, que foi, aliás, o lançamento da categoria Quinta Quente no Quinto no Mosanblog.

Agora devo acrescentar que é artista modesto. Observem que no post da Quinta Quente no Quinto da semana passada, quando falei de Manecas Costa, ele comentou: “Eu toquei com o Manecas um par de vezes em Lisboa”.

Como assim???? Tocou com Manecas Costa um par de vezes e vem dizer isso dessa forma, tão “en passant“?

Se isso aqui não fosse público eu soltava agora mesmo um palavrão. Daqueles positivos, de surpresa boa. “Meu amigo é… (espaço para a criatividade do leitor)!”

E quando comentou assim, como se nada fosse, que tocou “um par de vezes com Manecas Costa”, David sugeriu que eu procurasse o som da Tabanka Djaz.

E eu, como não podia deixar de ser diante de tamanho êxtase: “Sim, meu amo e senhor, sigo seus passos e suas indicações”.

E não é que é coisa boa mesmo? Então, trago hoje para vocês, Tabanka Djaz.

Na pesquisa que fiz descobri que esta é uma das bandas mais influentes da África lusófona (será que o David já tocou com eles também?). São oriundos da Guiné-Bissau, como Manecas Costa e como David. Olha o poder de Guiné-Bissau no mundo da música!

A banda foi formada em 1989, quando os irmãos Micas, Juvenal e José Carlos Cabral reuniram-se com Aguinaldo Pina e Rui Silva. Depois disso, o grupo teve várias formações, com substituições de músicos pelos mais diversos motivos, mas a essência permanece: grande influência dos mais diversos estilos tradicionais guineenses e tropicais, principalmente o Gumbé — ritmo urbano, da região de Bissau, executado por instrumentos tradicionais. Hoje, os Tabanka Djaz ainda tocam o estilo guineense, mas modernizado, o que permitiu conquistar mercado internacional.

Esse mercado incluiu o Brasil. Em 1999, foram convidados por Martinho da Vila, para participarem no projeto Lusofonia.

Bom, mas chega de escrever e vamos ao que interessa nas quintas-feiras: “Maestro, música.”

Se quiser mais, tem uma entrevista interessante dos Tabanka Djaz, divulgada em abril desse ano, aqui.

E, voltando ao David, não deixem de visitar o blog Kaleidoskope Art, onde ele faz uma proposta realmente de quem tem alma de artista. Visitem e participem!

Vamos a Guiné-Bissau

Cantor, compositor e guitarrista, Manecas Costa é uma das vozes mais expressivas de Guiné-Bissau, país que fica ali do outro lado da África, a mais de 10 mil quilômetros de Maputo, como se vê no mapa abaixo:

países lusófonos na África

A música de Manecas Costa está fortemente ligada às tradições de sua terra, mas não nega, ao mesmo tempo, influências contemporâneas de várias partes do mundo. A canção Ermons di Terra, em estilo gumbé, mostra o som puramente guineense, com o tambor d’água a acompanhar a belíssima interpretação de Manecas Costa e sua guitarra. Em suas palavas, o gumbé “é a forma de todas as etnias da Guiné-Bissau se encontrarem. Está para a Guiné-Bissau como o reggae para a Jamaica“. O tambor d’água, como ele explica no início do vídeo abaixo, está para os guineenses como o tamborim está para os brasileiros. E observem no vídeo que é um instrumento dentro da água mesmo, literalmente. Muito interessante. Aqui, Manecas em uma apresentação que fez em São Paulo.

Published in: on 19/08/2010 at 07:36  Comments (4)  
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