Um pouco de música, para aplacar a saudade

Nos tempos que vivi em Moçambique, conheci Tânia Tomé. Uma poetisa musical que brilha apresentando boa música, com boa voz, muita simpatia e, depois vim a saber ainda ao conhecê-la melhor, de grande inteligência. Sem dúvida é a minha queridinha entre as cantoras de Moçambique, pelo conjunto da obra.

Ultimamente, tenho assistido à novela Windeck pela TV Brasil. A primeira novela angolana transmitida no Brasil. A cultura africana, o jeito diferente mas tão parecido de falar português, as referências às novelas brasileiras, a nostalgia do tempo que vivi em Moçambique – uma outra África, mas também África -, tudo isso faz com que eu tenha virado uma noveleira de primeira. Coisa que nunca fui.

E lá, no meio da novela, entre uma cena e outra, uma voz preenche meu coração saudoso de África: Pérola, de quem já falei aqui no Mosanblog. Não sei se pelas circunstâncias, pela música escolhida para a novela, pela atitude que hoje parece mais madura do que quatro anos atrás, mas ela ganhou muitos pontos comigo nos últimos meses e tende a ser a minha queridinha em Angola. Um pouco porque o tom de voz lembra Tânia Tomé, confesso.

E não sou só eu que acho que a moça é boa. Recentemente, ela ganhou o troféu Moda Luanda, na categoria Música, com o álbum Mais de Mim, que tem uma faixa que ela canta com a brasileira Ivete Sangalo. Pérola também já ganhou o prêmio Kora, em 2005, na categoria de Melhor Artista da África Austral.

Na novela, ela canta duas músicas: Fala do que quiseres e Sentada familiar. Esta última, inclusive, foi citada pela Lúcia Agapito nos comentários do primeiro post aqui no Mosanblog sobre a cantora.

E como hoje é quinta-feira… por que não transformá-la numa Quinta Quente? Vamos ouvir uma das músicas que Pérola canta na novela e a que mais me toca ao me aproximar de África e de Tânia Tomé – Fala do que quiseres:

Para conhecer mais, visite o site da cantora aqui.

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A luta continua

Guardei Miriam Makeba para hoje, porque a música que trago é representativa do momento que vivo. Ela canta A Luta Continua e eu parto de Moçambique sabendo que a luta continua. E continuará ainda por muitos anos aqui… Mas parto com a esperança de ter contribuído um pouco para o sucesso dessa luta.

Miriam Makeba foi uma cantora da África do Sul, que viveu entre 1932 e 2008. Foi grande ativista pelos direitos humanos e contra o regime do apartheid. Em 1960 participou no documentário Come Back, Africa, contra o regime separatista sulafricano.

Em 1975, participou da cerimônia de independência de Moçambique. Foi nesse evento que ouviu a frase em português A luta continua, usada como slogan da Frelimo. O evento da independência e a sonoridade de “a luta continua” inspiraram a criação da música, que se tornou um hino dos países africanos oprimidos pela colonização.

My people, my people open your eyes (Meu povo, meu povo, abram seus olhos)
And answer the call of the drum (E ouçam o chamado do tambor)
Frelimo, Frelimo, (Frelimo, Frelimo)
Samora Machel, Samora Machel has come (Samora Machel, Samora Machel chegou)

Maputo, Maputo home of the brave (Maputo, Maputo, casa dos bravos)
Our nation will soon be as one (Nossa nação vai logo ser única)
Frelimo, Frelimo, (Frelimo, Frelimo)
Samora Machel, Samora Machel has won (Samora Machel, Samora Machel venceu)

Mozambique – A luta continua (Moçambique — A luta continua)
A luta continua, continua (A luta continua, continua)
(4 vezes)

And to those who have given their lives (E àqueles que deram suas vidas)
Praises to thee (Orações para vós)
Husbands and wives, all thy children (Maridos e mulheres, e vossas crianças)
Shall reap what you sow (Colham o que vocês semearam)
This continent is home (Este continente é um lar)

My brothers and sisters stand up and sing (Meus irmãos e irmãs, levantem-se e cantem)
Eduardo Mondlane is not gone (Eduardo Mondlane não se foi)
Frelimo, Frelimo, your eternal flame (Frelimo, Frelimo, sua bandeira eterna)
Has shown us the light of dawn (Nos mostrou a luz da alvorada)

