Dança do caniço na Suazilândia

Para este texto realmente ter efeito, vou tentar, ao máximo, me despir dos meus preconceitos, julgamentos, avaliações e contar apenas o que vi. Deixo que cada um que leia tenha a sua impressão, sem ser induzido a nenhuma. Vamos ver se consigo ser tão isenta quando gostaria…

Domingo fomos à Suazilândia assistir a um ritual tradicional do reino, que é a única monarquia absolutista da África. O ritual que fomos assistir é chamado Umhlanga ou Reed Dance (dança do caniço). Ele acontece sempre no fim de agosto ou começo de setembro de cada ano e é um momento no qual o rei pode escolher uma nova esposa.

As jovens virgens do país são todas reunidas, em um evento que dura oito dias e envolve muita energia e dedicação. Os objetivos da cerimônia são: preservar a castidade das jovens e incentivar a solidariedade por meio do trabalho conjunto.

No primeiro dia, as garotas chegam na casa da rainha mãe (que vai ser a sogra da escolhida) e são registradas. No segundo, são separadas em dois grupos: as mais velhas (14 a 22 anos) e as mais novas (8 a 13 anos). À tarde, elas caminham em busca de caniços. As mais velhas chegam a caminhar 30 quilômetros em busca dos mais bonitos. No terceiro dia elas cortam os caniços com longas facas (cada uma costuma pegar entre dez e vinte) e montam seu feixe. No quarto dia caminham de volta para a casa da rainha mãe, carregando seus feixes de caniço. No quinto dia as jovens arrumam seus cabelos e roupas para a apresentação ao rei. O sexto dia é o primeiro dia de dança. Foi esse o dia que presenciamos.

Chegamos pouco depois das onze da manhã aos jardins da Ludzidzini Royal Residence (a casa da mãe do rei), que fica no vale de Ezulwini, há aproximadamente 30 quilômetros do capital, Mbabane. Para entrar, não é preciso pagar nada. Mulheres devem estar vestindo saias. Mas, se alguma desavisada chegar trajando calças, há barracas logo antes do portão de entrada, onde se vende capulanas. Os homens não podem estar com chapéus, bonés, gorros, nada na cabeça.

Quando chegamos, as garotas estavam saindo das barracas onde tinham passado a manhã se arrumando…

jovens saindo das barracas

Então, elas pegaram seus feixes de caniço e começaram a dançar pelos jardins da residência real. Todas com os seios descobertos e saias curtas.

jovens passam em frente à casa da rainha mãe

Ao fundo, a casa da mãe do rei

No vídeo abaixo, um pouco da dança. Como apurou o repórter Eduardo Castro, elas cantam em zulu, dizendo que são puras.

As meninas chegam a milhares e são divididas em grupos. Cada um tem sua coreografia e roupa típica, como podemos ver nas fotos abaixo.

grupo de meninas 1

grupo 2

grupo 3

Sandra em frente a um dos grupos

Então, ficam todas perfiladas nos jardins à espera que o rei Mswati III chegue. Nem sempe ele vem nesse dia. Se isso acontece, elas seguem o ritual em forma de ensaio para o dia seguinte, quando ele vem. Para nossa sorte, depois de mais de uma hora de espera em pé, ele passa de carro, entra na casa da mãe e as meninas começam, então, a encostar os feixes de caniço nos muros da casa e descerem para o estádio onde vão dançar.

estádio 1

estádio 2

O estádio é imenso. Elas ficam em volta, a espera da chegada do rei. Quando ele entra, elas passam a dançar e cantar, todos os grupos ao mesmo tempo, cada um com sua música e sua coreografia. Cada grupo passa em frente ao local onde está o rei e se posiciona à espera do fim do evento, que dura horas.

Ao final, todos vão embora sem saber ainda se o rei vai escolher alguma noiva. No sétimo dia, elas dançam novamente, aí sempre com a presença do rei. No oitavo dia é que se anuncia a nova esposa do rei. Nesse dia também matam cerca de 25 bois e cada menina que participou do evento leva carne para casa.

chegada do rei no estádio

Chegada do rei no estádio

rei entra na tribuna de honra do estádio

Rei entra na tribuna de honra do estádio

rei senta-se ao lado da mãe na tribuna de honra

Rei senta-se ao lado da mãe na tribuna de honra

Tudo acontece na casa da mãe do rei e ela participa da cerimônia ao lado do filho. O Umhlanga é visto como uma oportunidade das jovens suazilandesas homenagearem a rainha mãe. Os caniços que elas recolhem e deixam nos muros da residência real são usados depois na reparação do palácio.

