Cidade do Cabo em quatro dias

Conheci a Cidade do Cabo na semana passada. Foram apenas quatro dias, mas muito intensos. A cidade é linda, tem vários passeios obrigatórios e muito diversos um do outro.

E também, estou numa boa altura para dobrar o Cabo da Boa Esperança. Afinal, a cidade é do cabo, por causa dele, o cabo, já chamado também das Tormentas. Inclusive, deu para entender bem porque das Tormentas. Como venta naquela região!

E esse vento define a possibilidade de se fazer alguns passeios muito bons. Então, a grande dica é: desde o primeiro dia que estiver na região tente fazer o passeio a Robben Island e subir de teleférico na Table Mountain.

Robben Island é a ilha onde fica a prisão na qual Nelson Mandela passou 18 anos cumprindo parte de seu confinamento de 27 anos. Chega-se à ilha de barco e muitas vezes o passeio é cancelado por causa do vento forte. No dia que fomos, o guia avisou que estava muito feliz em nos receber, porque durante cinco dias não tinha havido passeios devido às condições climáticas. Depois, o percurso é feito de ônibus.

O grande valor histórico do passeio e essa dificuldade logística-climática fazem com que seja bom comprar o bilhete com antecedência, porque há sempre muita procura. Três semanas antes já é possível fazê-lo pelo site Webtickets. Foi o que fizemos e deu muito certo. Compramos para o primeiro dia que estaríamos lá, pensando no risco de não ir por causa do vento. Mas foi justamente nesse dia que o vento deu uma folga! Cada pessoa paga ZAR 220,00 (R$ 51,65).

A ilha é habitada há milhares de anos. Desde que os holandeses chegaram, no século XVII, passou a ser usada principalmente como prisão. Sua história é de muita tristeza, o que faz o passeio ser de grande reflexão. No século XVII o local abrigou importantes príncipes e xeques da Índia, Malásia e Indonésia, prisioneiros da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais por incitarem a resistência contra os dominadores europeus. Os britânicos também enviaram para lá os governantes nativos do povo xhosa. Em 1963, chegaram na ilha Nelson Mandela e outros sete ativistas condenados à prisão perpétua. O lugar serviu ainda como campo de treinamento e defesa durante a II Guerra Mundial e como hospital para pessoas com hanseníase e doenças mentais ou crônicas de 1846 a 1931.

Em 1991, os últimos prisioneiros políticos foram libertados. Desde 1997 a ilha é um museu a céu aberto, sobre todos esses isolamentos. E quem nos conta a história são ex-prisioneiros transformados em guias turísticos. Definitivamente, visitar a África do Sul hoje é aprender muito sobre perdão e não-revanchismo. O nosso guia foi o simpático e divertido Yussif, que na foto aparece de camisa branca e colete, despedindo-se dos turistas.

saída do ônibus em Robben Island

Cela do Mandela em Robben Island

Foto nada original, mas obrigatória da cela do Mandela em Robben Island

pôr do sol na Table MountainO segundo passeio que tem que ser tentado desde o primeiro dia é subir na Table Mountain. Nós só conseguimos encontrar o teleférico aberto e topo da montanha não encoberto por nuvens no último dia. O ideal é ir no pôr do sol, que é lindo visto lá de cima. Mas desde o segundo dia já estávamos conformados em ir a qualquer hora que abrisse o tempo. Deu certo de ser no final da tarde. A subida e a descida podem ser feitas a pé também. Mas às vezes o vento é tão forte, que nem mesmo a pé é possível.

O teleférico da Table MountainO nome significa Montanha da Mesa, porque seu amplo platô (cerca de 3 quilômetros de uma ponta a outra) faz com que a montanha tenha mesmo um aspecto de mesa. O portal do teleférico fica em um ponto já bem elevado, depois de uma estrada cheia de curvas. O ingresso ida e volta no teleférico sai por ZAR 195,00 (R$ 45,80). Ele é redondo, todo fechado e gira. Desta forma, em qualquer lugar que você se posicionar quando entrar, vai ter vista de 360 graus duas vezes durante o trajeto.

