CFM entre as mais bonitas do mundo

O prédio que abriga os Caminhos de Ferro de Moçambique em Maputo foi escolhido entre as mais bonitas estações de trem do mundo pela revista Travel+Leisure, de acordo com matéria divulgada no blog Moçambique para todos.

A estação moçambicana foi inaugurada em 1910 e hoje figura na lista das mais belas do mundo ao lado da St. Pancras, em Londres; Sirkeci, em Istambul; Atocha, em Madrid; Estação Central de Antuérpia, na Bélgica; Southern Cross Station, em Melbourne; United Station, em Los Angeles; Penn Station, de Nova Iorque; Michigan Central Station, de Detroit; entre outras.

Fachada da Estação Central dos Caminhos de Ferro de Moçcambique, em Maputo

Estação central de Maputo, na Praça dos Trabalhadores, no início da avenida Guerra Popular

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Cervejas de Moçambique

Já faz um tempo que eu tenho pensado em escrever um post sobre as cervejas moçambicanas. Agora, um evento publicitário desta semana me faz trazer o assunto imediatamente. Primeiro devo explicar que Moçambique tem duas marcas de cerveja produzidas comercialmente em larga escala. Ambas pela empresa Cervejas de Moçambique.

Uma delas é a Laurentina, de sabor quase nostálgico, graças a este nome que homenageia a antiga capital de Moçambique no tempo colonial, Lourenço Marques. Produzida desde 1932, ela tem recentemente a Laurentina Premium, que recebeu, em 2009, a medalha Grande Ouro no concurso internacional de qualidade Monde Selection, realizado na Bélgica. Em 2008, a Laurentina Preta já tinha obtido a medalha de ouro do mesmo instituto europeu, que realiza anualmente concurso de qualidade de produtos do mundo inteiro.

Garrafa 2MA outra marca é a 2M, nome em homenagem ao conde de Mac-Mahon que, quando presidente de França, em 1875, decidiu a favor de Portugal numa disputa com a Grã-Bretanha relativa à posse da região sul de Moçambique. Eu, particularmente, gosto mais da 2M. O que não significa nada, porque não sou nem de longe uma grande cervejeira.

O curioso é as duas manterem nomes do tempo da colônia (literalmente), quando quase todas as nomenclaturas do país foram alteradas. A começar pelo próprio nome da capital, Lourenço Marques, que inspirou a Laurentina e hoje chama-se Maputo.

Essa é a história que eu vinha guardando para contar dia desses. Mas eis que o pessoal da publicidade da Laurentina Preta me saiu com uma essa semana… que não dá para deixar passar.

Publicidade Laurentina preta

A propaganda está, em forma de outdoor, em diversos pontos da cidade. Propaganda apelativa assim e de mau gosto não costuma ser comum por aqui. A publicidade moçambicana é fraca, mas tem lá sua ética…

E isso acontece justamente durante os Jogos Africanos, quando visitantes de toda a África estão no país. A Liga dos Direitos Humanos e o Fórum Mulher logo se posicionaram contra, pedindo a imediata retirada dos anúncios em todos os espaços públicos.

Em matéria no jornal Fala Moçambique da TV Miramar, nesta terça-feira, ouviram o povo nas ruas e um garotinho de uns dez anos falou sobre o que achava do outdoor: “acho que se uma mulher sair assim na rua, as pessoas não vão gostar”.

Em entrevista coletiva, o representante da empresa ainda piorou as coisas. Explicou que a publicidade usa a palavra preta porque é como a cerveja é conhecida e “ficou de boa para melhor” porque o novo formato da garrafa é “melhor de pegar”.

Sabe aqueles momentos que é melhor não tentar explicar, porque só vai te complicar? Esse é um deles, Laurentina…

Veja mais sobre a repercussão negativa da publicidade, no blog Moçambique para todos.

P.S.: No dia seguinte à publicação desse texto, li a notícia da Rádio Moçambique de que a empresa decidiu retirar todo o material da campanha do ar. Veja aqui.

Apesar da lista

Tem alguns assuntos que entram em pauta, vão embora, depois voltam… ficam nos rodeando, até que não dá para não falar. O do sr. Bachir é um deles. A história começou há mais de um ano. O gajo em questão, Mohamed Bachir Suleman, foi citado em uma lista divulgada pelos Estados Unidos em junho de 2010 como narcotraficante de grande escala. Cidadão moçambicano, por aqui ele é oficialmente empresário — presidente do grupo MBS — e apoiador da Frelimo.

