Um pouco de música, para aplacar a saudade

Nos tempos que vivi em Moçambique, conheci Tânia Tomé. Uma poetisa musical que brilha apresentando boa música, com boa voz, muita simpatia e, depois vim a saber ainda ao conhecê-la melhor, de grande inteligência. Sem dúvida é a minha queridinha entre as cantoras de Moçambique, pelo conjunto da obra.

Ultimamente, tenho assistido à novela Windeck pela TV Brasil. A primeira novela angolana transmitida no Brasil. A cultura africana, o jeito diferente mas tão parecido de falar português, as referências às novelas brasileiras, a nostalgia do tempo que vivi em Moçambique – uma outra África, mas também África -, tudo isso faz com que eu tenha virado uma noveleira de primeira. Coisa que nunca fui.

E lá, no meio da novela, entre uma cena e outra, uma voz preenche meu coração saudoso de África: Pérola, de quem já falei aqui no Mosanblog. Não sei se pelas circunstâncias, pela música escolhida para a novela, pela atitude que hoje parece mais madura do que quatro anos atrás, mas ela ganhou muitos pontos comigo nos últimos meses e tende a ser a minha queridinha em Angola. Um pouco porque o tom de voz lembra Tânia Tomé, confesso.

E não sou só eu que acho que a moça é boa. Recentemente, ela ganhou o troféu Moda Luanda, na categoria Música, com o álbum Mais de Mim, que tem uma faixa que ela canta com a brasileira Ivete Sangalo. Pérola também já ganhou o prêmio Kora, em 2005, na categoria de Melhor Artista da África Austral.

Na novela, ela canta duas músicas: Fala do que quiseres e Sentada familiar. Esta última, inclusive, foi citada pela Lúcia Agapito nos comentários do primeiro post aqui no Mosanblog sobre a cantora.

E como hoje é quinta-feira… por que não transformá-la numa Quinta Quente? Vamos ouvir uma das músicas que Pérola canta na novela e a que mais me toca ao me aproximar de África e de Tânia Tomé – Fala do que quiseres:

Para conhecer mais, visite o site da cantora aqui.

A luta continua

Guardei Miriam Makeba para hoje, porque a música que trago é representativa do momento que vivo. Ela canta A Luta Continua e eu parto de Moçambique sabendo que a luta continua. E continuará ainda por muitos anos aqui… Mas parto com a esperança de ter contribuído um pouco para o sucesso dessa luta.

Miriam Makeba foi uma cantora da África do Sul, que viveu entre 1932 e 2008. Foi grande ativista pelos direitos humanos e contra o regime do apartheid. Em 1960 participou no documentário Come Back, Africa, contra o regime separatista sulafricano.

Em 1975, participou da cerimônia de independência de Moçambique. Foi nesse evento que ouviu a frase em português A luta continua, usada como slogan da Frelimo. O evento da independência e a sonoridade de “a luta continua” inspiraram a criação da música, que se tornou um hino dos países africanos oprimidos pela colonização.

My people, my people open your eyes (Meu povo, meu povo, abram seus olhos)
And answer the call of the drum (E ouçam o chamado do tambor)
Frelimo, Frelimo, (Frelimo, Frelimo)
Samora Machel, Samora Machel has come (Samora Machel, Samora Machel chegou)

Maputo, Maputo home of the brave (Maputo, Maputo, casa dos bravos)
Our nation will soon be as one (Nossa nação vai logo ser única)
Frelimo, Frelimo, (Frelimo, Frelimo)
Samora Machel, Samora Machel has won (Samora Machel, Samora Machel venceu)

Mozambique – A luta continua (Moçambique — A luta continua)
A luta continua, continua (A luta continua, continua)
(4 vezes)

And to those who have given their lives (E àqueles que deram suas vidas)
Praises to thee (Orações para vós)
Husbands and wives, all thy children (Maridos e mulheres, e vossas crianças)
Shall reap what you sow (Colham o que vocês semearam)
This continent is home (Este continente é um lar)

My brothers and sisters stand up and sing (Meus irmãos e irmãs, levantem-se e cantem)
Eduardo Mondlane is not gone (Eduardo Mondlane não se foi)
Frelimo, Frelimo, your eternal flame (Frelimo, Frelimo, sua bandeira eterna)
Has shown us the light of dawn (Nos mostrou a luz da alvorada)

Mozambique – A luta continua (Moçambique — A luta continua)
A luta continua, continua (A luta continua, continua)

In Zimbabwe – A luta continua (No Zimbábue — A luta continua)
A luta continua, continua (A luta continua, continua)

In Botswana — A luta continua (Em Botsuana — A luta continua)
A luta continua, continua (A luta continua, continua)

In Zambia — A luta continua (Na Zâmbia — A luta continua)
A luta continua, continua (A luta continua, continua)

In Angola — A luta continua (Em Angola — A luta continua)
A luta continua, continua (A luta continua, continua)

In Namibia — A luta continua (Na Namíbia — A luta continua)
A luta continua, continua (A luta continua, continua)

In South Africa — A luta continua (Na África do Sul — A luta continua)
A luta continua, continua (A luta continua, continua)

Veja mais sobre Miriam Makeba na Wikipedia e no site que sua família mantém.

Nesta última Quinta Quente, deixo a dica de minhas melhores fontes, para quem quiser continuar descobrindo artistas daqui: a rádio RDP África, o programa Moçambique em Concerto, da TVM, com o apresentador Gabriel Júnior, e o site The African Music Encyclopedia.

Uma referência do Egito

mapa do EgitoEm 11 de dezembro de 2006, ele foi a primeira pessoa de um país árabe a se apresentar em uma premiação do Nobel da Paz. Hakim nasceu em 1962, na pequena cidade Al Minya, no Egito, um país transcontinental, que tem a maior parte de seu território em África, mas também ocupa a península do Sinai, na Ásia.

Hakim cresceu ouvindo música Sha’abi, gênero popular suburbano do Egito, com influências de estilos do Oriente Médio, outros países africanos e também ocidentais. Sha’abi significa popular e, originalmente, referia-se ao folclore e danças nativos do Egito.

Aos 14 anos montou uma banda e tocava música Sha’abi em festas e eventos escolares. A banda se tornou um sucesso. Com o tempo, ele passou a cantar também o estilo Al Jeel, um gênero egípcio mais urbano. O termo Al Jeel significa geração. É como se fosse a música da nova geração.

Na música que vamos ouvir, Aboussoh, é possível notar a influência do batuque africano, em um vídeo de cenas que poderiam ser italianas, interpretadas pela simpatia egípcia de Hakim. Uma delícia!

Eu a beijaria

Pela vida em seus olhos, oh lua, pergunte sobre nós
Ainda se lembra de nós, oh lua, ou já nos esqueceu?
Ah, se eu te alcançasse, oh lua, o que você faria?
Eu correria para ela e a beijaria… O que ela faria? Eu a beijaria
E com desejo eu alcançaria suas mãos e te diria, Oh Deus,

Te prometi em verdade, venha para mim, minha preciosidade
Venha, vamos voltar aos velhos tempos
Dois dias de mel e três de ternura
E um dia como este, e um dia como aquele em que se desprende do sofrimento
Junte suas mãos às minhas, e venha!
Vamos viver a vida sem culpa
Vamos ser felizes os 30 dias do mês
E vou te mimar e te fazer ouvir palavras que a farão perder o sono
Ah, se eu te alcançasse, oh lua, o que você faria?

Eu te amo e te imploro e te mimo
Venha, vamos nos livrar deste peso, e nos amar como no início novamente
Vamos nos apaixonar imediatamente nesse reinício e deixar o fogo aumentar nosso desejo
Com duas palavras e um olhar seu, minhas forças se desmantelam, com um piscar dos seus olhos
Viveremos para nós dois dias de vida
E encontraremos nosso caminho para começarmos a viver

Ah, se eu te alcançasse, oh lua, o que você faria?
Eu correria para ela e a beijaria… O que ela faria? Eu a beijaria

(Tradução retirada do site Dança do Ventre Brasil.)

Mais informações sobre os gêneros musicais do Egito que Hakim canta, no blog Dança do Ventre de Isis Zahara e sobre o cantor na Wikipedia em português e Wikipedia em inglês.

Jimmy Dludlu em Maputo

Amanhã, 30 de setembro, o compositor e guitarrista moçambicano Jimmy Dludlu, lança, em Moçambique, seu mais recente CD, Tonota in Groove, com vários ritmos, como tradicionais moçambicanos, jazz e sons latinos.

Jimmy começou a carreira nos anos 80, interpretando músicas do seu ídolo Wazimbo. Com sua voz doce e muito talento, não foi difícil ganhar vida própria. Logo desenvolveu as habilidades de guitarrista de forma plena e hoje é conhecido como um dos mais versáteis intérpretes do estilo afro jazz.

Radicado há muitos anos na África do Sul, onde fez licenciatura em música, seu primeiro álbum foi lançado em 1997. Tonota in Groove é o sétimo desde então. O lançamento será às 21h, no Franco-Moçambicano, depois de cinco anos sem que Jimmy se apresente em Moçambique. E, para quem não pode estar lá, aqui vai um pouco do som de Jimmy Dludlu.

Veja mais sobre o lançamento de amanhã, em matéria do jornal O País.

P.S. Os ingressos estão sendo vendidos no próprio Centro Cultural Franco Moçambicano e no site www.bilhetesonline.net e custam MT 1.300,00.

Bela mesmo

Há muito ela já não está mais entre nós. Mas sua música e sua beleza angelical continuam sendo referências na cultura de seu país, Togo. Seu olhar quase infantil, seus traços suaves, sua voz afinada, tudo encanta quando ouvimos e vemos Bella Bellow.

Ela morreu em 1975, em um acidente de carro, aos 27 anos — a famosa idade dos bons músicos morrerem —, apesar de não ter sido citada nas listas que poluíram a internet quando Amy Winehouse morreu, recentemente.

Bella vivia o auge da carreira como cantora e compositora e, talvez por isso, tenha ficado ainda mais marcada na história de seu país. Cantava em francês e em ewe, língua local da cidade onde nasceu, Tsévié, próxima da capital do Togo, Lomé.

Sua primeira apresentação internacional foi em 1966, na cidade de Dacar, no Senegal, onde representou Togo no primeiro Festival Mundial de Arte Negra.

Mesmo tão jovem, com menos de dez anos de carreira internacional, Bella Bellow foi muito conhecida na Europa, chegando a se apresentar na mais antiga e famosa casa de espetáculos de Paris, o Olympia, e a gravar com o camaronês Manu Dibango.

Escolhi para vermos aqui a música Zelie por ser um vídeo e não apenas uma apresentação de fotos acompanhando a música, assim podemos apreciar o movimento doce do seu olhar e o seu sorriso meigo.

Leia mais sobre a diva de beleza natural e voz bem afinada no blog Toonadas, no Discogs, no Music Video Wiz e na Wikipedia.

O leão do Zimbábue

O cantor Thomas Mapfumo é conhecido como o Leão do Zimbábue pela sua imensa popularidade e também, em especial, pela grande influência política que exerce por meio de sua música. Foi ele, por exemplo, o criador do estilo musical que se tornou bastante popular, chimurenga.

Nos anos sangrentos da libertação do seu país e, depois, nos anos de profundas crises econômicas, sociais e políticas, Mapfumo usou sua música para denunciar injustiças, falar sobre questões históricas e culturais e desnudar fatos escondidos pelos jornais sob censura do governo do presidente Robert Mugabe.

Em 2000, as condições no Zimbábue ficaram ainda mais difíceis, devido às políticas violentas do presidente Mugabe e as músicas de Mapfumo foram banidas de todas as rádios. O músico optou por sair do país e foi viver nos Estados Unidos. Mas, apesar do risco, Mapfumo continuou retornando regularmente ao seu país natal, uma vez por ano, para fazer um show de fim de ano. Isso aconteceu até 2004, quando ele sentiu que a coisa estava ficando perigosa demais e deixou de ir.

