Paisagem

Manhã de agosto na fronteira de Namaacha, entre Moçambique e Suazilândia, a 600 metros de altitude.

Fronteira com neblina

Dança do caniço na Suazilândia

Para este texto realmente ter efeito, vou tentar, ao máximo, me despir dos meus preconceitos, julgamentos, avaliações e contar apenas o que vi. Deixo que cada um que leia tenha a sua impressão, sem ser induzido a nenhuma. Vamos ver se consigo ser tão isenta quando gostaria…

Domingo fomos à Suazilândia assistir a um ritual tradicional do reino, que é a única monarquia absolutista da África. O ritual que fomos assistir é chamado Umhlanga ou Reed Dance (dança do caniço). Ele acontece sempre no fim de agosto ou começo de setembro de cada ano e é um momento no qual o rei pode escolher uma nova esposa.

As jovens virgens do país são todas reunidas, em um evento que dura oito dias e envolve muita energia e dedicação. Os objetivos da cerimônia são: preservar a castidade das jovens e incentivar a solidariedade por meio do trabalho conjunto.

No primeiro dia, as garotas chegam na casa da rainha mãe (que vai ser a sogra da escolhida) e são registradas. No segundo, são separadas em dois grupos: as mais velhas (14 a 22 anos) e as mais novas (8 a 13 anos). À tarde, elas caminham em busca de caniços. As mais velhas chegam a caminhar 30 quilômetros em busca dos mais bonitos. No terceiro dia elas cortam os caniços com longas facas (cada uma costuma pegar entre dez e vinte) e montam seu feixe. No quarto dia caminham de volta para a casa da rainha mãe, carregando seus feixes de caniço. No quinto dia as jovens arrumam seus cabelos e roupas para a apresentação ao rei. O sexto dia é o primeiro dia de dança. Foi esse o dia que presenciamos.

Chegamos pouco depois das onze da manhã aos jardins da Ludzidzini Royal Residence (a casa da mãe do rei), que fica no vale de Ezulwini, há aproximadamente 30 quilômetros do capital, Mbabane. Para entrar, não é preciso pagar nada. Mulheres devem estar vestindo saias. Mas, se alguma desavisada chegar trajando calças, há barracas logo antes do portão de entrada, onde se vende capulanas. Os homens não podem estar com chapéus, bonés, gorros, nada na cabeça.

Quando chegamos, as garotas estavam saindo das barracas onde tinham passado a manhã se arrumando…

jovens saindo das barracas

Então, elas pegaram seus feixes de caniço e começaram a dançar pelos jardins da residência real. Todas com os seios descobertos e saias curtas.

jovens passam em frente à casa da rainha mãe

Ao fundo, a casa da mãe do rei

No vídeo abaixo, um pouco da dança. Como apurou o repórter Eduardo Castro, elas cantam em zulu, dizendo que são puras.

As meninas chegam a milhares e são divididas em grupos. Cada um tem sua coreografia e roupa típica, como podemos ver nas fotos abaixo.

grupo de meninas 1

grupo 2

grupo 3

Sandra em frente a um dos grupos

Então, ficam todas perfiladas nos jardins à espera que o rei Mswati III chegue. Nem sempe ele vem nesse dia. Se isso acontece, elas seguem o ritual em forma de ensaio para o dia seguinte, quando ele vem. Para nossa sorte, depois de mais de uma hora de espera em pé, ele passa de carro, entra na casa da mãe e as meninas começam, então, a encostar os feixes de caniço nos muros da casa e descerem para o estádio onde vão dançar.

estádio 1

estádio 2

O estádio é imenso. Elas ficam em volta, a espera da chegada do rei. Quando ele entra, elas passam a dançar e cantar, todos os grupos ao mesmo tempo, cada um com sua música e sua coreografia. Cada grupo passa em frente ao local onde está o rei e se posiciona à espera do fim do evento, que dura horas.

Ao final, todos vão embora sem saber ainda se o rei vai escolher alguma noiva. No sétimo dia, elas dançam novamente, aí sempre com a presença do rei. No oitavo dia é que se anuncia a nova esposa do rei. Nesse dia também matam cerca de 25 bois e cada menina que participou do evento leva carne para casa.

chegada do rei no estádio

Chegada do rei no estádio

rei entra na tribuna de honra do estádio

Rei entra na tribuna de honra do estádio

rei senta-se ao lado da mãe na tribuna de honra

Rei senta-se ao lado da mãe na tribuna de honra

Tudo acontece na casa da mãe do rei e ela participa da cerimônia ao lado do filho. O Umhlanga é visto como uma oportunidade das jovens suazilandesas homenagearem a rainha mãe. Os caniços que elas recolhem e deixam nos muros da residência real são usados depois na reparação do palácio.

Veja mais na Wikipedia e no site oficial da Suazilândia.

Comprinhas no vizinho

Morar perto da fronteira está sendo uma experiência divertida para nós. Pegar o carro e atravessar para outro país é algo muito comum para quem vive aqui em Maputo. Você pode ir para outro país para conhecer o Kruger Park, para comer carne muito boa e barata na Suazilândia ou para fazer compras em Nelspruit, na África do Sul.

Eu não sou muito fã de fazer compras, então, não é isso que me atrai por lá. Mas sempre vale o passeio e, quando se está precisando de alguma coisa, o preço da cidade é compensador. Em geral, as coisas tem preços cerca de 25% mais baixos que em Maputo e a variedade é maior.

Estive lá pela primeira vez em agosto do ano passado, com a amiga Isaura. Fomos durante a semana, porque ela tinha uma consulta médica. Aliás, isso é outra coisa que atrai muitos moradores de Moçambique para Nelspruit. Clínicas com equipamentos mais modernos, médicos muito bem preparados e melhores recursos já estão especializadas em atender pessoal do país vizinho.

Agora, fomos no sábado. Com os amigos Patrícia e Santiago. Foi um passeio de compras e gastronomia. Muita gastronomia… Saímos de casa às 6h e chegamos lá por volta de 8h30. Passamos primeiro no Estádio de Mbombela, construído para a Copa de 2010. Essa parada você pode ler com detalhes no post escrito pelo Eduardo no ElefanteNews.

Depois, café da manhã no Mugg & Bean do I’Langa Mall, o shopping novo. Aliás, as compras acabam por se resumir ao shopping novo e shopping velho, no qual ainda vamos chegar… Uma volta no shopping e, quando nos demos conta, já era mais de meio dia.

Parada para almoçar. Restaurante Mediterranean, no mesmo shopping. Foi perfeito, porque tem sushi e sashimi, que o Eduardo adora e estava sentindo falta de um restaurante do tipo com boa relação custo x benefício. Em Maputo temos duas ou três opções, mas os preços são muito altos para a qualidade e quantidade que oferecem. E para mim e o Guilherme, carne, muita carne bem vermelha.

Além disso, a vista do restaurante é lindíssima. O que é também uma característica da cidade. Pequena e cercada de montanhas, por onde andamos, o cenário é sempre muito agradável. Sem contar com as ruas largas, bem asfaltadas e limpas (mais coisas para a lista do que não se encontra em Maputo).

A sobremesa ficou para o outro shopping. O Riverside. Uma sorveteria chamada Milk Lane, onde nos acabamos nas taças gigantes com muito sorvete e cobertura. Depois, passear por todo o shopping, para fazer a digestão.

No fim do dia, passada no supermercado Spar. Muitos produtos que compramos lá, não são encontrados em Maputo com regularidade. Além disso, o custo mais baixo também atrai.

Fim das compras, hora do jantar. Lá foi o sobrinho matar saudade do McDonald’s. Pronto, já tínhamos feito tudo que não é possível fazer em Maputo, tínhamos nos divertido muito com os amigos, então, já podíamos encarar mais duas horas e meia de estrada para dormir no nosso país de residência.

Para saber mais sobre a cidade, veja também o post Nelspruit, do blog da Nhatinha, e o site oficial da cidade.

Logo ali, na Suazi

O domingo passado começou com uma mensagem no celular, enviada pelo amigo Pedro: “Vou até a Suazilândia. 17h estou de volta. Topam vir?”.

