Carta aberta a todo o moçambicano e moçambicana*

Outro dia convidei os leitores a visitarem o blog Nhatinha.com, para o qual eu havia feito um Guest Post. Hoje, o Mosanblog é que recebe uma visita. O ‘nando Aidos enviou por e-mail um texto com a sugestão de ser publicado como uma sua carta aberta ao povo moçambicano. Como o que ele escreveu fez sentido para mim e vai ao encontro dos objetivos do blog, divulgo:

Nando AidosDecidi escrever uma carta aberta a todo o moçambicano e moçambicana. Decidi abrir o peito. Decidi arriscar-me a ouvir que o que escrevo abaixo não é relevante, mas aqui vai.

O tema que eu quero abordar tem a ver com o nosso bem-estar do dia-a-dia, com as condições de conforto pessoal, a educação e a saúde de cada um de nós. Tem a ver com oportunidades de ganhar o pão de cada dia e de usufruir de uma vida digna de todo o ser humano.

Por isso não escrevi esta carta aberta a Moçambique. Seria muito vago. O palavra Moçambique, usada neste contexto, teria a tendência de deixar o leitor de fora a olhar para esse Moçambique lindo e generoso, sem se envolver, sem se comprometer com ele. Daria a impressão que nós poderiamos ficar à espera que Moçambique fizesse coisas para melhorar a nossa vida, quando na realidade nós, os moçambicanos, é que temos de nos esforçar para melhorar as nossas vidas.

Parece à partida um desafio impossível de atingir, mas não é. Porque nós, os moçambicanos, temos muitas necessidades que podemos preencher, nós próprios, dando-nos oportunidades para refazermos as nossas vidas de um modo digno, sem ter de esperar, nem pelo Governo (com isto não quero escusar o Governo do trabalho importante que há para fazer em todas as direções que olhemos), nem pelas ONGs que muito têm feito, nem pelos donativos externos que, como sabemos, não têm resolvido nada e até, em muitos casos, piorado o que já havia. Todos nós sabemos de casos assim.

Para responder à pergunta que sei está debaixo da língua do leitor, vou começar a enumerar necessidades do dia a dia e a apontar para soluções ao alcance de todos. Todos!

Vou até começar por um tema controverso, mas muito pertinente, que é o das as nossas casas humildes de bloco de cimento e telhados de chapa de zinco. Materiais trazidos pelos antepassados do ocidente, utilizados nas suas casas quando se estabeleceram em terras africanas, mas que apenas nos dão habitações sufocantemente quentes na época quente do ano, e frias nas noites frias e na época fria do ano. Mas como eram mais robustas, e menos sujeitas a infiltrações de chuva no tecto, as construções continuam sendo feitas a ritmo acelerado. Temos de confessar também que outra razão muito forte foi que este tipo de construção era “como a casa do branco”, coisa muito semelhante ao que tem acontecido pelo mundo, como aconteceu na Colômbia, onde tem sido batalhado com sucesso pelo arquitecto Simón Vélez.

Esta contrução nada tem a ver com África. As habitações de barro e capim, ou de caniço e capim, têm muitos inconvenientes, sem dúvida, mas são mais frescas e deixam-nos dormir melhor para enfrentarmos o dia seguinte de trabalho. E oferecem muita flexibilidade aos moçambicanos, incluindo a possibilidade de serem modificadas para nos dar mais espaço, mais privacidade e mais conforto, sem gastar dinheiro que não temos. Há já muito trabalho feito neste sentido. É só aproveitar o que já foi feito e adaptar ao clima, recursos, conhecimentos e hábitos locais. Vou deixar aqui apenas um projecto da organização Habitat for Humanity em Cabo Delgado como exemplo.

Já que estamos na conversa das habitações, quero falar um pouco do modo como cozinhamos. Uma panela em cima de três pedras e um pedaço de lenha a arder por baixo. Alguns de nós, com mais sorte na vida, cozinhamos com gás e até electricidade. Mas à esmagadora maioria dos nossos conterrâneos esses métodos não são monetáriamente acessíveis. Esses precisam de ir buscar lenha muito frequentemente, cada vez mais longe de casa, contribuindo para a desflorestação das nossas matas. Leram o artigo sobre a Serra da Gorongosa que foi toda desmatada pelas aldeias vizinhas?

A pergunta que logo se põe, e com toda a razão, é – e como quer que essa gente cozinhe? Ao que eu responderei – com menos lenha. Como? Por exemplo usando alguma coisa que já existe, e ensinando todos a construir fogões rocket feitos com tijolos de barro. É pena que eu não tenha uma versão em português, mas talvez as imagens deste video possam perfazer essa falta. Há muitas soluções deste tipo, embora a maioria seja feita de ferro o que põe o fogão fora do alcance de uma grande maioria dos nossos conterrâneos. Quem em Moçambique não sabe, ou não consegue aprender a fazer, tijolos de barro, com um pouco de casca de arroz, ou capim cortado dentro?

Este tipo de fogão também emite muito menos partículas de fumo, as causadoras de muita doença pulmonar que aflige as nossas mulheres e as nossas crianças. Precisamos de cuidar bem delas.

Bom, se já temos um fogão, para cozinhar precisamos de cultivar alimentos, mas precisamos de melhorar as condições da agricultura. Sabemos bem que a introdução de sementes modernas que necessitam de fertilizantes artificiais não estão ao alcance da maioria dos agricultores. Sabemos que as sementes podem ser melhoradas localmente através de técnicas simples de hibridação, sendo o milho o mais conhecido e divulgado. A hibridação já não é coisa de cientistas. Aliás nunca foi. Foi primeiro, e durante milénios, coisa dos agricultores nossos antepassados longínquos, que depois os cientistas, ou deram explicações complexas sobre o assunto, ou apenas disseram que inventaram. Mas agora não vamos falar disso.

O trabalho feito neste campo durante o século XX deu origem ao que agora se chama de Revolução Verde. Mas esta revolução não chegou a África, nem a Moçambique, por razões complexas, mas nós temos as condições para fazê-la chegar e muito rapidamente. Precisamos de nos debruçar sobre o problema, adaptar as técnicas, já bem conhecidas, à agricultura do povo moçambicano e permitir que todos os benefícios sejam colhidos do Rovuma ao Maputo (expressão bem conhecida de todos). E enquanto estamos neste tema, precisamos de investigar outros cereais, nativos de África, que se dão muito melhor na nossa terra, precisam de menos água, e têm um teor alimentício mais elevado.

E da cozinha podemos passar às latrinas. Parece um tema estranho, mas todos nós, se comemos, temos de ter uma latrina, ou acabamos por sujar todo o terreno à nossa volta. Aqui, quero dar o devido crédito ao Feliciano dos Santos, conhecem, né? O fundador da Estamos.mz e que muito tem feito para melhorar as nossas vidas neste sector lá para os lados no Niassa. Porque não replicamos estas ideias por Moçambique todo? Que bom seria para todos nós! Os que não temos e os que temos onde nos aliviar.

E como latrinas beneficiam a saúde de todos, vamos a isso.

Na saúde e nas escolas temos o problema da falta de profissionais, médicos, enfermeiros, professores, entre outros, homens e mulheres, estas muitas vezes muito melhores que nós os homens, temos de nos convencer! Mas também temos falta de condições para os nossos doentes e os nossos alunos. Os edifícios que temos, construídos com tijolo ou bloco de cimento e telha de barro cozido ou até chapa de zinco, não suprem as faltas, são poucos os que ainda estão em condições para serem usados. Não resolvem os problemas nas zonas mais remotas do nosso país e são muito caras de construir. Estas faltas poderiam ser supridas com edifícios como aquele que foi construído em Cabo Delgado e que eu já mencionei acima. Com muito menos dinheiro.

Antes de acabar a minha carta aberta, quero realçar o poder de fomento da economia local que podem ter estas tecnologias ao alcance de todos. Um fomento da economia que pode e deve envolver os nossos conterrâneos mais necessitados, uma economia em que eles possam participar.

Se o fogão gasta menos lenha, e assim não é preciso ir buscar lenha tantas vezes, tarefa frequentemente deixada às crianças em idade escolar, estas já terão mais tempo para irem à escola, e assim podem ter melhor aproveitamento escolar. E aproveitando mais, serão melhores profissionais no futuro. O mesmo posso dizer das nossas mamanas, as que na esmagadora maioria, cultivam a terra e dela arrancam o sustento de muita gente. Elas poderão ver maior produtividade e assim ter excedentes, ou mais excedentes, que poderão vender, melhorando as condições das suas habitações (mas não com cimento e zinco, por favor!).

Tudo isto, acho eu, dá origem a um ciclo impressionante. A partir de um nível de vida desumano, suprindo as suas próprias faltas, porque não há dinheiro para fazer as coisas “à moda dos brancos” (perdoem-me a insistência neste termo que eu considero tão sufocante para as capacidades locais e para a criatividade de todos nós), até ao ponto em que começam a participar numa economia mais alargada. Numa economia por eles criada, que produz para as suas necessidades.

Se leram até ao fim, obrigado por me terem escutado. Espero que tudo isto faça sentido como faz para mim. E se assim fôr, que haja conterrâneos por esse Moçambique fora com coragem de abraçar estes desafios e até criar melhor e mais. Estou disponível para participar.

Kanimambo**,
‘nando

* Texto de ‘nando Aidos
**N.E.: obrigado, em changana.

Anúncios

Mas o que é mulungo, afinal?

Tenho usado com freqüência no Mosanblog o termo mulungo, que é como chamam em changana (um dos mais de 20 idiomas falados em Moçambique, além do oficial Português) o estrangeiro, o branco.

Então, no post De como os mulungos sofem (2), o David comentou “na Guiné e em Angola, o conceito de ‘mulunguice’ não está ligado à cor de pele, não é racista”.

Eu lembrei que logo que cheguei em Moçambique, falei desse termo com meu irmão e ele observou que a palavra consta no dicionário Houaiss da língua portuguesa, com o significado “homem branco”, como regionalismo de Moçambique. E, na etimologia, consta a explicação: “o ser supremo” em várias línguas da África oriental.

Na Enciclopédia brasileira da diáspora africana, de Nei Lopes, o termo mulungu é definido como espécie de tambor de origem africana, com caráter sagrado. Daí, a relação também com ser supremo. O tambor referido produz sons retumbantes e essa característica talvez o colocasse na condição de principal, maioral, por extensão, patrão.

Ou seja, a observação do David parece correta. A ‘mulunguice’, como ele diz, tem mais a ver com ser o patrão do que com ser branco. O que ocorre em Moçambique, em Maputo, pelo menos, é que normalmente o patrão não é o negro. Mas isso é assunto para um outro dia…

Kugoma de novo

No post exatemente anterior a este, que você vê aqui, falei sobre o Kugoma, fórum de cinema de curta metragem, que se realiza em Maputo, capital de Moçambique, de 10 a 14 de novembro. Quando escrevi, não havia ainda disponibilizada no blog do evento a programação. Agora, já está lá. E apresento aqui também.

PROGRAMA Kugoma

Clique na imagem, para ver a programação em tamanho maior

Quem quiser os resumos de cada sessão, é só ir no post Sinopses dos Filmes, que foi divulgado nessa terça-feira, também no blog do Kugoma. Lá é possível ver ainda as camisetas do fórum, que vão ser vendidas nos locais de exibição.

A propósito, quando escrevi o primeiro texto eu não sabia, mas Kugoma, em Changana (idioma banto falado no sul de Moçambique), significa baixinho. Pescou? Baixinho, curta…

Ku bula

Outro dia, atendendo a um pedido da leitora de sempre Lúcia Agapito, inseri aqui no lado direito do Mosanblog (→) um espaço onde aparecem os últimos comentários feitos no blog.

print screen da tela do Mosanblog

Coloquei como nome para esse espaço Ku bula, que significa “conversa”, em changana, idioma local aqui do sul de Moçambique. A princípio eu tinha chamado o espaço de Tindzava, mas tindzava é “fofoca”. E os comentários aqui são coisa séria. Nada de fofoca. rsrsrs.

Published in: on 16/08/2010 at 07:39  Comments (2)  
Tags: , , , ,

A tradição oral na África

A África é um continente em que há grande predomínio da tradição oral, inclusive para a transmissão do conhecimento linguístico. Eu estou, aqui e ali, aprendendo algumas palavras em changana, um dos idiomas de Moçambique, falado pelo povo banto, especialmente no sul do país. Sempre aprendo como falar, nunca como escrever. Até pelas circunstâncias, normalmente na rua, em pé, com um comerciante.

Sobre isso encontrei a seguinte constatação no blog Changana para Amigos: “Enquanto outras civilizações inventaram e utilizavam já a escrita, pelo menos três mil anos antes da nossa Era, o Povo Banto viveu sob o signo da oralidade quase até aos nossos dias”.

Talvez por isso, a escrita das palavras em changana é encontrada de diversas formas e nem sempre conseguimos uma confirmação. O próprio nome do idioma, encontrei changana, xangana e, na África do Sul, onde também é falado, muitas vezes é referido como Shangane ou Shangaan.

Nesse fim de semana descobri uma terceira forma de escrever a palavra que se refere ao triciclo motorizado que usamos em Maputo como alternativa mais barata ao táxi, ao qual já me referi aqui no Mosanblog como chopela (fala-se como se houvesse um t na frente, igual à tchau ou tchê). Mas também já encontrei txopela, inclusive no blog cara metade desse aqui, o ElefanteNews. No Diário de um fotógrafo aprendi agora que seria ntxopelo e o plural mintxopelo.

Quanto ao significado não costuma haver divergências, em todos os lugares que encontrei referências traduz-se como “empoleirado, que se pendura à boleia”. Mais ou menos é essa a sensação mesmo ao andar na cho, txo, ntxopelo, ou seja lá o que for.

chopela com Índico ao fundo

E por falar em chopela…

Li no site @ Verdade que o referido veículo é amigo do meio ambiente: polui 86 gramas de monóxido de carbono por quilômetro rodado, contra 196 gramas do mesmo gás emitido durante a mesma distância por um automóvel convencional. Com uma velocidade máxima de 80 quilômetros por hora, consome apenas 1 litro de gasolina em cada 25 quilômetros.

Tudo bem, não se consegue lá grandes velocidades, mas para andar na cidade, quem precisa? Eu continuo cada dia mais fã da… bem, escolham a grafia que mais agradar.

Published in: on 19/07/2010 at 07:24  Comments (3)  
Tags: , , , ,

Mulungos gostam maningue de andar de chopela

Aqui em Moçambique quase todas as pessoas falam, pelo menos, dois idiomas. O oficial do país é o português, mas a Constituição trata outros quase 30 idiomas bantu (um dos troncos linguísticos africanos) como “línguas nacionais”. O português faz a ligação entre os povos. Mas nem todo moçambicano fala português.

Para nossa sorte, em Maputo, onde vivemos, fala-se português em todos os lugares, então sempre somos compreendidos. Mas todos falam também seu segundo idioma. E aqui na região, um dos mais comuns é o changana.

Então, não é raro ouvir uma frase onde o poliglota moçambicano se expressa misturando palavras de changana com português. Fica muito divertido. O título desse texto, por exemplo, só em português seria: Os brancos gostam bastante de andar de moto-táxi.

chopela

Chopela, a última palavra, é o nome desse simpático triciclo motorizado que está na foto e é usado aqui como um táxi alternativo, mais barato do que o carro. Tem que aguentar o barulho do motor na cabeça, mas os mulungos (pessoas de origem estrangeira, brancos) realmente se divertem com algo que não têm em seus países.

O uso dos termos changana é tão comum, que entra até em campanhas publicitárias. Na televisão, está no ar agora uma campanha para a diminuição de múltiplos parceiros sexuais. O anúncio diz que ter relacionamentos extraconjugais é maningue (bastante) arriscado. O foco é o alto índice de portadores de HIV/Aids (cerca de 16% da população com idade entre os 15 e 49 anos). Abaixo, a marca da campanha. Sobre o conteúdo falaremos em outro momento…

campanha prevenção HIV/Aids

%d blogueiros gostam disto: