Mulheres Africanas no Brasil

Já falei aqui que voltar a Moçambique é muito bom; fácil como voltar para casa. Mas, desta vez, não fui a Moçambique, o país é que veio até mim e trouxe todo o continente com ele. Tive o prazer de ir à pré-estréia do filme Mulheres Africanas – a rede invisível, da Cinevideo Produções.

Foi uma sensação muito boa, ao ver as primeiras cenas, identificar Moçambique. Perceber que aquela mulher, aquela casa, aqueles gestos, aquele céu… só podiam estar em Moçambique. Era o que um dia já foi a minha casa e, no fundo, sempre será.

O filme (em cartaz de 8 de março a 8 de abril de 2013 no Circuito Itaú de Cinema em Brasília, São Paulo, Porto Alegre, Curitiba e Rio de Janeiro) é um documentário que apresenta a trajetória de mulheres africanas.

São retratadas grandes líderes locais, reconhecidas mundialmente por sua atuação em diversas áreas, e também mulheres comuns, que, assim como as demais, fazem toda a diferença no rumo que tomam suas famílias, seus países, seu continente.

O documentário é guiado por entrevistas com Graça Machel – esposa de Nelson Mandela e ativista moçambicana -, Leymah Gbowee – recebeu o Nobel da Paz em 2012 por sua luta pela libertação da Libéria da tirania e conquista da democracia -, Sara Masasi – empresária mulçumana da Tanzânia de grande destaque no mundo de negócios por sua criatividade e ousadia na gestão -, Nadine Gordimer – sul-africana e prêmio Nobel de Literatura em 1991 – e Luisa Diogo – atual deputada de Moçambique e ex-primeira ministra do país.

Elas são apresentadas como a base norteadora da organização política, econômica, comunitária e cultural africana. E quem já viveu por lá sabe o quanto, de fato, as mulheres têm papel de protagonismo nas grandes decisões daquelas nações.

Mulheres Africanas é um documentário sem ousadias artísticas, com entrevistas estáticas e até um pouco formais, dentro de um roteiro quadradinho, que se desenvolve conforme passa pelos diversos países, como a própria Cinevideo já fez em trabalhos anteriores. Mas a falta de criatividade é compensada pela maravilha de vermos a África retratada no cinema, em importantes cidades brasileiras. Além disso, o filme foge totalmente do clichê de mostrar a África da fome, pobreza, desnutrição e Aids (Sida).

Para quem não tem a oportunidade de atravessar o Oceano Atlântico e ver de perto o cotidiano da mulher africana, é imperdível. Mesmo que o continente africano não esteja entre seus interesses prioritários, considere a possibilidade. Afinal, o documentário é, antes de tudo sobre mulheres, sobre valores e sobre sociedade.

Ficha Técnica:
Diretor: Carlos Nascimbeni
Produção: Mônica Monteiro
Roteiro: Carlos Nascimbeni
Gênero: Documentário
Duração: 80 minutos

Quatro filmes de um festival

Acabou a 6a edição do Dockanema e consegui assistir apenas quatro filmes, sendo que um deles foi Os Fuzis, do Ruy Guerra, diretor homenageado do ano.

Depois, assisti Robert Mugabe… what happened? (Robert Mugabe… o que aconteceu?), que retrata a ascensão e perda de controle do presidente Robert Mugabe, do Zimbábue. Há 30 anos no poder, já foi condenado como terrorista e nomeado cavaleiro pela rainha Elizabeth. Um homem de contradições, em um país também assim, dentro de um continente mais assim ainda, de um planeta que nem se fala… O filme é baseado em entrevistas, quase todas com alguns dos camaradas de Mugabe.

O terceiro foi Tambores, do qual já tinha falado um pouco no post Tambores do mundo em Maputo. Filmado em seis países, o documentário mostra como o tambor está presente em sociedades tão distintas e é um instrumento democrático, usado em diferentes situações, por diferentes tipos de pessoas e que pode ser feito de forma tradicional, utilizando materiais rústicos, ou com materiais sintéticos. O melhor do filme é guardado para o final, quando… bom, final de filme não se conta, não é? Mesmo sendo documentário. Procurem assistir e surpreendam-se também.

No último dia do festival, fui compreender um pouco mais das difíceis relações políticas na África, no documentário An African Election (Uma eleição africana), que retrata as eleições presidenciais de 2008 no Gana, que foram para o segundo turno e, no final, com um resultado muito difícil de ser apurado, a comissão eleitoral acabou optando por um terceiro turno em um dos distritos do país. Lembra muito a eleição de George Bush em 2000, que foi definida depois de muita recontagem de votos na Flórida.