Bachir negou, claro, qualquer envolvimento com o narcotráfico. O governo moçambicano disse que faria sua própria investigação. Esta semana, a Procuradoria Geral da República de Moçambique informou que, após averiguações, não foram encontrados indícios suficientes da prática de atos que “consubstanciem o tráfico de estupefacientes ou substâncias psicotrópicas pelo referido cidadão”.

A embaixada dos EUA em Maputo mantém a posição de que há “evidências suficientes” para considerar o empresário moçambicano Mohamed Bachir Suleman “barão de droga”. Em comunicado, a representação diplomática norte-americana diz que as violações fiscais e aduaneiras encontradas nas atividades do grupo empresarial de Mohamed Bachir Suleman “em muitos casos servem como base para investigações de tráfico de estupefacientes e outros” atos ilegais, de acordo com notícia da agência Lusa, divulgada no blog Moçambique para todos.

Enfim, é um diz que diz que não vale a pena entrar no mérito, porque apesar de, nas ruas, todos concordarem com a grande possibilidade da acusação ser verdadeira, provas não há.

Mas resolvi entrar na história para contar uma situação inusitada que se criou a partir dessa acusação. O Bachir é dono do Maputo Shopping e do mercado Hiper Maputo que se encontra no mesmo shopping. Quando o governo dos Estados Unidos divulgou seu nome como possível narcotraficante, algumas empresas optaram por não mais ter relacionamento com o camarada, até que a situação se esclarecesse. Em menos de um mês, dois bancos (Millenium bim e Barclays) que tinham agências no shopping, saíram.

Além disso, a rede de cartões Visa (única presente no país) também tomou sua posição: tirou as máquinas do Hiper Maputo, impedindo assim que fossem aceitos pagamentos em cartão de crédito ou débito. Quando isso aconteceu, foram afixados avisos no mercado de que, por uma “avaria grave no sistema”, não estava sendo aceito cartão no estabelecimento. Pagamentos só em dinheiro.

Todo mundo sabia do que se tratava a avaria grave no sistema. Ficou até ridículo o aviso. Mas fato é que mais de um ano se passou, o aviso da avaria grave continua lá, as pessoas continuam comprando no mercado e não me consta que o sr. Bachir esteja mais pobre ou muito preocupado com as listas que se divulgam por aí com seu nome.

Veja mais sobre o caso Bachir no jornal O País e no Moçambique para todos.

Abertura dos X Jogos Africanos

Começam hoje, 3 de setembro, os Jogos Africanos em Moçambique. A abertura está marcada para 18h e terá transmissão ao vivo (em directo, como dizem aqui) pela TVM (Televisão de Moçambique). As outras emissoras também devem passar alguns momentos.

Como todo evento desse tipo, há uma canção feita sob encomenda. Informaram os mais especialistas do que eu que a melodia é genuinamente moçambicana. A letra foi escrita pelo Mia Couto. A composição instrumental e os arranjos levam assinatura de Roberto Xitsondzo, Ziqo e Hortêncio Langa, com direção musical de Roberto Xitsondzo. Os vocalistas são Roberto Xitsondzo, Júlia Duarte, Júlia Mwitu e Ziqo, com acompanhamento de membros do Majescoral.

Vamos ouvir aqui, a Canção dos X Jogos Africanos – Maputo 2011.

Confesso que a canção me decepcionou. Pelo menos não me fez mexer tanto na cadeira como costuma fazer a música moçambicana que tenho ouvido. Além disso, apesar de eu costumeiramente gostar de tudo que tem o toque do Mia Couto, ele que me desculpe, mas falar em “futuro em paz” e exaltar a unidade nacional com o “campeões somos todos nós” é usar a canção de um evento nacional e não partidário para contribuir com a Frelimo a superar o momento delicado que está vivendo de ameaças da Renamo contra a paz aparentemente reinante.

Eu sei que como militante do partido, não dá para uma pessoa pensar: agora vou escrever uma música e deixar de ser militante por meia hora, depois volto ao estado normal. Sei também que essa nunca é a intenção de um militante de raiz, como é o caso do Mia, e menos ainda do partido no qual ele milita. Mas, para mim, soou forçado e desnecessário.

