Cidade do Cabo em quatro dias

Conheci a Cidade do Cabo na semana passada. Foram apenas quatro dias, mas muito intensos. A cidade é linda, tem vários passeios obrigatórios e muito diversos um do outro.

E também, estou numa boa altura para dobrar o Cabo da Boa Esperança. Afinal, a cidade é do cabo, por causa dele, o cabo, já chamado também das Tormentas. Inclusive, deu para entender bem porque das Tormentas. Como venta naquela região!

E esse vento define a possibilidade de se fazer alguns passeios muito bons. Então, a grande dica é: desde o primeiro dia que estiver na região tente fazer o passeio a Robben Island e subir de teleférico na Table Mountain.

Robben Island é a ilha onde fica a prisão na qual Nelson Mandela passou 18 anos cumprindo parte de seu confinamento de 27 anos. Chega-se à ilha de barco e muitas vezes o passeio é cancelado por causa do vento forte. No dia que fomos, o guia avisou que estava muito feliz em nos receber, porque durante cinco dias não tinha havido passeios devido às condições climáticas. Depois, o percurso é feito de ônibus.

O grande valor histórico do passeio e essa dificuldade logística-climática fazem com que seja bom comprar o bilhete com antecedência, porque há sempre muita procura. Três semanas antes já é possível fazê-lo pelo site Webtickets. Foi o que fizemos e deu muito certo. Compramos para o primeiro dia que estaríamos lá, pensando no risco de não ir por causa do vento. Mas foi justamente nesse dia que o vento deu uma folga! Cada pessoa paga ZAR 220,00 (R$ 51,65).

A ilha é habitada há milhares de anos. Desde que os holandeses chegaram, no século XVII, passou a ser usada principalmente como prisão. Sua história é de muita tristeza, o que faz o passeio ser de grande reflexão. No século XVII o local abrigou importantes príncipes e xeques da Índia, Malásia e Indonésia, prisioneiros da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais por incitarem a resistência contra os dominadores europeus. Os britânicos também enviaram para lá os governantes nativos do povo xhosa. Em 1963, chegaram na ilha Nelson Mandela e outros sete ativistas condenados à prisão perpétua. O lugar serviu ainda como campo de treinamento e defesa durante a II Guerra Mundial e como hospital para pessoas com hanseníase e doenças mentais ou crônicas de 1846 a 1931.

Em 1991, os últimos prisioneiros políticos foram libertados. Desde 1997 a ilha é um museu a céu aberto, sobre todos esses isolamentos. E quem nos conta a história são ex-prisioneiros transformados em guias turísticos. Definitivamente, visitar a África do Sul hoje é aprender muito sobre perdão e não-revanchismo. O nosso guia foi o simpático e divertido Yussif, que na foto aparece de camisa branca e colete, despedindo-se dos turistas.

saída do ônibus em Robben Island

Cela do Mandela em Robben Island

Foto nada original, mas obrigatória da cela do Mandela em Robben Island

pôr do sol na Table MountainO segundo passeio que tem que ser tentado desde o primeiro dia é subir na Table Mountain. Nós só conseguimos encontrar o teleférico aberto e topo da montanha não encoberto por nuvens no último dia. O ideal é ir no pôr do sol, que é lindo visto lá de cima. Mas desde o segundo dia já estávamos conformados em ir a qualquer hora que abrisse o tempo. Deu certo de ser no final da tarde. A subida e a descida podem ser feitas a pé também. Mas às vezes o vento é tão forte, que nem mesmo a pé é possível.

O teleférico da Table MountainO nome significa Montanha da Mesa, porque seu amplo platô (cerca de 3 quilômetros de uma ponta a outra) faz com que a montanha tenha mesmo um aspecto de mesa. O portal do teleférico fica em um ponto já bem elevado, depois de uma estrada cheia de curvas. O ingresso ida e volta no teleférico sai por ZAR 195,00 (R$ 45,80). Ele é redondo, todo fechado e gira. Desta forma, em qualquer lugar que você se posicionar quando entrar, vai ter vista de 360 graus duas vezes durante o trajeto.

Lá de cima ficamos a 1.086 metros de altitude e pode-se ver o Atlântico, a Robben Island nele, o Índico e toda Cidade do Cabo até o Cabo da Boa Esperança. É de tirar o fôlego. Não sei se durante todo o ano é a mesma coisa, mas agora em outubro estava um frio enorme e um vento forte. Mesmo bem agasalhados, logo tivemos que nos abrigar no café.

