Morangos de Moçambique

Mário apareceu nas redondezas aqui de casa há algumas semanas. Ele é mais um dos tantos vendedores de rua de Maputo. Chegou junto com a temporada dos morangos. E trouxe uns bem docinhos, maravilhosos.

4 caixas de morango

Ele apareceu com uns dois ou três outros que atuam no mesmo território. Mas foi o primeiro que me abordou e logo foi tão simpático que se transformou no nosso fornecedor especial. Sem contar que não vem morango ruim na caixa dele. Impressionante, nunca perdi nenhum.

Mário com duas caixas de morangosMário também me ganhou ao explicar o mercado dos morangos aqui em Moçambique. Segundo ele, quando começa a época (final de julho), os primeiros a serem vendidos vêm da África do Sul. Então, são um pouco mais caros. Uma caixa pequena chega a ser vendida por MT 90,00 (R$ 4,35). Eu tenho conseguido comprar dele duas caixas por MT 150,00 (R$ 7,25). Mas agora que vamos entrar em setembro começam a ser vendidos os nacionais, cultivados na cidade de Namaacha, aqui no sul de Moçambique, o que vai baratear o produto. Vamos ver o que vou conseguir com o Mário.

Na verdade, acho que se eu insistisse, conseguiria essas duas caixas por um pouco menos. Mas pago pela boa conversa também. É uma figura esse Mário. Já comprei até fiado dele. Um dia que os morangos estavam lindos e eu sem dinheiro na mão. Na última vez que nos vimos, eu nem comprei nenhum, só encontrei com ele e bati um papo. Dessa vez ele disse que eu tenho que convencer minha mãe a vir para cá (viu, Dona Nancy?). “Por que sua mamá não está?”. E eu tentei explicar que tem família no Brasil também… outros filhos, netos… e ele: “Mas ela tem que vir para cá, tem que te ajudar, passar um ano aqui”. Pode ser mais simpático?

Otto foi à praia

Ontem, domingo, pela primeira vez, Otto (nosso cão) foi à praia. Aqui mesmo, em Maputo. Colocou suas patinhas nas geladas (estamos no inverno) águas do Índico.

Nada aconteceu como eu imaginava. Ele não fugiu quando as ondas se aproximaram. Está certo que eram ondinhas, mas eram seres que se moviam e ele foge até de papel que voa com o vento na rua! Com as ondas não, continuou a andar, como se nada houvesse. Ele não bebeu da água salgada, nada além daquilo que pulou para dentro da boca dele. No entanto, ele assustou com a areia que entrava pelas narinas cada vez que ele punha em ação o seu aspirador de pó natural, para cheirar toos os milímetros daquele mundo novo. E eu, boba, nem tinha pensado nisso!

Mas foi tudo muito divertido. Ver as patinhas daquele cão do cerrado brasileiro afundando na areia grossa, ele, tão pequenino, se esforçando para andar, seu corpo na água do Índico… foi muito divertido. Vejam um pouco nas fotos que fizemos lá:

Otto andando na areia

Eduardo com Otto na água

Eduardo com Otto na água

Otto com Sandra na praia

Otto com Sandra na praia

Estamos aqui há mais de quatro meses, mas a visita demorou tanto porque eu tenho aversão à praia. Aquela areia me dá a sensação de que sou um bife à milaneza… toda areia do planeta entrando em meus poros… o cheiro da água salgada… não consigo. E como eu fico muito tempo sem fazer essa visita aos oceanos, acabo até me esquecendo como é. Sei que não gosto, mas guardo a idéia de que vai ser suportável. Quando chego lá, ao primeiro pisar na areia, já me arrependo e tenho vontade de ir embora. Há duas semanas foi assim. Tentei, mas a visita não durou sete minutos. Ontem ficamos um pouco mais, pelo Otto. O que a gente não faz por essas criaturas que nos roubam o coração?

Lembra do FMI no Brasil? Ele está aqui em Moçambique…

Tenho escrito alguma coisa aqui e ali sobre economia. As coisas andam complicadas em Moçambique, com uso deliberado do dólar em vez da moeda corrente, o metical, alta de preços da gasolina, do pão, da farinha… A última vez que tratei do assunto foi sobre o uso de moedas estrangeiras para pagamento de serviços de saúde em Moçambique. Veja . E, então, Patrícia comentou: “No Governo Lula, um dos alívios que mais senti foi não ficar tendo noticias das ‘visitas’ do FMI pra renegociar as dívidas. No livramos disso e hoje o Brasil é visto diferente no mundo todo.”

