Voluntária

Já estava para fazer isso há algum tempo, desde a primeira vez que passei no número 2.305 da avenida Eduardo Mondlane e vi a placa Cruz Vermelha de Moçambique. Pois bem, outro dia estive lá e me inscrevi como voluntária. Agora é fazer alguns cursos, como o de primeiros socorros e outros necessários para os diversos tipos de trabalho da entidade, e pronto, entrar em ação, contribuindo para a missão da Cruz Vermelha.

fachada Cruz Vermelha de Moçambique

Princípios Fundamentais da Cruz Vermelha: humanidade, imparcialidade, neutralidade, independência, serviço voluntário, unidade e universalidade

A Cruz Vermelha Internacional é uma organização independente e neutra que se esforça em proporcionar proteção e assistência às vítimas da guerra e de outras situações de violência.

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) foi fundado em 1863 e a ele foi outorgado um mandato legal pela comunidade internacional. Esse mandato tem duas fontes:

  • as Convenções de Genebra de 1949, que incumbem o CICV de visitar prisioneiros, organizar operações de socorro, reunir familiares separados e atividades humanitárias semelhantes durante conflitos armados;
  • os estatutos dos movimentos Internacional da Cruz Vermelha e Crescente Vermelho (países islâmicos), que incumbem a organização a empreender trabalho semelhante em situações de violência interna, às quais as Convenções de Genebra não se aplicam.

O CICV financia suas atividades com contribuições feitas pelos governos que participam das Convenções de Genebra, por Sociedades Nacionais de Cruz Vermelha e Crescente Vermelho, por organizações supranacionais (como a União Européia) e por fontes públicas e privadas. Todas as contribuições são voluntárias.

Entretanto, para responder às necessidades urgentes que surgem, o Comitê conta com a disposição de doadores para reunir os recursos necessários em curto espaço de tempo.

Hoje, há sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho em quase todos os países do mundo: 186 Sociedades Nacionais são reconhecidas pelo CICV e admitidos como membros da federação. Cada entidade trabalha em seu país de origem de acordo com os princípios da lei internacional humanitária e do estatutos do Movimento Internacional. Dependendo das circunstâncias específicas e das capacidades, as Sociedades Nacionais podem efetuar tarefas humanitárias que não estão diretamente definidas pela lei internacional humanitária ou pelo movimento internacional.

A Cruz Vermelha de Moçambique é reconhecida como sociedade voluntária de socorros, auxiliar das autoridades públicas, de acordo com os princípios fundamentais do movimento internacional da Cruz Vermelha estabelecidos na Primeira Convenção de Genebra de 1949. Foi fundada em 10 de julho de 1981, reconhecida pelo governo em maio de 1988 e pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha em setembro do mesmo ano. Hoje, conta com mais de 4.400 voluntários ativos (agora mais uma :D).

As áreas prioritárias de intervenção em Moçambique, desde 2001, são: preparação e resposta a desastres; combate contra HIV/SIDA (Aids); saúde e apoio social baseados na comunidade.

As principais operações já realizadas foram: operação contra a seca, com centros de reabilitação nutricional; operação de regresso a casa, de repatriamento de refugiados; programa para criança afetada pela guerra; buscas e reunificação familiar de crianças não acompanhadas; operação na passagem do ciclone Nadya; sensibilização sobre o perigo das minas e assistência às vítimas; operações em virtude de cheias no Sul e Centro do país.

Hoje, as atividades em vigor são: treino de pessoal, voluntários, membros de comunidades em preparação e resposta a desastres e logística; formação de voluntários e líderes comunitários em educação, higiene e cuidados pessoais, nutrição e apoio psicossocial básico para Pessoas Vivendo Com HIV/SIDA (PVCHS) e suas famílias; distribuição de preservativos através de canais culturalmente apropriados; identificação de redes sociais e facilitação da integração familiar de crianças órfãs; distribuição de redes mosquiteiras e educação sobre o seu uso; educação das comunidades sobre o uso correto e tratamento de água para beber; detecção de casos de má nutrição severa para referência para serviços de alimentação terapêutica; estabelecimento de contatos entre familiares através de mensagens Cruz Vermelha para prisioneiros e refugiados; atividades vocacionais, como costura, carpintaria, artesanato; facilitação de transporte de vítimas de minas para centros ortopédicos e apoio com a reabilitação social, entre outros.

Saiba mais, visitando o site da Cruz Vermelha de Moçambique.

Aqui, a história do Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho e do Direito Internacional Humanitário.

Na Wikipédia você lê sobre o Movimento Internacional da Cruz Vermelha e o Crescente Vermelho.

Aids e a cultura local

Uma das coisas mais importantes quando se faz uma ação para contribuir com o bem-estar da população e melhoria da qualidade de vida é ter a preocupação de não ir contra a cultura do público com o qual se vai trabalhar. Com essa preocupação, é possível perceber que pode haver diferentes visões de bem-estar e qualidade de vida. Eu preciso de certos itens na minha vida para ter bem-estar, meu vizinho precisa de outros, alguém que mora em outro país precisa de outros que não têm nada a ver com os dois primeiros. Ou seja, cada indivíduo é único, tem suas crenças e suas preferências e deve ser respeitado como tal.

No Mosanblog já citei algumas vezes a questão da Aids na África (veja aqui e ali). É algo muito presente, porque há um grande número de pessoas infectadas e esse número cresce assustadoramente, inclusive entre as crianças. Então, o assunto está sempre nos jornais, seja porque vão construir uma fábrica de anti-retrovirais, seja porque saiu uma nova pesquisa com o número de infectados, seja porque em algum país só um tipo de profissional está tendo acesso ao tratamento, enfim, todo dia temos notícia sobre Aids. E, em geral, não são das melhores.

Todo dia também tem muita campanha sobre o tema. Na televisão e no rádio, em especial, há propagandas institucionais em todos os horários. Há um consenso de que ninguém quer ter Aids. Aliás, parece que, em geral, ninguém quer ficar doente, não é mesmo? Só quem já tem alguma doença, como um desvio psicológico. Então, fazer campanhas para evitar a disseminação de uma doença é muito louvável.

Mas não é nada louvável ignorar o público para quem se está falando nessas campanhas. Enquanto o vírus HIV/Sida (Aids) está sendo descontroladamente transmitido na África, a USAID (Agência dos Estados Unidos para Desenvolvimento Internacional, na sigla em inglês) patrocina uma propaganda na televisão de Moçambique (e deve fazer em outros países da África também), claramente ignorando as culturas locais, apresentando como solução para a questão da Sida a diminuição de múltiplos parceiros sexuais. É só isso que eles sabem dizer: “sexo só com sua esposa ou seu marido”.

Pela lei moçambicana, a poligamia contraria uma das regras essenciais do matrimônio, que é a igualdade dos cônjuges e foi ilegalizada com a Lei da Família, de 2004. No entanto, a poligamia é aceita e praticada em vários pontos do país. Sabe aquela história da lei que não pega? Então…

O artigo Poligamia: tudo em nome da “tradição”, de Yolanda Sithoe, que está no site da WLSA observa que a questão da poligamia em Moçambique “é interiorizada e socialmente aceite”. Yolanda conta: “Encontrei professores primários com 24 anos de idade, já com duas esposas e vivendo em situação conjugal (casamento e união de facto) há mais de três anos. Questionados sobre o porquê desta opção, respondiam que “a primeira não conseguia conceber, então tive que arranjar uma outra”. Entre os camponeses e vendedores, a situação era justificada com respostas do tipo, “precisava de mais alguém para ajudar na machamba [terreno agrícola para produção familiar] porque o trabalho é muito duro, tenho duas, três machambas e sozinho é difícil”.

Vejam bem. Não estou aqui pregando a poligamia. Até porque seria incoerente com a minha atitude pessoal. Mas ocorre que não podemos impor aos outros o nosso estilo de vida. Eu sou monogâmica, mas entendo que não seja assim para todo mundo.

“No norte de Moçambique, por exemplo, de maioria muçulmana, a poligamia é prática comum. No litoral da mesma região, relações com múltiplos parceiros, especialmente entre os jovens, são aceitas como regra. Já no sul, de maioria católica, os negros com algum poder ou dinheiro têm várias amantes e namoradas, além da mulher em casa.” Essa análise foi feita pelo jornalista Aureliano Biancarelli, no documeno Diário de Moçambique.

O Diário de Moçambique foi produzido pelo programa brasileiro de DST/Aids, que veio ao país por meio de um acordo de cooperação. Ele revela ainda que há a informação de que “os fundos que chegam do governo dos EUA, por exemplo, vêm com o carimbo de que não podem ser usados para incentivar o uso do preservativo. Devem ser gastos para pregar a abstinência, o retardo no início das relações e a redução no número de parceiros. Algumas instituições religiosas vão pelo mesmo caminho.” Como assim? Mandam o dinheiro para resolver um problema tão sério, mas mandam junto seus valores, suas convicções, seus padrões de comportamento e, assim, o recurso se torna muito menos eficaz.

Isso é muito triste, porque mostra claramente que não estão querendo resolver o problema e sim mudar a cultura de um povo. Talvez a poligamia deva mesmo ser discutida, devido à questão das igualdades de direitos entre homens e mulheres, pelo subjugar de um gênero pelo outro e porque podemos vir a entender que não é o melhor. Mas isso leva décadas para acontecer. Não se muda crenças religiosas e culturas tradicionais assim, com campanha na televisão. E a questão da Sida é urgente.

O que vejo como solução mais imediata é a disseminação do uso da camisinha. Com quantos parceiros a pessoa tiver, usar sempre o preservativo. E, em paralelo, a realização do teste de HIV. Porque a questão da procriação aqui também é muito forte. Não ter filhos não é o normal. Logo, usar preservativo, que evita engravidar, também não é normal. Desta forma, o melhor é fazer campanha para ter o teste e, uma vez detectado que aquele casal não tem HIV, aí sim, que se deixe engravidar. Além disso, é preciso informação, muita informação, especialmente para esses que decidem engravidar e vão ter relações sexuais sem camisinha. Mas informação útil e adaptada ao público ao qual se destina.

Campanhas nessa linha são feitas pelo próprio governo de Moçambique, com o slogan “Prova teu amor, faça o teste de HIV/Sida comigo”, e pelo governo brasileiro aqui na África, com distribuição de camisinhas. Eduardo Castro mostrou na TV Brasil uma ação que foi feita em África do Sul, durante a Copa 2010. Acompanhe aqui.

É… acordei meio azeda hoje – ou fiquei depois que fui às notícias

Tenho muitas restrições às grandes organizações. Sejam grandes empresas ou grandes órgãos de representação ou grandes organizações não governamentais. Pela minha experiência, quanto maior, mais se afasta de seu objetivo, menos o beneficiário é de fato beneficiado.

Hoje estão divulgando por aqui uma notícia da rádio ONU (Organização das Nações Unidas – algo pode ser maior que as Nações Unidas? Ainda que não sejam todas as nações, vamos considerar que maior que isso só o dia que tivermos os planetas unidos!). Enfim, a notícia divulgada é que o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, vem à África pela terceira vez no espaço de um mês e diz que suas visitas estão a reforçar sua convicção de que a região irá cumprir as Metas do Milênio.

É chique isso, não? A África, que sempre está lá no fim das listas de desenvolvimento, vai cumprir as Metas do Milênio.

Seria um lindo dia, se eu não tivesse me proposto a ter outras informações além daquelas que a ONU divulga por aí. E então, descobri que em Moçambique, 85 bebês são infectados pelo HIV diariamente e cerca de 149 mil mulheres grávidas vivem com o vírus no país. E esses dados são do Unicef – o Fundo das mesmas Nações Unidas para a Infância e Adolescência.

Na Suazilândia, país vizinho aqui, o índice de mortalidade registrou aumento acima do dobro durante a última década. Por que isso? Consequência dos efeitos da pandemia do HIV/Sida (Aids), de acordo com o Gabinete Central de Estatísticas do país.

Em matéria do jornal O País desta terça-feira, são apresentadas estatísticas das Nações Unidas (olha elas aí de novo!) indicando que o índice de prevalência do HIV na Suazilândia, é de 40%, o mais elevado do mundo inteiro.

Então, se estamos mesmo a atingir as Metas do Milênio até 2015, ou é preciso correr muito, ou rever as metas.

É por isso que eu me afasto cada vez mais dos gigantes e sigo fazendo meu trabalho de formiguinha.

Mulungos gostam maningue de andar de chopela

Aqui em Moçambique quase todas as pessoas falam, pelo menos, dois idiomas. O oficial do país é o português, mas a Constituição trata outros quase 30 idiomas bantu (um dos troncos linguísticos africanos) como “línguas nacionais”. O português faz a ligação entre os povos. Mas nem todo moçambicano fala português.

Para nossa sorte, em Maputo, onde vivemos, fala-se português em todos os lugares, então sempre somos compreendidos. Mas todos falam também seu segundo idioma. E aqui na região, um dos mais comuns é o changana.

Então, não é raro ouvir uma frase onde o poliglota moçambicano se expressa misturando palavras de changana com português. Fica muito divertido. O título desse texto, por exemplo, só em português seria: Os brancos gostam bastante de andar de moto-táxi.

chopela

Chopela, a última palavra, é o nome desse simpático triciclo motorizado que está na foto e é usado aqui como um táxi alternativo, mais barato do que o carro. Tem que aguentar o barulho do motor na cabeça, mas os mulungos (pessoas de origem estrangeira, brancos) realmente se divertem com algo que não têm em seus países.

O uso dos termos changana é tão comum, que entra até em campanhas publicitárias. Na televisão, está no ar agora uma campanha para a diminuição de múltiplos parceiros sexuais. O anúncio diz que ter relacionamentos extraconjugais é maningue (bastante) arriscado. O foco é o alto índice de portadores de HIV/Aids (cerca de 16% da população com idade entre os 15 e 49 anos). Abaixo, a marca da campanha. Sobre o conteúdo falaremos em outro momento…

campanha prevenção HIV/Aids

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