Abertura dos X Jogos Africanos

Começam hoje, 3 de setembro, os Jogos Africanos em Moçambique. A abertura está marcada para 18h e terá transmissão ao vivo (em directo, como dizem aqui) pela TVM (Televisão de Moçambique). As outras emissoras também devem passar alguns momentos.

Como todo evento desse tipo, há uma canção feita sob encomenda. Informaram os mais especialistas do que eu que a melodia é genuinamente moçambicana. A letra foi escrita pelo Mia Couto. A composição instrumental e os arranjos levam assinatura de Roberto Xitsondzo, Ziqo e Hortêncio Langa, com direção musical de Roberto Xitsondzo. Os vocalistas são Roberto Xitsondzo, Júlia Duarte, Júlia Mwitu e Ziqo, com acompanhamento de membros do Majescoral.

Vamos ouvir aqui, a Canção dos X Jogos Africanos – Maputo 2011.

Confesso que a canção me decepcionou. Pelo menos não me fez mexer tanto na cadeira como costuma fazer a música moçambicana que tenho ouvido. Além disso, apesar de eu costumeiramente gostar de tudo que tem o toque do Mia Couto, ele que me desculpe, mas falar em “futuro em paz” e exaltar a unidade nacional com o “campeões somos todos nós” é usar a canção de um evento nacional e não partidário para contribuir com a Frelimo a superar o momento delicado que está vivendo de ameaças da Renamo contra a paz aparentemente reinante.

Eu sei que como militante do partido, não dá para uma pessoa pensar: agora vou escrever uma música e deixar de ser militante por meia hora, depois volto ao estado normal. Sei também que essa nunca é a intenção de um militante de raiz, como é o caso do Mia, e menos ainda do partido no qual ele milita. Mas, para mim, soou forçado e desnecessário.

Veja mais sobre a canção, em notícia divulgada no Moçambique para todos.

Conheça também o site oficial dos jogos.

Ser escritor em Moçambique

O Mia Couto é hoje o mais bem conceituado escritor moçambicano. Eu já revelei minha admiração por ele aqui, no post Quanto melhor, mais simples.

Para além de ser um grande escritor e ótima pessoa, Mia sempre rende boas histórias. Entrevista sua é deleite na certa. Transcrevo abaixo trecho de uma resposta que ele deu em entrevista aos alunos do 3º ano do Ensino Médio do Colégio São Luís, em São Paulo, transcrita por Marina Azaredo e divulgada no blog Moçambique para todos.

À pergunta como é ser escritor em Moçambique, Mia respondeu: “Vou contar um pequeno episódio que pode ajudar a responder a essa questão. Um dia eu estava a chegar a casa e já estava escuro, já eram umas seis da tarde. Havia um menino sentado no muro à minha espera. Quando cheguei, ele se apresentou, mas estava com uma mão atrás das costas. Eu senti medo e a primeira coisa que pensei é que aquele menino ia me assaltar. Pareceu quase cruel pensar que no mundo que vivemos hoje nós podemos ter medo de uma criança de dez anos, que era a idade daquele menino. Então ele mostrou o que estava a esconder. Era um livro, um livro meu. Ele mostrou o livro e disse: “Eu vim aqui devolver uma coisa que você deve ter perdido”. Então ele explicou a história. Disse que estava no átrio de uma escola, onde vendia amendoins, e de repente viu uma estudante a entrar na escola com esse livro. Na capa do livro, havia uma foto minha e ele reconheceu-me. Então pensou: “Essa moça roubou o livro daquele fulano”. Porque como eu apareço na televisão, as pessoas conhecem-me. Então ele perguntou: Esse livro que você tem não é do Mia Couto?”. E ela respondeu: “Sim, é do Mia Couto”. Então ele pegou o livro da menina e fugiu.”

Mia é isso. É uma capacidade de ser leve para falar das coisas difíceis que vê e uma perspicácia admirável para saber falar de um mundo desconhecido a platéias de todo canto. Só ele poderia contar assim a relação dos moçambicanos com o livro, que é algo caro, inacessível para a maioria e ainda muito novo…

Sugiro a leitura da entrevista completa no texto Onze perguntas de crianças para Mia Couto e uma entrevista inspiradora feitas numa escola brasileira.

Preconceito

O post de hoje é mais uma sugestão de leitura do que um texto meu. Sugiro a leitura do texto O primeiro branco, de Mia Couto, publicado no dia 29 de janeiro de 2011 no jornal O País.

O autor mostra um ciclo de preconceitos secular e é interessante como ele faz as pessoas que o praticam nos parecerem ridículas. No século XIX, o explorador e missionário escossês, David Livingstone, explicitou o preconceito que Portugal sofria por parte dos outros países europeus, por sua missigenação com povos africanos. “Livinsgtone vangloriava-se ter sido o primeiro branco a atravessar a África Austral. Um dia alguém lhe chamou publicamente a atenção que isso não era verdade. Antes dele já o português Silva Porto tinha realizado tal travessia. Imperturbável, o inglês ripostou: ‘Eu nunca disse que fui o primeiro homem a fazê-lo. Disse apenas que fui o primeiro branco’, conta Mia Couto.

Mas o tempo, passou, o homem evoluiu e já não podemos mais imaginar manifestações públicas desse gênero, pensariam os mais ingênuos. Não. O texto do Mia Couto começa contando justamente o contrário: ainda há publicações, que circulam nos dias de hoje, livremente, como o National Vanguard Tabloid, que manifestam idéias como: “Os portugueses são o povo mais atrasado da Europa porque há séculos que se misturam com os negros”.

É triste constatar, ao ler coisas assim, que, na verdade, não é possível, apenas pelo aspecto físico descobrirmos quem são os seres humanos mais desprezíveis e que mereciam ser afastados da sociedade para reeducação. Se fosse possível definir as pessoas pelo seu aspecto físico, aqueles que escrevem o National Vanguard Tabloid talvez pudessem ter sido afastados da sociedade antes de escreverem tamanhos absurdos. Tenho medo, ao andar na rua, de pensar que posso cruzar com esse tipo de gente, sentar ao lado em uma sala de cinema, dividir uma fila de mercado…

Veja o texto completo do Mia Couto aqui.

Quanto melhor, mais simples

O passar dos anos está me fazendo chegar a uma conclusão sobre os seres humanos: quanto melhor a pessoa é no que faz, mais simples e acessível ao público será. Poderia dar aqui inúmeros exemplos de gente que nem olha para os lados, não cumprimenta pessoas hierarquicamente inferiores no trabalho e bota banca de ser um super profissional, quando na verdade não passa de um medíocre. Por outro lado, poderia dar também exemplos de gente excepcional no que faz, reconhecida onde passa pela competência e que se em algum momento não se aproxima do povo é porque algum segurança que quer ser mais importante que a personalidade em questão atrapalha.

Infelizmente, os melhores são minoria. Então, temos pouco contato com esses seres. Mas, quando temos a oportunidade, é sempre um deleite. Essa semana aconteceu isso aqui em Moçambique. O presidente do Brasil, Lula da Silva, esteve em visita ao país, como foi possível acompanhar em noticiários daqui, do Brasil e de tantos outros países. Se você tinha ido para um passeio em Marte e não viu, acesse o ElefanteNews para saber como foi.

É tido e sabido que o Lula é um desses casos de gente excepcional no que faz, reconhecido pela competência onde passa. Lembram do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, se referindo a ele? O cara… Enfim, mas não é desse cara que vou tratar aqui e sim de um moçambicano muito conhecido no Brasil: Mia Couto. Quem não leu ainda algum livro desse ícone da literatura contemporânea, não pode perder. Mesmo que não goste de ler, tente. Eu garanto que vai ser uma experiência diferente.

Vieram vários jornalistas brasileiros acompanhar a visita de Lula a Moçambique. Lula partiu no começo da tarde de quarta-feira e esses jornalistas fizeram contato com Mia Couto, pedindo uma conversa informal com ele. Amiga de uma das jornalistas presentes, fui convidada para participar. E, claro, não ia perder a oportunidade de estar ao lado de Mia Couto.

Observo que a conversa informal foi 65% tietagem e 35% conversa. Mas “o cara” da literatura merece. Foi muito legal ver a disposição dele em se deslocar até o hotel onde estavam os jornalistas e ficar lá a trocar figurinhas até cansar. Não era entrevista, não era para divulgar seus livros, não havia interesse da parte dele. Foi só receptivo com quem o admira. No final, foto com cada um deles, autógrafos em livros, beijinhos e muitos obrigados. É isso aí, quando o cara é o cara, não precisa fingir que é melhor que ninguém. Ele simplesmente é.

Mia Couto com jornalistas brasileiros no lobby do hotel Polana

Mia Couto com jornalistas brasileiros no lobby do hotel Polana

Conheça mais do autor, vendo o que ele falou para a TV Brasil, em entrevista para o programa Nova África, em junho de 2009.

Leia também entrevista para a Agência Brasil, em setembro de 2010.

Saiba mais sobre a visita de Lula a Maputo, vendo as matérias que Eduardo Castro produziu para agência e TV Brasil:

Lula chegou e já deu entrevista

Lula e a Universidade Aberta

Lula visita Maputo pela terceira vez. A TV Brasil acompanhou

Lula, os empresários e os predadores

Pela última vez como presidente, Lula se despede da África

Lula, Guebuza, TV Brasil na África

Cinema em Moçambique

Fomos ao cinema em Maputo pela primeira vez. Já tínhamos assistido a alguns filmes aqui, durante o Dockanema, mas, por coincidência, nenhum tinha sido em sala de cinema propriamente. Agora, fomos assistir ao filme O último voo do flamingo.

O destaque ficou para a sala Xenon (na avenida Julius Nyerere, 776). Enoooorme. Sala do tipo que não existe mais no Brasil há umas duas décadas, pelo menos. Com direito a lugares no balcão e tudo mais. Cabem ali umas 400 pessoas, seguramente. Compramos pipoca e, ao som de uma tenebrosa campainha, que mais parecia coisa de filme de terror anos 50, entramos na gigantesca sala. Apagam-se as luzes, uma propagandazinha e, pronto, começa o filme. Eduardo comentou: não tem trailer. Pois é…

No meio do filme… INTERVALO. Gente, fantástico! Eu nunca tinha ido em cinema com intervalo. O amigo Pedro, que estava conosco, disse que em Portugal havia isso até algum tempo atrás, mas já faz muitos anos que não há. Pausa de sete minutos para repor a pipoca, fumar, ir ao banheiro ou ficar lá mesmo, a apreciar os trailers!

Adorei. Soubemos depois que sempre é assim aqui e que todas as salas são grandes como essa.

cartaz do filme O último voo do flamingoO filme? Bem, o filme é baseado no livro de mesmo nome, do escritor Mia Couto. Uma ficção sobre os tempos pós guerra, em que soldados da ONU (Organização das Nações Unidas), os conhecidos capacetes azuis, estiveram em Moçambique na missão de manutenção de paz. O romance narra estranhos acontecimentos de uma pequena vila imaginária, Tizangara.

A direção foi do moçambicano João Ribeiro, formado em cinema em Cuba e em Moçambique e que, com esta obra, faz sua estréia no longa-metragem. A adaptação do texto foi feita por Gonçalo Galvão Teles. Entre os atores, a brasileira Adriana Alves, além de Alberto Magassela, Carlo D’Ursi, Cláudia Semedo e Elliot Alex.

Não li a obra original, mas fiquei com a impressão de ser daqueles casos em que o livro é melhor que o filme. Louvo a intenção da produção, mas Mia Couto é mesmo muito literário… há frases no filme, que percebemos terem sido transportadas literalmente do livro, onde devem fazer efeitos incríveis, mas que no cinema ficam perdidas. Além disso, os atores não ajudam lá muita coisa. Os melhores são Cláudia Semedo e Elliot Alex, mas não conseguem salvar o filme. Mas a história é muito boa, então, podes conhecê-la sorvendo do maravilhoso texto de Mia Couto. Por outro lado, o filme vale pelas imagens de Moçambique. Foi filmado aqui pertinho de Maputo, em Marracuene.

Mapa de Marracuene

Quanto vale:
– entrada de cinema: MT 120,00 (R$ 5,60)
– pipoca: MT 45,00 (R$ 2,10)
– refrigerante 600 ml: MT 45,00 (R$ 2,10)
– livro O último voo do Flamingo: R$ 29,90 pelo Submarino.

Observação: os horários das sessões no Xenon são 15h, 18h e 21h.

Claro que foi o Mia Couto

No post exatamente anterior a esse, falei sobre o hino nacional de Moçambique. Até o momento que fiz o texto, não tinha encontrado informação sobre o autor ou autores do hino. Agora, bebendo da sabedoria do Eduardo Castro (o mesmo do ElefanteNews e meu marido), fico sabendo que teve mão do Mia Couto na autoria. Não podia ser diferente, o maior escritor do país não ficaria fora dessa.

Em entrevista a Marilene Frelinto, ele explica como foi: “Em 1981, 1982, o presidente Samora, que era vivo na altura, pensou que o hino nacional não funcionava. Era um hino muito partidário. Começava por ‘viva, viva a Frelimo’. E ele tinha já a apreciação de que nem todos os moçambicanos seriam da Frelimo. Então, era preciso um hino que cobrisse os moçambicanos todos. Ele (Samora) colocou seis poetas e seis músicos numa casa, fechou-nos lá e disse ‘vocês têm que sair daqui com várias propostas de hinos feitas’. E fomos fechados numa casa aqui na Matola [cidade próxima de Maputo] e aquilo era ótimo. Aquilo não era uma prisão, era ótimo porque nós tínhamos comida, numa altura em que não havia comida. E, portanto, guardávamos comida para a nossa família quando nos iam visitar; tínhamos uma piscina na casa, vivíamos ali bem. E quando vinham as sirenes, nós corríamos para trabalhar. Eles (a Frelimo) vinham nos visitar para ver como era que estava sendo feito. E produzimos meia dúzia de hinos que ficaram ali e nunca mais foram aprovados. Agora, por causa do novo clima político que a partir de 1995 passou a existir, um clima de democracia aberta e multipartidarismo, passou a ser mesmo obrigatório que este país tivesse um outro hino. Pelo menos uma outra letra. Depois fez-se um concurso aberto e eu fiz parte do júri que acolheu essas propostas, mas eram todas muito fracas. E então alguém se recordou de revisitar aquelas propostas (da época de Samora), e foi uma daquelas que foi escolhida. Então, há razões que ajudam a triar essa idéia de que não é separável a literatura e a militância.”

No site Triplov.org, ele conta a mesma história e ainda confessa que as pequenas desobediências que cometiam eram um “modo de exercermos uma pequena vingança contra essa disciplina de regimento”. Ele observa ainda que as letras criadas ali refletiam a tendência militarizada do momento e ressalta: “Tudo isto tem que ser olhado no seu contexto sem ressentimento. Afinal, foi assim, que nasceu a Pátria Amada, este hino que nos canta como um só povo, unido por um sonho comum.”

foto de Mia Couto, retirada do verbete sobre ele na WikipédiaMia Couto é escritor moçambicano, filho de portugueses que emigraram a Moçambique nos meados do século XX. Além de ser considerado um dos escritores mais importantes de Moçambique, ele é o escritor moçambicano mais traduzido. Também é sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras, eleito em 1998. Saiba mais no verbete sobre ele na Wikipédia.

Observação: a história contada acima confirma o que foi comentado no post sobre o hino, de que o anterior era mais um hino da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) do que um hino da nação.

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