De fato, um país que anda às voltas com pagamentos ao Fundo Monetário Internacional (FMI) é tachado como submisso por aí afora. Ao ler o comentário da Patrícia, lembrei de um artigo que li recentemente, sobre ajuda internacional em Moçambique, de Paolo de Renzio e Joseph Hanlon, do departamento de Política e Relações Internacionais da Universidade de Oxford, na Inglaterra, escrito em 2007, sob o título original Contested Sovereignty in Mozambique: The Dilemas of Aid Dependence.

Depois de ler o artigo, impossível não ficar com a sensação de que o FMI só contribui para atrasar os países onde está. E, mais ainda, depois de ter tido a experiência da presença do FMI no meu país, até alguns anos atrás, essa sensação se torna lembrança e certeza.

No final dos anos 80, logo após a declaração de independência de Moçambique, que deixara de ser colônia de Portugal em 1975, as coisas até que iam bem: havia uma Comissão Executiva Nacional de Emergência, que coordenava as atividades dos doadores financeiros, como FMI, Banco Mundial e organizações não governamentais estrangeiras. Essas instituições doadoras tinham que informar ao governo de Moçambique o que iriam fazer no país, seguindo as políticas e diretrizes definidas pelo governo e trabalhando, freqüentemente, em províncias escolhidas pelo governo e não por elas mesmas. Esse sistema, com sucesso, levou os doadores a fazerem menos ações emergenciais de assistência e mais ações de desenvolvimento e reconstrução.

Mas com o tempo, para manter os empréstimos, FMI e Banco Mundial foram colocando as manguinhas de fora e impondo suas cartilhas. Para dar só um exemplo, no início da década de 1990, castanhas de caju representavam a maior exportação de Moçambique, sendo processadas em fábricas com até dez mil trabalhadores. As castanhas cruas cultivadas em Moçambique só podiam ser vendidas a empresas nacionais, que realizavam o beneficiamento. Então, o Banco Mundial exigiu a livre exportação da castanha crua, com diminuição das taxas de exportação do produto. O argumento do Banco Mundial era que os comerciantes externos iriam competir pela castanha bruta e os ganhos seriam superiores aos prejuízos que pudessem haver com desemprego. Era a “maravilha” do livre mercado. O governo resistiu por um tempo, mas acabou cedendo. Hoje, é comum vermos nos supermercados, castanhas cultivadas aqui, mas que foram assadas e temperadas na Índia. Custam muito mais para o consumidor. Custaram empregos e renda à Moçambique.

Análises recentes mostram que o governo estava certo ao se opor à política do Banco Mundial. Fábricas foram fechadas, milhares de postos de trabalho foram extintos e os agricultores que trabalhavam com castanhas de caju ganharam muito pouco.

Lendo o artigo de Paolo de Renzio e Joseph Hanlon descobri que muitas instituições doadoras têm cláusulas em seus programas de apoio que afirmam que a ajuda aos governos só pode ser dada se este estiver de acordo com os programas tanto do FMI quanto do Banco Mundial. Apoio humanitário alimentar chegou a ser negado aqui se o governo não passasse a seguir a política imposta por essas organizações. Com tamanha pressão, o governo foi aceitando, aceitando, aceitando…

Hoje, uma missão de instituição doadora chega a Moçambique a cada dia e apenas alguns poucos informam o departamento de cooperação internacional sobre o que estão a fazer aqui. Paolo de Renzio e Joseph Hanlon analisam que especialistas e acadêmicos locais, que poderiam estar desenvolvendo alternativas e caminhos para o desenvolvimento estão, em vez disso, trabalhando como consultores para essas instituições.

Eles mostram ainda que os doadores, em Moçambique, passaram a ter acesso a documentos-chave e informações estratégicas do país, envolvendo-se crescentemente em todos os estágios de definições de políticas públicas do país. Era contra isso que eu gritava no Brasil, quando ia a passeatas na avenida Paulista, no início dos anos 90, com a palavra de ordem Fora FMI e, depois, Fora FHC e o FMI, porque Fernando Henrique Cardoso, o FHC, foi um presidente que comeu com prazer na mão dessa instituição.

Eu não queria mais esse cenário no meu país. O FMI não permite a consolidação econômica dos países onde atua, os mantém seus servos e não dá possibilidade de serem nações autônomas. Para minha satisfação e meu orgulho, no atual governo, o Brasil passou de beija-mão a credor do FMI. E o mais importante é que, ao passar de devedor a credor, o Brasil não virou a casaca. Quando do anúncio do empréstimo, o presidente Lula da Silva afirmou que a iniciativa dá ao Brasil autoridade moral para continuar reivindicando mudanças no FMI.

Hoje, o Fundo elogia a economia brasileira, não pisa mais nela. No dia 6 de agosto desse ano a Rádio França International noticiou, sob o título FMI elogia recuperação da economia brasileira, que “depois de consultas com autoridades econômicas brasileiras, a diretoria do FMI disse que o desempenho notável foi sustentado pela forte política econômica, baseada na responsabilidade fiscal, na flexibilidade do câmbio e em metas de inflação”.

Leia mais:

Caju: a aposta económica que não vingou, do jornal O País.

Brasil e o FMI: de devedor a credor, do portal Administradores.com.br.

Piripíri, o restaurante

Piripíri, aqui em Moçambique, é pimenta. E é também o nome de um restaurante. Fica ali na avenida 24 de julho, bem no comecinho, em frente ao Polana Shopping, quase na esquina com a avenida Julius Nyerere. Mas não é o da esquina, lá é o Nautilus (no futuro, vamos ter oportunidade de ir lá também).

propaganda do Piripíri na esquina das avenidas 24 de julho e Julius Nyerere

Bem, o Piripíri é bastante conhecido na cidade. Seus pratos, muito bem servidos, são oferecidos no almoço ou jantar, todos os dias da semana. Você também pode ir lá só tomar um chope e comer uns petiscos no fim da tarde. Há umas mesinhas do lado de fora, na calçada. É bem agradável. Só tem que ter paciência para os vendedores de tudo (óculos, relógio, artesanato de toda ordem, extensões elétricas, DVDs piratas, tudo mesmo) que passam por lá o tempo todo. A dica é: se quiser conhecer o artesanato e a cultura local, converse com um deles. Os outros perceberão que você dá atenção e virão feito enxame de abelhas. Agora, se quiser privacidade, não abra espaço.

No cardápio, petiscos, sopas, pratos de peixe, frango, carne vermelha, massa, sandes (sanduíches, para os brasileiros), uma grande variedade. A preços bem razoáveis. A espetada (espetinho) de mariscos, por exemplo, sai a MT 280,00 (R$ 13,50). Nesse prato vem três espetinhos de lula, camarão e peixe, salada e batata frita. A carne de panela com esparguete (é, aqui tem r no meio mesmo…) custa o mesmo valor e atende a duas pessoas.

Serviço:
O quê? Restaurante (almoço e jantar) Piripíri.
Quando? Todos os dias, das 11h30 até meia-noite.
Quanto? Refeição completa, com entrada, prato bem servido, sobremesa e café sai por cerca de MT 450,00 (aproximadamente R$ 22,00).
Onde? Avenida 24 de julho, 22, cidade de Maputo.

Published in: on 27/08/2010 at 09:09  Comments (3)  
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Depois da educação, saúde exige uso da moeda moçambicana

Em maio de 2010, o Banco de Moçambique emitiu um ofício obrigando a indicação de preços, faturação e cobrança no território moçambicano serem feitas em meticais e nunca em moeda estrangeira. No entanto, até hoje, várias instituições insistem na cobrança em outras moedas, como você já viu aqui no Mosanblog.

Na semana passada, tivemos a primeira boa notícia. E veio da área da educação. Foi proibido o pagamento de taxas em moedas estrangeiras nas instituições de ensino de Moçambique.

Agora, mais uma vez com alegria, trago notícia semelhante, na área da saúde. A direção do Hospital Central de Maputo, a maior unidade hospitalar do país, anunciou a proibição, desde o dia 20 de agosto de 2010, do uso de dólar para cobranças e pagamentos.

Por que tanto me alegram essas notícias? Oras, a moeda é um dos símbolos de identidade nacional. Valorizá-la é valorizar a soberania do país. Parabéns a mais essa conquista do povo moçambicano. A moeda oficial aqui é o metical. Quem quiser viver em dólar, real, euro ou qualquer outra moeda, que se estabeleça em outro lugar.

Leia nesse artigo informações oficiais do governo sobre a economia do país e a depreciação do metical.

David indica para a Quinta Quente no Quinto

Que o meu amigo David Borges é um artista musical, todo mundo sabe. Bom, se você não faz parte desse todo ou desse mundo, pode passar a fazer, lendo esse texto, que foi, aliás, o lançamento da categoria Quinta Quente no Quinto no Mosanblog.

