O museu mais próximo de casa

Sábado estivemos (Eduardo e eu) no Museu de História Natural de Moçambique, aqui em Maputo, a duas esquinas de casa. E levamos um susto, porque não imaginamos que museus pudessem ser tão perigosos. Um animal solto no jardim quase não me permitiu escrever esse texto…

Jardim Museu de História Natural

Brincadeiras à parte, os bichos que lá estão parecem mesmo de verdade. Há reproduções de ataques entre animais, com o detalhe da pele rasgada a dentadas e o sangue escorrendo (vou poupar os leitores e deixar por conta da sua imaginação). É muito interessante, porque mostra as diferentes táticas usadas pelos animais para conseguir dominar suas presas.

O museu está lá desde 1911, quando o país ainda era colônia de Portugal e a cidade chama-se Lourenço Marques. Para entrar, pagamos MT 50,00 (R$ 2,50 ou o preço de um abacaxi por aqui) e fomos recebidos por um hipopótamo. Foto abaixo:

Entrada Museu de História Natural - Hipopótamo

Nos dois andares do museu podemos ver milhares de exemplares embalsamados de mamíferos, aves, insetos, invertebrados e répteis da região sul do continente africano.

Sandra no Museu de História Natural

No centro do museu, fica uma reprodução da vida dos animais em seu habitat natural. Não, esse ser humano de vestido azul, não faz parte do cenário, é apenas recordação minha da visita.

Há ainda uma coleção (parece ser única no mundo) de 14 fetos de elefantes, desde um mês aos 22 meses de gestação. Embaixo da exposição, há a explicação de que a coleção data do início do século XX, quando, durante a 1ª Guerra Mundial, houve uma matança de cerca de dois mil elefantes em um terreno ao sul de Maputo. O objetivo do autor de tamanha façanha era transformar o local em terras para agricultura.

Fauna Moçambique

clique no mapa para ver em tamanho maior

Apesar da lamentável tragédia, para o bem da ciência, alguém àquela altura pensou em guardar em formol os 14 fetos que hoje se encontram no museu. O local onde houve o extermínio dos animais nunca foi usado para agricultura (sabe-se lá por que!).

No museu há também um mapa (veja foto ao lado) da fauna de Moçambique, onde é possível observar que hoje não há elefantes vivendo na região de Maputo (ao sul do país).

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O mistério de Quisse Mavota

Morar em lugares diferentes é maravilhoso por diversos aspectos. Um deles é o fato de você encontrar pessoas que têm hábitos, culturas, valores e maneiras de fazer as coisas diferentes dos seus. Se você não é um completo cabeça dura, percebe, então, que nem sempre o seu jeito é o único existente e nem necessariamente está certo. Percebe, aliás, que há muito poucas coisas que podem ser definidas como certas ou erradas. Tudo depende do contexto em que acontecem.

Quando viajamos a passeio ou para morar uma temporada em um novo lugar, o mais importante é deixar para trás todo tipo de pré conceito e aceitar o que vier como novo, possível, interessante, didático. Essa atitude faz com que nos adaptemos facilmente ao novo ambiente e também sejamos bem aceitos pelos que lá já estão.

O que vai se dar nesse sábado aqui em Maputo, Moçambique, é algo que nunca tinha me passado pela cabeça acontecer. Mas está acontecendo… Imaginem vocês que, de acordo com as notícias que acompanhamos aqui pela TV, jornal e internet, o governo de Maputo comprou dois bois e dois cabritos para serem sacrificados em uma cerimônia que busca acabar com o mistério de desmaios na região.

Fico pensando como seria no Brasil um governador comprar animais para fazer sacrifícios buscando resolver um problema, aparentemente, de saúde. Pois bem, aqui o que se dá é que há comentários de que o governo agiu tarde. Porque, inicialmente, buscou uma solução científica para algo que a sociedade, desde sempre, dizia que se resolveria com uma cerimônia tradicional.

O problema misterioso em questão são desmaios de alunas do ensino secundário de uma escola de Quisse Mavota, na periferia de Maputo. Cerca de 70 meninas já sofreram desmaios desde o dia 13 de maio de 2010.

Há a crença de que faltou o cumprimento de algum ritual para a construção da escola, que se deu no terreno de um antigo cemitério familiar (apesar dos corpos terem sido exumados e transferidos para outro terreno antes da construção), e, como consequência disso, os espíritos estão zangados.

Cientificamente, pode ser explicado por envenenamento na alimentação local ou na água. Pode ser uma ansiedade generalizada devido ao período de provas. Ou ainda uma histeria coletiva gerada após o primeiro caso de desmaio, fazendo com que outras pessoas em volta passassem a ter os mesmos sintomas, sem ter o problema, necessariamente.

Mas como quinze dias se passaram sem um parecer científico resolutivo, neste sábado buscam a ajuda da sabedoria tradicional. Aguardemos os resultados.

Published in: on 29/05/2010 at 08:59  Comments (10)  
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O pedido é mais importante que o casamento

Hoje vou tratar do alambamento, citado na música Vai na tua mãe, assunto de ontem. Alambamento (ou alembamento, como encontrei grafado em alguns lugares) é termo angolano, não moçambicano. Mas como está na música que indiquei conhecerem, devo esclarecer. Faço isso por meio de pesquisas na internet, em endereços que listo no final.

O pedido da mão da namorada em casamento é feito ao tio (ou ao homem mais velho da família da mãe da noiva) e é preciso receber o consentimento de toda a família da noiva, que participa do momento. No dia em que se marca a data para o pedido ser feito oficialmente é entregue ao pretendente uma lista de coisas que ele deve conseguir até o alambamento. Até parece uma gincana, não?

Enfim, na lista há várias coisas. Sempre, consta, por exemplo, que ele deve levar um envelope com uma quantia em dinheiro. Há também itens como “a altura da noiva em grades de cerveja e refrigerantes”, garrafas de vinho, um cabrito, um cordão de ouro, roupas e sapatos para este ou aquele membro da família.

No dia marcado, a família do noivo vai até a casa da noiva (é preciso mesmo uma família para carregar todos os itens da lista…) e o tio da moça dá início à cerimônia. Inicialmente, o pai da noiva diz se concorda com o pedido. Havendo concordância, o noivo faz entrar os bens do alambamento. Tudo conferido, é marcada a data do casamento. O ritual termina em festa.

Na pesquisa que fiz, percebi que a tradição já não é mais cumprida por todos, mas sim pelas famílias mais conservadoras. E vale observar que essa cobrança se dá porque na cultura africana a figura principal da família é a mulher, portanto, é muito valiosa. Em que sentido? Ela é quem trabalha a terra e gera os filhos, que irão ser mão de obra no futuro.

Para ilustrar a importância do evento ainda hoje na sociedade angolana, trago um vídeo de uma famosa marca de vinho em Angola, que usa o ritual em sua propaganda. Mas, não pensem os leitores desavisados que em Moçambique sai de graça. Não é só dar um par de alianças fininhas de ouro (quando tanto), como no Brasil. Aqui temos o Lobolo, um ritual semelhante, que consiste, ao fim e ao cabo, em dar uma compensação à família pela perda da jóia feminina. Mas parece que já é ainda menos praticado do que o alambamento.

Fontes:
Muxima N’Gola

Conde de Angola

Teto de Estrelas

Muanadamba

Monografia sobre o grupo étnico Muila

Além das sempre enriquecedoras conversas nas ruas.

Published in: on 28/05/2010 at 11:00  Comments (13)  
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Vai na tua mãe

As rádios aqui em Moçambique tocam muita música brasileira e também angolana, sulafricana, portuguesa… Então, temos tido acesso a alguns artistas novos para nós. É o caso do Heavy C, uma das principais figuras da atualidade na música angolana, que também faz muito sucesso em Moçambique. E o êxito, como dizem aqui, que mais se ouve nas rádios é Vai na tua mãe. A letra é impagável. Acompanhem:

Sim senhora…
Deus disse… vamos nos unir e nos multiplicar
Não nos unir e nos matar
Se não esta dar
Cada um no seu canto
Vamos embora
Essa é a minha historia com a minha fofinha
Se for p’ra me tratar assim, vai na tua mae
Se for p’ra me cozinhar assim vai na tua mãe
Se é p’ra tratar meus amigos assim vai na tua mãe
Vai só na tua mãe
Se ralhar fosse dinheiro estavas rica
Eu te ralho tanto tanto teu comportamento não modifica
Fazer o que?
Já sentei com a tua família
Já parti nossa mobília
Isso tudo na esperança que mudes algum dia

Coro (Heavy c):
Na tua mãe
Se eu soubesse que seria assim eu não ia te buscar (na tua mãe)
Não daria alambamento*
Iria te deixar (na tua mãe)
Não perderia o meu tempo
Não deixaria me magoar
Volta pra tua mãe senão isso vai se agravar

(Pérola)
Se for pra me ralhar assim vou na minha mãe
Se for pra falar assim vou na minha mãe
Se for pra me ensaiar assim vou na minha mãe
Ah eu vou na minha mãe
Se esperar fosse dinheiro estaria rica
Eu te espero de madrugada e nada modifica
Fazer o que?
Contigo é só sofrer
Mensagem no telefone só ler
Se reclamo ainda vais querer me bater

(Na minha mãe)
Se eu soubesse que seria assim não deixaria (na minha mãe)
Não levaria tão a serio e não deixaria (na minha mãe)
Não perderia o meu tempo
Não deixaria me magoar
Eu vou já na minha mãe
Senão isso vai se agravar
Já não ta dar minha irmã
Me ouve bem mulher, me ouve bem

(Ouve bem mulher, não quero sofrer/Só quero viver) 4x

(na tua mãe) 5x

*alambamento é a cerimônia de pedido de casamento em Angola. Falaremos mais sobre isso amanhã.

Published in: on 27/05/2010 at 12:20  Comments (2)  
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Mulungos gostam maningue de andar de chopela

Aqui em Moçambique quase todas as pessoas falam, pelo menos, dois idiomas. O oficial do país é o português, mas a Constituição trata outros quase 30 idiomas bantu (um dos troncos linguísticos africanos) como “línguas nacionais”. O português faz a ligação entre os povos. Mas nem todo moçambicano fala português.