Lá de cima ficamos a 1.086 metros de altitude e pode-se ver o Atlântico, a Robben Island nele, o Índico e toda Cidade do Cabo até o Cabo da Boa Esperança. É de tirar o fôlego. Não sei se durante todo o ano é a mesma coisa, mas agora em outubro estava um frio enorme e um vento forte. Mesmo bem agasalhados, logo tivemos que nos abrigar no café.

Eduardo e Sandra no alto da Table Mountain

vista da Table Mountain

Seguindo na linha dos passeios obrigatórios, tem a ida ao Cabo propriamente dito: ponta de terra que entra pelo mar adentro, a 160 quilômetros da cidade. O ideal é fazer dois caminhos distintos para ida e volta, assim se pode conhecer mais a região. Optamos por ir pela costa Atlântica e voltar pela Índica. O passeio é tão lindo que fica impossível estimar um tempo de duração. Depende de quantas vezes você vai parar para apreciar a paisagem, os animais (de macacos a baleias!) e a própria estrada, que é uma escultura em volta das montanhas. Paramos inúmeras vezes. Mas sempre é possível ir no início da manhã e voltar no fim da tarde.

Sandra com Hout Bay ao fundo

Uma das primeiras paradas para curtir a vista

Babuínos na estrada para Cape Point

Macacos na estrada do parque do Cape Point

O auge é o Cape Point. Um parque nacional onde é possível ir até o Cabo da Boa Esperança. Mais uma vez, vento, muito vento. E aqui estão as atormentantes águas do cabo:

Seguimos pela estrada que continuou linda e ainda nos reservou algumas paradas para ver baleias e tubarões e chegamos à pequena Simon’s Town. Na rua principal, uma grande variedade de restaurantes garante uma agradável pausa para o almoço. Depois, uma visita à praia Boulders, onde vive uma colônia de mais de 2.300 pingüins africanos. Divertidíssimo encontrar macacos e pingüins ao longo do mesmo passeio…

Pingüim na África do Sul

Estando nessa região da África é preciso reservar tempo também para visitar uma vinícola. Estivemos na Constantia. Fica mesmo dentro da Cidade do Cabo e é a mais antiga da África do Sul. Depois do tour guiado com explicações sobre a produção do vinho, é possível fazer degustação e passear pelos jardins e vinhedos até o efeito do álcool passar para poder dirigir novamente.

Vinhedos em África do Sul

Ainda tivemos tempo para ir a Stellenbosch e Franschhoek, duas cidades há cerca de 50 quilômetros da Cidade do Cabo. A primeira tem como forte característica as construções em estilo holandês. O centro é de uma típica cidade antiga européia e pode ser explorado a pé em uma hora e meia. Franschhoek tem características mais francesas e é conhecida pela ótima gastronomia. Na rua principal, uma série de restaurantes oferece variados cardápios, com predominância da culinária francesa. Ambas estão também na rota do vinho da África do Sul e há nelas diversas vinícolas para serem visitadas.

Ainda na rota do vinho, mais uma parada, desta vez, histórica, em Paarl, na prisão Victor Verster, onde Mandela estava quando foi libertado em 1990.

estátua de Mandela na frente da prisão onde ele esteve

Estátua de Mandela na frente da prisão Victor Verster

Para os fãs das comprinhas, Cidade do Cabo também não deixa a desejar. No centro da cidade, cercada por bonitos e bem conservados prédios históricos e simpáticos cafés, fica a Greenmarket Square, uma praça que recebe diariamente uma diversificada feira de artesanato. Para os ainda mais consumistas, vale uma visita ao shopping do V & A Waterfront. O Vitoria & Alfred Waterfront trata-se de um projeto de reconstrução do cais de Cidade do Cabo. Há um grande shopping, mais de 80 restaurantes e lanchonetes (muitos com vista para o mar), hotéis, edifícios residenciais e comerciais e é de lá que saem alguns passeios marítimos, como o para Robben Island.

Sei que o texto ficou enorme, mas tudo na Cidade do Cabo merece registro.

E para ler ainda mais sobre essa viagem, visite o ElefanteNews.

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De deixar doido

Eu tenho consciência que, às vezes, acompanhar o Mosanblog é coisa de doido. Em um dia a foto de um belo calçadão florido à beira do Índico, no outro um post (ainda bem, sem foto) sobre o péssimo hábito que se tem por aqui de urinar e defecar nas ruas. Afinal, é bom ou é ruim?

É assim. Simplesmente. Por isso vale ter um blog para contar como é viver aqui. Por isso vale existirem tantos blogs sobre o tema e cada um deles tem seu valor, porque cada pessoa vê a realidade de um ângulo e cada blog tem seu matiz.

Afinal, Maputo (e a África) é assim: um lugar de contrastes.

Contrastes que aqui nos encaram todo o tempo. Todos os dias tem gente chegando e gente se despedindo. Em todas as conversas, tem gente amando e gente odiando. Sempre estamos ensinando e também aprendendo.

Eu acho que a vida, em geral, é uma troca. Mas na África ela tem me parecido mais intensa, mais imensa.

A pessoa não tem água encanada em casa, mas fala ao celular com a família que está em outra província. No calor faz 40 graus, no inverno são 7. Os prédios têm 15 andares, mas não têm elevador. Há anos. Maputo se divide na cidade cimento (onde há asfalto e casas de tijolo) e cidade caniço (sem asfalto e com casas de palha). No farol, os carros mais modernos e cobiçados pelas camadas mais ricas de todo o mundo ficam ao lado de velhos chapas já sem janelas nem a porta traseira. O Índico é agitado, movimentado, mas, para nós, acaba na calmíssima baía de Maputo. E todos os dias a gente acorda e vive isso tudo.

Lobby do hotel Southern Sun

Lobby do hotel Southern Sun

Praça da Paz

Praça da Paz

Matriarcal e machista?

Falei ontem das letras e clipes de mau gosto do cantor Ziqo e de como ele é admirado pela juventude moçambicana. Seu vídeo clipe é mais um entre tantos exemplos da “coisificação” da mulher, as garotas que participam, provavelmente, nem percebem o que estão a significar e muitas que assistem devem admirá-las.

Escrevi e fiquei pensando o quanto as pessoas aqui em Maputo são machistas. A questão da violência doméstica contra a mulher, da obrigação de parir, cuidar dos filhos, trabalhar para trazer dinheiro para casa e ainda cuidar da casa, a famosa jornada dupla onde maridos que dividem as tarefas de casa são vistos como fracos. (No Brasil, pelo menos, já estamos no estágio em que eles até se vangloriam de dizer que “ajudam” a mulher. Como se houvesse uma obrigação dela cuidar da casa. Mas o machismo do Brasil é assunto para outro blog. Aqui, falamos de Moçambique.)

Enfim, pensando em tudo isso, me vi espantada com a contradição, porque sempre eu ouvia falar da importância das culturas matriarcais em Moçambique. Então, espera aí: uma cultura de matriarcado permitiria desvalorização tão grande das mulheres?

Antes de continuar, já logo aviso que não sou especialista nas questões de gênero, nem tão pouco em sociologia, mas analiso o mundo à minha volta, penso e chego a conclusões. Quero apenas dividir meus pensamentos e encontrar novas opiniões. Então, não esperem ler aqui nenhuma tese de mestrado, mas apenas minha opinião a respeito do que encontro no meu caminho.

Voltando à minha reflexão, resolvi pesquisar um pouco para entender onde foi que se perdeu essa cultura de matriarcado. Afinal, não é nada parecido com isso que eu vejo aqui em Maputo. Eis que, mais uma vez, me deparo com o horror da colonização. No post Povos x nações observei que as fronteiras como estão determinadas hoje fazem com que em um mesmo espaço geográfico, determinado por guerras e acordos da humanidade, haja mais de um povo, assim como há povos divididos em mais de uma nação.

A África teve reinos e cidades-estados com registro histórico há mais de cinco mil anos. No entanto, os donos do mundo do momento (Bélgica, França, Alemanha, Grã-Bretanha, Itália, Portugal e Espanha), no século passado, acharam que podiam (e podiam, tanto que assim o fizeram) dividir o mundo e as pessoas que nele habitam de acordo com seus interesses. Tribos, reinos e países foram divididos ou anexados para contemplar interesses comerciais dessas ditas potências.

Moçambique fez parte disso e hoje é uma colcha de retalhos de culturas. Em texto de Ana Luísa Teixeira sobre a construção sociocultural de ‘gênero’ e ‘raça’ em Moçambique, é possível aprender que as províncias do norte, com predomínio do grupo étnico Macua, e do centro de Moçambique (Tete, Zambézia, Sofala e Manica) são essencialmente matrilineares. Segundo ela, o matriarcado determina que os casais coabitem no terreno herdado pela mulher, e que as crianças mantenham o nome do clã materno. Contrastivamente, nas províncias do sul – Gaza, Inhambane e Maputo – a organização familiar de patriarcado é dominante, fazendo-se a sucessão por linha paterna.

Isso explica minha confusão. Eu tinha aprendido que Moçambique tinha tradição de cultura matriarcal. No entanto, isso representa verdade para uma parte do país. E Maputo não está nessa parte. Está no sul, onde a cultura é oposta.

Acho que Moçambique ficou conhecido por suas sociedades matriarcais, porque os Macuas, etnia mais populosa do país, assim o são. Essa tribo banto era marcada, inclusive, pela poliandria (uma só mulher tem dois ou mais maridos ao mesmo tempo). Devido à catequisação dos missionários católicos, esse aspecto hoje está mudado, mas a dominação da mulher ainda permanece e é ela que escolhe livremente seus parceiros e aponta o rumo para o qual a comunidade vai seguir.

Paulina Chiziane, escritora que trabalha em um programa das Nações Unidas para a promoção da mulher na Zambézia, uma das províncias de Moçambique, em entrevista ao blog Alguma Prosa explica que na Zambézia (e daí para o norte do país) as cidades são marcadamente matriarcais. As mulheres têm voz mais ativa, têm lugar social e têm poder. Por exemplo, o “prazer sexual é um direito importante da mulher e as pessoas falam disso abertamente, nos seus grupos. Convocam a família para expor a situação”. E contrapõe: “Já no sul do país isso acontece pouco. Se o homem é impotente, não tem um desempenho saudável, a mulher tem que suportar, porque ela foi adquirida para isso, para suportar e mais nada”.

A origem dessa diferença, de acordo com ela e reforçando o que já vimos com Ana Luísa Teixeira, está no sistema matriarcal. A partir da Zambézia, caminhando para o norte, todas as regiões são matriarcais. A linhagem é pela via feminina. Quando há um casamento é o homem que se desloca para a família da mulher e lá fica, constrói a família e a casa. No sul, a mulher faz de tudo: penteia-se, pinta-se, faz danças na frente do homem para que ele lhe diga algo. No norte não. A mulher diz ao homem: “gostei de ti, quero casar contigo”, tranqüilamente. Se no sul uma mulher faz isso, recebe os apelidos mais horríveis. No dia seguinte todos falarão mal dessa mulher.

Apesar das regiões patriarcais serem tão machistas, Chiziane destaca que Moçambique é um dos poucos países africanos onde a posição da mulher em termos políticos e em termos sociais, em geral, é boa.

Já é alguma coisa…

Leia a entrevista completa de Paulina Chiziane ao blog Alguma Prosa, aqui.

Veja mais sobre a sociedade Macua no blog Perspectivas.

Veja aqui o texto de Ana Luísa Teixeira, A construção sociocultural de ‘gênero’ e ‘raça’ em Moçambique: continuidade e ruptura nos períodos colonial e póscolonial.

Finalmente, Kruger

No dia que completamos um ano da chegada em Moçambique (que aconteceu em 16/04/2010), fomos ao nosso primeiro safari. Afinal, como era possível estar em África por tanto tempo sem ter feito ainda um safari, não é mesmo?

A expedição foi no Kruger Park, o mais antigo da região e um dos mais famosos do mundo. A reserva foi criada em 1898, pelo então presidente sul-africano Paul Krüger. O parque como se conhece hoje é de 1926 e tem uma área de 20.000 km², entre África do Sul (a oeste e a sul), Moçambique (a leste) e Zimbabwe (a norte). Em seu território vivem os chamados “big five” (cinco grandes animais da região): leão, elefante, rinoceronte, leopardo e búfalo, além de girafas, impalas, hipopótamos e muitos outros. São mais de quinhentas espécies de aves, 112 de répteis e 150 de mamíferos.

Saída de casa às 5h20. Chegada na fronteira pouco depois das 6h. Carimba daqui, carimba dali e saímos de Moçambique. Anda um pouco, carimba daqui, carimba dali e entramos na África do Sul. Às 8 horas entramos no Kruger pelo portão de Malelane.

O passeio não foi com guia, nem em carro do parque. Tem essa possibilidade, mas optamos por ir sozinhos, seguindo as indicações no mapa que o atendente da entrada do parque fez. Para entrarmos três pessoas com carro próprio pagamos ZAR 540,00 (R$ 125,00). Não sei exatamente quanto foi por pessoa e quanto é a taxa do carro.

Lá dentro, há a estrada principal, em asfalto, cuja velocidade máxima é de 50 km/hora, estradas secundárias, de terra, cuja velocidade permitida é 40 km/hora. Mas, muitas vezes, andamos a muito menos que isso, para apreciar melhor os movimentos dos animais.

Logo de início nos impressionamos com a belíssima paisagem. Ao longo do dia entramos por algumas das estradas de terra, quando víamos algo interessante a ser observado. Mas quase todo o tempo nos mantivemos na via principal.

Em pouco tempo já tínhamos visto os famosos impalas (macho com chifre, fêmea sem), que são um dos símbolos do parque.

Macaco com filhote agarrado na barriga, em um restaurante do Krueger

O dia estava fresco, um pouco nublado. Isso fez o passeio ainda mais agradável, porque não tinha o calor africano sobre nós. Perto do meio-dia, pausa para almoçar em uma das áreas de descanso, onde há espaço para acampar, se hospedar em quartos ou bangalôs típicos da região, restaurante, café e loja onde se pode comprar lembranças do parque e artigos de conveniência.

Almoçamos à beira de um rio, onde pudemos apreciar macacos, pássaros e hipopótamos. Após a pausa, voltamos para o carro e seguimos em direção ao portão Crocodile. Não sei se foi o fato da tarde estar fresca, se foi pelo horário ou pelo caminho que fizemos, mas depois do almoço vimos os animais mais interessantes (para mim, pelo menos) e mais ousados. Girafas, zebras, elefantes e macacos literalmente cruzaram nosso caminho.

Elefante derrubando árvore para se alimentar

Zebra vai ao encontro das amigas para almoçar

Pouco depois das 17 horas, passamos pela Crocodile Bridge (ponte do crocodilo) e saímos do parque.

Estrada. Fronteira. Fronteira. Estrada. Antes das 19h estávamos em casa, com a certeza de que o passeio ainda vai se repetir outras vezes.

P.S. No mês de agosto, voltamos ao parque e escrevi o post Outro Kruger.

Nos sites Alma de Viajante e Girafamania é possível ler mais informações sobre o parque e o passeio.

Em matéria do site 360graus.com.br é possível ver um incrível vídeo feito por alguns turistas.

Visite também o site do parque.

Manu Dibango

Bom, como prometido em comentário da Quinta Quente passada, trago hoje mais uma sugestão do nosso mestre da música africana, David Borges: Manu Dibango. Manu vem de Emmanuel. Dibango é mesmo o sobrenome. Camaronês, nasceu em 1933 e tornou-se saxofonista e vibrafonista de jazz e afrobeat. Mas ele é extraordinariamente versátil. Já tocou quase todo tipo de música.

Seu largo sorriso transmite mais que simpatia. É uma energia positiva, algo bom que nos faz gostar dele mesmo antes de ouvir. E quando se ouve… não se volta atrás. Conhecido como o leão de Camarões, Manu contribuiu largamente para a música africana e, mais que isso, mundial.

Sua carreira musical começou nos anos 1950, em Bruxelas e Paris. No início da década seguinte, ele estava no Congo. Em 1963, fundou sua própria banda, em seu país natal, e dois anos depois voltou a Paris. Soul Makossa foi a música que o tornou internacionalmente conhecido. Não só a ele, mas à música africana também. Seu primeiro álbum foi gravado em 1969 e em 1970 participou de um disco de Franklin Boukaka.

Sua autobiografia foi publicada na França, em 1989. A tradução em inglês, Three Kilos of Coffee: An Autobiography, foi publicada em 1994. Em 2007, um grande evento foi realizado para celebrar seus 50 anos no mundo da música, e também foi lançado o CD The Lion of Africa.

Entre tanta coisa boa que ele já produziu ao longo de toda carreira, foi difícil escolher uma música para apresentar aqui. Mas escolhi Africa, pela musicalidade e também pela bela fotografia do vídeo.

Visite o site oficial do músico.

Published in: on 17/02/2011 at 07:35  Comments (4)  
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Na ponta do lápis

Já está no ar o blog Na ponta do lápis, do Guilherme Flosi. O blog é sobrinho do Mosanblog e do ElefanteNews, uma vez que o Guilherme é nosso sobrinho.

Ele vai estar aqui nos próximos seis meses e usará o espaço para contar a experiência dele. Tenho certeza que vai ser muito rico para todos nós termos oportunidade de ver a África sob olhar de um adolescente.

Visitem!

Feliz 2011, África

No início de dezembro de 2010, o programa Moçambique em Concerto, da TVM, foi apresentado ao vivo (ou em directo, como dizemos aqui) da província da Zambézia, mais especificamente de sua capital, Quelimane. No final, o apresentador Gabriel Júnior brindou a todos os espectadores com uma linda surpresa, com o grupo moçambicano Os Garimpeiros e um show de luzes protagonizado pela platéia.

Vale pela cena, pela letra, pela música e, claro, pela iniciativa do Gabriel. Achei que combinava com a última Quinta Quente do ano.

Que 2011 produza boas notícias por aqui.

Gâmbia, Malawi e eu

Devo confessar que até um ano atrás meu conhecimento de África não ia muito além do pouco que vi na escola e o mapa do mundo mais marcado em minha memória era o dos jogos de War. Isso significa que eu conhecia quase nada o verdadeiro velho continente.

Agora, já mais familiarizada com o mapa da África, tenho descoberto traços de fronteiras fascinantes. Por exemplo, cada vez que vejo o mapa tenho a sensação de que dois países, na verdade, não estão bem traçados – Malawi e Gâmbia.

Malawi dentro de Moçambique

O Sul de Malawi parece naturalmente uma parte de Moçambique. E todo Gâmbia está dentro do Senegal! Ele margeia o rio Gâmbia e tem 320 km de extensão, na direção do mar para o interior, no entanto, nunca atinge nem 50 km de largura. Não é incrível? Um país que é a margem de um rio. Está certo que nem Moçambique, nem Senegal, nem a maioria dos países, tem suas fronteiras traçadas por questões de acidentes naturais ou marcas culturais, como já comentei aqui. Mas esses dois são situações que sempre mesmo chamam minha atenção.

Mapa de Gâmbia

Fronteira de Gâmbia traçada em vermelho

Lesoto

E se é para falar em países incrustrados em outros, não podemos nos esquecer do Lesoto, que fica dentro da África do Sul. Confesso que não me causa tanta estranheza quanto Malawi e Gambia. Não consigo entender o motivo. Mas veja aí como ele está no mapa:

Mapa do Lesoto

Published in: on 16/11/2010 at 07:52  Comments (1)  
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Votei hoje e votarei amanhã

entrada CCBM Nesse domingo, 31 de outubro, voltei ao Centro Cultural Brasil Moçambique, aqui em Maputo, para votar no segundo turno das eleições presidenciais. E nos próximos dias vou votar mais uma vez, agora pela internet, para o Conselho de Representantes de Brasileiros no Exterior (CRBE).

O conselho é formado por 16 brasileiros radicados no exterior e tem como objetivos manter a interlocução entre os brasileiros que vivem fora do país e o governo brasileiro e assessorar o Ministério de Relações Exteriores na definição de políticas em favor das comunidades brasileiras no exterior. A representação é regional, sendo quatro representantes para cada uma das seguintes regiões geográficas: 1 – Américas do Sul e Central; 2 – América do Norte e Caribe; 3 – Europa; 4 – Ásia, Oriente Médio, África e Oceania. Logo, aqui em Maputo elegemos representantes da região 4. Cada eleitor vota em um candidato de sua região, não necessariamente seu país.

O conselho é uma demonstração de respeito aos cidadãos que, por inúmeras razões e, às vezes, obrigações, têm que se afastar de sua terra natal, mas não deixam de fazer parte dela. Com o conselho, mesmo enquanto moro em outro país, sinto-me incluída e com possibilidade de ter minhas opiniões consideradas. O CRBE foi lançado durante a II Conferência “Brasileiros no Mundo”, realizada em outubro de 2009, e instituído pelo decreto n° 7.214.

Os requisitos para se candidatar ao conselho foram: a. ter mais de 18 anos; b. viver no mínimo há três anos na região geográfica que pretende representar; c. não possuir antecedentes criminais; d. declarar estar em condições de exercer as funções de Conselheiro do CRBE. Os membros eleitos exercerão mandato de dois anos, com possibilidade de reeleição.

O acesso à página de votação para as eleições do CRBE estará disponível no portal Brasileiros no Mundo, a partir da zero hora (horário de Brasília) do dia 1º de novembro, até a meia-noite (horário de Brasília) do dia 9 de novembro de 2010.

Para votar, o brasileiro deve ter mais de 16 anos, residir no exterior e informar, obrigatoriamente, os seguintes dados no formulário eletrônico do sistema de votação: a) cidade e país, com campo facultativo para estado/província; b) nome completo; c) e-mail; e d) um número de documento oficial brasileilro (passaporte ou CPF ou título de eleitor no exterior ou matrícula consular registrada pelo Consulado da área em que reside, quando aplicável).

Moçambique tem três candidatos: Domingas Almeida de Moraes Faiane, Gabriel Limaverde e Rose Baiana (Rosemeire Cerqueira dos Santos).

Veja aqui a lista completa dos candidatos em todo o mundo.

Confira também o Regimento do Conselho de Representantes de Brasileiros no Exterior.

Navegação turbulenta no rio Zambeze

Pelo menos na área das relações internacionais, assim tem sido.

Primeiro, vamos conhecer o tal rio.

rio Zambeze, entre Beira e Quelimane

O rio Zambeze termina entre Beira e Quelimane

Agora, pode se ajeitar na cadeira, porque lá vem a história…

Essa semana, várias vezes acompanhamos nos noticiários daqui matérias sobre a navegação experimental no rio Zambeze praticada pelo governo do Malawi.

No dia 23 de outubro último, o presidente do Malawi, Bingo wa Mutharika, estava em um evento — inauguração do porto de Nsanje — a aguardar uma embarcação que deveria chegar no rio Chire (no mapa abaixo grafado Shire), que banha a parte sul do Malawi e deságua no Zambeze, para depois encontrar o Oceano Índico.

Malawi

No entanto, wa Mutharika ficou na espera. A embarcação esperada tinha sido interceptada ainda em Moçambique. A razão é que o governo moçambicano entende que seu vizinho deveria aguardar o término de estudos de viabilidade e de impacto ambiental da navegação nos rios Chire e Zambeze antes de iniciar as navegações.

Moçambique alega ainda que os presidentes do Zimbabwe e da Zâmbia foram convidados formalmente para o evento em Malawi, enquanto Moçambique, diretamente interessado, recebeu uma nota verbal ao seu Alto Comissariado naquele país, solicitando a confirmação da participação de seu presidente, Armando Guebuza.

Para completar o estrago diplomático, o adido militar da missão diplomática do Malawi em Moçambique, James Kalipinde, encontrava-se na embarcação e teria saído de Maputo sem a devida autorização do Ministério da Defesa Nacional (MDN), procedimento padrão.

O adido militar foi detido pela Polícia da República de Moçambique (PRM), tendo ficado na cidade de Quelimane (província da Zambézia) até o dia seguinte, quando se confirmou que ele era um diplomata.

Por seu lado, o governo do Malawi, na figura do alto comissário em Moçambique, Martin Kansichi, diz estar indignado com a forma como o governo moçambicano trata o processo. Para ele, Moçambique teria quebrado acordo entre os dois países que, pelo entendimento malawiano, previa a realização de uma viagem experimental para provar a navegabilidade dos rios até o porto de Nsanje.

“Existem documentos que comprovam que existe um acordo que prevê a realização de uma viagem experimental. O Malawi é um país que respeita os procedimentos” afirmou Kansichi em matéria do jornal O País. De acordo com o embaixador malawiano, esta viagem experimental não necessita estudo de viabilidade.

Kansichi manifestou-se ainda indignado com declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros de Moçambique, Oldemiro Baloi, a respeito do caso. Em entrevista coletiva, Baloi qualificou os malawianos como impacientes e os acusou de estar a forçar o avanço do projeto, sem observar a necessidade dos estudos de viabilidade e de impacto ambiental.

Turbulência histórica

As relações entre os dois países iniciaram na década de 1960, quando o Malawi conquistou a independência. Depois de 1975, independência de Moçambique, o relacionamento ficou tenso, devido às diferenças nas ideologias políticas seguidas por cada um dos países.

No artigo Relações entre Moçambique e Malawi, Saite Júnior explica que Moçambique seguiu a orientação socialista e Malawi era apoiado pelos países capitalistas, tendo também se tornado aliado dos regimes colonial fascista português e do apartheid da África do Sul.

Entre 1976 e 1992 Moçambique viveu sob uma guerra civil e Malawi apoiou a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), contra a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), movimento reconhecido internacionalmente por ter lutado pela independência do país e negociado com Portugal por meio dos Acordos de Lusaka. A Frelimo foi a força política que assumiu o poder de forma constitucional.

No final do século, no entanto, Moçambique abriu-se ao mercado internacional do ocidente, rendendo-se ao regime democrático liberal e ampliando suas relações diplomáticas. Do outro lado, com o fim do apartheid, o Malawi perdeu o seu aliado estratégico, e devido à posição geográfica, viu-se na obrigação de rever suas relações, para garantir acesso aos corredores de desenvolvimento de Nacala e Beira e poder alcançar o Oceano Índico.

As relações vinham sendo pacíficas até 2009, quando ocorreu o incidente de Ngaúma: agentes da polícia do Malawi invadiram Moçambique e causaram a destruição por completo de um quartel da Força de Guarda de Fronteira do distrito de Ngaúma, na província de Niassa. Meses depois, o presidente malawiano Bingo wa Mutharika, esteve em visita oficial de Estado a Moçambique e o país esperava ouvir um pedido de desculpas oficial, o que não aconteceu. Então, diante do clima tenso, wa Mutharika viu-se obrigado a interromper bruscamente a visita.

Ao longo dos anos, vários outros incidentes foram contabilizados, como o de maio deste ano, quando seis moçambicanos foram condenados à pena de morte no Malawi. Depois de negociações conseguiu-se converter as penas para prisão perpétua.

Ou seja, a relação é complicada e, nesses casos, a atenção deve ser redobrada em qualquer ação ou palavra. Fiquemos atentos.

Tenha mais informações sobre o episódio dessa semana em matéria que o Eduardo Castro fez para a Agência Brasil e publicou no ElefanteNews.

Veja mais em Zambeze: um rio de problemas e incidentes diplomáticos.

Sobre a troca de acusações, leia detalhes em Malawi considera provocatórias declarações de Baloi.

Conheça a posição dos ambientalistas, em matéria divulgada pelo blog Moçambique para Todos intitulada Ambientalistas descartam navegabilidade do Zambeze.

E saiba mais sobre a relação histórica entre os dois países, aqui, no citado artigo de Saite Júnior.

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