Recomendo todos os que vi e lamento pelos que não vi… mas ainda vou procurá-los por aí, porque sei que a seleção do Dockanema costuma ser de boa qualidade.

Tambores do mundo em Maputo

Ritmo e tambor são duas palavras que sempre relaciono com África. Depois de viver aqui e de tantas Quintas Quentes, então, isso nunca poderá ser de outra forma. E parece que não sou só eu que penso assim. Um documentário que será lançado na quinta-feira, dia 15 de setembro, chamado Tambores, faz uma incrível viagem musical por seis países, apresentando os ritmos de seus tambores. O continente africano é o mais representado no filme: Moçambique e Zâmbia. O documentário viaja também pelo Brasil, China, Catar e Portugal.

O vídeo foi produzido e idealizado pela Cinevídeo, em parceria com a Cine Internacional — a filial da Cinevídeo no continente africano — e mostra que a percussão está presente em diversos momentos em muitas culturas: homenagem a ancestrais, passagem de ano, luto, culto aos deuses, nascimento e os mais diversos rituais. O canto e a dança de muitas comunidades são marcados pelo compasso forte do tambor, que em cada região do mundo tem um significado próprio.

Chaisson e primo

Chaisson (direita) com um primo

No documentário, o tambor moçambicano é representado por Chaisson Meja, jovem que perdeu sua mãe quando tinha apenas um mês, vítima da guerra civil. Desde pequeno ele teve a vida conectada com o tambor pela influência de seu avô, que fabricava o instrumento, e de seu tio, músico.

Quem está em Maputo poderá ter acesso ao lançamento internacional deste vídeo e conhecer as histórias dos tambores dos outros cinco países. Será, às 18h do dia 15 de setembro, no Centro Cultural Franco Moçambicano, como parte da 6a edição do Festival Dockanema. A entrada é gratuita. Após o filme, os espectadores poderão assistir também apresentação do grupo cultural da Associação de Jovens de Nacala – AJN, que participa do filme e se apresenta em Maputo pela primeira vez.

Vou conferir e depois trago as impressões para aqueles que não estão por aqui ficarem com mais água na boca.

cartaz Tambores

P.S. Clique aqui para ver o vídeo de divulgação do documentário.

Dockanema homenageia Ruy Guerra

As exibições públicas da 6ª edição do Dockanema — Festival do Filme Documentário de Moçambique — começam hoje, 10 de setembro. O Dockanema 2011 contará com 80 filmes, dos quais cerca de metade são de produção africana. O site do evento — que, aliás, está muito bom — é o http://dockanema.wordpress.com/. Há um post só com o catálogo da 6ª edição do evento, onde é possível ver a resenha de cada filme.

E o festival de 2011 ainda tem um componente mais importante para nós brasileiros: homenageia o cineasta Ruy Guerra, moçambicano de nascimento, mas um dos maiores autores do cinema brasileiro, consagrado como um dos fundadores do Cinema Novo no Brasil.

Para além de trazer Ruy Guerra de volta a Moçambique, o Dockanema será uma oportunidade de contato com o cineasta, durante palestra no Centro Cultural Brasil-Moçambique (Av. 25 de setembro, 1.728), no dia 15 de setembro, às 18h, e também com sua obra: hoje, 10 de setembro, o filme Os Fuzis será apresentado, às 19h30, no Centro Cultural da Universidade Eduardo Mondlane (av. Agostinho Neto, 926); dia 17 de setembro, às 18h, de novo no Centro Cultural Brasil-Moçambique, será apresentado A Queda. Os dois filmes receberam Urso de Prata no Festival de Berlim. O primeiro em 1964 e o segundo em 1977.

Ruy Guerra recebeu vários outros prêmios e reconhecimentos internacionais. Filmou em França, Brasil, Espanha, Cuba, México, Portugal e Moçambique. Ele conhece cinema sob todos os aspectos. Antes de ser um diretor consagrado, foi câmara, fotógrafo, ator, roteirista e documentarista.

Roteiro

Ruy Guerra nasceu na atual cidade de Maputo em 1931. Na juventude, em Moçambique, foi ativista contra o colonialismo e o racismo, o que lhe valeu problemas com as autoridades. Seus pais resolveram enviá-lo para Portugal, mas lá foi preso, por motivos políticos, logo na sua chegada. Depois viveu em Paris e, em 1958, seguiu para o Brasil onde se fixou.

Mas nunca deixou Moçambique para trás. Com a independência do seu país natal, Ruy Guerra passou a colaborar na criação de uma cinematografia moçambicana. Pela sua mão, importantes figuras do cinema internacional participaram, no quadro do Instituo Nacional de Cinema, na formação de operadores de câmera, técnicos de som, roteiristas, produtores e realizadores do nosso país.

Para além do cinema, andou por outras artes. Escreveu e dirigiu obras teatrais, foi autor de letras de canções de sucesso (muitas na voz de Chico Buarque) e produziu espectáculos com os maiores nomes da música popular brasileira. Também é poeta, escritor e jornalista.

programação Dockanema 2011

P. S.: O bilhete custa MT 50,00 por sessão ou MT 500,00 para todo o festival. A entrada é gratuita para estudantes e pessoas até 26 anos.

Rota do artesanato em Maputo

Faz mais de um ano eu contei aqui que em Moçambique, a fruta caqui é chamada diospiro. Pois hoje eu descobri mais uma sobre a mesma fruta. A árvore do caqui/diospiro é da mesma família do ébano. Pode ser óbvio para alguns leitores, mas para mim é pura novidade.

Eu descobri porque queria falar do artesanato de Moçambique. O mais conhecido é o feito em pau preto, que é justamente o ébano… Essa madeira, especialmente, no miolo dos troncos, é muito escura e densa. Por isso, é um artesanato difícil de ser feito. Como me explicou um artesão outro dia “aleija muito as mãos no trabalho”.

Há em Maputo, inclusive, a Feira do Pau. É uma feira de artesanato em geral, mas com forte presença do artesanato em pau preto, que acontece todos os sábados, entre 10h e 16h, na avenida Samora Machel, ao lado da praça 25 de junho.

Para além do artesanato em pau preto, há muitos produtos em sândalo, tecido, conchas, barro, pedra sabão, folha de bananeira, enfim, uma diversidade imensa de materiais. O único senão da feirinha é a falta de estratégia de venda dos expositores. Na ânsia de vender, eles voam para cima das pessoas que estão apreciando a arte feito mosca em rosca de padaria. E ficam falando “venha ver minhas peças… é só para apreciar, não precisa comprar”. Mas vinte pessoas fazendo isso ao mesmo tempo, não permitem nem mesmo que se aprecie. O potencial cliente fica aborrecido e vai embora sem levar nada. Eu mesma já quis muito apreciar com calma o trabalho, mas nunca consigo e acabo saindo de mãos vazias.

De uns tempos para cá, há uma alternativa bem interessante, que é a FEIMA (Feira permanente de artesanato, gastronomia e flores na cidade de Maputo), fica no Jardim Parque dos Continuadores, que está entre as avenidas dos Mártires da Machava e Armando Tivane. Lá funciona todos os dias, das 10h às 18h, com algumas barracas ficando até 19h. Tem os mesmos tipos de artesanato, com mais opções de roupas e batiques que na Feira do Pau. A vantagem é que na FEIMA cada expositor tem seu espaço (enquanto na Feira do Pau, há expositores que ficam perambulando, sem lugar fixo). Então, você passa por ele e ele não vai atrás de você.

artesanato em sândaloMesmo assim, é meio chato, porque você está a apreciar uma barraca e o camarada da barraca do lado fica chamando. É um pouco inconveniente, mas da última vez que eu fui lá resolvi botar ordem na casa. Eu queria ver todos os trabalhos e com calma. Então, quando cheguei já fui logo avisando: “vou ver tudo, de todo mundo e comprar o que eu quiser e não o que for de quem me perturbar mais. E se um vier pedir para ver as suas peças enquanto eu estiver vendo o trabalho do outro, vou embora e não compro nada”. A informação correu de barraca em barraca e consegui, durante uma hora e meia, ser bem pouco importunada e apreciar muita coisa linda.

casal em madeira e tecidoOutra vantagem da FEIMA é as barracas terem cobertura, o que ajuda muito na época do verão. Na Feira do Pau, a exposição é a céu aberto. Mas as duas têm aquela coisa chata de você ter que pechinchar para conseguir um preço razoável. Sempre se consegue diminuir uns 40% no valor inicial. Se for dia de movimento fraco, então, se diminui até mais.

artesanato variadoUm terceiro lugar muito bom de fazer esse tipo de compra é o Centro Juvenil de Artesanato – Mozarte. É um centro mantido pelo Ministério da Juventude e Desportos, que fica na avenida Filipe Samuel Magaia, entre as avenidas Ho Chi Min e Josina Machel. Lá você não tem contato com os artesãos, o que é uma desvantagem. Mas a vantagem é saber que são adolescentes em situação de vulnerabilidade social, que aprendem o artesanato no próprio centro Mozarte e têm lá o espaço onde suas obras são comercializadas. Os preços são bastante justos, o que já torna desnecessário entrar na negociação de pechincha. Lá funciona de segunda a sexta-feira, das 9h às 16h30, e aos sábados das 9h às 13h.

Esses são os lugares que eu gosto de freqüentar por aqui quando o assunto é artesanato. Mas, mesmo quando não vamos a eles, caminhando pelas avenidas 24 de julho ou 25 de setembro, sempre é possível cruzar com um vendedor ambulante com boas peças nas mãos.

Veja outras impressões sobre o artesanato moçambicano no post A economia do artesanato, de Fernando Aidos, publicado no blog Perspectiva Lusófona.

Saiba mais sobre o artesanato em Moçambique, visitando o site do Cedarte (Centro de Estudos e Desenvolvimento do Artesanato).

Azagaia preso

No dia 29 de julho, as notícias chamavam para o lançamento do novo vídeo do cantor Azagaia, o rapper mais falado de Moçambique nos dias de hoje. O lançamento seria no Gil Vicente Bar e o vídeo objeto do evento é o da música A minha geração. No evento, seria apresentado também o tema Primeira carta para o ministro da Cultura, que abriria a série denominada pelo cantor de Aza-leaks (como referência aos WikiLeaks).

Poucas horas antes do show, a notícia na televisão era de que Azagaia havia sido preso, por ser encontrado com maconha. Agentes da Polícia de Investigação Criminal (PIC) teriam mandado parar o carro onde Azagia se encontrava por estar com o farol quebrado. Na revista do veículo, encontraram a droga. O artista foi levado para a esquadra (delegacia aqui).

Alguns veículos de comunicação, como o @ Verdade, informaram que a quantia da droga era irrisória e que outra pessoa não teria sido detida por isso. De acordo com a voz corrente na rua, Azagaia foi detido para ser intimidado por suas músicas.

No meio do dia desta segunda-feira, foi divulgada a notícia de que Azagaia já estava em liberdade. Veja no @ Verdade. Em entrevista, ele não confirma nem desmente a acusação de posse de drogas. Tudo que disse é que os jornalistas deveriam perguntar o motivo da prisão à polícia, que é quem o acusa.

Quando se atua em organizações na luta por uma causa, por um ideal, uma das coisas que se aprende é que se deve sempre dar um bom exemplo, não se envolver com drogas, não beber demais, ser o mais honesto e correto possível. Isso, justamente, para não dar margem a usarem outras ações suas como razão para deter e calar a voz de um ideal.

Azagaia deveria ter sido orientado para isso. Ele quer enfrentar o governo. O governo aqui se apresenta como democrático, que dá liberdade de imprensa e de manifestação. Apesar de haver quem argumente que, nos bastidores, a verdade não é bem essa. Mas se o governo quer continuar parecendo democrático, não prenderia e censuraria o artista por sua música. Teria mesmo que encontrar outra desculpa. Se Azagaia não tivesse dado a desculpa, como seria calado? Se ele quiser ser um líder e contribuir de fato com a mudança, terá que começar a mudar dentro de si.

Azagaia já foi antes processado pela Procuradoria Geral da República, acusado de atentar contra a segurança do Estado através de uma música e vídeo que produziu logo a seguir às manifestações populares ocorridas em Maputo em fevereiro de 2008. A música era O povo no poder. O processo acabou por ser arquivado. Mas deveria ter sido um alerta para o artista sentir que não passa despercebido.

Ele também é autor de outra música muito forte, As mentiras da verdade, que levanta suspeitas sobre a história contada a respeito da morte do primeiro presidente de Moçambique, Samora Machel, fala de outras mortes mal explicadas, do uso da pobreza para enriquecimento de alguns, do comprometimento da mídia com o governo, de traições e torturas na revolução, do neocolonialismo, enfim, fala muito. Mas pode falar. A música está no Youtube, o músico faz shows, as pessoas nas ruas cantam.

Eu acredito que, com essas letras que faz e a tentativa de esclarecer o povo sobre sua realidade, esse homem é mesmo uma pedra no sapato do governo. Mas ele tem que perceber a importância de seu papel na sociedade e ser o melhor exemplo de correção, de honestidade, de cumprimento da lei. Assim, quando for preso novamente, não haverá dúvidas sobre as razões.

Hoje não é Quinta Quente, mas vamos ouvir As mentiras da verdade, para conhecer um pouco mais da contundência das letras desse músico.

I
E se eu te dissesse
Que Samora foi assassinado
Por gente do governo que até hoje finge que procura o culpado
E que foi tudo planeado
P’ra que parecesse um acidente e o caso fosse logo abafado

E se eu te dissesse
Que o Anibalzinho é mais um pau mandado
Que não fugiu da Machava mas foi libertado
Pelo mesmo sistema judicial que o tem condenado
E o mais provável é que ele agora seja eliminado

E se eu te dissesse
Que Siba-Siba,
Coitado foi uma vítma
Da corja homicida
Que matou Cardoso na avenida
Não Anibal e a sua equipa
Condenados pelos media
Mas a mesma que deixou
Pedro Langa sem vida

E se eu te dissesse
Que Moçambique não é tão pobre como parece
Que são falsas estatísticas
E há alguém que enriquece
Com dinheiros do FMI, OMS e UNICEF
Depois faz o povo crer
Que a economia é que não cresce

E se eu te dissesse
Que a oposição
Neste país não tem esperança
Porque o povo foi ensinado a ter medo da mudança

Mas, e se eu te dissesse
Que a oposição e o governo não se diferem
Comem todos no mesmo prato
E tudo está como eles querem

E se eu te dissesse
Que a barragem Cahora Bassa não é nossa
É d’um punhado de gente que ainda vai encher a bolsa

E se eu te dissesse que há jornais
Que fabricam informação
P’ra venderem mais papel e ganharem promoção
E que são os mesmos que nos vendem
Aquela imagem de caos
Que transformam simples ovelhas em lobos maus

E se eu te dissesse
Que há canais de televisão comprometidos
Com o governo e só abordam os assuntos permitidos
Que esses telejornais já foram todos vendidos
Vocês só vêm o que eles querem
E eles querem os vossos sorrisos

E se eu te dissesse
Que o Sida em Moçambique é um negócio
ONGs olham para o governo como um sócio

Refrão:
Porque nem tudo que eles dizem é verdade — é verdade
Porque nem tudo que eles não dizem não é verdade — é verdade

Eles fazem te pensar que tu sabes — mas não sabes
Cuidado com as mentiras da verdade — é verdade
(2x)

II
Se eu te dissesse
Que a história que tu estudas tem mentiras
Que o teu cérebro é lavado em cada boa nota que tiras
Que a revolução não foi feita só com canções e vivas
Houve traição, tortura e versões escondidas

E se eu te dissesse
Que antigos combatentes vivem de memórias
Deram a vida pela pátria e o governo só lhes conta histórias
Quantos nos dias de hoje dariam metade que eles deram?
Em nome de Moçambique, nem os que vocês elegeram

E se eu te dissesse
Que o deixa andar não deixou de existir
Veja os corruptos a brincar de tentarem se impedir
Comissões de anti-corrupção criadas por corruptos
A subornarem-se entre eles p’ra multiplicar os lucros

E se eu te dissesse
Que as vagas anunciadas já têm donos
Fazemos bichas nas estradas mas nem sequer supomos
Que metade das entradas pertencem a esquemas de subornos
Universidades estão compradas mas que raio de merda somos?

E se eu te dissesse
Que o teu diploma de engenheiro não é p’ra hoje
Enquanto saem 100 economista, engenheiros saem 2
Lares universitários abarrotados de gente
Vai ver as pautas a vermelho e os docentes indiferentes

E se eu te dissesse
Que neste país os estrangeiros é que mandam
Tem o emprego e o salário que querem e ainda mandam
Meia dúzia de nacionais p’ra rua
É o neocolonialismo da maneira mais crua

E se eu te dissesse
Que a cor da tua pele conta muito
Quanto mais clara, mais portas que se abrem é absurdo
Os critérios de selecção p’ra emprego
Vais p’ra empresas tipo bancos e não encontras nem um negro

E se eu te dissesse
Que a polícia da república é uma comédia
São magrinhos, sem postura e vendem-se por uma moeda
Agora matam-se entre eles traição na corporação
Afinal de contas quem é o polícia, quem é ladrão?

E se eu te dissesse
Que há bancos que financiam partidos
E meia volta aparecem com os cofres falidos…

Refrão (até o fim)

(letra retirada do site Just Some Lyrics)

Leia no Canalmoz sobre o lançamento do clipe A minha geração.

Franco-Moçambicano

Centro Cultural Franco Moçambicano

mapa Maputo centro baixaNa avenida Samora Moisés Machel fica este edifício construído em 1896 para ser o Hotel Clube de Maputo, na época em que a avenida se chamava D. Luís I.

Desde 1995 o local abriga o Centro Cultural Franco-Moçambicano, um espaço dedicado às artes e à cultura em geral. Tem duas salas de espetáculos, salas de exposições, biblioteca e salas de aula, onde se pode aprender, entre outros, Francês e Changana. O local tem também um café, que funciona nos horários das atividades culturais, e uma loja de artesanato. O centro é administrado em conjunto pela Embaixada da França e o Ministério da Cultura de Moçambique.

Festival de música em Maputo

Começa hoje (6 de maio) o VII Festival Internacional de Música de Maputo. As apresentações acontecem em diversos pontos da cidade, como Teatro Avenida (avenida 25 de setembro, 1.179), Cine-Teatro Gilberto Mendes (Travessa do Varieta, 21 – 57), Conselho Municipal de Maputo (praça da Independência), entre outros.

A programação, que vai até o dia 15 de maio, mantém a característica do evento, de fundir as várias formas de música clássica: Música de Câmara, Orquestra, Ópera, Jazz Acústico e Música do Mundo. Entre os artistas, o barítono Lawrence Craig, a soprano Kenneithia Mitchell, o saxofonista Moreira Chonguiça, o pianista Luís Magalhães, o Western Jazz Quartet, a cantora Chude Mondlane, o violinista Hayato Ishibashi e muitos outros, todos escolhidos para contribuir com o desenvolvimento da cultura musical de Moçambique.

Essa edição do festival é dedicada à memória de Malangatana, pela sua inspiração e encorajamento às artes.

Visite o site do Festival e veja a programação completa, com os nomes de todos os artistas e locais dos eventos. Observo que em lugar algum do site consegui encontrar os horários dos espetáculos, mas caso algum leitor queira a informação, basta ligar para os telefones da organização do evento: 82 4101 461 ou 82 1333 048.

Veja mais também neste folheto eletrônico.

Reconciliação

Primeiro apresentei aqui no Mosanblog, o Wazimbo, depois, o José Mucavele, mas o que eu não sabia, é que eles não se falavam. E o motivo da discórdia era justamente a música Nwahulwana, que eu apresentei na voz do Wazimbo.

Pois outro dia, foi no programa Moçambique em Concerto, do Gabriel Júnior, que soube do desentendimento entre os dois. E soube exatamente porque o Gabriel promoveu a reconciliação dos artistas.

Os dois eram amigos antes mesmo de serem artistas. Quando as carreiras avançaram, passaram a ser parceiros. No entanto, quando a música Nwahulwana ficou famosa, brigaram por questões de direitos autorais. A briga durou cerca de dez anos.

Mas graças à iniciativa conciliadora do Gabriel, que corajosamente levou os dois ao programa para conversarem, a paz reinou. “Zé é uma luva para as minhas mãos e um sapato para os meus pés, por isso lamento pela situação que sempre me entristeceu, pelo que lhe peço desculpas”, disse Wazimbo ao vivo no programa. A resposta foi que Wazimbo é “único músico que sabe interpretar minhas composições”, disse Mucavele.

O programa contou ainda com a participação por telefone do ministro da Cultura, Armando Artur, convidado por Gabriel para acompanhar a reconciliação. O ministro marcou encontro pessoal com os dois músicos e o apresentador para celebrar momento tão importante para a cultura moçambicana.

E a dupla já prometeu apresentar, em breve, novas músicas compostas por Mucavele e interpretadas por Wazimbo. Aguardamos ansiosamente.

Veja mais sobre a reconciliação em notícia do jornal O País.

Teatro Gil Vicente

Em um passeio pelo centro de Maputo, descemos a pé a avenida Samora Machel e passamos em frente ao Teatro Gil Vicente (no número 45 da avenida), hoje também usado como cinema.

Eduardo e Guilherme em frente ao teatro Gil Vicente, em Maputo

%d blogueiros gostam disto: