De volta

Visitar um lugar ao qual você já pertenceu é sempre uma surpresa. Na preparação da viagem e durante o percurso Brasília – Maputo, eu sempre me pegava pensando como seria chegar aqui novamente, depois de mais de seis meses. A resposta: foi fácil como voltar para casa.

O curioso é que quando se vive em muitos lugares a casa vai sendo sempre um pouco de cada um, o que mais gostamos de cada um… assim é Maputo, cheio de coisas que gosto muito. Amigos, lugares, hábitos, comidas, pessoas desconhecidas que geram empatia só por te olhar.

Passar pela imigração e falar meu primeiro kanimambo (obrigada em changana) depois de meses, foi divertido. Achei graça até nos jovens nas ruas vendendo de tudo, como corrente com coleira para cães, mas “que também pode ser para o marido”, como sugeriu o vendedor. E se você não quer a coleira, tem o spray para não sei o que, o triângulo para carro, o macaco para trocar pneu… de tudo. O importante é você deixar com ele uns meticais para o almoço. “Tenho fome, patroa”.

E agora lá vou eu, procurar um menino de colete amarelo, que há em cada esquina, para comprar dele crédito para o celular e poder fazer contato com os amigos, avisar que cá estou. E sei que vou engrenar na conversa com o vendedor, saber de que província vem, que vida leva, quais seus sofrimentos. Assim é Moçambique. As pessoas – até as menos sociáveis – estão sempre a se relacionar, a conversar, a não perceber o tempo passar.

Por outro lado, é curioso ver a vida aqui com distanciamento, não sendo mais parte, não sendo mais peça da engrenagem. De certa forma, te impõe menos culpa, mas alguma urgência. A certeza de que vou ficar por pouco tempo, dá a sensação de que esse pouco tempo tem que render muito. Fazer o máximo para contribuir com quem cruzar o meu caminho. Mas já tem outra certeza que marca esse primeiro retorno a Moçambique: a de que é apenas o primeiro. Outros, muitos, virão.

Anúncios

O moçambicano e a autoestima

Moçambique é um país maravilhoso. Tem belezas naturais inimagináveis, tem fauna e flora riquíssima, tem solo fértil e rico, tem um povo simpático, acolhedor, bem humorado, respeitador. Mas continua com um dos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) mais baixos do mundo. Tem alguns problemas e dificuldades tão entranhados no país, que o brilho de tudo isso que é bom acaba por se apagar.

Depois de conviver e conhecer mais a fundo esse povo e esse país tenho acreditado cada vez mais que o que falta aqui é autoestima. O moçambicano precisa acreditar mais em seu potencial e valorizar o que faz, o que tem, o que é. Vivendo em Maputo, no sul do país, estamos muito perto da fronteira com a África do Sul. Não sei se o mesmo se repete em outros pontos do país, mas aqui chega a ser enervante o quanto o moçambicano valoriza seu vizinho, sem aplicar a ele o mesmo senso crítico que aplica a si próprio.

Sim, a África do Sul é mais rica, tem mais desenvolvimento tecnológico e seu Índice de Desenvolvimento Humano é melhor. Mas a África do Sul está bem longe de ser o exemplo do tudo perfeito que os moçambicanos vêem. Estou hoje em Cidade do Cabo, a quarta cidade que conheço da África do Sul. As outras foram Nelspruit, Joanesburgo e Pretória, sem contar o Kruger Park, que é um mundo à parte.

Em todos esses lugares sofri com atendimento ineficiente, vi lixo na rua (bem menos que em Maputo, é verdade, mas vi), vi favelas, encontrei gente pedindo esmola, convivi com serviços mal feitos e gente sem educação, enfim, vivenciei problemas. Mas quando o moçambicano fala da África do Sul, fala do país perfeito, de cidades sem favelas, do lugar onde todos têm emprego e ganham bem (verdade que ganham mais que em Moçambique, mas gasta-se mais também), do lugar limpo onde o povo não faz xixi na rua.

Ou seja, os moçambicanos tendem a não ver os problemas que também existem (talvez em menor escala) no seu vizinho. E mais: não percebem que os problemas que não existem no vizinho dependem, em muito, da atitude do próprio povo. Quem faz xixi na rua em Maputo? Os postes? Não, o povo. Quem joga lixo a céu aberto? As árvores? Não, o povo. Talvez, falte ao moçambicano perceber que se ele cuidar do que está a volta dele, pode conseguir um ambiente melhor e ter o que tanto acha bonito no seu vizinho.

Isso me lembra muito a atitude de alguns brasileiros com relação aos Estados Unidos. Vivem dizendo que “se fosse nos Estados Unidos não seria assim”, “lá as coisas funcionam”, “lá as pessoas são sérias”… Eu vivi lá e pude ver de perto e sentir na pele que não, não é nada disso…

Talvez se o moçambicano notar o seu valor, as suas cidades bonitas e a sua terra fértil, consiga fazer com que tudo isso seja igual ou melhor do que o que está no vizinho. Falta se perceber capaz, se valorizar e não se deixar abalar por uma fronteira. O mesmo moçambicano que passa o dia na África do Sul sem fazer xixi na rua, o faz quando chega em Maputo. Por quê? Porque “aqui é assim mesmo”. E se cada um resolver que não quer mais que seja?


Obs.: escrevendo este texto, lembrei de um outro, muito bom, escrito pelo Guilherme alguns meses atrás no Na ponta do lápis, chamado Miragem, e da Carta aberta a todo moçambicano e moçambicana, do ‘nando Aidos, publicada aqui no Mosanblog.

O tempo que temos é o tempo em que devemos viver

Viver em Moçambique tem me ajudado a ver a vida sob outro ângulo, como não podia deixar de ser. Foi da mesma forma quando saí de quase duas décadas vividas na zona Norte de São Paulo, para a viver na zona Oeste. E depois disso, quando saí do Brasil, para viver nos Estados Unidos. Também mudou completamente o ângulo de visão do mundo quando morei em Brasília. Nunca antes o mar tinha sido algo tão distante para mim. Lembro que achei curioso encontrar uma pessoa já com algumas décadas de vida que nunca tinha visto o mar. Depois, percebi que no cerrado brasileiro isso é mais comum do que meu umbigo imaginava. Em África, a perspectiva é outra ainda. Diferente das anteriores; nem melhor, nem pior.

Cada uma dessas experiências contribuiu para eu entender melhor o mundo, ver o quanto ele é maior do que parecia da janela de casa. Aqui, em Moçambique, aprendi mais do que ver o mundo de um novo ângulo, mas também a viver nele em um outro ritmo. No início, eu achava estranho a matéria do jornal da TV falar de algo que aconteceu há três dias. Afinal, jornal de TV para mim, era o resumo do dia. O que não entrou hoje, se perdeu. Aqui não. Coisas importantes para as pessoas demoram para chegar à sede da emissora, que nem por isso deixa de dar a informação. Dois, três, quatro dias depois. E daí? Quantas vezes, nas ânsia de informar mais rápido, antes do outro, no momento que o fato acontece, os jornalistas não cometem equívocos? Ou então, as notícias saem aquelas coisas sem nenhuma elaboração que tanto estamos acostumados a ver por aí. Texto fraco, sem nexo, nem beleza, mas que saiu rápido.

Com o tempo, aquilo que era estranho passou a ser compreensível. Com mais tempo, passou a ser desejável.

Explico: nas últimas décadas, com novas descobertas tecnológicas e no campo da saúde, a expectativa de vida aumentou. Teoricamente, com mais anos de vida e equipamentos mais modernos que permitem fazer as coisas em menos tempo, um ser humano hoje deveria conseguir fazer coisas que seu avô planejou, mas não teve tempo de vida para fazer. Mas o humano é um ser em busca da frustração eterna. Ele não se contenta com isso. Ele quer fazer o que seu avô não fez e ainda planejar fazer um tanto de coisas que não vai conseguir.

E o pior é que, quando vivemos inseridos nessa roda viva, deixamos de perceber o que estamos fazendo e que mundo estamos alimentando. Não percebemos a dor e o sofrimento ao nosso lado. Não vemos as belezas nem sentimos fundo todas as alegrias. Não percebemos que estamos envolvidos em um sistema que quer, justamente, que não possamos refletir sobre o que fazemos. As pessoas falam quase com orgulho: há cinco anos não tiro férias… não tive um fim de semana livre esse mês… recebo e-mails no celular até quando estou no cinema… ãhn???

Estamos todos virando Zips, como no vídeo abaixo:

Mais incrível é pensar que os prazos curtos e as amarras fortes são criados pelo próprio homem. Claro que aí vem a ganância do chefe, a vontade de enriquecer do dono, a competição do estagiário estúpido. Mas nós somos cada um desses.

Aqui, em África, eu vejo muita coisa ruim. Não estou no paraíso. Mas aqui eu não vejo tantos Zips…

Antes de vir para cá, assisti inúmeras palestras de filósofos e educadores que falam sobre o quanto a vida está corrida, o quanto as pessoas não convivem mais, o quanto os valores do tempo estão distorcidos, o quanto “era bom antigamente” e a platéia (pelo menos 97% dela) ficava encantada, pensando que queriam rever os modelos que estão aplicando, que aquele filósofo está certo… depois saíam do evento e voltavam para suas vidas agitadas, de e-mail no celular, de contato com qualquer lugar do mundo a qualquer hora, até mesmo enquanto dirige, para ganhar tempo. Ganhar tempo?

Aqui, é como se o tempo decorresse mais devagar… Ou será que em outros cantos é que tem estado a correr demais?

E o resultado dessa correria, para além de acabar com a saúde das pessoas, é o fim da criatividade e do surgimento de grandes pensadores. Não temos mais a capacidade de longos raciocínios. Pensamos sempre em respostas breves para questões urgentes e paramos de pensar com elaboração, com longas linhas de raciocínio, que levavam a grandes descobertas.

Para reverter isso, precisamos parar de desejar dias de 30 horas ou semanas de 10 dias, porque eles não vão acontecer. Nossa loucura não vai mudar a rotação da Terra. Por outro lado, se vivermos em um ritmo menos acelerado, talvez consigamos chegar a descobertas que vão tornar nossas vidas melhores e até nosso trabalho mais rentável. Temos que aprender a viver no tempo que temos e fazer dele o mais produtivo e, de preferência, criativo possível.

Published in: on 19/09/2011 at 22:36  Comments (9)  
Tags: , , ,

É hoje o Eid

Até ontem o fim da tarde, não se sabia ainda se hoje seria o dia do Eid ou não. Pela manhã, eu ouvi duas pessoas conversando sobre isso em uma loja e o senhor dizia à senhora que à noite provavelmente se confirmaria porque o céu já estava menos nublado. No fim da tarde, fui à mercearia vizinha aqui de casa e perguntei ao dono, muçulmano: já sabem se amanhã vai ser o dia do Eid? Ele disse que esperavam a confirmação para a noite.

Explico: como já contei, os muçulmanos estavam vivendo o mês do Ramadã. Ele termina quando a lua nova é avistada no céu. Ocorre que antes de ontem o céu estava muito nublado e não foi possível avistar lua nenhuma. A expectativa toda era que ontem se pudesse avistar a lua nova e anunciar, então, o início do mês Shawwal.

Este mês começa com o Eid al Fitr (ou Eid ul-Fitr, encontrei as duas formas), que na verdade é يد الفطر, em árabe. Significa algo como a celabração da quebra do jejum. No primeiro dia do novo mês, os fiéis, ainda em jejum, vão para a mesquita de manhã, realizar uma oração especial. O dia celebra o fim do jejum e é dedicado a agradecer a força que foi recebida de Alá para passarem por ele.

Nesse dia é comum a troca de presentes e as pessoas usarem roupas novas. Eid também é uma época tradicional de perdão e reconciliação. Fazendo uma comparação com o nosso calendário, acho que seria como o ano novo.

É também o momento de pagar o Zakatul Fitr (caridade do desjejum). O chefe da família dá comida ou dinheiro aos pobres, em um valor mínimo determinado pela religião. Isso é feito antes da oração do Eid, para que o jejum esteja completo e seja aceito. Se for pago depois não tem validade como caridade do desjejum, é apenas uma boa ação. O objetivo é proporcionar às pessoas menos favorecidas a oportunidade de participarem da festa do desjejum, podendo preparar doces ou uma refeição melhor, comprar roupas novas e brinquedos para as crianças.

O Eid dura três dias, mas, aqui em Maputo, os estabelecimentos comerciais de muçulmanos costumam ficar fechados só no primeiro dia. Esse ano, hoje é o dia. Então, nada de comprar carne halal no açougue mais próximo, nada de fazer comprinhas na mercearia da esquina (geralmente são de muçulmanos) e até mesmo algumas lojas dos centros comerciais estão fechadas…

Veja mais sobre o Eid ul-Fitr na Wikipedia, no Patopor.com e nos blogs A mulher no Islam e O islam é….

Ramadã

Nas últimas semanas, a sensação que dá ao andar nas ruas é que Moçambique está mais muçulmano. Desde o dia primeiro de agosto, estamos vivendo o Ramadã: período de 29 ou 30 dias (depende da lua), que representa o nono mês do calendário islâmico. É um mês voltado para a oração, o jejum e a caridade.

Os muçulmanos acreditam que neste mês seu deus, Alá, revelou os primeiros versos do Alcoorão, o livro sagrado do islamismo. No período, a frequência à mesquita é mais assídua e mudam alguns hábitos: não se deve comer ou beber nada, nem ter relações sexuais, enquanto o sol brilhar.

De acordo com o site Como tudo funciona: “Durante o mês do Ramadã, os muçulmanos conquistam mais do que uma purificação do corpo e da mente. Sentem que estão fazendo o trabalho de chegar mais perto de Alá por meio da oração e tornando-se pessoas mais misericordiosas por experimentar a fome e aprender sobre o sofrimento dos pobres. O jejum do Ramadã é a experiência principal na religião islâmica”.

mulher muçulmana vestida tradicionamenteNão encontrei referências sobre a mudança dos hábitos de vestimentas. O que vejo em Maputo, é que, durante todo o ano, há muçulmanos que usam as roupas tradicionais e outros que não. Há ainda os que o fazem especialmente na sexta-feira, dia que, em geral, todos vão à mesquita no meio do dia. Então, havendo sempre muitos seguidores da religião muçulmana por aqui, nem todos estão sempre vestidos à maneira mais tradicional. Mas, por esses dias, não sei se é impressão, mas me parece que tenho encontrado mais pessoas vestidas assim. Talvez pelo fato de no mês Ramadã aumentar a freqüência às mesquitas, todos passam a se vestir diariamente como na sexta-feira. homem muçulmano vestido tradicionalmente

Os muçulmanos não são a maioria religiosa em Moçambique, representam 17,8% de acordo com o censo mais recente, de 2007. Mas justamente por causa das roupas diferentes (para mim, que venho do Brasil, pelo menos) e dos cabelos cobertos por véus, ficam mais fáceis de ser identificados.

Outra coisa que muda nesse período por aqui é o horário de vários estabelecimentos comerciais. Acho que, em geral, a hora do fechamento é antecipada, uma vez que logo que o sol se põe, deve-se quebrar o jejum e fazer uma refeição em companhia da família.

A cada dia que passa, confirmo que Moçambique tem muitos problemas, mas também tem muito o que ensinar. A países como a França, por exemplo, que se diz um estado laico mas tem em seu calendário feriados religiosos e persegue pessoas que usam vestimentas ou acessórios de uma religião, mas não de outra. Nunca vi notícia de alguma aluna ser proibida na França de freqüentar a escola por usar um crucifixo no peito. Já o véu muçulmano…

Aqui, não temos feriados religiosos. O país se diz e pratica ser laico. Há liberdade para as pessoas seguirem a religião que por bem entenderem e não há perseguição pela escolha feita. Então, é permitido que seja feito esse ajuste nos horários do comércio, por exemplo, e é bonito de ver meninas nas ruas, com seus uniformes escolares e véus na cabeça.

menina de uniforme escolar e véu na cabeça

Veja mais sobre como o Ramadã é celebrado, no site Como tudo funciona.

Veja mais sobre religiões em Moçambique no post As quadras festivas em Moçambique.

De deixar doido

Eu tenho consciência que, às vezes, acompanhar o Mosanblog é coisa de doido. Em um dia a foto de um belo calçadão florido à beira do Índico, no outro um post (ainda bem, sem foto) sobre o péssimo hábito que se tem por aqui de urinar e defecar nas ruas. Afinal, é bom ou é ruim?

É assim. Simplesmente. Por isso vale ter um blog para contar como é viver aqui. Por isso vale existirem tantos blogs sobre o tema e cada um deles tem seu valor, porque cada pessoa vê a realidade de um ângulo e cada blog tem seu matiz.

Afinal, Maputo (e a África) é assim: um lugar de contrastes.

Contrastes que aqui nos encaram todo o tempo. Todos os dias tem gente chegando e gente se despedindo. Em todas as conversas, tem gente amando e gente odiando. Sempre estamos ensinando e também aprendendo.

Eu acho que a vida, em geral, é uma troca. Mas na África ela tem me parecido mais intensa, mais imensa.

A pessoa não tem água encanada em casa, mas fala ao celular com a família que está em outra província. No calor faz 40 graus, no inverno são 7. Os prédios têm 15 andares, mas não têm elevador. Há anos. Maputo se divide na cidade cimento (onde há asfalto e casas de tijolo) e cidade caniço (sem asfalto e com casas de palha). No farol, os carros mais modernos e cobiçados pelas camadas mais ricas de todo o mundo ficam ao lado de velhos chapas já sem janelas nem a porta traseira. O Índico é agitado, movimentado, mas, para nós, acaba na calmíssima baía de Maputo. E todos os dias a gente acorda e vive isso tudo.

Lobby do hotel Southern Sun

Lobby do hotel Southern Sun

Praça da Paz

Praça da Paz

Das difíceis relações trabalhistas em Moçambique (4)

Tem sido muito difícil encontrar situações diferentes das que estava acostumada no Brasil e não generalizar, não pensar que todos em Moçambique fazem da mesma forma. Mas tento sempre lembrar que estou em Maputo, que representa apenas uma cidade, no sul do país. No entanto, quando ouvimos um mesmo tipo de história que se repete com várias pessoas, a tendência é achar que acontece mesmo em todo lugar.

Não sei se as relações trabalhistas fora de Maputo são diferentes do que se vê aqui. Vou tentar investigar e contar depois. Mas fico sabendo de cada caso… de arrepiar até o último fio de cabelo. Muitas vezes, tem a ver com o senso de propriedade que o patrão tem de seu empregado. Já falei aqui sobre a questão dos turnos. Ela mostra o quanto o empregador quer o empregado dependente e totalmente vinculado a ele, sem poder sequer estudar e se desenvolver.

Outra situação que tem a ver com essa exigência de comprometimento além da medida do razoável é a divisão dos problemas sem divisão de lucros. A não ser algumas empresas multinacionais, que oferecem alguma espécie de abono a seus funcionários no final do ano (quando o ano foi bom, claro), em geral, aqui não existe a discussão da divisão dos lucros. Afinal, o lucro é do dono e quanto mais melhor. Mas se a empresa tem prejuízo, aí é de todos.

Já ouvi algumas histórias que ilustram isso e vou relatar duas. Um sujeito abriu uma empresa na expectativa de ter muitos clientes logo no primeiro mês. Contratou dois ou três funcionários, que assinaram um contrato de trabalho para receber determinado valor no fim do mês. Os funcionários iam todos os dias. Eu mesma vi vários dias eles sentados à frente da empresa, à espera de trabalho. Mas os muitos clientes que o dono achou que teria não apareceram. Ao final de um mês, os funcionários não tinham trabalhado praticamente nada. No dia de pagar, o patrão informou que pagaria só a metade, porque eles não tinham trabalhado o tanto que se esperava.

Em nenhum momento durante o mês isso foi discutido ou essa possibilidade foi colocada aos empregados, para que eles pudessem se prevenir ou até escolher se ficariam ali ou não. A parte deles no negócio foi feita. Foram todos os dias e esperaram ter trabalho para executar. Tentaram argumentar isso e muito mais, mas o patrão foi irredutível. Para não ficar sem nem a metade do valor, aceitaram. Brigar na justiça poderia levar tempo e os filhos em casa têm fome.

Em outro caso, uma pessoa trabalhava na área administrativa de uma loja de móveis. Em determinada semana, houve pouco movimento na área dela. O dono da loja observou e avisou: no fim do mês, não vou pagar por essa semana, você quase não trabalhou. Mas ela esteve lá todos os dias, no horário, tendo ou não muito trabalho a fazer. Não importa, a lei de certos patrões aqui diz: trabalha menos, recebe menos. Ainda que não se trate de trabalho que dependa de comissões, ainda que haja um contrato dizendo o valor fixo do salário.

Eu tenho percebido que, na média, as empresas moçambicanas carecem muito de falta de planejamento. Eu nunca fui amiga dos planejamentos empresariais feitos em reuniões mirabolantes, que definem missões, visões, objetivos estratégicos e depois ficam guardados em uma gaveta esperando as próximas reuniões de planejamento estratégico. Mas acho que o mínimo de organização e previsão para o futuro da empresa deve existir. Exatamente porque a empresa lida com muitas vidas e atinge muitas famílias, deveria ter a seriedade e a responsabilidade de arcar com suas ações. Se uma pessoa abriu uma empresa e não tinha dinheiro sequer para pagar o primeiro mês de salário de dois funcionários, contava apenas com o que possivelmente entraria dos clientes, essa pessoa não deveria sequer ter aberto a empresa. Mas não é assim que temos visto funcionar…

E o pior é que quando conto, nas rodas com os amigos, os casos que conheço das difíceis relações trabalhistas por aqui, sempre tem alguém que conta uma nova história do gênero, que já viveu ou viu outro alguém vivendo situação parecida.

Das difíceis relações trabalhistas em Moçambique (3)

Um barulho na madrugada nos acorda. Vamos até a varanda ver o que se passa e o vizinho tem uma discussão com o segurança. Mesmo do segundo andar é possível perceber que o vizinho está bastante alterado pelo álcool. Não temos como interferir. Voltamos para a cama, para tentar dormir, apesar da barulheira na rua.

Minutos depois toca a campainha. É o segurança, reclamando que o vizinho bateu nele, porque o pegou cochilando.

Não foi a primeira vez que isso aconteceu. Há cerca de dois meses, outro segurança tocou a campainha de casa, chorando, afirmando ter apanhado do vizinho. Desta vez era mais cedo, ainda estávamos acordados. Fomos ao encontro do vizinho, na escada, ver o que se passava. Em momento nenhum ele negou ter dado safanões no empregado.

E quando tentamos argumentar que talvez essa não fosse a melhor maneira, ouvimos: “vocês são estrangeiros, não sabem nada. Aqui funciona assim, se não for assim, não trabalham”. Vale observar que ele pode até ter nascido em Moçambique, mas é visto como estrangeiro pelos moçambicanos nativos “de raiz”, porque é de origem indiana. É o chamado “munhé”.

Como o cheiro do álcool já estava quase nos deixando bêbados, resolvemos não discutir nessas condições e tudo que fizemos foi aconselhar o segurança a procurar a esquadra (delegacia) e relatar o ocorrido. O jovem o fez e no dia seguinte pediu demissão. Nunca mais tivemos notícia do caso.

Em conversa com outro funcionário do prédio depois da segunda ocorrência, soube que este também já tinha sofrido agressão por parte do mesmo vizinho. Eu não tinha ficado sabendo e acho que nem ficaria se não tivesse puxado o assunto. Ele comentou que já aconteceu com ele, assim, como se comenta que se comeu pão com manteiga de manhã. Para ele, pode não ter sido bom, mas é algo visto como normal.

Provavelmente, pela polícia também. Porque o segundo que bateu à nossa porta também fez registro de ocorrência na delegacia e até agora não temos notícia de que tenha acontecido nada em nenhum dos dois casos.

Já relatei aqui, em outro texto desta série sobre as relações trabalhistas em Moçambique, que a violência física é algo tratado como parte da relação trabalhista. Para mim, nunca uma herança tão obscura dos tempos da escravidão poderá ser aceitável.

Juntando os casos relatados no primeiro texto da série e esses que aconteceram literalmente na porta da minha casa, percebo muito das razões pelas quais todo trabalhador em Maputo é tão submisso, tem sempre cara triste, ar pesado e fica até surpreso quando nos dirigimos a ele para um obrigada ou qualquer outra palavra de educação que se deve usar normalmente a alguém que está a te servir.

Casei com Moçambique

Brinca-se muito com a questão do casamento, de como a relação de amor, carinho e paixão costuma ser simplesmente destruída graças a um sim. Eu sou casada há muitos anos (com o ElefanteNews, aliás) e nunca entendi o que queriam dizer com isso. Mesmo depois de mais de uma década, nossa relação é de amizade, compreensão, amor, paixão e tudo de bom.

No entanto, nos últimos tempos tenho percebido melhor o que se quer dizer. Não graças ao meu casamento, mas por causa da minha relação com o lugar onde estou. Depois do casamento é que a gente conhece mesmo a outra pessoa. A convivência diária, a integração de culturas, a divisão de responsabilidades, tarefas e contas… Enfim, a aproximação que nos faz conhecer melhor a outra pessoa pode nos levar a ficar ainda mais encantados ou desencantar de vez.

Parece-me que casei com Moçambique. Até pouco tempo eu namorava Moçambique. Era uma relação onde eu só via a parte bacana, leve. Primeiro, porque morávamos na tal Zona Restrita, onde havia toda uma burocracia lusitana para se entrar e receber bens e serviços, mas, por outro lado, havia também a proteção (ou sensação de, ao menos) do exército, uma divisão com o cotidiano da cidade.

Agora não, agora vivemos em uma rua comum, com segurança comum, com limpeza comum. Poderia dizer nenhuma, mas não é para tanto também. Temos mais contato com outras pessoas que vivem na mesma região e contam histórias. E como o povo gosta de contar histórias, exagerar, fantasiar, maquiar… mas isso será assunto de outro post.

http://www.adorocinema.com/filmes/como-se-fosse-a-primeira-vez/

Embalagens jogadas no chão na rua de casa

Agora também trabalho por aqui. Antes era só um reconhecimento de terreno, trabalho voluntário aqui ou acolá, mas sem contato diário, regular. Hoje tenho equipe de trabalho, gente para treinar, cobrar, checar se fizeram o previsto, acompanhar. Tenho que prestar contas ao investidor. Vivo e convivo diariamente, 24 horas com outra cultura, outros valores, outra história, como em um casamento mesmo.

Eu não sou do tipo que gosta de generalizações, não acho que brasileiro isso ou aquilo, nem que moçambicano isso ou aquilo. Sei que ser humano é ser humano… Mas nessa convivência diária mais próxima, podendo conhecer mais os hábitos, as atitudes cotidianas, a forma como encaram o trabalho, o cumprimento de horários, as responsabilidades, parece que acabou o encanto. Acabou o espaço para respirar fora da relação.

Já não é divertido ver a diferença da visão do que é profissionalismo, porque agora é preciso lidar com isso e resolver os problemas que traz. Já não é cômico assistir aos improvisos, porque são em cima do meu trabalho. Está complicado encontrar paciência para explicar, explicar, explicar e no dia seguinte ter que explicar de novo as mesmas tarefas porque, como no filme Como se fosse a primeira vez, os interlocutores já não se lembram mais de ontem depois do sono.

É triste perceber a visão exploradora dos poucos que conseguiram conquistar alguma coisinha a mais depois da tão recente independência do país. Basta ter um pouco de recursos, ter tido uma pequena oportunidade de estudar e ser nadica mais esperto e pronto, a pessoa já se vê no direito de explorar os demais. Sem perceber que está cometendo com seus semelhantes o que Portugal fez com suas colônias.

Está difícil conviver com a importância que aqui se dá ao dinheiro, com gente que só pensa em ganhar mais o tempo todo, ainda que isso signifique não ter ética, não ter serviço de qualidade, não ser honesto, não praticar gestão de suas empresas pensando na sustentabilidade das mesmas.

Casos como os que já contei aqui, da empresa de energia ou do ar condicionado são exemplos cotidianos de uma realidade de desleixo e desprezo pelo cliente, pelo bem fazer, pela excelência.

Afinal, o que me pego pensando é que, se por aqui estamos engatinhando hoje no desenvolvimento, deveríamos olhar o caminho traçado por quem já percorreu longa distância e não cometer os mesmos erros, para assim chegar mais cedo ao desenvolvimento desejado e sustentável. Mas não é isso que vejo acontecer.

É quase desanimador. Mas tem horas que esse mesmo desânimo é que nos dá forças, por mais incongruente que isso seja. Aí me agarro no outro casamento da vida e sigo a trilha do elefante.