Bela mesmo

Há muito ela já não está mais entre nós. Mas sua música e sua beleza angelical continuam sendo referências na cultura de seu país, Togo. Seu olhar quase infantil, seus traços suaves, sua voz afinada, tudo encanta quando ouvimos e vemos Bella Bellow.

Ela morreu em 1975, em um acidente de carro, aos 27 anos — a famosa idade dos bons músicos morrerem —, apesar de não ter sido citada nas listas que poluíram a internet quando Amy Winehouse morreu, recentemente.

Bella vivia o auge da carreira como cantora e compositora e, talvez por isso, tenha ficado ainda mais marcada na história de seu país. Cantava em francês e em ewe, língua local da cidade onde nasceu, Tsévié, próxima da capital do Togo, Lomé.

Sua primeira apresentação internacional foi em 1966, na cidade de Dacar, no Senegal, onde representou Togo no primeiro Festival Mundial de Arte Negra.

Mesmo tão jovem, com menos de dez anos de carreira internacional, Bella Bellow foi muito conhecida na Europa, chegando a se apresentar na mais antiga e famosa casa de espetáculos de Paris, o Olympia, e a gravar com o camaronês Manu Dibango.

Escolhi para vermos aqui a música Zelie por ser um vídeo e não apenas uma apresentação de fotos acompanhando a música, assim podemos apreciar o movimento doce do seu olhar e o seu sorriso meigo.

Leia mais sobre a diva de beleza natural e voz bem afinada no blog Toonadas, no Discogs, no Music Video Wiz e na Wikipedia.

O leão do Zimbábue

O cantor Thomas Mapfumo é conhecido como o Leão do Zimbábue pela sua imensa popularidade e também, em especial, pela grande influência política que exerce por meio de sua música. Foi ele, por exemplo, o criador do estilo musical que se tornou bastante popular, chimurenga.

Nos anos sangrentos da libertação do seu país e, depois, nos anos de profundas crises econômicas, sociais e políticas, Mapfumo usou sua música para denunciar injustiças, falar sobre questões históricas e culturais e desnudar fatos escondidos pelos jornais sob censura do governo do presidente Robert Mugabe.

Em 2000, as condições no Zimbábue ficaram ainda mais difíceis, devido às políticas violentas do presidente Mugabe e as músicas de Mapfumo foram banidas de todas as rádios. O músico optou por sair do país e foi viver nos Estados Unidos. Mas, apesar do risco, Mapfumo continuou retornando regularmente ao seu país natal, uma vez por ano, para fazer um show de fim de ano. Isso aconteceu até 2004, quando ele sentiu que a coisa estava ficando perigosa demais e deixou de ir.

Mapfumo começou a cantar em 1955, aos 10 anos. Durante sua adolescência, quando seu país vivia a luta pela libertação que transformaria a Rodésia em Zimbábue, Mapfumo atuava como artista itinerante, que o fez ter contato com diversas regiões. Suas músicas passaram a refletir as preocupações das pessoas com as quais ele se encotrava, as privações da vida rural, a indignação com o colonizador.

Foi nesse momento que ele desenvolveu a música que chamou de chimurenga. Os guerrilheiros de seu país que lutavam pela libertação eram chamados chimurenga que, em chona significa luta, conflito. A música chimurenga refletia os anseios da nação negra da Rodésia.

Em 1980, ele celebrou a independência do país que passaria a chamar Zimbábue, sob o som de chimurenga, ao lado dos novos líderes do país. No entanto, Mapfumo esteve sempre ao lado do povo. Ele ficou conhecido por cantar músicas em prol da revolução libertadora, mas suas músicas falavam mesmo era de justiça social e liberdade cultural.

Quando os líderes da libertação transformaram-se em governantes corruptos e que misturavam o conceito de nação com o de sua própria casa, quando perderam os limites do poder, quando passaram a também subjugar o povo como os colonizadores, Mapfumo seguiu coerente. Em 1989 lançou a canção Corrupção. No ano seguinte, cantou Jojo, onde ele avisa os jovens sobre os perigos da política no país em que estão.

Foi nessas circunstâncias que as condições para ele ficaram insustentáveis e Mapfumo teve que deixar o país. Mas sua arte continua lá. E ele continua ativo. Seu CD mais recente, Exílio, foi lançado em 2010.

Escolhi apresentar Jojo, pela força da letra.

Nyaya dzenyika Jojo chenjera (Cuidado com as questões poíticas)
Ndakambokuyambira Jojo chenjera (Eu te aviso, Jojo)
Siya zvenyika Jojo unozofa (Deixe a política, você pode morrer)
Nyaya dzenyika idzi (Essas questões políticas)
Jojo siyana nazvo Aiiwa-iwa Jojo, (Deixe essas questões políticas)
Jojo unozofa Aiiwa- iwa (Jojo, não morra pelo país)
Jojo usafire nyika Aiwa-iwa (Jojo, você pode morrer)
Jojo unozofa aiwa iwa (Jojo, você pode ser vítima de feitiçaria)
Jojo unoroiwa aiwa iwa (Você vai ser vítima de feitiçaria)
Jojo unozofa aiwa iwa (Você pode morrer)
Mwana wenyu akaenda musingafungire (Alguém pode morrer inesperadamente)
Zvenika apondwa musingafungire (Alguém pode ser assassinado inadvertidamente)
Takambokuudza siya zvenyika (Nós avisamos você)
Nhasi tiri kuchema shamwari zvenyika (Hoje nós choramos por nossos amigos)
Saka ndati kwauri (Então, eu digo)
Zvino Jojo siyana nazvo (Deixe essas coisas para lá)
Ndati zvenyika Jojo chenjera (Eu digo tome cuidado, Jojo)
Ndakuyambira Jojo chenjera (Eu estou avisando você)
Vazhinji vakaenda pamusana penyika (Muitos já pereceram)
Vakawanda vakapondwa (Jovens foram assassinados)
Vadiki vakapondwa pamusana penyika (Morrendo pelo país)
Vadiki vakapondwa pamusana penharo (Morreram porque eles não ouviram)
Vana mai vanochema pamusana penyika (O povo está chorando)
Mhuri dzakatsakatika pamusana penyika (Famílias estão sofrendo)
Saka ndati kwauri shamwari yangu (Então, eu digo)

(Letra retirada daqui)

Conheça o site oficial de Thomas Mapfumo e veja mais sobre o artista na Wikipedia.

O albino da voz dourada

O músico de hoje vem do Mali, mas é conhecido por toda África e além. Salif Keïta é músico e cantor, marcado não só pelo seu talento, mas por sua característica física, o albinismo, e sua descendência imperial: descende diretamente do fundador do Império Mali, Sundiata Keita.

Nascido em 1949, por ser da família imperial, não poderia exercer uma função social destinada aos subalternos, conhecidos como griots, que são os contadores de história em muitos povos africanos. Por seu albinismo, passou muitos anos sem contato com outras pessoas, porque na cultura local, albinismo é um sinal de azar. Mas sua paixão pela música foi mais forte que o sangue e os preconceitos e ele hoje não só é músico profissional, como é conhecido por Voz Dourada de África.

Sua música mistura os sons tradicionais da África ocidental com música islâmica e tem influências da Europa e América. Além de cantar, ele toca balafon, djembê, guitarra, kora, órgão, saxofone e sintetizador.

O vídeo abaixo é da música Africa, que escolhi pelo som (claro!), pela plástica do vídeo e como homenagem pelo dia de ontem, 25 de maio, no qual se comemora o Dia da África.

Saiba mais sobre o músico, visitando sua página na internet, a African Music Encyclopedia e a Wikipedia.

Saiba mais sobre os albinos na África em matéria feita pelo Eduardo Castro para a Agência Brasil.

Dia do Trabalhador em dose dupla

Aqui em Moçambique, de acordo com a Lei de Trabalho (artigo 37, parágrafo 3), quando um feriado cai em um domingo, passa automaticamente para a segunda-feira. Assim, o Dia do Trabalhador, 1º de Maio, que em 2011 caiu em um domingo, foi celebrado com direito a mais um dia de descanso.

Para além de ser importante em todos os países onde é comemorada, a data de homenagem ao trabalhador tem um sabor especial em Moçambique. Sabor de conquista ainda muito recente. Afinal, até o fim do período colonial (1975), os moçambicanos eram proibidos de celebrar a data. Mesmo assim, há registros de algumas manifestações na data contra o tipo de relações laborais do período.

Nas comemorações desse ano, o presidente de Moçambique, Armando Guebuza, mandou recado inclusive para os estrangeiros que aqui trabalham e que “têm emprestado a sua experiência e saber em prol do bem-estar dos moçambicanos”. A estrangeira aqui agradece.

Veja mais sobre o discurso de Guebuza no Dia do Trabalhador, no site África 21 Digital.

Leia na Wikipedia sobre o Dia do Trabalhador em Moçambique.

Blues africano

O que é isso que esse homem faz com a guitarra? Magia, magia africana, das boas. Ali Farka Touré, nasceu em Mali, em 1939. Faleceu em 2006, com câncer nos ossos. Cantor e guitarrista, ficou conhecido internacionalmente como um dos principais ícones da música africana e do blues, em especial, estilo do qual é considerado pioneiro na África.

A revista Rolling Stone o classificou como o número 76 na lista dos 100 Melhores Guitarristas de Todos os Tempos. Suas músicas foram trilhas sonoras de filmes, documentários e programas de televisão em todas partes do mundo e lhe valeram dois prêmios Grammy. Savane foi escolhido o álbum do ano, em 2006, pelo World Music Chart Europe (WMCE) – lista dos melhores da música mundial feita por produtores de rádio de países europeus.

Havia muitas opções para escolher, mas trago aqui Beto, do CD Savane, que tem mistura de sons árabes e africanos, com o maravilhoso toque de blues que só suas mãos mágicas são capazes de produzir.

Veja mais sobre Ali Farka Touré no verbete em inglês da Wikipedia, no site World Music Central.org e no verbete em nome dele no site sobre música de Mali, Mali-Music.com.

Claro que foi o Mia Couto

No post exatamente anterior a esse, falei sobre o hino nacional de Moçambique. Até o momento que fiz o texto, não tinha encontrado informação sobre o autor ou autores do hino. Agora, bebendo da sabedoria do Eduardo Castro (o mesmo do ElefanteNews e meu marido), fico sabendo que teve mão do Mia Couto na autoria. Não podia ser diferente, o maior escritor do país não ficaria fora dessa.

Em entrevista a Marilene Frelinto, ele explica como foi: “Em 1981, 1982, o presidente Samora, que era vivo na altura, pensou que o hino nacional não funcionava. Era um hino muito partidário. Começava por ‘viva, viva a Frelimo’. E ele tinha já a apreciação de que nem todos os moçambicanos seriam da Frelimo. Então, era preciso um hino que cobrisse os moçambicanos todos. Ele (Samora) colocou seis poetas e seis músicos numa casa, fechou-nos lá e disse ‘vocês têm que sair daqui com várias propostas de hinos feitas’. E fomos fechados numa casa aqui na Matola [cidade próxima de Maputo] e aquilo era ótimo. Aquilo não era uma prisão, era ótimo porque nós tínhamos comida, numa altura em que não havia comida. E, portanto, guardávamos comida para a nossa família quando nos iam visitar; tínhamos uma piscina na casa, vivíamos ali bem. E quando vinham as sirenes, nós corríamos para trabalhar. Eles (a Frelimo) vinham nos visitar para ver como era que estava sendo feito. E produzimos meia dúzia de hinos que ficaram ali e nunca mais foram aprovados. Agora, por causa do novo clima político que a partir de 1995 passou a existir, um clima de democracia aberta e multipartidarismo, passou a ser mesmo obrigatório que este país tivesse um outro hino. Pelo menos uma outra letra. Depois fez-se um concurso aberto e eu fiz parte do júri que acolheu essas propostas, mas eram todas muito fracas. E então alguém se recordou de revisitar aquelas propostas (da época de Samora), e foi uma daquelas que foi escolhida. Então, há razões que ajudam a triar essa idéia de que não é separável a literatura e a militância.”

No site Triplov.org, ele conta a mesma história e ainda confessa que as pequenas desobediências que cometiam eram um “modo de exercermos uma pequena vingança contra essa disciplina de regimento”. Ele observa ainda que as letras criadas ali refletiam a tendência militarizada do momento e ressalta: “Tudo isto tem que ser olhado no seu contexto sem ressentimento. Afinal, foi assim, que nasceu a Pátria Amada, este hino que nos canta como um só povo, unido por um sonho comum.”

foto de Mia Couto, retirada do verbete sobre ele na WikipédiaMia Couto é escritor moçambicano, filho de portugueses que emigraram a Moçambique nos meados do século XX. Além de ser considerado um dos escritores mais importantes de Moçambique, ele é o escritor moçambicano mais traduzido. Também é sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras, eleito em 1998. Saiba mais no verbete sobre ele na Wikipédia.

Observação: a história contada acima confirma o que foi comentado no post sobre o hino, de que o anterior era mais um hino da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) do que um hino da nação.

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