Mapfumo começou a cantar em 1955, aos 10 anos. Durante sua adolescência, quando seu país vivia a luta pela libertação que transformaria a Rodésia em Zimbábue, Mapfumo atuava como artista itinerante, que o fez ter contato com diversas regiões. Suas músicas passaram a refletir as preocupações das pessoas com as quais ele se encotrava, as privações da vida rural, a indignação com o colonizador.

Foi nesse momento que ele desenvolveu a música que chamou de chimurenga. Os guerrilheiros de seu país que lutavam pela libertação eram chamados chimurenga que, em chona significa luta, conflito. A música chimurenga refletia os anseios da nação negra da Rodésia.

Em 1980, ele celebrou a independência do país que passaria a chamar Zimbábue, sob o som de chimurenga, ao lado dos novos líderes do país. No entanto, Mapfumo esteve sempre ao lado do povo. Ele ficou conhecido por cantar músicas em prol da revolução libertadora, mas suas músicas falavam mesmo era de justiça social e liberdade cultural.

Quando os líderes da libertação transformaram-se em governantes corruptos e que misturavam o conceito de nação com o de sua própria casa, quando perderam os limites do poder, quando passaram a também subjugar o povo como os colonizadores, Mapfumo seguiu coerente. Em 1989 lançou a canção Corrupção. No ano seguinte, cantou Jojo, onde ele avisa os jovens sobre os perigos da política no país em que estão.

Foi nessas circunstâncias que as condições para ele ficaram insustentáveis e Mapfumo teve que deixar o país. Mas sua arte continua lá. E ele continua ativo. Seu CD mais recente, Exílio, foi lançado em 2010.

Escolhi apresentar Jojo, pela força da letra.

Nyaya dzenyika Jojo chenjera (Cuidado com as questões poíticas)
Ndakambokuyambira Jojo chenjera (Eu te aviso, Jojo)
Siya zvenyika Jojo unozofa (Deixe a política, você pode morrer)
Nyaya dzenyika idzi (Essas questões políticas)
Jojo siyana nazvo Aiiwa-iwa Jojo, (Deixe essas questões políticas)
Jojo unozofa Aiiwa- iwa (Jojo, não morra pelo país)
Jojo usafire nyika Aiwa-iwa (Jojo, você pode morrer)
Jojo unozofa aiwa iwa (Jojo, você pode ser vítima de feitiçaria)
Jojo unoroiwa aiwa iwa (Você vai ser vítima de feitiçaria)
Jojo unozofa aiwa iwa (Você pode morrer)
Mwana wenyu akaenda musingafungire (Alguém pode morrer inesperadamente)
Zvenika apondwa musingafungire (Alguém pode ser assassinado inadvertidamente)
Takambokuudza siya zvenyika (Nós avisamos você)
Nhasi tiri kuchema shamwari zvenyika (Hoje nós choramos por nossos amigos)
Saka ndati kwauri (Então, eu digo)
Zvino Jojo siyana nazvo (Deixe essas coisas para lá)
Ndati zvenyika Jojo chenjera (Eu digo tome cuidado, Jojo)
Ndakuyambira Jojo chenjera (Eu estou avisando você)
Vazhinji vakaenda pamusana penyika (Muitos já pereceram)
Vakawanda vakapondwa (Jovens foram assassinados)
Vadiki vakapondwa pamusana penyika (Morrendo pelo país)
Vadiki vakapondwa pamusana penharo (Morreram porque eles não ouviram)
Vana mai vanochema pamusana penyika (O povo está chorando)
Mhuri dzakatsakatika pamusana penyika (Famílias estão sofrendo)
Saka ndati kwauri shamwari yangu (Então, eu digo)

(Letra retirada daqui)

Conheça o site oficial de Thomas Mapfumo e veja mais sobre o artista na Wikipedia.

Mais da Argélia

Quando apresentei aqui na Quinta Quente o cantor Idir, citei que ele tem um amigo, também argelino, com o qual fundou a associação l’Algérie la vie (“Argélia, minha vida”). Esse amigo é Khaled, que hoje trago para aquecer nossa quinta.

Ele é um dos mais conhecidos cantores de Raï, música popular folclórica árabe, originada em Orã, cidade do litoral mediterrâneo da Argélia. Em árabe, a palavra raï significa “opinião”.

Khaled nasceu em 1960 e começou a cantar na adolescência, usando o nome Cheb Khaled. Cheb é uma forma árabe de dizer jovem. Khaled é um nome popular na cultura árabe e o significado é eterno, imortal. A popularidade do jovem foi tanta, que chegou a ser conhecido como Rei do Raï. Suas músicas mais famosas foram Aïcha e Didi.

Em 1992 já não usava mais o Cheb e passou a ser conhecido apenas como Khaled, nome que deu ao álbum lançado nesse ano, que garantiu sua popularidade também na França. A partir de então, sua fama cresceu ainda mais na Argélia e em todo o mundo árabe. No final do milênio, seu nome tinha extrapolado muitas fronteiras e o sucesso já estava no Canadá, Bélgica, Holanda, Japão, Inglaterra, Índia, Alemanha, Espanha, Pasquistão e, inclusive, Brasil.

Em 2008, participou do Festival de artes árabes de Liverpool. Em 2009, apresentou-se no Festival de jazz de Montreal e em 2010 fez parte da cerimônia de abertura da Copa do Mundo na África do Sul.

No começo dos anos 2000, sua música El Arbi fez muito sucesso no Brasil, por ser parte da trilha sonora da novela O Clone. Vamos ver agora sua apresentação desta música em Estocolmo, no ano de 2009. Me agrada porque ele canta o tempo todo a sorrir. Sorri inclusive com os olhos, como quem está a fazer algo de que realmente gosta.

O Árabe

Eu sou o árabe, filho do bosque e do faisão,
Eu sou o árabe, filho da camela e do camelo,
Eu sou o árabe, filho do deserto e da areia

Sem flores, sem felicidade,
a mulher que eu amava me deixou…
Na música da noite encontro o consolo
A luz da lua me faz companhia…
Eu sou o árabe, filho do bosque e do faisão
Eu sou o árabe…

(tradução retirada do site Vagalume)

Ouça também Didi e Aïcha.

Veja mais sobre Khaled na Wikipedia.

Sucesso do Benim

O nome dela é daquelas coisas de rainha de muitos séculos atrás: Angélique Kpasseloko Hinto Hounsinou Kango Manta Zogbin Kidjo. Mas escolheu ser chamada artisticamente pelo primeiro e último: Angélique Kidjo. A lista de profissões, então, também é das grandes: cantora, compositora, dançarina, atriz, diretora e produtora. Mas vamos tratá-la por cantora Angélique Kidjo, porque é isso que a traz à nossa Quinta Quente.

Ela nasceu em um pequeno país africano chamado Benim e tornou-se mundialmente conhecida por sua diversidade musical. Em 2008, Angélique ganhou o prêmio Grammy Award de melhor álbum de World Music Contemporâneo, com o álbum Djin Djin.

Ainda menina, aos 11 anos formou a banda Kidjo Brothers, juntamente com seus oito irmãos. Na adolescência, Angélique era uma estrela na região praiana onde vivia. Nessa época, começa a produzir composições próprias. Depois, passou para o grupo que formou com colegas de escola, o Les Sphinx. A primeira grande experiência pública de Angélique foi em 1979, quando se apresentou em um show de uma rádio local.

Em 1980, aos vinte anos de idade, gravou seu primeiro disco: Pretty, que foi um sucesso fenomenal na África e atingiu recorde de vendas. Em 1984 passou a cantar com o grupo alemão Pili Pili. Em 1988, ela forma uma nova banda, com jovens franceses músicos de jazz: Angie Kidjo. Só em 1989, ela deu o passo definitivo para a carreira solo. O primeiro álbum dessa fase foi Parakou, no qual ela mistura soul, zouk, makossa e reggae com um forte ritmo do jazz.

Em 1989, foi convidada para trabalhar com sua maior ídolo: Miriam Makeba, em Paris, onde realizaram concertos de grande sucesso no Olympia.

O segundo álbum solo foi gravado em 1991: Logozo (Tartaruga, na língua materna de Angélique, fon). O nome do álbum é também o da faixa mais significativa, pela música ser uma versão de Malaïka, música tradicional africana de Miriam Makeba. Novo álbum, Aye (Vida, em fon), foi lançado no início de 1994, com dez faixas de afro-funk. Em 1995 lançou o álbum Fifa, com uma forte característica tradicional africana. Neste álbum, uma novidade: apesar da maior parte das canções ter sido composta em fon, muitas faixas são cantadas em inglês. Em 1997 chega ao público o CD Oremi, com muito jazz e rhythm and blues. Em 2001, radicada em Nova Iorque, nos Estados Unidos, lança o CD Keep on Moving, uma coletânea de dezoito sucessos de sua carreira. Em 2002 lançou o CD Black Ivory Soul, com uma forte influência de música brasileira, cubana e haitiana. O álbum foi gravado em Nova Iorque e em Salvador, na Bahia, e tem participação de Carlinhos Brown, Gilberto Gil e Daniela Mercury. Em 2004 lançou Oyaya!, álbum que inclui canções mais profundas e reflexivas. Depois veio o álbum Djin Djin, que chegou às lojas em 2007 e foi concebido como um regresso às suas raízes musicais, contando com o apoio de dois percussionistas beninenses bastante reconhecidos: Crespin e Kpitiki Benoît Avinouhé (ambos membros da Gangbé Brass Band). O mais recente álbum lançado por Angélique é Õÿö, de 2010. Neste álbum consta o single apresentado por ela na Copa do Mundo FIFA na África do Sul, Move on Up.

E depois dessa extensa relação de álbuns… tinha que ser escolhida uma só música para ouvirmos aqui. Escolhi a apresentação dela na Copa, com Afirika, do CD Black Ivory Soul, porque este é um dos vídeos onde podemos acompanhar seu enorme carisma e magnífico domínio de palco.

Visite o site oficial da cantora.

E veja mais detalhes de sua biografia no site Letras.com.br.

Música e educação

Como a nossa Quinta Quente bem vem mostrando ao longo de sua existência, a musicalidade é uma característica muito forte da África. Batida forte e ritmo empolgante são a marca da música africana. E os africanos gostam muito desta expressão artística. Tudo é motivo para ela, e ela é motivo para dançar.

A partir disso, um moçambicano muito especial, Feliciano dos Santos (que eu conheci na Carta Aberta publicada neste blog em 21 de agosto último), encontrou uma forma de usar música para ajudar as gerações presentes e futuras a terem melhor qualidade de vida. Ele reúne pessoas em aldeias isoladas no interior do país, onde não há sinais de modernidade, onde nunca se viu tocar uma banda com aparelhagem elétrica. Para essas pessoas, Feliciano dos Santos, com sua banda, chamada Massukos, toca músicas que falam sobre higiene pessoal, saneamento básico, meio ambiente, prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e tudo mais que possa ajudar as pessoas a alcançarem melhor qualidade de vida.

Ele canta em língua local e acredita que, com esse tipo de música, ajuda as pessoas a evitarem doenças como cólera, diarréia, poliomielite e outras. É fantástico. Ele fala a língua que é melhor compreendida e atrai as pessoas pela musicalidade. É lindo ver as pessoas dançando ao som de “vamos lavar nossas mãos, para as crianças ficarem saudáveis, para os mais velhos ficarem saudáveis, para as mães ficarem saudáveis” ou “nós construímos latrinas…” Tenho certeza que quem ouve e canta junto com eles essas músicas, aprende a lição. As pessoas saem cantando depois pela vida afora e vão sempre se lembrar de lavar as mãos, por exemplo.

Em sua infância na província Niassa Feliciano foi vítima da poliomielite, que o deixou com uma deficiência física em uma das pernas. Já adulto, formou a banda Massukos e uma associação, a Estamos, que trabalha com técnicas de eliminação de excrementos humanos. Para se aproximar dos aldeões e tratar do assunto, ele usa a música. A associação também promove a agricultura sustentável, lidera projectos de reflorestamento e patrocina iniciativas de combate ao HIV/Aids (HIV/Sida).

Em entrevista publicada no site LusoÁfrica.net ele mesmo explica a estratégia: “Em África, quando se toca um batuque, as pessoas aglomeram-se e aquele é o momento próprio para começar a transmitir aos outros aquilo que lhe vai no coração”.

Graças a sua iniciativa, Feliciano dos Santos recebeu, em 2008, o prêmio Goldman Prize, considerado o mais importante no que se refere a questões do meio ambiente. No site do prêmio, a explicação: “Usando a música para difundir a mensagem de saneamento ecológico nas partes mais remotas de Moçambique, Feliciano dos Santos habilita os habitantes das aldeias a participar do desenvolvimento sustentável e deixar a pobreza para trás. Na província do Niassa, muitas aldeias não contam nem mesmo com uma infra-estrutura de saneamento básico. Sem acesso confiável a sistemas de fornecimento de água limpa e tratamento de dejectos, a população está altamente sujeita a enfermidades. Santos, que cresceu na região, é hoje o líder de um programa inovador que está a trazer esperança renovada ao Niassa. Com a sua banda, Massukos, reconhecida internacionalmente, Santos utiliza a música para divulgar a importância da água e do saneamento em Moçambique. Actualmente, o seu programa serve de modelo para outros programas de desenvolvimento sustentável em todo o mundo.”

Vamos ouvir agora uma música de conscientização do valor da família. Fala sobre os pais que abandonam suas casas, inclusive as crianças, vão se aventurar nas cidades e depois querem voltar, quando os filhos já são grandes. Não encontrei a letra, só a explicação e a tradução do título: Mudacia Wana significa Deixaste as crianças.

No vídeo do Frontline World, a história de Feliciano é contada de forma muito didática. O único senão é ser em inglês. Mas, a quem domina o idioma, recomendo fortemente clicar aqui para assistir.

Veja sobre o prêmio Goldman Prize que Feliciano recebeu, clicando aqui.

Dioguito, do Bangão

Sexta-feira passada (12/8/11), o músico angolano Bangão teve uma noite memorável no espetáculo Estrelas do Semba, promovido pelo Centro Cultural e Recreativo Kilamba, em Luanda, Angola. Estrela das estrelas, Bangão apresentou-se durante quatro horas.

Como sempre, estava em alto estilo e recebeu merecidos elogios nas notícias culturais no fim de semana. Nas textos, referências não só a seu talento musical, mas aos vários ternos (fatos, por aqui) que desfilou ao longo da apresentação. Aliás, o cuidado com as vestimentas sempre é notável nas apresentações de Bangão.

Bangão é tratado por príncipe do semba. Nascido a 27 de setembro de 1962, em Luanda, capital de Angola, começou sua carreira em 1974, como participante do grupo Tradição. Em 1976 e 1977 integrou, como vocalista, o grupo Processo de África. Mas a primeira vez que subiu a um palco para um concerto foi em 18 de outubro de 1978 como integrante do grupo Gingas Kakulo Kalunga.

De 1989 a 1992 fez parte do conjunto Nzimbo e gravou, em 1992, o CD Sembele. Em 1996 venceu o prêmio Liceu Vieira Dias, com o tema Kibuikila (Peste), acompanhado pela banda Maravilha. Em 1999 foi convidado a fazer parte da banda Movimento, como vocalista. No mesmo ano, ganhou a primeira edição do concurso Semba de Ouro, com a canção Kangila (pássaro agourento).

Em 2003 é consagrado como um dos maiores intérpretes da música popular angolana, ao ganhar os prêmios de Música do ano (Fofucho), Voz masculina do ano e Preservação, pela sua incessante defesa da música popular angolana, todos pela Top Rádio Luanda. Em 2005 foi vencedor do Top dos Mais Queridos.

Ao longo de sua carreira, Bangão já participou em espetáculos em Portugal, Argentina, Namíbia e Brasil, onde dividiu o palco com Gilberto Gil.

Uma das músicas que marcam sua carreira foi sugerida para a Quinta Quente pelo David Borges. Demorei um pouco para divulgar, em busca da letra. Mas, como não encontrei mesmo, aí vai Dioguito. Se alguém souber a letra (e tradução também), os leitores do Mosanblog agradecem.

Veja mais sobre a apresentação no Centro Cultual e Recreativo Kilamba em notícia da Agência AngolaPress.

Leia sobre a carreira do artista no portal Mwangole.net.

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