Veja mais na Wikipedia e no site oficial da Suazilândia.

É hoje o Eid

Até ontem o fim da tarde, não se sabia ainda se hoje seria o dia do Eid ou não. Pela manhã, eu ouvi duas pessoas conversando sobre isso em uma loja e o senhor dizia à senhora que à noite provavelmente se confirmaria porque o céu já estava menos nublado. No fim da tarde, fui à mercearia vizinha aqui de casa e perguntei ao dono, muçulmano: já sabem se amanhã vai ser o dia do Eid? Ele disse que esperavam a confirmação para a noite.

Explico: como já contei, os muçulmanos estavam vivendo o mês do Ramadã. Ele termina quando a lua nova é avistada no céu. Ocorre que antes de ontem o céu estava muito nublado e não foi possível avistar lua nenhuma. A expectativa toda era que ontem se pudesse avistar a lua nova e anunciar, então, o início do mês Shawwal.

Este mês começa com o Eid al Fitr (ou Eid ul-Fitr, encontrei as duas formas), que na verdade é يد الفطر, em árabe. Significa algo como a celabração da quebra do jejum. No primeiro dia do novo mês, os fiéis, ainda em jejum, vão para a mesquita de manhã, realizar uma oração especial. O dia celebra o fim do jejum e é dedicado a agradecer a força que foi recebida de Alá para passarem por ele.

Nesse dia é comum a troca de presentes e as pessoas usarem roupas novas. Eid também é uma época tradicional de perdão e reconciliação. Fazendo uma comparação com o nosso calendário, acho que seria como o ano novo.

É também o momento de pagar o Zakatul Fitr (caridade do desjejum). O chefe da família dá comida ou dinheiro aos pobres, em um valor mínimo determinado pela religião. Isso é feito antes da oração do Eid, para que o jejum esteja completo e seja aceito. Se for pago depois não tem validade como caridade do desjejum, é apenas uma boa ação. O objetivo é proporcionar às pessoas menos favorecidas a oportunidade de participarem da festa do desjejum, podendo preparar doces ou uma refeição melhor, comprar roupas novas e brinquedos para as crianças.

O Eid dura três dias, mas, aqui em Maputo, os estabelecimentos comerciais de muçulmanos costumam ficar fechados só no primeiro dia. Esse ano, hoje é o dia. Então, nada de comprar carne halal no açougue mais próximo, nada de fazer comprinhas na mercearia da esquina (geralmente são de muçulmanos) e até mesmo algumas lojas dos centros comerciais estão fechadas…

Veja mais sobre o Eid ul-Fitr na Wikipedia, no Patopor.com e nos blogs A mulher no Islam e O islam é….

A baixa

A baixa de Maputo vista da parte alta da cidade.

a baixa vista de cima

Published in: on 26/08/2011 at 08:50  Comments (8)  
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Música e educação

Como a nossa Quinta Quente bem vem mostrando ao longo de sua existência, a musicalidade é uma característica muito forte da África. Batida forte e ritmo empolgante são a marca da música africana. E os africanos gostam muito desta expressão artística. Tudo é motivo para ela, e ela é motivo para dançar.

A partir disso, um moçambicano muito especial, Feliciano dos Santos (que eu conheci na Carta Aberta publicada neste blog em 21 de agosto último), encontrou uma forma de usar música para ajudar as gerações presentes e futuras a terem melhor qualidade de vida. Ele reúne pessoas em aldeias isoladas no interior do país, onde não há sinais de modernidade, onde nunca se viu tocar uma banda com aparelhagem elétrica. Para essas pessoas, Feliciano dos Santos, com sua banda, chamada Massukos, toca músicas que falam sobre higiene pessoal, saneamento básico, meio ambiente, prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e tudo mais que possa ajudar as pessoas a alcançarem melhor qualidade de vida.

Ele canta em língua local e acredita que, com esse tipo de música, ajuda as pessoas a evitarem doenças como cólera, diarréia, poliomielite e outras. É fantástico. Ele fala a língua que é melhor compreendida e atrai as pessoas pela musicalidade. É lindo ver as pessoas dançando ao som de “vamos lavar nossas mãos, para as crianças ficarem saudáveis, para os mais velhos ficarem saudáveis, para as mães ficarem saudáveis” ou “nós construímos latrinas…” Tenho certeza que quem ouve e canta junto com eles essas músicas, aprende a lição. As pessoas saem cantando depois pela vida afora e vão sempre se lembrar de lavar as mãos, por exemplo.

Em sua infância na província Niassa Feliciano foi vítima da poliomielite, que o deixou com uma deficiência física em uma das pernas. Já adulto, formou a banda Massukos e uma associação, a Estamos, que trabalha com técnicas de eliminação de excrementos humanos. Para se aproximar dos aldeões e tratar do assunto, ele usa a música. A associação também promove a agricultura sustentável, lidera projectos de reflorestamento e patrocina iniciativas de combate ao HIV/Aids (HIV/Sida).

Em entrevista publicada no site LusoÁfrica.net ele mesmo explica a estratégia: “Em África, quando se toca um batuque, as pessoas aglomeram-se e aquele é o momento próprio para começar a transmitir aos outros aquilo que lhe vai no coração”.

Graças a sua iniciativa, Feliciano dos Santos recebeu, em 2008, o prêmio Goldman Prize, considerado o mais importante no que se refere a questões do meio ambiente. No site do prêmio, a explicação: “Usando a música para difundir a mensagem de saneamento ecológico nas partes mais remotas de Moçambique, Feliciano dos Santos habilita os habitantes das aldeias a participar do desenvolvimento sustentável e deixar a pobreza para trás. Na província do Niassa, muitas aldeias não contam nem mesmo com uma infra-estrutura de saneamento básico. Sem acesso confiável a sistemas de fornecimento de água limpa e tratamento de dejectos, a população está altamente sujeita a enfermidades. Santos, que cresceu na região, é hoje o líder de um programa inovador que está a trazer esperança renovada ao Niassa. Com a sua banda, Massukos, reconhecida internacionalmente, Santos utiliza a música para divulgar a importância da água e do saneamento em Moçambique. Actualmente, o seu programa serve de modelo para outros programas de desenvolvimento sustentável em todo o mundo.”

Vamos ouvir agora uma música de conscientização do valor da família. Fala sobre os pais que abandonam suas casas, inclusive as crianças, vão se aventurar nas cidades e depois querem voltar, quando os filhos já são grandes. Não encontrei a letra, só a explicação e a tradução do título: Mudacia Wana significa Deixaste as crianças.

No vídeo do Frontline World, a história de Feliciano é contada de forma muito didática. O único senão é ser em inglês. Mas, a quem domina o idioma, recomendo fortemente clicar aqui para assistir.

Veja sobre o prêmio Goldman Prize que Feliciano recebeu, clicando aqui.

Ser escritor em Moçambique

O Mia Couto é hoje o mais bem conceituado escritor moçambicano. Eu já revelei minha admiração por ele aqui, no post Quanto melhor, mais simples.

Para além de ser um grande escritor e ótima pessoa, Mia sempre rende boas histórias. Entrevista sua é deleite na certa. Transcrevo abaixo trecho de uma resposta que ele deu em entrevista aos alunos do 3º ano do Ensino Médio do Colégio São Luís, em São Paulo, transcrita por Marina Azaredo e divulgada no blog Moçambique para todos.

À pergunta como é ser escritor em Moçambique, Mia respondeu: “Vou contar um pequeno episódio que pode ajudar a responder a essa questão. Um dia eu estava a chegar a casa e já estava escuro, já eram umas seis da tarde. Havia um menino sentado no muro à minha espera. Quando cheguei, ele se apresentou, mas estava com uma mão atrás das costas. Eu senti medo e a primeira coisa que pensei é que aquele menino ia me assaltar. Pareceu quase cruel pensar que no mundo que vivemos hoje nós podemos ter medo de uma criança de dez anos, que era a idade daquele menino. Então ele mostrou o que estava a esconder. Era um livro, um livro meu. Ele mostrou o livro e disse: “Eu vim aqui devolver uma coisa que você deve ter perdido”. Então ele explicou a história. Disse que estava no átrio de uma escola, onde vendia amendoins, e de repente viu uma estudante a entrar na escola com esse livro. Na capa do livro, havia uma foto minha e ele reconheceu-me. Então pensou: “Essa moça roubou o livro daquele fulano”. Porque como eu apareço na televisão, as pessoas conhecem-me. Então ele perguntou: Esse livro que você tem não é do Mia Couto?”. E ela respondeu: “Sim, é do Mia Couto”. Então ele pegou o livro da menina e fugiu.”