Agora devo acrescentar que é artista modesto. Observem que no post da Quinta Quente no Quinto da semana passada, quando falei de Manecas Costa, ele comentou: “Eu toquei com o Manecas um par de vezes em Lisboa”.

Como assim???? Tocou com Manecas Costa um par de vezes e vem dizer isso dessa forma, tão “en passant“?

Se isso aqui não fosse público eu soltava agora mesmo um palavrão. Daqueles positivos, de surpresa boa. “Meu amigo é… (espaço para a criatividade do leitor)!”

E quando comentou assim, como se nada fosse, que tocou “um par de vezes com Manecas Costa”, David sugeriu que eu procurasse o som da Tabanka Djaz.

E eu, como não podia deixar de ser diante de tamanho êxtase: “Sim, meu amo e senhor, sigo seus passos e suas indicações”.

E não é que é coisa boa mesmo? Então, trago hoje para vocês, Tabanka Djaz.

Na pesquisa que fiz descobri que esta é uma das bandas mais influentes da África lusófona (será que o David já tocou com eles também?). São oriundos da Guiné-Bissau, como Manecas Costa e como David. Olha o poder de Guiné-Bissau no mundo da música!

A banda foi formada em 1989, quando os irmãos Micas, Juvenal e José Carlos Cabral reuniram-se com Aguinaldo Pina e Rui Silva. Depois disso, o grupo teve várias formações, com substituições de músicos pelos mais diversos motivos, mas a essência permanece: grande influência dos mais diversos estilos tradicionais guineenses e tropicais, principalmente o Gumbé — ritmo urbano, da região de Bissau, executado por instrumentos tradicionais. Hoje, os Tabanka Djaz ainda tocam o estilo guineense, mas modernizado, o que permitiu conquistar mercado internacional.

Esse mercado incluiu o Brasil. Em 1999, foram convidados por Martinho da Vila, para participarem no projeto Lusofonia.

Bom, mas chega de escrever e vamos ao que interessa nas quintas-feiras: “Maestro, música.”

Se quiser mais, tem uma entrevista interessante dos Tabanka Djaz, divulgada em abril desse ano, aqui.

E, voltando ao David, não deixem de visitar o blog Kaleidoskope Art, onde ele faz uma proposta realmente de quem tem alma de artista. Visitem e participem!

Bélia e a televisão

O fato do Eduardo e eu sermos um casal, faz com que muitos de nossos leitores conheçam os dois e visitem tanto o Mosanblog quanto o ElefanteNews, o que é bem interessante para nós e cria certa complementariedade em termos de informação para os leitores. Então, quem já visita o ElefanteNews, conhece um pouco a Bélia, que é produtora de TV e trabalha com o Eduardo. Quem não conhece ainda, pode ver os posts sobre ela no ElefanteNews aqui e aqui.

a produtora Bélia

Bélia: "não me imagino com outro nome"

Outro dia ela fez tranças no meu cabelo. Enquanto ela trançava – o que demorou quase três horas – eu aproveitei para fazer uma entrevista. Bélia é uma figura que vale. Nasceu aqui mesmo em Maputo, no bairro Xamanculu, onde viveu até os 12 anos, quando a família se mudou para o bairro das Maotas, onde ela está até hoje. “A mudança foi muito brusca. Para o positivo. Lá as condições eram precárias. Em um terreno, pode ter mais de 50 casas. Na casa onde vivíamos, dividíamos o banheiro com mais seis famílias. Era difícil ficar na bicha [fila, por aqui] de manhã para tomar banho”, lembra.

Então, ela começou a mexer no meu cabelo. Separou um tanto para cá, um tanto para lá, e começou o trança-trança. Eu tinha comprado mechas, para as tranças ficarem todas do mesmo tamanho e volume, como eu expliquei nos últimos posts.

mechas compradas no Mercado Central de Maputo

Mechas que eu comprei no Mercado Central de Maputo, quase da cor do meu cabelo

E eu começo perguntando: Qual é o seu nome completo?
Bélia Enoque Machava.

Mosanblog: De onde vem o nome Bélia?
Bélia: Meus pais sempre gostaram de ter nomes diferentes para os filhos. Quase todos temos nomes exclusivos. Minha mãe gostava de uma cantora chamada Mbilia Bell, africana. Então, ela queria colocar Mbilia. Mas depois ela pensou no Bell. Não sei como, ela juntou os dois e ficou Bélia. Um dia fui achar significados de nomes e achei na bíblia o nome Belial. E não é um nome bom, é um nome negativo. Eu fiquei mal. Mas também, não me imagino com outro nome.

Mosanblog: E as suas irmãs? Como são os nomes?
Bélia: A minha irmã mais velha chama-se Topázia, do nome da pedra preciosa. A outra tem o nome da mamá (mamá é como eles chamam mamãe aqui. É mamá e papá), que chama-se Olga. Depois tem uma que tem o nome de Vinólia, em homenagem a uma sulafricana conhecida por ser super inteligente. Depois veio o menino, que ganhou o nome de meu pai. Enoque José Machava Júnior.

Mosanblog: Você tem um filho, não?
Bélia: Tenho sim, um filhinho. Vai fazer 4 anos dia 30 de agosto. Layton [fala-se Láiton].

Mosanblog: E esse nome?
Bélia: Layton foi o pai que deu, eu nem sei de onde veio. Foi no dia do parto. Eu tinha certeza que era menina. Já vou pensando no nome feminino que vou dar. Ia ser Giovanna. Por causa da novela da Jade, aquela do Clone. Então fui ver o nome real da Jade. Mas quando de repente vi que era um rapazito, nem imaginava que nome dar. O pai falou Layton. Eu gostei na hora. Porque não gosto de coisas vulgares. Tem que ser exclusivo. Que nem Bélia. Meu nome eu só vi em uma mulher em França, na TV. A minha xará está em França! Depois disso eu conheci um Bélio. E só.

Mosanblog: Qual seu objetivo profissional?
Bélia: Sempre tive o sonho de ser repórter, locutora de rádio, apresentadora de TV. Por alguns anos trabalhei como locutora de rádio. Foi emocionante. Fazia aquilo que eu gostava: lidar com música, conversar com os ouvintes…

Mosanblog: Em qual rádio?
Bélia: Passei em várias rádios, uma foi a RTK [aqui a letra k fala-se kapa]. O kapa é de Klinton, o primeiro dono da rádio, mas ele perdeu a vida já há muito tempo… Então, brasileiros compraram a rádio e modificaram para K FM. Lá eu fiz um programa infantil.

Mosanblog: Como era esse programa infantil?
Bélia: Tinha muita música de criança. Eu era fanzona da Eliana. Então, fui fazer o programa. Eu imitava a Eliana. Na escola chamavam-me Eliana de Moçambique. Eu sabia quase tudo dela. Mesmo que na época não tínhamos internet para acessar as informações. Eu ouvia pela rádio e via na televisão Miramar [hoje, Record], que transmitia os programas da Eliana aqui. Aquilo era uma coisa! Aquele mundo colorido… Aqui a gente não estava acostumado a ver aquilo, aqueles cenários bonitos. Aqui não era assim. As crianças conheciam só brincadeira da terra.

Mosanblog: Que brincadeiras vocês faziam nessa época?
Bélia: Uma era a mathocozana. Faz-se uma covinha no solo, de um centímetro, depois arranja-se pedrinhas e coloca-se lá. Eram 12 pedrinhas e uma bolinha, para a bolinha usávamos limão pequenino. Jogava a bola para o alto, tirava e repunha as pedras na covinha e tinha que pegar a bolinha antes dela cair nas pedras. Quando chega o programa da Eliana, saímos daquele mundo. As crianças ficaram muito mais sedentárias, porque só queriam saber de televisão. [Ela está falando de coisas de uma década atrás, mais ou menos].

Mosanblog: E quanto tempo durou seu programa infantil na rádio?
Bélia: Seis meses. Aí mudei. Fiz um de promoção de bebidas. Mas eu não fazia sozinha. Éramos três. Tinha um animador, eu e um outro homem. Comentava sobre a bebida, que estava a patrocinar a rádio. Falávamos com o ouvinte, dávamos a bebida de prêmio, líamos anedotas. Era muito bom, porque estávamos a rir. As bebidas eram Boss Whisky, Dolar Gin, American Queen… eram quatro, mas a quarta já não estou a recordar. Mas eu não bebia, só falava, só.

[E ri. E trança.]

Bélia a trançar e rir

Mosanblog: Por que você queria ser repórter?
Bélia: O sonho sempre foi fazer rádio, televisão. Queria ser apresentadora, igual a Eliana. Mas os sonhos foram mudando. Os programas de jornalismo da Miramar traziam matérias quentes. Eu via uma reportagem, ficava pensando: “como é que conseguiu fazer isso?” Tinha uma repórter que era do Ceará – eu não sei onde é que é isso – eu via o programa para ver o que ela ia fazer, porque ela só fazia matérias boas. Eu ficava no espelho em casa, tipo: tô na televisão. Eu começava a falar: boa noite, está a começar mais um programa… Meu avô queria que eu fosse médica. No décimo ano eu reprovei umas três vezes. E era pelas ciências. Nas letras eu ia bem. Português, história, geografia… Eu passei as letras todas, ciências reprovei tudo. Nas letras, vem uma pergunta difícil, se tu souberes argumentar, vais bem. Nas ciências não. Tens que saber exato. Portanto é difícil fazer medicina. O que acontece é não há nada melhor do que fazer aquilo que nós gostamos.

Mosanblog: Você continua com o mesmo sonho hoje?
Bélia: Hoje meu sonho ainda é fazer jornalismo. Ainda não fiz faculdade de jornalismo, mas eu vou chegar lá. É uma questão de perseverança. Se o que eu quero é isso, vamos lá. Hei de aprender, ainda que não saiba. Estou aprendendo, graças a deus. Vou vasculhando mais. Acredito que a lei é ser curioso.

Mosanblog: Você já assistiu a TV Brasil, para onde trabalha?
Bélia: Já. Quando eu vi: ê! O canal é diferente. Muito mais evoluído com relação aos canais nacionais. Está bem que o Brasil é independente há muito tempo. Moçambique ficou independente há 35 anos. No Brasil, dizem que tem pobreza, mas nós, quando vemos novela não vemos isso. A gente sabe que novela é mentira, mas nós não colocamos isso na cabeça quando vemos. Em tudo o Brasil é evoluído. Futebol. Brasil foi pentacampeão. Músicas. No Brasil, fazem letras incríveis. Moçambique chega lá um dia. O Brasil quando ficou independente também não foi de cá pra lá. Houve um tempo.

[Filosofa… e trança]

Bélia pensa e trança

Mosanblog: Mas mechas não tem no Brasil. Pelo menos não como aqui, em todo canto…
Bélia: Sério? Não é possível. É possível, porque… mas não… dona Sandra! Nas novelas a gente vê aquelas negras. Elas usam mechas sim. Aquilo não é cabelo delas… Mas a maior parte das pessoas no Brasil são brancos. Algumas mechas vendem lá, sim. Com certeza.

Mosanblog: E o que são as tais mechas?
Bélia: Mechas são cabelos que nós africanos usamos junto com o nosso, por termos cabelos que não crescem muito, e é lento, muito lento, não é como os brancos e mulatos. À medida que nós cobiçamos as novelas, começamos a cobiçar aquele cabelo longo, a gingar… É quando inventam-se as mechas. Na época eram menos sofisticadas que as atuais. A gente só trançava. A evolução também trouxe as extensões e fica mesmo cabelo assim, que nem de branco. Cobiçávamos ter cabelo longo, que é possível passar um pente. Quando surgem as extensões, foi um sonho!

[Sonha… e trança]

Bélia não para de trançar

Mosanblog: Quando você começou a trançar seu cabelo e a usar mechas?
Bélia: Desde criança. Eu era maluquinha. Ia numa casa que estavam a trançar e pegava as mechas que restavam no chão. E comecei já a trançar na minha cabeça. Eu aprendi a trançar na minha cabeça. Saía mal, mas eu persistia. Com o tempo comecei a trançar bem. Normalmente a mão de obra é um pouco cara. Se for para gente de fora, ainda mais. As pessoas vão vendo o teu cabelo, a tua roupa e já cobram mais.

Mosanblog: Eu já percebi isso. Tem o preço para os mulungos [estrangeiro, branco] e para os daqui…
Bélia: Aqui é assim. Se estão a ver pessoas claras, com cabelo longo, já pensam que está cheia de dinheiro. Lembram das pessoas da novela e acham que tem dinheiro igual. Olham pra ti e depois estipulam o preço. Cobram 500 meticais o que pode ser 50.

E no fim: Dona Sandra, eu falo tanto… Rádio me estragou. Meu chefe não gostava de colocar música. Ele dizia: “Eu contratei você para falar; para colocar música, saia da minha rádio, eu coloco um disco”. Fiquei assim.

E eu, fiquei assim:

tranças de ladotranças atráscom faixa na cabeçade lado

Hoje, as mechas

Ontem falei aqui sobre as tranças africanas. Hoje vamos tentar entender as mechas. Primeiro, o conceito: aqui chamam de mechas, punhados de cabelos que são comprados para serem agregados aos cabelos originais nos penteados. Podem ser da mesma cor do cabelo da pessoa que vai usar ou não. Podem ser sintéticos ou naturais. Tudo vai depender da criatividade e do bolso da usuária. Uma mecha simples, de cabelo artificial, custa MT 25,00 (R$ 1,20). Já uma de cabelo natural, geralmente importada da Índia ou do Brasil, pode custar até MT 3.000,00 (R$ 145,00).

Mechas a venda no Mercado Central de Maputo

Mechas a venda no Mercado Central de Maputo

Mechas a venda no Mercado Central de Maputo

Mechas a venda no Mercado Central de Maputo

E as moçambicanas andam alucinadas pelas mechas. Não se contentam com o cabelo que o destino lhes deu. A cada semana é uma nova cabeça, um novo cabelo. Parece-me que é moda nova, mas já está virando marca de um povo. Explicaram-me por aqui que o cabelo natural de algumas moçambicanas é de difícil crescimento e em pouca quantidade. Assim, não permite muita criatividade nos penteados. As mechas vieram para permitir. Permitir tudo, inclusive que a cada semena a mulher tenha um novo visual.

Com as mechas, é possível fazer um enorme rabo de cavalo, um coque (ou totó) bem charmoso, tranças (todas as que conhecemos ontem!) ou simplesmente, deixar o cabelo solto ao sabor do vento.

Mas quem entende mesmo de mechas, tranças e muito mais é a Bélia, que trabalha como produtora de TV. Aliás, o Eduardo já falou sobre ela e o cabelo dela no ElefanteNews. E amanhã vai ter muito mais da Bélia, aqui no Mosanblog.

As tranças, as mechas e a Bélia

São três assuntos e, portanto, serão três posts, afinal: uma coisa por dia, um dia de cada vez. Mas como estão relacionados, vou tratá-los em uma seqüência e o primeiro tem no título os três temas.

Vamos às tranças, uma tradição africana. Vou tentar esclarecer o que são, porque há muita confusão entre nagô, tererê, rastafari e dreadlocks.

A trança nagô é feita junto ao couro cabeludo e pode ser em linhas retas ou em desenhos desenvolvidos pelo artista trançador. Sim, porque há de ser um artista para fazer esse trabalho. Em cabelos não muito longos, como o meu, para tranças em linha reta, sem desenhos elaborados, é trabalho para duas horas e meia. Pode ser feita só com o cabelo original da pessoa ou com aplicação de outros fios. Aqui em Moçambique adoram usar os outros fios, que são comprados como “mechas”. A junção das mechas ajuda a dar um volume maior às tranças e também a manter um padrão de tamanho em toda a cabeça. Mesmo que a pessoa tenha menos volume de cabelo em determinada parte do couro cabeludo, as mechas preenchem isso e parece que o volume é homogêneo.

A nagô pode ser feita em qualquer tipo de cabelo, com qualquer tamanho e volume. Quanto mais puxa e deixa bem rente à cabeça, mais tempo dura. E a textura do cabelo também ajuda: cabelo fino como o meu, não agüenta muito, vai despontando. Além disso, eu não gosto de sentir dor (alguém gosta?) e não acho que nenhuma beleza justifica tal sofrimento, então, minha trança não foi muito puxada. Dependendo das condições do cabelo e do humor de quem o carrega com relação à dor, as tranças nagô podem durar até um mês ali, bonitinhas. Ah, e pode molhar, viu? Não pensem que fica cheirando mal a vida toda. Passa-se xampu líquido, enxagua-se bem e elas ficam bonitas e cheirosas. O ideal é depois secar com secador na temperatura fria. E para conservar mesmo, dormir de toca é a dica.

A trança nagô pode ser invertida. Ou seja, em cabelos curtos, começa da nuca e termina na testa, ficando uns fios de trancinhas pedentes em volta do rosto. Um charme pueril.

Os tererês são apliques de uma linha colorida sobre uma trança de cabelo natural. Essa linha pode ser fio médio de crochê ou lã. Um tererê pode ser feito com combinação de fios de cores diferentes ou em uma só cor. Primeiro é feita a trança. Depois, a partir da base da trança, o fio é passado pelos encontros dos cabelos, envolvendo toda a trança até a cabeça. Nessa técnica, o cabelo pode ou não ficar aparente.

Dreadlock (ou simplesmente dread) é mais uma aventura ou uma filosofia de vida do que apenas uma maneira de ter o cabelo. Eles dão o visual rastafari. Esse penteado ficou muito conhecido por ser usado pelo cantor de reggae da Jamaica, Bob Marley, e, na cultura africana, tem um significado relacionado a uma forma de afirmação da identidade negra. O dread é feito pela separação do cabelo em diversas partes que são enroladas nelas mesmas, no sentido vertical (observe, enroladas, não trançadas). A aplicação de cera de abelhas ou óleo de copaíba ajuda a manter os fios juntos e é tanto mais necessária quanto mais lisos e finos são os cabelos. O penteado dura anos. Então, conforme os cabelos crescem, devem ser enrolados nos rolos já definidos. Mais uma vez, quem pensa que o estilo tem a ver com sujeira ou deixa mal cheiro, se engana: o cabelo com dreadlock também pode ser lavado e, mais uma vez, deve ser seco com ar frio. Se foi usada cera para fixar os dreads, ela deve ser reaplicada depois do cabelo estar novamente seco. É preciso saber: como a cera fica entranhada nos fios, não é possível eliminá-la e desfazer o penteado. Então, para tirar o dread, os cabelos devem ser cortados na altura dos fios que estão nascendo.

As tranças, em geral, são técnicas desenvolvidas pelos povos africanos. A maneira de cada trança ser feita indicava, originalmente, desde o status social da pessoa até seu estado civil. Hoje, estão relacionadas mesmo à vaidade. E eu não ia deixar de fazer as minhas. Escolhi a nagô básica.

Sandra de nagô com faixa na cabeça

Sandra com nagô de perfilSandra de nagô com rabo de cavalo

Amanhã vamos falar das mechas.

Leia mais, e veja outras fotos, sobre os tipos de tranças, no site Beleza Pura.

E um post interessante sobre o assunto, no blog Casa de Luanda, que conta uma história em Angola, que também poderia ser em Moçambique.

Categoria Comes e Bebes

Abri uma nova categoria aqui no Mosanblog que batizei Comes e Bebes. Na verdade já tinha tratado aqui e ali de alguns lugares que freqüentamos no mundo da gastronomia aqui em Maputo, como o Tipalino, por exemplo.

Mas agora resolvi fazer a coisa mais estruturada, justamente porque percebo uma dificuldade imensa em encontrar informações sobre os bares e restaurantes daqui. Então, sempre que for a algum lugar legal, vou descrever um pouco e passar informações mínimas como endereço e o que serve. Espero ajudar quem já está na cidade e quem estiver preparando viagem também. E, claro, quando sair de Maputo e estiver em outros cantos da África, continuarei atenta.

Nesse sábado fomos ao restaurante Novo Milano, na avenida 24 de julho (nº 922). O cardápio é variado e, apesar do nome italiano, a maior parte dos pratos é árabe. Podes ir para o almoço, o jantar ou só para um drinque com petiscos, como nós fizemos ontem com o Pedro e a Sonia, novos amigos que conhecemos por aqui.

No restaurante Novo Milano: Eduardo, Pedro, Sonia e Sandra

Da esquerda para a direita: Eduardo, Pedro, Sonia e Sandra

O lugar é bem agradável, com alguns televisores e um ecrã (telão, para os brasileiros) enorme onde passam vídeo-clipes de boas músicas a uma altura que permite a conversa fluir bem nas mesas. O local também oferece um serviço interessante de uso de Narguilé (no cardápio consta como Argilah/Cachimbo d’Água/Water Pipe/Sisha), por MT 200,00 (menos de R$ 10,00). Além disso, o bar e restaurante é também um Internet Café, das 8h30 às 22h. São cobrados MT 25,00 (R$ 1,20) por meia hora de acesso Wi-Fi ou de uso dos computadores do local.

Serviço:
O quê? Restaurante (almoço e jantar), café e internet café Novo Milano
Quando? Das 8h30 às 22h para acesso à internet. O restaurante fecha à meia-noite.
Quanto? Sandes (sanduíches, para os brasileiros) a partir de MT 100,00 (R$ 5,00). Drinques com álcool, cerca de MT 130,00 (R$ 6,30). Internet: MT 25,00 (R$ 1,20) por meia hora. Narguilé: MT 200,00 (menos de R$ 10,00).
Onde? Avenida 24 de julho, 922, cidade de Maputo.
Para saber mais, ligue 21-31-3619/82-777-7456/84-443-2992.