Veja mais sobre a canção, em notícia divulgada no Moçambique para todos.

Conheça também o site oficial dos jogos.

Ser escritor em Moçambique

O Mia Couto é hoje o mais bem conceituado escritor moçambicano. Eu já revelei minha admiração por ele aqui, no post Quanto melhor, mais simples.

Para além de ser um grande escritor e ótima pessoa, Mia sempre rende boas histórias. Entrevista sua é deleite na certa. Transcrevo abaixo trecho de uma resposta que ele deu em entrevista aos alunos do 3º ano do Ensino Médio do Colégio São Luís, em São Paulo, transcrita por Marina Azaredo e divulgada no blog Moçambique para todos.

À pergunta como é ser escritor em Moçambique, Mia respondeu: “Vou contar um pequeno episódio que pode ajudar a responder a essa questão. Um dia eu estava a chegar a casa e já estava escuro, já eram umas seis da tarde. Havia um menino sentado no muro à minha espera. Quando cheguei, ele se apresentou, mas estava com uma mão atrás das costas. Eu senti medo e a primeira coisa que pensei é que aquele menino ia me assaltar. Pareceu quase cruel pensar que no mundo que vivemos hoje nós podemos ter medo de uma criança de dez anos, que era a idade daquele menino. Então ele mostrou o que estava a esconder. Era um livro, um livro meu. Ele mostrou o livro e disse: “Eu vim aqui devolver uma coisa que você deve ter perdido”. Então ele explicou a história. Disse que estava no átrio de uma escola, onde vendia amendoins, e de repente viu uma estudante a entrar na escola com esse livro. Na capa do livro, havia uma foto minha e ele reconheceu-me. Então pensou: “Essa moça roubou o livro daquele fulano”. Porque como eu apareço na televisão, as pessoas conhecem-me. Então ele perguntou: Esse livro que você tem não é do Mia Couto?”. E ela respondeu: “Sim, é do Mia Couto”. Então ele pegou o livro da menina e fugiu.”

Mia é isso. É uma capacidade de ser leve para falar das coisas difíceis que vê e uma perspicácia admirável para saber falar de um mundo desconhecido a platéias de todo canto. Só ele poderia contar assim a relação dos moçambicanos com o livro, que é algo caro, inacessível para a maioria e ainda muito novo…

Sugiro a leitura da entrevista completa no texto Onze perguntas de crianças para Mia Couto e uma entrevista inspiradora feitas numa escola brasileira.

Revolução pacífica

Há alguns dias, Afonso Dhlakama, presidente da Renamo (Resistência Nacional Moçambicana), principal partido de oposição ao governo de Moçambique, passou a ganhar mais espaço nos jornais do país, ao apresentar proposta de reagrupar seus antigos guerrilheiros desmobilizados em um quartel-general em Cabo Delgado. Em seguida, a Renamo voltou a falar sobre organização de manifestações em todo o país. A promessa de tais manifestações foi feita inicialmente logo após as eleições gerais de 2009 e seriam protestos contra alegadas fraudes nas eleições.

As manifestações e o reagrupamento dos guerrilheiros fazem parte de uma revolução que está sendo incitada por Dhlakama. Note-se que o líder da oposição chama a ação de revolução pacífica. Peço que me explique quem puder, em que português é possível ter sentido a expressão “revolução pacífica”. E se vai ser pacífica, para que é preciso então, os ex-guerrilheiros serem aquartelados para “assegurar a defesa dos cidadãos que decidam aderir”, como afirmou o porta-voz da Renamo, Fernando Mazanga, em entrevista à Voz da América. Aliás, o mesmo porta-voz afirmou ainda que o partido possui armas de fogo, que serão disponibilizadas aos guerrilheiros aquartelados. Pacífica…

Segundo a Renamo, a ação é resultado da insatisfação dos antigos guerrilheiros com a atual situação do país e incumprimento, por parte da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), do acordo geral de paz, especialmente, no que diz respeito à formação do exército nacional. O objetivo é que até o final do ano corrente o partido no poder promova uma transição gradual e a Renamo assuma o governo.

Vale observar que a Renamo surgiu como dissidência da Frelimo, após a independência de Moçambique. A Frelimo era partido único e governava o novo país. Então, Renamo e Frelimo protagonizaram uma guerra civil, que durou 16 anos, terminando em 1992.