Para quem não sabe, Suazilândia é o país vizinho, conhecido aqui em Moçambique pela boa qualidade da carne e pelo rei Mswati III, que é aquele estereótipo que se tem de um chefe de nação africano: usa roupas de peles, tem uma dúzia de esposas e pratica a monarquia abolutista.

A primeira característica — a boa carne — foi o que nos levou às terras vizinhas. Além claro, da graça de sair de casa para ir almoçar em outro país. Para quem passou boa parte da vida em São Paulo ou Brasília, isso é realmente diferente.

Seguimos em direção à Namaacha, onde fica a fronteira. Carimba passaporte para sair do país, carimba passaporte para entrar no outro país. Não tivemos que comprar visto. Só pagar uma taxa pelo carro, de cerca de US$ 12. Na entrada ao país vizinho, além da placa de boas vindas, o aviso do funcionário da fronteira: “cuidado com os animais na estrada. São muitos e aqui têm muito valor. Se tiver que escolher, é melhor matar uma pessoa do que um boi”, alertou, sem cara de estar totalmente brincando.

Então, entramos nas estradas da Suazilândia. Linda paisagem. Eu já tinha ouvido falar que suas belezas naturais são encantadoras, apesar de ser um país com pouca qualidade de vida para a população em geral, muita pobreza e os maiores índices de incidência de Aids do mundo.

Chegamos ao meio do país em uma hora: Manzini. No caminho, tudo que vimos foram pequenos vilarejos, muita cana e muito gado. Tudo com um ar bem rústico, construções simples, muitas casas de madeira, telhados sempre de palha. Em um país cuja economia baseia-se na agricultura de subsistência, não poderia ser diferente.

A cidade que encontramos parecia uma cidade do interior de São Paulo, com algum comércio, nenhum prédio, poucos carros. Vimos dois centros comerciais e foi em um deles (novíssimo, parecia existir há uns dois meses) que nos deliciamos com a carne suazi.

Êita bifão bom!

Eduardo, Mário, Pedro e Guilherme com seus respectivos 'bois'

Entramos em um mercado, onde o Pedro e o Mário não resistiram e ainda levaram alguma carne para casa. Depois, seguimos viagem de volta à Moçambique. Antes das 18h já estávamos de volta.

É… acordei meio azeda hoje – ou fiquei depois que fui às notícias

Tenho muitas restrições às grandes organizações. Sejam grandes empresas ou grandes órgãos de representação ou grandes organizações não governamentais. Pela minha experiência, quanto maior, mais se afasta de seu objetivo, menos o beneficiário é de fato beneficiado.

Hoje estão divulgando por aqui uma notícia da rádio ONU (Organização das Nações Unidas – algo pode ser maior que as Nações Unidas? Ainda que não sejam todas as nações, vamos considerar que maior que isso só o dia que tivermos os planetas unidos!). Enfim, a notícia divulgada é que o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, vem à África pela terceira vez no espaço de um mês e diz que suas visitas estão a reforçar sua convicção de que a região irá cumprir as Metas do Milênio.

É chique isso, não? A África, que sempre está lá no fim das listas de desenvolvimento, vai cumprir as Metas do Milênio.

Seria um lindo dia, se eu não tivesse me proposto a ter outras informações além daquelas que a ONU divulga por aí. E então, descobri que em Moçambique, 85 bebês são infectados pelo HIV diariamente e cerca de 149 mil mulheres grávidas vivem com o vírus no país. E esses dados são do Unicef – o Fundo das mesmas Nações Unidas para a Infância e Adolescência.

Na Suazilândia, país vizinho aqui, o índice de mortalidade registrou aumento acima do dobro durante a última década. Por que isso? Consequência dos efeitos da pandemia do HIV/Sida (Aids), de acordo com o Gabinete Central de Estatísticas do país.

Em matéria do jornal O País desta terça-feira, são apresentadas estatísticas das Nações Unidas (olha elas aí de novo!) indicando que o índice de prevalência do HIV na Suazilândia, é de 40%, o mais elevado do mundo inteiro.

Então, se estamos mesmo a atingir as Metas do Milênio até 2015, ou é preciso correr muito, ou rever as metas.

É por isso que eu me afasto cada vez mais dos gigantes e sigo fazendo meu trabalho de formiguinha.

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