Mia é isso. É uma capacidade de ser leve para falar das coisas difíceis que vê e uma perspicácia admirável para saber falar de um mundo desconhecido a platéias de todo canto. Só ele poderia contar assim a relação dos moçambicanos com o livro, que é algo caro, inacessível para a maioria e ainda muito novo…

Sugiro a leitura da entrevista completa no texto Onze perguntas de crianças para Mia Couto e uma entrevista inspiradora feitas numa escola brasileira.

Carta aberta a todo o moçambicano e moçambicana*

Outro dia convidei os leitores a visitarem o blog Nhatinha.com, para o qual eu havia feito um Guest Post. Hoje, o Mosanblog é que recebe uma visita. O ‘nando Aidos enviou por e-mail um texto com a sugestão de ser publicado como uma sua carta aberta ao povo moçambicano. Como o que ele escreveu fez sentido para mim e vai ao encontro dos objetivos do blog, divulgo:

Nando AidosDecidi escrever uma carta aberta a todo o moçambicano e moçambicana. Decidi abrir o peito. Decidi arriscar-me a ouvir que o que escrevo abaixo não é relevante, mas aqui vai.

O tema que eu quero abordar tem a ver com o nosso bem-estar do dia-a-dia, com as condições de conforto pessoal, a educação e a saúde de cada um de nós. Tem a ver com oportunidades de ganhar o pão de cada dia e de usufruir de uma vida digna de todo o ser humano.

Por isso não escrevi esta carta aberta a Moçambique. Seria muito vago. O palavra Moçambique, usada neste contexto, teria a tendência de deixar o leitor de fora a olhar para esse Moçambique lindo e generoso, sem se envolver, sem se comprometer com ele. Daria a impressão que nós poderiamos ficar à espera que Moçambique fizesse coisas para melhorar a nossa vida, quando na realidade nós, os moçambicanos, é que temos de nos esforçar para melhorar as nossas vidas.

Parece à partida um desafio impossível de atingir, mas não é. Porque nós, os moçambicanos, temos muitas necessidades que podemos preencher, nós próprios, dando-nos oportunidades para refazermos as nossas vidas de um modo digno, sem ter de esperar, nem pelo Governo (com isto não quero escusar o Governo do trabalho importante que há para fazer em todas as direções que olhemos), nem pelas ONGs que muito têm feito, nem pelos donativos externos que, como sabemos, não têm resolvido nada e até, em muitos casos, piorado o que já havia. Todos nós sabemos de casos assim.

Para responder à pergunta que sei está debaixo da língua do leitor, vou começar a enumerar necessidades do dia a dia e a apontar para soluções ao alcance de todos. Todos!

Vou até começar por um tema controverso, mas muito pertinente, que é o das as nossas casas humildes de bloco de cimento e telhados de chapa de zinco. Materiais trazidos pelos antepassados do ocidente, utilizados nas suas casas quando se estabeleceram em terras africanas, mas que apenas nos dão habitações sufocantemente quentes na época quente do ano, e frias nas noites frias e na época fria do ano. Mas como eram mais robustas, e menos sujeitas a infiltrações de chuva no tecto, as construções continuam sendo feitas a ritmo acelerado. Temos de confessar também que outra razão muito forte foi que este tipo de construção era “como a casa do branco”, coisa muito semelhante ao que tem acontecido pelo mundo, como aconteceu na Colômbia, onde tem sido batalhado com sucesso pelo arquitecto Simón Vélez.

Esta contrução nada tem a ver com África. As habitações de barro e capim, ou de caniço e capim, têm muitos inconvenientes, sem dúvida, mas são mais frescas e deixam-nos dormir melhor para enfrentarmos o dia seguinte de trabalho. E oferecem muita flexibilidade aos moçambicanos, incluindo a possibilidade de serem modificadas para nos dar mais espaço, mais privacidade e mais conforto, sem gastar dinheiro que não temos. Há já muito trabalho feito neste sentido. É só aproveitar o que já foi feito e adaptar ao clima, recursos, conhecimentos e hábitos locais. Vou deixar aqui apenas um projecto da organização Habitat for Humanity em Cabo Delgado como exemplo.

Já que estamos na conversa das habitações, quero falar um pouco do modo como cozinhamos. Uma panela em cima de três pedras e um pedaço de lenha a arder por baixo. Alguns de nós, com mais sorte na vida, cozinhamos com gás e até electricidade. Mas à esmagadora maioria dos nossos conterrâneos esses métodos não são monetáriamente acessíveis. Esses precisam de ir buscar lenha muito frequentemente, cada vez mais longe de casa, contribuindo para a desflorestação das nossas matas. Leram o artigo sobre a Serra da Gorongosa que foi toda desmatada pelas aldeias vizinhas?

A pergunta que logo se põe, e com toda a razão, é – e como quer que essa gente cozinhe? Ao que eu responderei – com menos lenha. Como? Por exemplo usando alguma coisa que já existe, e ensinando todos a construir fogões rocket feitos com tijolos de barro. É pena que eu não tenha uma versão em português, mas talvez as imagens deste video possam perfazer essa falta. Há muitas soluções deste tipo, embora a maioria seja feita de ferro o que põe o fogão fora do alcance de uma grande maioria dos nossos conterrâneos. Quem em Moçambique não sabe, ou não consegue aprender a fazer, tijolos de barro, com um pouco de casca de arroz, ou capim cortado dentro?

Este tipo de fogão também emite muito menos partículas de fumo, as causadoras de muita doença pulmonar que aflige as nossas mulheres e as nossas crianças. Precisamos de cuidar bem delas.

Bom, se já temos um fogão, para cozinhar precisamos de cultivar alimentos, mas precisamos de melhorar as condições da agricultura. Sabemos bem que a introdução de sementes modernas que necessitam de fertilizantes artificiais não estão ao alcance da maioria dos agricultores. Sabemos que as sementes podem ser melhoradas localmente através de técnicas simples de hibridação, sendo o milho o mais conhecido e divulgado. A hibridação já não é coisa de cientistas. Aliás nunca foi. Foi primeiro, e durante milénios, coisa dos agricultores nossos antepassados longínquos, que depois os cientistas, ou deram explicações complexas sobre o assunto, ou apenas disseram que inventaram. Mas agora não vamos falar disso.

O trabalho feito neste campo durante o século XX deu origem ao que agora se chama de Revolução Verde. Mas esta revolução não chegou a África, nem a Moçambique, por razões complexas, mas nós temos as condições para fazê-la chegar e muito rapidamente. Precisamos de nos debruçar sobre o problema, adaptar as técnicas, já bem conhecidas, à agricultura do povo moçambicano e permitir que todos os benefícios sejam colhidos do Rovuma ao Maputo (expressão bem conhecida de todos). E enquanto estamos neste tema, precisamos de investigar outros cereais, nativos de África, que se dão muito melhor na nossa terra, precisam de menos água, e têm um teor alimentício mais elevado.

E da cozinha podemos passar às latrinas. Parece um tema estranho, mas todos nós, se comemos, temos de ter uma latrina, ou acabamos por sujar todo o terreno à nossa volta. Aqui, quero dar o devido crédito ao Feliciano dos Santos, conhecem, né? O fundador da Estamos.mz e que muito tem feito para melhorar as nossas vidas neste sector lá para os lados no Niassa. Porque não replicamos estas ideias por Moçambique todo? Que bom seria para todos nós! Os que não temos e os que temos onde nos aliviar.

E como latrinas beneficiam a saúde de todos, vamos a isso.

Na saúde e nas escolas temos o problema da falta de profissionais, médicos, enfermeiros, professores, entre outros, homens e mulheres, estas muitas vezes muito melhores que nós os homens, temos de nos convencer! Mas também temos falta de condições para os nossos doentes e os nossos alunos. Os edifícios que temos, construídos com tijolo ou bloco de cimento e telha de barro cozido ou até chapa de zinco, não suprem as faltas, são poucos os que ainda estão em condições para serem usados. Não resolvem os problemas nas zonas mais remotas do nosso país e são muito caras de construir. Estas faltas poderiam ser supridas com edifícios como aquele que foi construído em Cabo Delgado e que eu já mencionei acima. Com muito menos dinheiro.

Antes de acabar a minha carta aberta, quero realçar o poder de fomento da economia local que podem ter estas tecnologias ao alcance de todos. Um fomento da economia que pode e deve envolver os nossos conterrâneos mais necessitados, uma economia em que eles possam participar.

Se o fogão gasta menos lenha, e assim não é preciso ir buscar lenha tantas vezes, tarefa frequentemente deixada às crianças em idade escolar, estas já terão mais tempo para irem à escola, e assim podem ter melhor aproveitamento escolar. E aproveitando mais, serão melhores profissionais no futuro. O mesmo posso dizer das nossas mamanas, as que na esmagadora maioria, cultivam a terra e dela arrancam o sustento de muita gente. Elas poderão ver maior produtividade e assim ter excedentes, ou mais excedentes, que poderão vender, melhorando as condições das suas habitações (mas não com cimento e zinco, por favor!).

Tudo isto, acho eu, dá origem a um ciclo impressionante. A partir de um nível de vida desumano, suprindo as suas próprias faltas, porque não há dinheiro para fazer as coisas “à moda dos brancos” (perdoem-me a insistência neste termo que eu considero tão sufocante para as capacidades locais e para a criatividade de todos nós), até ao ponto em que começam a participar numa economia mais alargada. Numa economia por eles criada, que produz para as suas necessidades.

Se leram até ao fim, obrigado por me terem escutado. Espero que tudo isto faça sentido como faz para mim. E se assim fôr, que haja conterrâneos por esse Moçambique fora com coragem de abraçar estes desafios e até criar melhor e mais. Estou disponível para participar.

Kanimambo**,
‘nando

* Texto de ‘nando Aidos
**N.E.: obrigado, em changana.

Rota do artesanato em Maputo

Faz mais de um ano eu contei aqui que em Moçambique, a fruta caqui é chamada diospiro. Pois hoje eu descobri mais uma sobre a mesma fruta. A árvore do caqui/diospiro é da mesma família do ébano. Pode ser óbvio para alguns leitores, mas para mim é pura novidade.

Eu descobri porque queria falar do artesanato de Moçambique. O mais conhecido é o feito em pau preto, que é justamente o ébano… Essa madeira, especialmente, no miolo dos troncos, é muito escura e densa. Por isso, é um artesanato difícil de ser feito. Como me explicou um artesão outro dia “aleija muito as mãos no trabalho”.

Há em Maputo, inclusive, a Feira do Pau. É uma feira de artesanato em geral, mas com forte presença do artesanato em pau preto, que acontece todos os sábados, entre 10h e 16h, na avenida Samora Machel, ao lado da praça 25 de junho.

Para além do artesanato em pau preto, há muitos produtos em sândalo, tecido, conchas, barro, pedra sabão, folha de bananeira, enfim, uma diversidade imensa de materiais. O único senão da feirinha é a falta de estratégia de venda dos expositores. Na ânsia de vender, eles voam para cima das pessoas que estão apreciando a arte feito mosca em rosca de padaria. E ficam falando “venha ver minhas peças… é só para apreciar, não precisa comprar”. Mas vinte pessoas fazendo isso ao mesmo tempo, não permitem nem mesmo que se aprecie. O potencial cliente fica aborrecido e vai embora sem levar nada. Eu mesma já quis muito apreciar com calma o trabalho, mas nunca consigo e acabo saindo de mãos vazias.

De uns tempos para cá, há uma alternativa bem interessante, que é a FEIMA (Feira permanente de artesanato, gastronomia e flores na cidade de Maputo), fica no Jardim Parque dos Continuadores, que está entre as avenidas dos Mártires da Machava e Armando Tivane. Lá funciona todos os dias, das 10h às 18h, com algumas barracas ficando até 19h. Tem os mesmos tipos de artesanato, com mais opções de roupas e batiques que na Feira do Pau. A vantagem é que na FEIMA cada expositor tem seu espaço (enquanto na Feira do Pau, há expositores que ficam perambulando, sem lugar fixo). Então, você passa por ele e ele não vai atrás de você.

artesanato em sândaloMesmo assim, é meio chato, porque você está a apreciar uma barraca e o camarada da barraca do lado fica chamando. É um pouco inconveniente, mas da última vez que eu fui lá resolvi botar ordem na casa. Eu queria ver todos os trabalhos e com calma. Então, quando cheguei já fui logo avisando: “vou ver tudo, de todo mundo e comprar o que eu quiser e não o que for de quem me perturbar mais. E se um vier pedir para ver as suas peças enquanto eu estiver vendo o trabalho do outro, vou embora e não compro nada”. A informação correu de barraca em barraca e consegui, durante uma hora e meia, ser bem pouco importunada e apreciar muita coisa linda.

casal em madeira e tecidoOutra vantagem da FEIMA é as barracas terem cobertura, o que ajuda muito na época do verão. Na Feira do Pau, a exposição é a céu aberto. Mas as duas têm aquela coisa chata de você ter que pechinchar para conseguir um preço razoável. Sempre se consegue diminuir uns 40% no valor inicial. Se for dia de movimento fraco, então, se diminui até mais.

artesanato variadoUm terceiro lugar muito bom de fazer esse tipo de compra é o Centro Juvenil de Artesanato – Mozarte. É um centro mantido pelo Ministério da Juventude e Desportos, que fica na avenida Filipe Samuel Magaia, entre as avenidas Ho Chi Min e Josina Machel. Lá você não tem contato com os artesãos, o que é uma desvantagem. Mas a vantagem é saber que são adolescentes em situação de vulnerabilidade social, que aprendem o artesanato no próprio centro Mozarte e têm lá o espaço onde suas obras são comercializadas. Os preços são bastante justos, o que já torna desnecessário entrar na negociação de pechincha. Lá funciona de segunda a sexta-feira, das 9h às 16h30, e aos sábados das 9h às 13h.

Esses são os lugares que eu gosto de freqüentar por aqui quando o assunto é artesanato. Mas, mesmo quando não vamos a eles, caminhando pelas avenidas 24 de julho ou 25 de setembro, sempre é possível cruzar com um vendedor ambulante com boas peças nas mãos.

Veja outras impressões sobre o artesanato moçambicano no post A economia do artesanato, de Fernando Aidos, publicado no blog Perspectiva Lusófona.

Saiba mais sobre o artesanato em Moçambique, visitando o site do Cedarte (Centro de Estudos e Desenvolvimento do Artesanato).

Dioguito, do Bangão

Sexta-feira passada (12/8/11), o músico angolano Bangão teve uma noite memorável no espetáculo Estrelas do Semba, promovido pelo Centro Cultural e Recreativo Kilamba, em Luanda, Angola. Estrela das estrelas, Bangão apresentou-se durante quatro horas.

Como sempre, estava em alto estilo e recebeu merecidos elogios nas notícias culturais no fim de semana. Nas textos, referências não só a seu talento musical, mas aos vários ternos (fatos, por aqui) que desfilou ao longo da apresentação. Aliás, o cuidado com as vestimentas sempre é notável nas apresentações de Bangão.

Bangão é tratado por príncipe do semba. Nascido a 27 de setembro de 1962, em Luanda, capital de Angola, começou sua carreira em 1974, como participante do grupo Tradição. Em 1976 e 1977 integrou, como vocalista, o grupo Processo de África. Mas a primeira vez que subiu a um palco para um concerto foi em 18 de outubro de 1978 como integrante do grupo Gingas Kakulo Kalunga.

De 1989 a 1992 fez parte do conjunto Nzimbo e gravou, em 1992, o CD Sembele. Em 1996 venceu o prêmio Liceu Vieira Dias, com o tema Kibuikila (Peste), acompanhado pela banda Maravilha. Em 1999 foi convidado a fazer parte da banda Movimento, como vocalista. No mesmo ano, ganhou a primeira edição do concurso Semba de Ouro, com a canção Kangila (pássaro agourento).

Em 2003 é consagrado como um dos maiores intérpretes da música popular angolana, ao ganhar os prêmios de Música do ano (Fofucho), Voz masculina do ano e Preservação, pela sua incessante defesa da música popular angolana, todos pela Top Rádio Luanda. Em 2005 foi vencedor do Top dos Mais Queridos.

Ao longo de sua carreira, Bangão já participou em espetáculos em Portugal, Argentina, Namíbia e Brasil, onde dividiu o palco com Gilberto Gil.

Uma das músicas que marcam sua carreira foi sugerida para a Quinta Quente pelo David Borges. Demorei um pouco para divulgar, em busca da letra. Mas, como não encontrei mesmo, aí vai Dioguito. Se alguém souber a letra (e tradução também), os leitores do Mosanblog agradecem.

Veja mais sobre a apresentação no Centro Cultual e Recreativo Kilamba em notícia da Agência AngolaPress.

Leia sobre a carreira do artista no portal Mwangole.net.

Carne em Maputo

fachada do talhoOutro dia falei sobre o Ramadã, dos novos horários do comércio nesse período, roupas tradicionais, etc. e me lembrei de outro fator relacionado à religião muçulmana que acaba fazendo parte do dia-a-dia de todos aqui, que é a carne halal.

A primeira vez que ouvi o termo foi alguns meses depois que estava em Moçambique, em um casamento, quando o mestre de cerimônias avisou que seria servido o jantar e que todos poderiam comer tranqüilamente, porque era halal.

A partir daí, passei a reparar nas portas de açougues (talhos, por aqui) ou mercados, o selo Halal. A carne halal é a carne permitida de ser consumida para os muçulmanos. Para ser halal (que significa lícito), é preciso ter uma série de características:

– não pode ser carne de porco, cachorro e semelhantes, animais com presas, pestilentos, pássaros predadores e criaturas repulsivas;
– o animal deve estar saudável no ato do abate;
– os equipamentos e utensílios devem ser próprios para o abate halal. A faca deve ser bem afiada e permitir uma sangria única, que minimize o sofrimento do animal;
– o corte deve atingir a traquéia, o esôfago, as artérias e a veia jugular, para que todo o sangue seja escoado e o animal morra sem sofrimento;
– o abate deve ser acompanhado por inspetores muçulmanos e ser executado por muçulmano mentalmente sadio e que entenda, totalmente, o fundamento das regras e das condições relacionadas com o abate de animais no islã;

As comidas que não atendem a todas estas características são consideradas haram (que significa ilícito): carnes de porco ou outros animais proibidos, carnes de animais impropriamente mortos ou mortos em nome de outra divindade que não seja Alá (o deus muçulmano), alimentos que contêm álcool ou sejam intoxicantes, sangue e produtos derivados, comidas contendo gelatina derivada de animais.

Para quem não é muçulmano, não faz diferença comer a carne halal ou não halal. E, como aqui em Maputo, quase todos os talhos têm o selo halal, a gente come carne assim muitas vezes. Ela é menos vermelha do que a que estamos acostumados, mas isso se deve à forma de abate visar justamente eliminar ao máximo o sangue do animal. De certa forma, acaba por ser mais saudável, uma vez que o sangue tem um alto teor de proteína, o que aumenta a rapidez da putrefação e diminui a capacidade de conservação. Então, quando o abate não elimina tanto o sangue, a carne tem que ser ainda mais bem cuidada com relação ao resfriamento, o que nem sempre pode ser garantido em uma cidade onde falta energia elétrica dia sim e dia também.

Veja mais sobre o assunto nos sites da ABIEC (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne) e da Cibal Halal (Central Islâmica Brasileira de Alimentos Halal).

Outro Kruger

Há alguns dias voltamos ao Kruger Park. Já tinham nos falado que nesta época do ano era muito bom de ir porque, sendo o auge da seca, os animais ficam mais concentrados nas poucas áreas cheias dos rios e lagos e as folhagens não atrapalham a visualização. Dito e feito, vimos muitos bichos, muita quantidade de alguns (como o Eduardo já contou no ElefanteNews) e durante o dia todo.

É incrível a diferença da paisagem entre o que vimos em abril e agora em agosto de 2011.

Manada de elefantes avistada no meio da densa vegetação em abril

Manada de elefantes avistada no meio da densa vegetação em abril

A paisagem de agosto

A paisagem de agosto

Com esse vazio de árvores e seguindo o caminho do rio foi possível encontrar os chamados “big five” (cinco grandes animais da região): leão, elefante, rinoceronte, leopardo e búfalo, além de girafas, impalas, zebras, muitos macacos e outros que nem sei o nome. A diferença para menos ficou apenas por conta dos pássaros. São mais de quinhentas espécies de aves que podem ser encontradas no parque, mas desta vez vimos muito menos que da anterior.

Leopardo - ou chita, vejam comentário do Nando neste post - camuflado no meio da mata seca

Leopardo - ou chita, vejam comentário do Nando neste post - camuflado no meio da mata seca

Manada de búfalos atravessa estrada entre os carros

Manada de búfalos atravessa estrada entre os carros

Café da manhã de elefante

Café da manhã de elefante

Outra coisa legal é que, por conta da seca, há poucos lugares onde os animais encontram vegetação boa para se alimentar. Então, mesmo que parem 20 carros para assisitir o bicho se alimentando, ele não se intimida e fica lá mesmo. Teve um elefante, que ficamos quase 15 minutos assistindo como ele derrubava os galhos da árvore e como os quebrava com a pata da frente e depois pegava com a tromba para colocar na boca.

Para quem vai de Maputo, o Kruger fica a duas horas, contando já que se vai perder meia hora na fronteira (saída de Ressano Garcia). Dessa vez, entramos e saímos pelo portão Crocodile Bridge, o que nos fez entrar uns 20 minutos antes do que se fôssemos pelo portão Malelane, como da primeira vez. O custo de entrada para duas pessoas em carro próprio foi de ZAR 360,00 (trezentos e sessenta rands, que correspondem a R$ 84,00). Os horários do parque variam de acordo com a época do ano: de abril a setembro abre às 6h, de outubro a março abre 5h30. De maio a julho fecha às 17h30; março, abril e de agosto a outubro fecha às 18h; de novembro a fevereiro fecha às 18h30.

Veja sobre nossa viagem de abril, no post Finalmente, Kruger.

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