Note-se também que até as ondas do Pacífico sabem que eleição por aqui é assunto obscuro. Sempre se diz que há muita confusão nas eleições, que talvez o resultado fosse mais apertado do que foi nas últimas eleições e há quem fale até que a Frelimo tem apoio de organismos internacionais e por isso está aí. Tratei sobre o tema no post Democracias.

Mas, é preciso dizer que, inclusive para agradar os tais organismos internacionais, o governo atual tem feito algumas alterações nas regras da dinâmica eleitoral, visando dar mais transparência e domonstrar lisura no processo.

Agora, uma coisa (a confusão nas últimas eleições) não pode justificar a outra (chamado à revolução, ainda que com a capa de “pacífico”). Seja lá como for, Moçambique é um estado de direito democrático, há liberdade de expressão e há meios verdadeiramente pacíficos de se mudar uma situação que desagrade à grande massa da população.

Claro está que esses meios dão muito mais trabalho. O pensamento das lideranças de oposição tem que ser muito elaborado. As ações e declarações têm que ser mais assertivas e menos espalhafatosas. Nem sempre se está disposto a tanto.

Na mais recente edição do jornal Domingo (7 de agosto de 2011), o editorial bateu de forma certeira em alguns pontos que devem ter destaque nesse enredo todo: “A construção democrática do Estado exige um repensamento contínuo e uma organização em função do bem comum, com leis que criem condições para que a parte má do ser humano nunca consiga arvorar-se em sistema jurídico, privilegiando os egoísmos castradores do desenvolvimento do povo em cidadania”.

Afirma ainda o editorial que, no país, “o incitamento à guerra, à violência, é crime e deve ser reprimido como tal. Afonso Dhlakama privilegia o caminho da violência e da guerra, para conseguir chegar ao poder”. Mas o texto logo observa, talvez para tranqüilizar o leitor, que “dada a sua personalidade, há a tendência generalizada para o não levar a sério”.

Sendo levado a sério ou não, o que se sabe, e o editorial confirma é que “Dhlakama virou agitador, ameaçando, publicamente, dar tiros na cabeça aos polícias que contrariem os seus intentos belicistas”. No editorial, o veículo de comunicação defende que Dhlakama seja chamado à ordem enquanto é tempo. “Não por contestar o regime, não por advogar a sua reestruturação, mesmo a sua destruição, direito que lhe assiste, mas por advogar tudo isso com recurso à guerra.

E sugere: “Que crie jornais, que ponha de pé estações de rádio e televisão. Que se bata, com denodo, informando o povo, que privilegie o conhecimento que é o substracto da liberdade e da construção do Estado. Será o povo informado a pronunciar-se”.

Concordo plenamente com a sugestão do Domingo. Mas, conforme escrevi no post já aqui citado Democracias, não sei se a oposição em questão tem habilidade política e intelectual para tanto. Como já observei, esta via dá mais trabalho e exige capacidade intelectual mais elaborada do que a que temos visto.

Veja mais sobre o reagrupamento de antigos guerrilheiros, em notícia do Moçambique para todos.

Mafalala

Domingo nublado em Maputo, aproveitamos para fazer um passeio a pé pelo bairro da Mafalala. O bairro é um centro de cultura e história de Moçambique e lá viveram personagens importantes do país, como os presidentes Samora Machel e Joaquim Chissano, o jogador de futebol Eusébio, músicos e outros artistas como Wazimbo e Tabasile.

O bairro é historicamente o ponto de convergência dos moçambicanos que vêm das províncias para a capital. Por isso, é uma mistura das diferentes culturas dos mais diversos povos do país. É um lugar colorido, que transpira cultura e diversidade, de forma tranquila e harmônica.

Mas não foi sempre assim. Na época da colônia (devo ressaltar que isso não tem 40 anos), os moçambicanos não podiam transitar livremente. Viviam confinados na Mafalala e para ir a outros pontos da então Lourenço Marques (hoje Maputo), tinham que ter autorização. “Só podiam sair os que tinham a autorização para o trabalho”, explica o guia Samuel.

Sim, o passeio é acompanhado por guias. No nosso caso foram o Samuel e a Lourdes. O bairro é muito grande. Hoje tem mais de 21 mil habitantes — vale observar que cerca de 45% estão desempregados. As ruas são estreitas e labirínticas. Sozinhos nos perderíamos e não conseguiríamos encontrar os pontos importantes, uma vez que não estão identificados.

E os guias são relevantes, porque eles é que nos nos dão a história do lugar. Não basta ver, tem que se saber o que se passou por lá. Por essas ruas labirínticas, por exemplo, quando o dia começava a escurecer passavam cavalos treinados e, em cima deles, homens da polícia da colônia com correntes de ferro nas mãos iam jogando as correntes de um lado para outro, para atingir quem estivesse no caminho. Era o delicado toque de recolher do colonizador.

Lá não se podia manifestar religião ou cultura que não fosse a assimilada pelos católicos portugueses. Então, mesquitas eram camufladas como casas comuns. A Massjid Baraza era uma delas. Existia desde 1928, mas só após a independência pôde receber as inscrições no exterior que a identificam. Hoje o bairro tem mais quatro mesquitas e uma Igreja Mundial do Poder de Deus.

Também nos contaram que no bairro da Mafalala começaram as primeiras conversas sobre a independência e formação da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique).

Esta casa era ponto de encontro dos revolucionários que discutiam a independência de Moçambique

E por falar em conversa, uma herança do colonizador por lá é a língua portuguesa. Por receber pessoas de diversas etnias de Moçambique, o português acaba por ser a língua de ligação entre os vizinhos na Mafalala.

Essa diversidade étnica do local nos permitiu conhecer, por exemplo, a dança tufo, que vem das províncias de Nampula e Cabo Delgado, no extremo norte do país. O tour acabou com uma bonita apresentação das mulheres de Nampula. Pelo que li no site Moçambique Tradicional, a dança foi introduzida no país por meio da presença do Sultanato de Angoche, que fazia comércio de especiarias e escravos por essa rota. É resultado da fusão cultural entre árabes e os povos moçambicanos kotis e macua. A dança Tufo é dançada apenas por mulheres, bem trajadas, de forma muito tradicional, acompanhadas por percussionistas. O rosto coberto por Mussiro (massa branca e espessa, resultante do friccionamento do caule da árvore Muciro em pedra). As letras retratam a vida cotidiana e a beleza do lugar onde vivem.

Na visita, vimos também a dança da mesma origem conhecida como dança da corda, uma dança de lazer que tradicionalmente é praticada pelas jovens, para demonstrar sua agilidade e talento corporal, enquanto são apreciadas por seus pretendentes. Faz parte do rito de iniciação das mulheres.

Veja abaixo dois pequenos vídeos que fiz na Mafalala, durante a apresentação cultural.

Veja a localização da Mafalala na Wikimapia.

E leia mais no Moçambique para Todos.

Visite também o site da empresa Mapiko Tours, que organiza a visita à Mafalala. Apesar do site indicar o preço de US$ 35, pagamos US$ 22,50. Taí, uma vez mulungo tinha que se dar bem! rsrsrs.

Não temos mais Malangatana

– Tem um Malangatana aí?
– Infelizmente, não temos mais.

Houve um tempo que havia a nota de cinco mil meticais em Moçambique. Essa nota foi desenhada pelo famoso pintor Malangatana, um ícone da cultura moçambicana. As pessoas nas ruas quando queriam saber se a outra tinha dinheiro referiam-se ao nome do artista. A história me foi contada hoje, pelo apresentador de televisão Gabriel Júnior, ao relembrar os vários momentos da vida de Malangatana, que faleceu nesta quarta-feira, 5 de janeiro de 2011, às 3h30, em Portugal.

Malangatana Valente Ngwenya nasceu no distrito de Marracuene, ao lado de Lourenço Marques, hoje Maputo. Seus primeiros quadros foram vendidos na década de 60. Estudos formais, fez só até a terceira série. Aos 11 anos já começou a trabalhar.

Artista completo, fez cerâmica, tapeçaria, gravura e escultura, foi poeta, ator, dançarino e músico. Mas foi pelas pinturas que ficou mais conhecido. Foi nomeado Artista pela Paz, pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).

Chegou a ficar 18 meses preso pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado), acusado de pertencer à Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique). Foi libertado por não se conseguir provar vínculo à resistência colonial.

Mas a sua ligação com o momento político do país sempre foi clara, tornou-se famoso mundo afora justamente pelos retratos que fez da guerra pela independência em Moçambique. Em suas pinturas, até o fim, retratou o cotidiano e muitos rostos. Às vezes tristes, às vezes alegres. Sempre com cor, muita cor.

Moçambique respira Malangatana

Em Maputo, sua arte está em todo canto. Nas paredes Ministério do Interior, nas instalações da Unesco e em grandes painéis do Museu de História Natural, como vemos nas fotos tiradas durante visita que eu e o Eduardo Castro fizemos.

Painel de Malangatana no Museu de História Natural a

rostos de Malangatana no Museu de História Natural

Veja mais no ElefanteNews, na Agência Brasil, no site Lux.pt e no Moçambique para Todos.

Mariza

Uma fadista portuguesa? Que relação com a nossa Quinta Quente ela tem? Primeiro, nasceu em Maputo, ou melhor, quando nasceu ainda era Lourenço Marques. Segundo, nasceu no dia de hoje. Então, a Quinta Quente dá os parabéns à nova diva do fado nascida em Moçambique aos 16 de dezembro de 1973.

Nasceu no hospital de Lourenço Marques (hoje hospital Central de Maputo), prematura, aos seis meses e meio de gestação e, ainda pequena, era carregada às costas da maneira tradicional, com uma capulana amarrada. No entanto, aos três anos de idade saiu de Moçambique e voltou apenas aos 18 anos, não tendo lembrança nenhuma do país.

Eu a conheci há alguns anos, em Brasília, em um evento da Embaixada de Portugal no Brasil, e ela estava, como sempre se apresenta, com longos vestidos escuros a cobrir seu corpo esguio de 1,79 m, deixando à mostra apenas sua cabeça de cabelos claros, muito claros e muito curtos. Em algumas apresentações se pode ver também seus braços longos descobertos.

Devo confessar que fado não é exatamente o estilo musical que mais me empolga. Diz-se que o fado fala de sentimentos profundos da alma e faz chorar as guitarras. Talvez o que não me empolgue é justamente toda essa tristeza, que faz chorar até as guitarras. Mas o que está em questão nessa Quinta Quente não é o gênero musical, mas a artista.

Fado ou não, Mariza tem uma voz maravilhosa, firme, segura, afinada e forte. E tem uma dicção muito clara, qualidade rara nos nossos amigos portugueses. Ou seja, o que lhe sai da boca nos cai bem aos ouvidos. E ela tem ainda a capacidade de dar novos ares ao fado, ares mais modernos, sem perder a tradição. Como é isso? Só ouvindo… Ela incorporou o batuque ao fado e chama a isso o Fado da Mariza. “O fado de Mariza não tem nada a ver com as lacrimejantes e lamúrias do fado clássico. É uma nova forma de cantar, alegre e menos nostálgico, em que Mariza incorpora rasgos e rufares de tambor típico de Moçambique, terra que a viu nascer em 1973. É uma espécie de reforma ao fado tradicional, com a introdução da percussão”, explica o blog Moçambique para Todos.

A prova de que suas inovações são bem aceitas são os inúmeros prêmios que já recebeu, como First Award – Most Outstanding Performance, no Festival de Verão do Quebeque, em 2002; Melhor Artista Européia na área de World Music, pela BBC Radio 3, também em 2002; distinção da crítica alemã com a Deutscheschalplatten, em 2003; 6º lugar no Top Billboard de World Music, também em 2003; Personalidade do Ano 2003, em Portugal; European Border Breakers Award, em 2004, entre outros.

Vamos ouvir aqui Rosa Branca:

De Rosa ao peito na roda
Eu bailei com quem calhou (2x)

Tantas voltas dei bailando
Que a rosa se desfolhou (2x)

Quem tem, quem tem
Amor a seu jeito
Colha a rosa branca
Ponha a rosa ao peito (2x)

Ó roseira, roseirinha
Roseira do meu jardim (2x)

Se de rosas gostas tanto
Porque não gostas de mim? (2x)

Quem tem, quem tem
Amor a seu jeito
Colha a rosa branca
Ponha a rosa ao peito (6x)

Colha a rosa branca
Ponha a rosa ao peito (2x)

Conheça o site oficial da cantora.

E veja outros vídeos dela que estão disponíveis no YouTube.

Mais sobre Mariza:
Mariza: “O fado é uma alma despida: chora, tem feridas, dói”, entrevista onde ela fala sobre sua relação com Moçambique.

biografia.

– Notícia do Moçambique para Todos, em 2006, quando ela fez uma apresentação em Maputo.

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