Eduardo e Sandra no alto da Table Mountain

vista da Table Mountain

Seguindo na linha dos passeios obrigatórios, tem a ida ao Cabo propriamente dito: ponta de terra que entra pelo mar adentro, a 160 quilômetros da cidade. O ideal é fazer dois caminhos distintos para ida e volta, assim se pode conhecer mais a região. Optamos por ir pela costa Atlântica e voltar pela Índica. O passeio é tão lindo que fica impossível estimar um tempo de duração. Depende de quantas vezes você vai parar para apreciar a paisagem, os animais (de macacos a baleias!) e a própria estrada, que é uma escultura em volta das montanhas. Paramos inúmeras vezes. Mas sempre é possível ir no início da manhã e voltar no fim da tarde.

Sandra com Hout Bay ao fundo

Uma das primeiras paradas para curtir a vista

Babuínos na estrada para Cape Point

Macacos na estrada do parque do Cape Point

O auge é o Cape Point. Um parque nacional onde é possível ir até o Cabo da Boa Esperança. Mais uma vez, vento, muito vento. E aqui estão as atormentantes águas do cabo:

Seguimos pela estrada que continuou linda e ainda nos reservou algumas paradas para ver baleias e tubarões e chegamos à pequena Simon’s Town. Na rua principal, uma grande variedade de restaurantes garante uma agradável pausa para o almoço. Depois, uma visita à praia Boulders, onde vive uma colônia de mais de 2.300 pingüins africanos. Divertidíssimo encontrar macacos e pingüins ao longo do mesmo passeio…

Pingüim na África do Sul

Estando nessa região da África é preciso reservar tempo também para visitar uma vinícola. Estivemos na Constantia. Fica mesmo dentro da Cidade do Cabo e é a mais antiga da África do Sul. Depois do tour guiado com explicações sobre a produção do vinho, é possível fazer degustação e passear pelos jardins e vinhedos até o efeito do álcool passar para poder dirigir novamente.

Vinhedos em África do Sul

Ainda tivemos tempo para ir a Stellenbosch e Franschhoek, duas cidades há cerca de 50 quilômetros da Cidade do Cabo. A primeira tem como forte característica as construções em estilo holandês. O centro é de uma típica cidade antiga européia e pode ser explorado a pé em uma hora e meia. Franschhoek tem características mais francesas e é conhecida pela ótima gastronomia. Na rua principal, uma série de restaurantes oferece variados cardápios, com predominância da culinária francesa. Ambas estão também na rota do vinho da África do Sul e há nelas diversas vinícolas para serem visitadas.

Ainda na rota do vinho, mais uma parada, desta vez, histórica, em Paarl, na prisão Victor Verster, onde Mandela estava quando foi libertado em 1990.

estátua de Mandela na frente da prisão onde ele esteve

Estátua de Mandela na frente da prisão Victor Verster

Para os fãs das comprinhas, Cidade do Cabo também não deixa a desejar. No centro da cidade, cercada por bonitos e bem conservados prédios históricos e simpáticos cafés, fica a Greenmarket Square, uma praça que recebe diariamente uma diversificada feira de artesanato. Para os ainda mais consumistas, vale uma visita ao shopping do V & A Waterfront. O Vitoria & Alfred Waterfront trata-se de um projeto de reconstrução do cais de Cidade do Cabo. Há um grande shopping, mais de 80 restaurantes e lanchonetes (muitos com vista para o mar), hotéis, edifícios residenciais e comerciais e é de lá que saem alguns passeios marítimos, como o para Robben Island.

Sei que o texto ficou enorme, mas tudo na Cidade do Cabo merece registro.

E para ler ainda mais sobre essa viagem, visite o ElefanteNews.

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O moçambicano e a autoestima

Moçambique é um país maravilhoso. Tem belezas naturais inimagináveis, tem fauna e flora riquíssima, tem solo fértil e rico, tem um povo simpático, acolhedor, bem humorado, respeitador. Mas continua com um dos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) mais baixos do mundo. Tem alguns problemas e dificuldades tão entranhados no país, que o brilho de tudo isso que é bom acaba por se apagar.

Depois de conviver e conhecer mais a fundo esse povo e esse país tenho acreditado cada vez mais que o que falta aqui é autoestima. O moçambicano precisa acreditar mais em seu potencial e valorizar o que faz, o que tem, o que é. Vivendo em Maputo, no sul do país, estamos muito perto da fronteira com a África do Sul. Não sei se o mesmo se repete em outros pontos do país, mas aqui chega a ser enervante o quanto o moçambicano valoriza seu vizinho, sem aplicar a ele o mesmo senso crítico que aplica a si próprio.

Sim, a África do Sul é mais rica, tem mais desenvolvimento tecnológico e seu Índice de Desenvolvimento Humano é melhor. Mas a África do Sul está bem longe de ser o exemplo do tudo perfeito que os moçambicanos vêem. Estou hoje em Cidade do Cabo, a quarta cidade que conheço da África do Sul. As outras foram Nelspruit, Joanesburgo e Pretória, sem contar o Kruger Park, que é um mundo à parte.

Em todos esses lugares sofri com atendimento ineficiente, vi lixo na rua (bem menos que em Maputo, é verdade, mas vi), vi favelas, encontrei gente pedindo esmola, convivi com serviços mal feitos e gente sem educação, enfim, vivenciei problemas. Mas quando o moçambicano fala da África do Sul, fala do país perfeito, de cidades sem favelas, do lugar onde todos têm emprego e ganham bem (verdade que ganham mais que em Moçambique, mas gasta-se mais também), do lugar limpo onde o povo não faz xixi na rua.

Ou seja, os moçambicanos tendem a não ver os problemas que também existem (talvez em menor escala) no seu vizinho. E mais: não percebem que os problemas que não existem no vizinho dependem, em muito, da atitude do próprio povo. Quem faz xixi na rua em Maputo? Os postes? Não, o povo. Quem joga lixo a céu aberto? As árvores? Não, o povo. Talvez, falte ao moçambicano perceber que se ele cuidar do que está a volta dele, pode conseguir um ambiente melhor e ter o que tanto acha bonito no seu vizinho.

Isso me lembra muito a atitude de alguns brasileiros com relação aos Estados Unidos. Vivem dizendo que “se fosse nos Estados Unidos não seria assim”, “lá as coisas funcionam”, “lá as pessoas são sérias”… Eu vivi lá e pude ver de perto e sentir na pele que não, não é nada disso…

Talvez se o moçambicano notar o seu valor, as suas cidades bonitas e a sua terra fértil, consiga fazer com que tudo isso seja igual ou melhor do que o que está no vizinho. Falta se perceber capaz, se valorizar e não se deixar abalar por uma fronteira. O mesmo moçambicano que passa o dia na África do Sul sem fazer xixi na rua, o faz quando chega em Maputo. Por quê? Porque “aqui é assim mesmo”. E se cada um resolver que não quer mais que seja?


Obs.: escrevendo este texto, lembrei de um outro, muito bom, escrito pelo Guilherme alguns meses atrás no Na ponta do lápis, chamado Miragem, e da Carta aberta a todo moçambicano e moçambicana, do ‘nando Aidos, publicada aqui no Mosanblog.

Joburg, circuito esportivo

Futebol, críquete e rugbi são os esportes mais populares da África do Sul. O golfe também tem um espaço significativo no gosto dos sul-africanos e campos são encontrados com facilidade em várias cidades.

Mas, apesar de tantas ofertas, o tempo era curto e a nossa visita a Joanesburgo limitou-se aos espaços do futebol. Mais especificamente, aos cenários da Copa do Mundo de 2010.

O Soccer City foi palco da abertura e da final da Copa. Estivemos nos vestiários e no campo que receberam os campeões do mundo de 2010 – os espanhóis. Eduardo já falou sobre nossa visita — e muito bem, como sempre — no ElefanteNews.

Em 1990, o estádio foi escolhido para o primeiro discurso de Nelson Mandela em Joanesburgo após sua saída da prisão. A escolha não foi impensada: o local foi foco de resistência anti-racista e de protestos dos negros durante o apartheid. Em 1993, milhares de pessoas estiveram no mesmo estádio, mais uma vez para uma celebração não esportiva: foram velar o corpo do ativista político Chris Hani, assassinado em frente a sua casa.

Deixo aqui duas fotos, que destacam o desenho do estádio após remodelação para a Copa, inspirado na cerâmica tradicional africana.

Soccer City visto por dentro

fachada do Soccer City

Depois fomos ao Orlando Stadium. Fica no Soweto e abrigou a abertura da Copa de 2010, marcando o início da primeira Copa do Mundo de futebol em continente africano. O estádio foi construído em 1959 para ser a casa do Orlando Pirates FC. Em 2008 foi totalmente remodelado.

fachada do Orlando Stadium

O terceiro estádio da Copa que visitamos em Joanesburgo foi o também histórico Ellis Park Stadium. Fica no centro da cidade. O acesso é complicado em dias normais, imagino só como era durante a Copa. Foi construído em 1928, para jogos de rugbi. Em 1982 foi totalmente reconstruído e modernizado, ainda com o objetivo de atender jogos de rugbi, passando a poder receber cerca de 60 mil torcedores.

Em 1995, o estádio recebeu a final da Copa do Mundo de Rugbi, esporte praticado pelos brancos da África do Sul e odiado pelos negros. Nelson Mandela, presidente do país há alguns meses, apoiou a seleção nacional, o time Springbook, vestiu a camisa, aproximou-se da equipe e mostrou que toda a nação deveria torcer por eles. A história da ascensão de Mandela ao poder e como usou o esporte para unir um povo é contada no filme Invictus.

Sandra na arquibancada do Ellis Park

Assim terminamos nossa visita aos pontos esportivos de nosso interesse (e imagino que seriam os mesmo para muitos brasileiros). Não deixam de ser também visitas históricas e turísticas…

Joburg, circuito histórico

Como eu citei no post exatamente anterior a este, vou escrever sobre nossa viagem a Joanesburgo em três partes. A primeira foi a turística e agora vem a histórica. Depois, falo do esporte.

A África em si tem história, muita história para contar. Afinal, é aqui o berço da humanidade, foi aqui que tudo começou para o homo sapiens, é daqui que todos viemos e acho que para os brasileiros, que tiveram tantos africanos sendo levados para sua terra em tempos recentes, isso se faz ainda mais verdade.

Então, temos história de milhares de anos para conhecer na África. Mas nosso passeio por Joanesburgo, por falta de tempo para mais, conteve-se na história moderna, recentíssima: segunda metade do século passado.

Iniciamos com um passeio pelo famoso bairro do Soweto. O nome vem da sigla South West Townships (distrito do sudoeste). Soweto foi criado em 1963, durante o regime do Apartheid, para juntar em um mesmo espaço negros que viviam em diversos bairros. Foi, basicamente, um reassentamento, para alocar os negros em um espaço separado e afastado dos brancos. O bairro ficou conhecido por ser foco de resistência anti-racista e de protestos dos negros contra a política oficial de discriminação.

Soweto visto da estrada

Soweto visto da estrada

Um dos protestos que ficou mundialmente conhecido é o chamado Massacre de Soweto, que aconteceu em 16 de junho de 1976, dando origem ao Dia da Criança Africana. Hector Pieterson tinha 11 anos e participava de uma passeata contra a lei que obrigava todos os meninos a estudarem em Africâner, a língua dos brancos. Os meninos não tinham nenhuma arma. A polícia abriu fogo e morreram centenas de jovens, inclusive Hector. Hoje, um bonito memorial no bairro marca o acontecimento.

Memorial Hector Pieterson

Na frase do memorial: Em honra dos jovens que deram suas vidas na luta pela liberdade e democracia

O memorial Hector Pieterson fica em uma praça onde acaba a rua Vilakazi, considerada a rua mais famosa do Soweto. Lá ficam as casas de dois prêmios Nobel da Paz: o arcebispo Desmond Tutu, que ganhou o prêmio em 1984, e Nelson Mandela, que também recebeu o prêmio, em 1993.

endereço da casa do Mandela em placa na entrada da casa museu A casa onde Mandela viveu foi transformada no Museu da Família de Mandela e nela podem ser vistas coleções de fotografias, pinturas, recortes de jornais, placas de homenagem, cartas, documentos de doutoramentos honorários entregues a ele por universidades de todo o mundo, além de objetos pessoais e móveis da época em que Mandela viveu ali, como a poltrona na qual ele gostava de sentar.

Mandela estava nesta casa quando foi preso, em 1962. Lá, vivia com sua segunda mulher, Winnie Mandela. No chão do corredor que fica entre a cozinha e a sala é possível ainda ver a marca de um muro que Winnie construiu na época, para dormir por trás dele com os filhos, no chão da cozinha, e abrigar-se de ataques da polícia, que passava nas ruas atirando para dentro das casas. Nessa situação, os quartos e sala da casa, com janelas voltadas para a rua, tornavam-se vulneráveis.

sala e cozinha da casa de Mandela

Da porta da casa, é possível ver as Torres de Orlando, duas chaminés de uma usina elétrica nuclear construída na década de 1950. Não é de espantar que a energia gerada não era distribuída em Soweto. Lá ficavam apenas os riscos à saúde. A energia ia para os bairros de brancos de Joanesburgo. A usina foi desativada em 1998 e há alguns anos as torres passaram a ser usadas para a prática de esportes radicais, como bungee jumping.

Usinas de Soweto

De lá, partimos para um mergulho no Apartheid. O que vimos no Museu do Apartheid se confunde muito, como não poderia deixar de ser, com a vida de Mandela. Em uma parte do museu, há, inclusive, uma exposição temporária sobre Mandela, mostrando suas diversas faces: líder, camarada, negociador, prisioneiro, estadista.

fachada museu do Apartheid

O museu foi inaugurado em 2001. É impactante, revelador, instigante. Logo na entrada, ao comprar os bilhetes, você recebe aleatoriamente entrada para o portão dos negros ou dos brancos. E um mesmo grupo de amigos ou familiares pode ser separado ali por estar com a cor diferente. No corredor a seguir a entrada, várias placas que foram usadas na época do regime Apartheid, que não por acaso significa separação em Africâner, em transportes e serviços públicos, lojas e empresas, indicando justamente onde era o local para brancos e onde para negros. Nunca se juntavam e, onde havia situação melhor, como estar sentado ou em pé, a mais confortável era sempre dos brancos.

Mas quem era branco e quem era negro e quem era mestiço e quem era índio e quem era asiático? Isso era definido por uma comissão de classificação racial. Quando havia o censo, a classificação poderia mudar e uma pessoa que anteriormente tinha sido classificada como mestiça, podia passar a ser negra, perdendo alguns dos direitos que tinha anteriormente. Mas, no geral, a divisão era entre brancos e não brancos.

O museu também descreve as leis que garantiram a manutenção do Apartheid por tantos anos, como a que proibia casamentos mistos (entre duas raças diferentes), lei de reserva de benefícios sociais, que criou praias, veículos públicos, hospitais, escolas e outros reservados para pessoas com determinada cor de pele, leis de segregação da educação e, logicamente, leis de repressão à resistência.

O museu é uma caminhada entre instalações, objetos históricos, vídeos e muita informação das mais diversas formas sobre como o regime de segregação se constituiu no país e como a África do Sul superou esse horror.

Eu saí de lá com a sensação que, mais uma vez na história, o instinto egoísta do ser humano e a economia foram fatores fundamentais para uma aberração social. Em um momento de crise econômica, o Apartheid foi apoiado por uma elite que percebeu que, ao transformar 20 milhões de não brancos em cidadãos de segunda classe, teriam muito menos gente para dividir as riquezas do país. Junta-se a isso, claro, o espírito ignorante de preconceito contra o diferente.

O museu tem cenas fortes, como uma sala onde há 131 nós de enforcamento pendurados representando os prisioneiros políticos enforcados durante o regime e a reprodução da minúscula cela onde Mandela ficou preso por quase três décadas de sua vida por defender um ideal de justiça e igualdade social.

Passamos três horas lá dentro, mas tão envolvidos com tanta informação, que sentimos como se tivesse sido só uma. Com tanto tempo investido lá e pouco tempo para Joanesburgo, não conseguimos visitar o Constitution Hill, onde Mandela esteve preso, e a Gandhi Square, construída em 1893 como Government Square e que mais tarde, após uma reforma, recebeu o nome atual em homenagem ao político indiano Mahatma Gandhi, que viveu em Joanesburgo no início do século XX e atuou como advogado, tendo muitas atividades na Transvaal Law Courts, que ficava na praça.

Saiba mais sobre o Massacre de Soweto em matéria que Eduardo Castro publicou no Elefante News.

Joburg, circuito turístico

Passamos dois dias em Joanesburgo, carinhosamente chamada aqui de Joburg. Apesar de ser uma cidade sem graça, como São Paulo, tem muito o que fazer e poderíamos ficar muito mais dias lá, como São Paulo. Parece até contraditório, mas é assim mesmo. Não é uma cidade de belezas naturais, predominância de prédios históricos ou arquitetura especial. Mas é um importante centro econômico e as coisas sempre acontecem nesses lugares…

Então, vou dividir a cidade em turístitica, histórica e esportiva, para organizar os posts. Para se ter uma idéia da dimensão de Joburg, vamos começar pela visita ao prédio mais alto da África, o Carlton Centre, onde um terraço no alto do prédio oferece vista panorâmica do 50° andar, a 223 metros de altura.

Entrando na ponte Nelson MandelaComo se percebe, o prédio fica bem no meio da cidade. Para chegar nele, passamos pela famosa ponte Nelson Mandela, inaugurada em 2003, e que liga duas importantes áreas de negócios da cidade: Braamfontein e Newtown. A ponte tem 284 metros de comprimento e é estaiada (suspensa por cabos) tipo leque. A estrutura foi nomeada Nelson Mandela em reconhecimento pelo papel dele na unificação da sociedade sul-africana.

Para compras, um shopping diferente. A Mandela Square é uma praça, cercada de edifícios comerciais que são interligados no subterrâneo por lojas, lojas e mais lojas. No térreo (ou rés do chão), ficam principalmente restaurantes e cafés. Fica no bairro Sandton e no centro da praça tem uma grande estátua de Nelson Mandela.

À noite, jantar em um cassino. Escolhemos o Montecasino. Como acontece, em geral, nos cassinos, a decoração é temática. O tema desse é a Itália. Então, tudo reproduz um vilarejo italiano. Os restaurantes e lojas começam a fechar cedo, por volta das 21h30. Mas a parte de jogo a dinheiro funciona 24 horas. Jogamos um pouco, pela diversão. Mas já não é mais tão divertido como antes.

O legal de ir a um cassino era jogar naquelas máquinas que derrubavam um monte de moedas quando você ganhava alguma coisa, mesmo que fossem centavos e que todas juntas não dessem muito dinheiro. Mas o som das moedas e a brincadeira de andar com potes cheios delas era a graça. Hoje, tudo tomado pela tecnologia, o dinheiro vem marcado num código de barras e o barulho das moedas caindo existe apenas pela nostalgia e é reproduzido eletronicamente (tipo máquina fotográfica digital que faz o som do disparo da foto). Perdeu o glamour. Empatamos os R20 (vinte rands) que jogamos e fomos embora. Acho que o Guilherme se divertiu mais, porque ficou na área de jogos eletrônicos.

Geral do Montecasino

Para fechar um passeio na África, nada melhor do que uma visita aos leões. Lion Park. É um parque para safari e, apesar do leão no nome, girafas, avestruzes, zebras, gepardos, cachorros do mato e outros animais nativos estão por lá. Para receber os visitantes, as girafas ficam soltas. E fazem logo amizade. Tem a opção de comprar ração para dar a elas. Nós nem precisamos. Essa se aproximou sem levar nada em troca.

Girafa encara Guilherme e Eduardo

No começo do passeio, há duas áreas cercadas onde ficam leões ainda pequenos. Os bebês podem receber visitas. Grupos de cinco pessoas entram na área e podem brincar com os bichos, que mais parecem grandes gatos.

Eduardo acaricia um leãozinho

Os que já são maiores não podem interagir. Mas são tão lindos quanto os pequenos.

leões na cerca

E os grandes de verdade, adultos e ferozes, ficam nos acampamentos. Assim como alguns filhotes, que ainda precisam da presença da mãe. Nessas áreas entramos de carro, com todas as janelas obrigatoriamente fechadas e passamos perto, bem perto mesmo das feras. Leões, cachorros do mato, guepardos… é emocionante. Foi aí que vimos uma zebra dar uma rasteira numa avestruz, que ficou com as pernas para cima, feito barata que levou uma chinelada. Ela demorou alguns minutos para se recompor, coitada. Quando conseguiu, a zebra ainda correu atrás dela. Depois desistiu, mas saiu olhando para trás, mantendo a ave na mira. Vai saber o que a avestruz falou para a zebra, que ficou assim tão brava.

Leões brincando

Guepardo passa no meio dos carros

Leão albino

Zebras e avestruzes no Lion Park

Nesta parte, há várias áreas cercadas, nas quais entram alguns carros de cada vez. Numa delas, na hora de sairmos, tivemos que esperar a movimentação dos leões que estavam a espreitar a vida lá fora, bem no portão…

Leões ficam no portão e impedem carro de sair

Bem, esse foi nosso primeiro Joburg turístico. Ainda tem muito mais para ver, como a South African Breweries (SAB), uma das maiores cervejarias do mundo em termos de volume produzido (120 milhões de barris por ano), o parque de diversões Gold Reef City, que recria o período em que Joanesburgo era um grande campo de mineração, o MuseuMAfricA e muito mais. Se voltarmos lá, publico aqui. Senão, ficam as dicas para os leitores que forem a Joburg com mais tempo descobrirem como são essas atrações.

Quatro dias, duas cidades e muita história para contar

Um fim de semana, dois dias de folga e mini-férias para a família. Assim foram os últimos dias, em África do Sul. Fomos a Joanesburgo e Pretória.

Foi muita coisa em pouco tempo. Agora tenho que organizar as fotos e as informações, para contar melhor… aguardem. Enquanto isso, algumas fotitas:

Em Pretória, o Union Buildings, sede do governo sul-africano

Church Square, em Pretória

Casa onde Mandela viveu no Soweto

Museus

Muitos estádios de Copa do Mundo

Leões filhotes

... e adultos

Comprinhas no vizinho

Morar perto da fronteira está sendo uma experiência divertida para nós. Pegar o carro e atravessar para outro país é algo muito comum para quem vive aqui em Maputo. Você pode ir para outro país para conhecer o Kruger Park, para comer carne muito boa e barata na Suazilândia ou para fazer compras em Nelspruit, na África do Sul.

Eu não sou muito fã de fazer compras, então, não é isso que me atrai por lá. Mas sempre vale o passeio e, quando se está precisando de alguma coisa, o preço da cidade é compensador. Em geral, as coisas tem preços cerca de 25% mais baixos que em Maputo e a variedade é maior.

Estive lá pela primeira vez em agosto do ano passado, com a amiga Isaura. Fomos durante a semana, porque ela tinha uma consulta médica. Aliás, isso é outra coisa que atrai muitos moradores de Moçambique para Nelspruit. Clínicas com equipamentos mais modernos, médicos muito bem preparados e melhores recursos já estão especializadas em atender pessoal do país vizinho.

Agora, fomos no sábado. Com os amigos Patrícia e Santiago. Foi um passeio de compras e gastronomia. Muita gastronomia… Saímos de casa às 6h e chegamos lá por volta de 8h30. Passamos primeiro no Estádio de Mbombela, construído para a Copa de 2010. Essa parada você pode ler com detalhes no post escrito pelo Eduardo no ElefanteNews.

Depois, café da manhã no Mugg & Bean do I’Langa Mall, o shopping novo. Aliás, as compras acabam por se resumir ao shopping novo e shopping velho, no qual ainda vamos chegar… Uma volta no shopping e, quando nos demos conta, já era mais de meio dia.

Parada para almoçar. Restaurante Mediterranean, no mesmo shopping. Foi perfeito, porque tem sushi e sashimi, que o Eduardo adora e estava sentindo falta de um restaurante do tipo com boa relação custo x benefício. Em Maputo temos duas ou três opções, mas os preços são muito altos para a qualidade e quantidade que oferecem. E para mim e o Guilherme, carne, muita carne bem vermelha.

Além disso, a vista do restaurante é lindíssima. O que é também uma característica da cidade. Pequena e cercada de montanhas, por onde andamos, o cenário é sempre muito agradável. Sem contar com as ruas largas, bem asfaltadas e limpas (mais coisas para a lista do que não se encontra em Maputo).

A sobremesa ficou para o outro shopping. O Riverside. Uma sorveteria chamada Milk Lane, onde nos acabamos nas taças gigantes com muito sorvete e cobertura. Depois, passear por todo o shopping, para fazer a digestão.

No fim do dia, passada no supermercado Spar. Muitos produtos que compramos lá, não são encontrados em Maputo com regularidade. Além disso, o custo mais baixo também atrai.

Fim das compras, hora do jantar. Lá foi o sobrinho matar saudade do McDonald’s. Pronto, já tínhamos feito tudo que não é possível fazer em Maputo, tínhamos nos divertido muito com os amigos, então, já podíamos encarar mais duas horas e meia de estrada para dormir no nosso país de residência.

Para saber mais sobre a cidade, veja também o post Nelspruit, do blog da Nhatinha, e o site oficial da cidade.

África do Sul na Quinta Quente

Em conversa com o amigo Lisarb na semana passada, recebi a preciosa dica de trazer para a Quinta Quente o cantor Bhekumuzi Luthuli, representante da África do Sul. Sugestão acatadíssima, porque a dica é quente mesmo.

Bhekumuzi Luthuli começou sua relação com a vida artística ainda criança, aprendendo música tradicional africana. Fez carreira como vocalista da banda Oshimi no início dos anos 1980. Depois de lançar dois álbuns com o grupo, partiu para a carreira solo. Nesta fase, o álbum Impempe deu ao artista o primeiro prêmio de disco de platina, por ter vendido mais de 50 mil cópias. Faleceu aos 48 anos de idade, em abril de 2010, em Durban, na África do Sul.

Suas músicas, cantadas em Zulu, contam histórias da África, falam de suas experiências, do que ele via na sociedade, tentando ser educativo e agradável para o entretenimento ao mesmo tempo.

A música que vamos ouvir, Inhliziyo Yami, mostra bem seu estilo alegre de cantar, sempre acompanhado da típica batida forte e animada que permeia a musicalidade africana.

Leia sobre a morte do artista no site Mio.

Finalmente, Kruger

No dia que completamos um ano da chegada em Moçambique (que aconteceu em 16/04/2010), fomos ao nosso primeiro safari. Afinal, como era possível estar em África por tanto tempo sem ter feito ainda um safari, não é mesmo?

A expedição foi no Kruger Park, o mais antigo da região e um dos mais famosos do mundo. A reserva foi criada em 1898, pelo então presidente sul-africano Paul Krüger. O parque como se conhece hoje é de 1926 e tem uma área de 20.000 km², entre África do Sul (a oeste e a sul), Moçambique (a leste) e Zimbabwe (a norte). Em seu território vivem os chamados “big five” (cinco grandes animais da região): leão, elefante, rinoceronte, leopardo e búfalo, além de girafas, impalas, hipopótamos e muitos outros. São mais de quinhentas espécies de aves, 112 de répteis e 150 de mamíferos.

Saída de casa às 5h20. Chegada na fronteira pouco depois das 6h. Carimba daqui, carimba dali e saímos de Moçambique. Anda um pouco, carimba daqui, carimba dali e entramos na África do Sul. Às 8 horas entramos no Kruger pelo portão de Malelane.

O passeio não foi com guia, nem em carro do parque. Tem essa possibilidade, mas optamos por ir sozinhos, seguindo as indicações no mapa que o atendente da entrada do parque fez. Para entrarmos três pessoas com carro próprio pagamos ZAR 540,00 (R$ 125,00). Não sei exatamente quanto foi por pessoa e quanto é a taxa do carro.

Lá dentro, há a estrada principal, em asfalto, cuja velocidade máxima é de 50 km/hora, estradas secundárias, de terra, cuja velocidade permitida é 40 km/hora. Mas, muitas vezes, andamos a muito menos que isso, para apreciar melhor os movimentos dos animais.

Logo de início nos impressionamos com a belíssima paisagem. Ao longo do dia entramos por algumas das estradas de terra, quando víamos algo interessante a ser observado. Mas quase todo o tempo nos mantivemos na via principal.

Em pouco tempo já tínhamos visto os famosos impalas (macho com chifre, fêmea sem), que são um dos símbolos do parque.

Macaco com filhote agarrado na barriga, em um restaurante do Krueger

O dia estava fresco, um pouco nublado. Isso fez o passeio ainda mais agradável, porque não tinha o calor africano sobre nós. Perto do meio-dia, pausa para almoçar em uma das áreas de descanso, onde há espaço para acampar, se hospedar em quartos ou bangalôs típicos da região, restaurante, café e loja onde se pode comprar lembranças do parque e artigos de conveniência.

Almoçamos à beira de um rio, onde pudemos apreciar macacos, pássaros e hipopótamos. Após a pausa, voltamos para o carro e seguimos em direção ao portão Crocodile. Não sei se foi o fato da tarde estar fresca, se foi pelo horário ou pelo caminho que fizemos, mas depois do almoço vimos os animais mais interessantes (para mim, pelo menos) e mais ousados. Girafas, zebras, elefantes e macacos literalmente cruzaram nosso caminho.

Elefante derrubando árvore para se alimentar

Zebra vai ao encontro das amigas para almoçar

Pouco depois das 17 horas, passamos pela Crocodile Bridge (ponte do crocodilo) e saímos do parque.

Estrada. Fronteira. Fronteira. Estrada. Antes das 19h estávamos em casa, com a certeza de que o passeio ainda vai se repetir outras vezes.

P.S. No mês de agosto, voltamos ao parque e escrevi o post Outro Kruger.

Nos sites Alma de Viajante e Girafamania é possível ler mais informações sobre o parque e o passeio.

Em matéria do site 360graus.com.br é possível ver um incrível vídeo feito por alguns turistas.

Visite também o site do parque.