Mozambique – A luta continua (Moçambique — A luta continua)
A luta continua, continua (A luta continua, continua)

In Zimbabwe – A luta continua (No Zimbábue — A luta continua)
A luta continua, continua (A luta continua, continua)

In Botswana — A luta continua (Em Botsuana — A luta continua)
A luta continua, continua (A luta continua, continua)

In Zambia — A luta continua (Na Zâmbia — A luta continua)
A luta continua, continua (A luta continua, continua)

In Angola — A luta continua (Em Angola — A luta continua)
A luta continua, continua (A luta continua, continua)

In Namibia — A luta continua (Na Namíbia — A luta continua)
A luta continua, continua (A luta continua, continua)

In South Africa — A luta continua (Na África do Sul — A luta continua)
A luta continua, continua (A luta continua, continua)

Veja mais sobre Miriam Makeba na Wikipedia e no site que sua família mantém.

Nesta última Quinta Quente, deixo a dica de minhas melhores fontes, para quem quiser continuar descobrindo artistas daqui: a rádio RDP África, o programa Moçambique em Concerto, da TVM, com o apresentador Gabriel Júnior, e o site The African Music Encyclopedia.

Tambores do mundo em Maputo

Ritmo e tambor são duas palavras que sempre relaciono com África. Depois de viver aqui e de tantas Quintas Quentes, então, isso nunca poderá ser de outra forma. E parece que não sou só eu que penso assim. Um documentário que será lançado na quinta-feira, dia 15 de setembro, chamado Tambores, faz uma incrível viagem musical por seis países, apresentando os ritmos de seus tambores. O continente africano é o mais representado no filme: Moçambique e Zâmbia. O documentário viaja também pelo Brasil, China, Catar e Portugal.

O vídeo foi produzido e idealizado pela Cinevídeo, em parceria com a Cine Internacional — a filial da Cinevídeo no continente africano — e mostra que a percussão está presente em diversos momentos em muitas culturas: homenagem a ancestrais, passagem de ano, luto, culto aos deuses, nascimento e os mais diversos rituais. O canto e a dança de muitas comunidades são marcados pelo compasso forte do tambor, que em cada região do mundo tem um significado próprio.

Chaisson e primo

Chaisson (direita) com um primo

No documentário, o tambor moçambicano é representado por Chaisson Meja, jovem que perdeu sua mãe quando tinha apenas um mês, vítima da guerra civil. Desde pequeno ele teve a vida conectada com o tambor pela influência de seu avô, que fabricava o instrumento, e de seu tio, músico.

Quem está em Maputo poderá ter acesso ao lançamento internacional deste vídeo e conhecer as histórias dos tambores dos outros cinco países. Será, às 18h do dia 15 de setembro, no Centro Cultural Franco Moçambicano, como parte da 6a edição do Festival Dockanema. A entrada é gratuita. Após o filme, os espectadores poderão assistir também apresentação do grupo cultural da Associação de Jovens de Nacala – AJN, que participa do filme e se apresenta em Maputo pela primeira vez.

Vou conferir e depois trago as impressões para aqueles que não estão por aqui ficarem com mais água na boca.

cartaz Tambores

P.S. Clique aqui para ver o vídeo de divulgação do documentário.

Mais da Argélia

Quando apresentei aqui na Quinta Quente o cantor Idir, citei que ele tem um amigo, também argelino, com o qual fundou a associação l’Algérie la vie (“Argélia, minha vida”). Esse amigo é Khaled, que hoje trago para aquecer nossa quinta.

Ele é um dos mais conhecidos cantores de Raï, música popular folclórica árabe, originada em Orã, cidade do litoral mediterrâneo da Argélia. Em árabe, a palavra raï significa “opinião”.

Khaled nasceu em 1960 e começou a cantar na adolescência, usando o nome Cheb Khaled. Cheb é uma forma árabe de dizer jovem. Khaled é um nome popular na cultura árabe e o significado é eterno, imortal. A popularidade do jovem foi tanta, que chegou a ser conhecido como Rei do Raï. Suas músicas mais famosas foram Aïcha e Didi.