Para nossa sorte, em Maputo, onde vivemos, fala-se português em todos os lugares, então sempre somos compreendidos. Mas todos falam também seu segundo idioma. E aqui na região, um dos mais comuns é o changana.

Então, não é raro ouvir uma frase onde o poliglota moçambicano se expressa misturando palavras de changana com português. Fica muito divertido. O título desse texto, por exemplo, só em português seria: Os brancos gostam bastante de andar de moto-táxi.

chopela

Chopela, a última palavra, é o nome desse simpático triciclo motorizado que está na foto e é usado aqui como um táxi alternativo, mais barato do que o carro. Tem que aguentar o barulho do motor na cabeça, mas os mulungos (pessoas de origem estrangeira, brancos) realmente se divertem com algo que não têm em seus países.

O uso dos termos changana é tão comum, que entra até em campanhas publicitárias. Na televisão, está no ar agora uma campanha para a diminuição de múltiplos parceiros sexuais. O anúncio diz que ter relacionamentos extraconjugais é maningue (bastante) arriscado. O foco é o alto índice de portadores de HIV/Aids (cerca de 16% da população com idade entre os 15 e 49 anos). Abaixo, a marca da campanha. Sobre o conteúdo falaremos em outro momento…

campanha prevenção HIV/Aids

Viver nos anos 50

Jovens entrando e saindo da escola trajando calça social, sapato, camisa e gravata. A calça ou a saia de pregas em um tom mais escuro, como o azul marinho, e a camisa branca. Gravata na cor da calça.

Não fossem pelas modernas mochilas de naylon com desenhos do século XXI nas costas, poderíamos confundir os jovens com adolescentes dos anos 50 no Brasil. Mas os retratados aqui são alunos das escolas de Maputo, Moçambique, em 2010.

Os simpáticos uniformes moçambicanos nos remontam a um tempo no Brasil em que as coisas eram menos apressadas, as pessoas menos estressadas e a quantidade de informação que recebíamos podia ser consumida em uma só vida.

E são apenas um exemplo da sensação que tem um casal de brasileiros típico (agitados, com mil atividades na agenda, preocupados com a aquisição da casa própria), como nós, ao chegar em Moçambique. É como se estivéssemos vivendo um outro tempo. Um Brasil de algumas décadas atrás, onde os jovens usavam simpáticos uniformes para ir à escola e nos bailes se ouvia de Roberto Carlos a Elvis Presley.

Em Maputo, a capital do país, a primeira impressão é mesmo a de estarmos em um outro tempo. A arquitetura bonita, de muitas casas e raros prédios, as ruas largas, arborizadas, com pessoas não tão apressadas, simpáticas, carregando sempre um sorriso no rosto. Vendedores de frutas passando com carrinhos de porta em porta, banquinhas de verdura nas portas das casas onde são produzidas (naquelas hortas no fundo do terreno). Jornal impresso apenas de segunda a sexta-feira, com algumas opções de semanários que chegam na sexta, para ocupar o fim de semana.

Não fossem os celulares sempre à mão, estaríamos mesmo algumas décadas atrás, em uma cidade média do Brasil.

Dá até vontade de cantar Anos Dourados.

Published in: on 26/05/2010 at 01:11  Comments (4)  
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Horários em Maputo

De dia, as árvores amenizam o calor, à noite, acentuam a escuridão

De dia, as árvores amenizam o calor, à noite, acentuam a escuridão

Desde que chegamos na cidade, em abril, muitos dias começam com 13° C e vento gelado, vindo do mar, mas sem deixar no ar o cheiro de água salgada que não tem para onde ir e, em outras cidades de praia, estaciona nas nossas narinas o tempo todo. Talvez essa vantagem se dê pela ausência de morros, que permite ao vento correr livremente pela cidade.

Cidade plana, que também permite aos seus exploradores andar livremente, sem sentir cansaço.

Depois, o sol vai se fortalecendo e às 9h30 chega a nos fazer lembrar que estamos na África.

Às 13h, o sol pega pesado. Por isso, a vida aqui faz pausa no almoço: o comércio, as instituições públicas, os bancos, tudo fecha. Abertos, praticamente só os restaurantes, onde clientes almoçam sem pressa.

Às 15h30 bancos e instituições públicas fecham as portas de vez. É justo observar que abriram às 7h30.

Os escritórios seguem até às 17h, quando já começa a escurecer e surge o frescor da noite.

O comércio fica até às 18h ou 18h30. Alguns mais ousados chegam às 19h de portas abertas. Mas a esta altura já é noite densa, com a iluminação das ruas prejudicada pelas copas das árvores que durante o dia amenizaram o sol. Quem pode, já está em casa. E dorme cedo, porque o dia começa cedo.

Published in: on 25/05/2010 at 18:33  Comments (4)  
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Fonte do Índico

O primeiro texto desse blog é dedicado ao amigo Fábio Graner, que ainda virá nos visitar para também beber da fonte do Índico.

Published in: on 25/05/2010 at 17:13  Deixe um comentário  
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