Em 1992 já não usava mais o Cheb e passou a ser conhecido apenas como Khaled, nome que deu ao álbum lançado nesse ano, que garantiu sua popularidade também na França. A partir de então, sua fama cresceu ainda mais na Argélia e em todo o mundo árabe. No final do milênio, seu nome tinha extrapolado muitas fronteiras e o sucesso já estava no Canadá, Bélgica, Holanda, Japão, Inglaterra, Índia, Alemanha, Espanha, Pasquistão e, inclusive, Brasil.

Em 2008, participou do Festival de artes árabes de Liverpool. Em 2009, apresentou-se no Festival de jazz de Montreal e em 2010 fez parte da cerimônia de abertura da Copa do Mundo na África do Sul.

No começo dos anos 2000, sua música El Arbi fez muito sucesso no Brasil, por ser parte da trilha sonora da novela O Clone. Vamos ver agora sua apresentação desta música em Estocolmo, no ano de 2009. Me agrada porque ele canta o tempo todo a sorrir. Sorri inclusive com os olhos, como quem está a fazer algo de que realmente gosta.

O Árabe

Eu sou o árabe, filho do bosque e do faisão,
Eu sou o árabe, filho da camela e do camelo,
Eu sou o árabe, filho do deserto e da areia

Sem flores, sem felicidade,
a mulher que eu amava me deixou…
Na música da noite encontro o consolo
A luz da lua me faz companhia…
Eu sou o árabe, filho do bosque e do faisão
Eu sou o árabe…

(tradução retirada do site Vagalume)

Ouça também Didi e Aïcha.

Veja mais sobre Khaled na Wikipedia.

Dioguito, do Bangão

Sexta-feira passada (12/8/11), o músico angolano Bangão teve uma noite memorável no espetáculo Estrelas do Semba, promovido pelo Centro Cultural e Recreativo Kilamba, em Luanda, Angola. Estrela das estrelas, Bangão apresentou-se durante quatro horas.

Como sempre, estava em alto estilo e recebeu merecidos elogios nas notícias culturais no fim de semana. Nas textos, referências não só a seu talento musical, mas aos vários ternos (fatos, por aqui) que desfilou ao longo da apresentação. Aliás, o cuidado com as vestimentas sempre é notável nas apresentações de Bangão.

Bangão é tratado por príncipe do semba. Nascido a 27 de setembro de 1962, em Luanda, capital de Angola, começou sua carreira em 1974, como participante do grupo Tradição. Em 1976 e 1977 integrou, como vocalista, o grupo Processo de África. Mas a primeira vez que subiu a um palco para um concerto foi em 18 de outubro de 1978 como integrante do grupo Gingas Kakulo Kalunga.

De 1989 a 1992 fez parte do conjunto Nzimbo e gravou, em 1992, o CD Sembele. Em 1996 venceu o prêmio Liceu Vieira Dias, com o tema Kibuikila (Peste), acompanhado pela banda Maravilha. Em 1999 foi convidado a fazer parte da banda Movimento, como vocalista. No mesmo ano, ganhou a primeira edição do concurso Semba de Ouro, com a canção Kangila (pássaro agourento).

Em 2003 é consagrado como um dos maiores intérpretes da música popular angolana, ao ganhar os prêmios de Música do ano (Fofucho), Voz masculina do ano e Preservação, pela sua incessante defesa da música popular angolana, todos pela Top Rádio Luanda. Em 2005 foi vencedor do Top dos Mais Queridos.

Ao longo de sua carreira, Bangão já participou em espetáculos em Portugal, Argentina, Namíbia e Brasil, onde dividiu o palco com Gilberto Gil.

Uma das músicas que marcam sua carreira foi sugerida para a Quinta Quente pelo David Borges. Demorei um pouco para divulgar, em busca da letra. Mas, como não encontrei mesmo, aí vai Dioguito. Se alguém souber a letra (e tradução também), os leitores do Mosanblog agradecem.

Veja mais sobre a apresentação no Centro Cultual e Recreativo Kilamba em notícia da Agência AngolaPress.

Leia sobre a carreira do artista no portal Mwangole.net.

Parabéns, Dilon Djindji

Nascido em Marracuene, na província de Maputo, aos 12 anos construiu sua própria guitarra, com três cordas, a partir de uma lata de óleo. Só três anos depois teve uma guitarra de verdade e logo começou a tocar em festas. Tocava dois ritmos típicos do interior da província: zukuta e mágica. Perto da década de 50, quando surgiu a marrabenta, passou a tocá-la imediatamente.

Mas nem só de música viveu Dilon Djindji. Neste mesmo período, foi viver na África do Sul, para trabalhar como mineiro. De regresso à Moçambique, trabalhou em uma cooperativa agrícola. Só em 1960 criou um grupo musical, o Estrela de Marracuene. Em 1973 gravou o primeiro álbum: Xinguindlana e passou a ter seu trabalho ligado exclusivamente à música, sendo coordenador de produção da casa discográfica Produções 1001.

Em 1994 ganhou o prêmio da Rádio Moçambique, N’goma Moçambique, na categoria canção mais popular, com a música Juro palavra d’honra, sinceramente vou morrer assim. Só em 2001, já aos 74 anos, começou carreira internacional, como membro do grupo Mabulu. Em 2002 gravou o CD Dilon.

No próximo domingo, dia 14 de agosto, Dilon Djindji completa 84 anos. Ele é um ícone da marrabenta, uma lenda viva e bastante ativa, por sinal. Há algum tempo eu vinha querendo apresentá-lo na nossa Quinta Quente, mas o material disponível na internet era muito inscipiente. Eu o vi ao vivo uma noite dessas em um restaurante de Maputo e fiquei impressionada com o pique daquele papá de mais de 80 anos.

Agora, encontrei duas preciosidades no YouTube que me permitirão apresentá-lo aqui. O primeiro vídeo é a apresentação do prêmio Moçambique Music Awards 2010, no qual Dilon foi premiado por sua carreira. Pensei em editar o vídeo e deixar só a parte da apresentação do Dilon, mas vale ver a introdução, para melhor contextualização (são menos de 7 minutos no total). O segundo é um vídeo amador, feito durante a abertura do Festival de Marrabenta 2011, no Franco Moçambicano. Vejam lá se esse papá não é de cansar cachorro…

Veja mais sobre o artista nos sites da Plural Editores e da National Geographic World Music.

Confira aqui a lista de todos os vencedores do Mozambique Music Awards 2010.

Splash!

A banda surgiu da necessidade de acompanhar artistas solo no palco e em estúdio. Splash! foi fundadada em 1990, com a versatilidade de acompanhar diversos estilos musicais, como funaná, zouk, soul, coladeira e reggae, misturando estilos latinos e africanos.

Em 1996, Splash! lançou seu primeiro disco próprio, Simplicidade. O segundo foi lançado em 1998, sob o título Nha terra K’t chuva. O sucesso internacional foi tão grande que empolgou o grupo a, logo no ano seguinte, lançar o terceiro título: Africana. Em 2001 lançaram Contradição.

Ao longo desses anos, a formação do grupo sofreu alterações. Atualmente, a banda, radicada na Holanda, tem como membros: Djoy Delgado, Grace Evora, Johnny Fonseca, Danilo Tavares, Manu Soares, Dina Medina e Laise Aerts.

Em 2009, seguindo a tendência de muitos artistas internacionais, a banda passou a disponibilizar algumas de suas músicas na internet, em uma estratégia utilizada por algumas gavadoras para combater a pirataria, fidelizar os fãs e divulgar mais seus músicos. Para conhecer melhor o trabalho da banda, visite o site oficial dos Splash!

E como a quinta é quente, vamos deixar de conversa e ouvir o som gostoso e animado, daqueles que mexem com o corpo da gente, da música Africana.

Leia mais em A Semana sobre os lançamentos gratuitos da banda pela internet.

Assista também a um interessante vídeo de uma apresentação da banda em Maputo, Moçambique, clicando aqui.

Azagaia preso

No dia 29 de julho, as notícias chamavam para o lançamento do novo vídeo do cantor Azagaia, o rapper mais falado de Moçambique nos dias de hoje. O lançamento seria no Gil Vicente Bar e o vídeo objeto do evento é o da música A minha geração. No evento, seria apresentado também o tema Primeira carta para o ministro da Cultura, que abriria a série denominada pelo cantor de Aza-leaks (como referência aos WikiLeaks).

Poucas horas antes do show, a notícia na televisão era de que Azagaia havia sido preso, por ser encontrado com maconha. Agentes da Polícia de Investigação Criminal (PIC) teriam mandado parar o carro onde Azagia se encontrava por estar com o farol quebrado. Na revista do veículo, encontraram a droga. O artista foi levado para a esquadra (delegacia aqui).

Alguns veículos de comunicação, como o @ Verdade, informaram que a quantia da droga era irrisória e que outra pessoa não teria sido detida por isso. De acordo com a voz corrente na rua, Azagaia foi detido para ser intimidado por suas músicas.

No meio do dia desta segunda-feira, foi divulgada a notícia de que Azagaia já estava em liberdade. Veja no @ Verdade. Em entrevista, ele não confirma nem desmente a acusação de posse de drogas. Tudo que disse é que os jornalistas deveriam perguntar o motivo da prisão à polícia, que é quem o acusa.

Quando se atua em organizações na luta por uma causa, por um ideal, uma das coisas que se aprende é que se deve sempre dar um bom exemplo, não se envolver com drogas, não beber demais, ser o mais honesto e correto possível. Isso, justamente, para não dar margem a usarem outras ações suas como razão para deter e calar a voz de um ideal.

Azagaia deveria ter sido orientado para isso. Ele quer enfrentar o governo. O governo aqui se apresenta como democrático, que dá liberdade de imprensa e de manifestação. Apesar de haver quem argumente que, nos bastidores, a verdade não é bem essa. Mas se o governo quer continuar parecendo democrático, não prenderia e censuraria o artista por sua música. Teria mesmo que encontrar outra desculpa. Se Azagaia não tivesse dado a desculpa, como seria calado? Se ele quiser ser um líder e contribuir de fato com a mudança, terá que começar a mudar dentro de si.

Azagaia já foi antes processado pela Procuradoria Geral da República, acusado de atentar contra a segurança do Estado através de uma música e vídeo que produziu logo a seguir às manifestações populares ocorridas em Maputo em fevereiro de 2008. A música era O povo no poder. O processo acabou por ser arquivado. Mas deveria ter sido um alerta para o artista sentir que não passa despercebido.

Ele também é autor de outra música muito forte, As mentiras da verdade, que levanta suspeitas sobre a história contada a respeito da morte do primeiro presidente de Moçambique, Samora Machel, fala de outras mortes mal explicadas, do uso da pobreza para enriquecimento de alguns, do comprometimento da mídia com o governo, de traições e torturas na revolução, do neocolonialismo, enfim, fala muito. Mas pode falar. A música está no Youtube, o músico faz shows, as pessoas nas ruas cantam.

Eu acredito que, com essas letras que faz e a tentativa de esclarecer o povo sobre sua realidade, esse homem é mesmo uma pedra no sapato do governo. Mas ele tem que perceber a importância de seu papel na sociedade e ser o melhor exemplo de correção, de honestidade, de cumprimento da lei. Assim, quando for preso novamente, não haverá dúvidas sobre as razões.

Hoje não é Quinta Quente, mas vamos ouvir As mentiras da verdade, para conhecer um pouco mais da contundência das letras desse músico.

I
E se eu te dissesse
Que Samora foi assassinado
Por gente do governo que até hoje finge que procura o culpado
E que foi tudo planeado
P’ra que parecesse um acidente e o caso fosse logo abafado

E se eu te dissesse
Que o Anibalzinho é mais um pau mandado
Que não fugiu da Machava mas foi libertado
Pelo mesmo sistema judicial que o tem condenado
E o mais provável é que ele agora seja eliminado

E se eu te dissesse
Que Siba-Siba,
Coitado foi uma vítma
Da corja homicida
Que matou Cardoso na avenida
Não Anibal e a sua equipa
Condenados pelos media
Mas a mesma que deixou
Pedro Langa sem vida

E se eu te dissesse
Que Moçambique não é tão pobre como parece
Que são falsas estatísticas
E há alguém que enriquece
Com dinheiros do FMI, OMS e UNICEF
Depois faz o povo crer
Que a economia é que não cresce

E se eu te dissesse
Que a oposição
Neste país não tem esperança
Porque o povo foi ensinado a ter medo da mudança

Mas, e se eu te dissesse
Que a oposição e o governo não se diferem
Comem todos no mesmo prato
E tudo está como eles querem

E se eu te dissesse
Que a barragem Cahora Bassa não é nossa
É d’um punhado de gente que ainda vai encher a bolsa

E se eu te dissesse que há jornais
Que fabricam informação
P’ra venderem mais papel e ganharem promoção
E que são os mesmos que nos vendem
Aquela imagem de caos
Que transformam simples ovelhas em lobos maus

E se eu te dissesse
Que há canais de televisão comprometidos
Com o governo e só abordam os assuntos permitidos
Que esses telejornais já foram todos vendidos
Vocês só vêm o que eles querem
E eles querem os vossos sorrisos

E se eu te dissesse
Que o Sida em Moçambique é um negócio
ONGs olham para o governo como um sócio

Refrão:
Porque nem tudo que eles dizem é verdade — é verdade
Porque nem tudo que eles não dizem não é verdade — é verdade

Eles fazem te pensar que tu sabes — mas não sabes
Cuidado com as mentiras da verdade — é verdade
(2x)

II
Se eu te dissesse
Que a história que tu estudas tem mentiras
Que o teu cérebro é lavado em cada boa nota que tiras
Que a revolução não foi feita só com canções e vivas
Houve traição, tortura e versões escondidas

E se eu te dissesse
Que antigos combatentes vivem de memórias
Deram a vida pela pátria e o governo só lhes conta histórias
Quantos nos dias de hoje dariam metade que eles deram?
Em nome de Moçambique, nem os que vocês elegeram

E se eu te dissesse
Que o deixa andar não deixou de existir
Veja os corruptos a brincar de tentarem se impedir
Comissões de anti-corrupção criadas por corruptos
A subornarem-se entre eles p’ra multiplicar os lucros

E se eu te dissesse
Que as vagas anunciadas já têm donos
Fazemos bichas nas estradas mas nem sequer supomos
Que metade das entradas pertencem a esquemas de subornos
Universidades estão compradas mas que raio de merda somos?

E se eu te dissesse
Que o teu diploma de engenheiro não é p’ra hoje
Enquanto saem 100 economista, engenheiros saem 2
Lares universitários abarrotados de gente
Vai ver as pautas a vermelho e os docentes indiferentes

E se eu te dissesse
Que neste país os estrangeiros é que mandam
Tem o emprego e o salário que querem e ainda mandam
Meia dúzia de nacionais p’ra rua
É o neocolonialismo da maneira mais crua

E se eu te dissesse
Que a cor da tua pele conta muito
Quanto mais clara, mais portas que se abrem é absurdo
Os critérios de selecção p’ra emprego
Vais p’ra empresas tipo bancos e não encontras nem um negro

E se eu te dissesse
Que a polícia da república é uma comédia
São magrinhos, sem postura e vendem-se por uma moeda
Agora matam-se entre eles traição na corporação
Afinal de contas quem é o polícia, quem é ladrão?

E se eu te dissesse
Que há bancos que financiam partidos
E meia volta aparecem com os cofres falidos…

Refrão (até o fim)

(letra retirada do site Just Some Lyrics)

Leia no Canalmoz sobre o lançamento do clipe A minha geração.

Um baterista

Com a boa tradição de batuques que mexem com a gente, a África claro que só podia mesmo produzir bons bateristas. Deodato Siquir é moçambicano, radicado na Suécia e está a construir uma carreira de sucesso como cantor e baterista. O que ele faz com a bateria é coisa de doido. A mistura de jazz com ritmos tradicionais africanos já tinha tudo para dar certo. Isso feito por um músico talentoso, como Deodato, deixa a gente de boca aberta. Para acompanhar a bateria, ele canta em português, tonga e inglês.

Seu primeiro CD foi lançado em 2007, sob o título Balanço. Agora, ele lança Mutema, como homenagem póstuma a sua mãe, Berta Telma da Conceição Manjante, cujo nome tradicional era Mutema.

Balanço foi apresentado no World Music Charts Europe e esteve no Top 10 da rádio RDP África, no programa Música sem Espinha, além de ter levado o prêmio revelação do Ngoma Moçambique 2008. O novo CD tem 11 temas, gravados em Moçambique e na Suécia, e também promete ser um sucesso.

Sempre com uma visão positiva da vida, em suas músicas Deodato fala de amor, paz, saúde e prosperidade. Foi difícil escolher um vídeo para apresentar aqui. Todos mexem com a gente… Mas aí vai Terra mãe.

Saiba mais sobre o novo CD lançado pelo artista no site Mãos de Moçambique.

Alto astral moçambicano

Stewart Sukuma é só nome artístico, o nome registrado é Luís Pereira, natural de Quelimane, província da Zambézia. Em 1977 foi para Maputo, a capital do país. Foi então que aprendeu a tocar percussão, guitarra e piano. Além de desenvolver o canto, que apresenta hoje com uma voz firme, bem colocada e gostosa de ouvir, em interpretações onde transmite sempre alegria, muito alto astral.

Em 1982 começou a cantar em uma banda e, logo no ano seguinte, gravou seu primeiro disco e recebeu o prêmio Ngoma Moçambique de Melhor Intérprete Nacional. Em 1987, novo álbum, dessa vez com a famosa Orquestra Marrabenta Star. Em meados da década de 90, foi viver na África do Sul. Lá produziu o álbum Afrikiti, com músicos moçambicanos e sul-africanos. Em 1998 foi para os Estados Unidos, onde estudou no Berklee College of Music, no estado de Massachusetts. Nesse ano recebeu prêmio de Música da Unesco em Moçambique.

Já realizou shows em diversos países da Europa, como Portugal, Alemanha, Inglaterra, Finlândia, Noruega, Dinamarca, Suécia, Holanda e vários outros. Em tantos palcos, já esteve ao lado de artistas como Bhundu Boys, Mark Knoffler, Youssou N’Dour, Miriam Makeba, Hugh Masekela, Angélique Kidjo, Abdullah Ibrahim e Oumou Sangaré.

Sukuma tem talento e é versátil: canta ritmos africanos, como a marrabenta, mas também brasileiros e música pop internacional e canta em português, inglês e línguas africanas. Sua música fala da cultura tradicional de Moçambique e do cotidiano do povo africano.

Ele está hoje, certamente, entre os mais conhecidos cantores e letristas moçambicanos. Não é por acaso que usei um vídeo dele quando apresentei a marrabenta aqui na Quinta Quente, no post Qual é a música?

Agora, trago Vale a pena casar, que tem um vídeo muito bem feito, como todos os do artista, por sinal.

Dizem que val’a pena casar
pra divorciar

Dizem que val’a pena casar
pra divorciar

Arrecadam prendas de casamento
Com festas de arromba
Até parece combinação

Com lobolo e lua-de-mel
Como manda a tradição

Dizem que val’a pena casar
pra divorciar

Dizem que val’a pena casar
pra divorciar

Movimentam grandes quantias de dinheiro
Carros de luxo em ação
Grife na ordem do dia
Só pra chamar atenção
E no dia seguinte: duas mãos
Uma à frente e outra atrás

Dizem que val’a pena casar
pra divorciar

Dizem que val’a pena casar
pra divorciar

Dizem que val’a pena casar
pra divorciar

Dizem que val’a pena casar
pra divorciar

Esses jovens de agora, minha mãe
Não têm juízo…
Se aproveitam de gente de boa fé
Só para chamar atenção

Esses jovens de agora, ó meu pai
precisam de uma lição
um cacete nessa cabeça oca
para os chamar à razão

Dizem que val’a pena casar
pra divorciar

Dizem que val’a pena casar
pra divorciar

Dizem que val’a pena casar
pra divorciar

Dizem que val’a pena casar
pra divorciar

Se não tem certeza, não casa meu irmão

Dizem que val’a pena casar
pra divorciar

Dizem que val’a pena casar
pra divorciar

Dizem que val’a pena casar
pra divorciar…

Veja mais sobre Stewart Sukuma na Wikipedia, no My Space e na Infopédia.

Visite também o site oficial do artista.

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