Partir mais uma vez

Nascer do sol em África

Enfim, aqui estou eu pela segunda vez em um avião que deixa para trás Moçambique. Foi uma despedida singela, um dia normal, jantar em casa, com alguns amigos, mas não todos. Afinal, em breve vamos nos ver de novo.

O caminho já não parece tão distante. E dessa vez é mesmo menor, sendo que, sem o Otto, não preciso ir via Lisboa. E para pequenas temporadas o Otto pode sempre ficar em casa, tranqüilinho, feliz à minha espera.

A curta estadia também me faz suportar melhor as diferenças que me incomodam e diminui as probabilidades de cenas com as quais eu não sei conviver, como um guarda a pedir dinheiro porque tem fome ou o fato do governo ter aplicado esse ano um aumento significativo (e necessáario) no salário mínimo e algumas empresas onde eu perguntei ainda não estarem praticando. E provavelmente não vão praticar.

Mas a distância de alguns meses fora também ajudou a perceber melhor as mudanças positivas que se deram, como já contei no texto Mudanças acontecem. Devagar… Enfim, acho que encontrei uma fórmula boa para conviver e contribuir com Moçambique: nunca deixá-lo, mas não ficar imersa por muito tempo.

Neste vôo de volta, o que me acompanha é a sensação de que Moçambique não me pertence mais, mas que parte de mim sempre vai pertencer a Moçambique.

Mateus foi roubado

Mateus é funcionário na escola infantil (infantário, como dizem por aqui) da minha amiga Sandra. Ele é personagem sempre de muitas histórias, especialmente, porque, como eu digo à minha amiga, ele é pura literatura. Faz as besteiras dele, mas explica isso com um português tão singelo, que tudo fica pelo menos inusitado.

O jovem deve abrir os portões da escolinha todos os dias. Manhã dessas, a Sandra chegou lá e o portão dos funcionários estava aberto, mas o das crianças entrarem ainda não. Sandra perguntou por ele e ninguém mais o tinha visto depois de abrir o portão dos funcionários.

Os meninos já iam começar a chegar, Sandra pediu que outro funcionário fosse atrás dele. Não estava em toda a escola, não estava no banheiro (ou casa de banho, como se diz em Maputo), foram procurar à casa dele, que fica mesmo atrás da escolinha.

Em minutos, Mateus aparece, vem da casa dele, pedindo desculpas: “Patroa, fui roubado, patroa”. “Mas como te roubaram, Mateus? Levaram a chave da escola?”. “Patroa, o sono me roubou”.

Eduardo já havia escrito outra história de Mateus. Veja lá no ElefanteNews.

Fim?

folhas no chão no jardim dos professores junho 2011

Os primeiros seis meses foram de encanto. O segundo semestre foi de choque cultural (sim, por mais estranho que seja, o choque se deu tempos depois). O terceiro semestre foi de desconforto*.
Era tempo de pensar em ir embora.

O Mosanblog não será o primeiro nem o último com vida curta. Muitos dos blogs que venho freqüentando desde antes de minha passagem pela África são assim. As pessoas criam o espaço para dividir com o mundo suas impressões desse continente mágico e suas impressões são, muitas vezes, por períodos curtos. Alguns, mesmo depois de deixarem a África, continuam seu trabalho de divulgação. Outros não. Acho que o Mosanblog vai se enquadrar na segunda categoria.

Mas vai continuar no ar, para servir de pesquisa a todos que se interessam pelo assunto. Pelo menos essa é minha intenção, até enquanto o WordPress permitir. Sempre que possível procurei incluir citações, referências e links nos textos, para que as pessoas interessadas em aprofundar seu conhecimento sobre o tema tenham essa oportunidade. Acho que isso é importante, especialmente pela pouca (e, às vezes, equivocada) divulgação que temos normalmente da África.

E devo dizer que, ao visitar as estatísticas do blog, na área administrativa, nada me dava mais alegria do que perceber que quando os diferentes mecanismos de busca da internet direcionavam as pessoas para o Mosanblog, elas encontravam de fato a resposta que procuravam.

Nesse período tanta coisa aconteceu que parece terem sido décadas e não anos. Em Moçambique, assisti a casamentos, despedidas dos mortos, aniversários, celebrações de datas cívicas, rituais… Trabalhei com públicos muito diversos, e tudo isso enriqueceu bastante minha experiência.

O Eduardo fez muita matéria interessante, nos ajudando a conhecer e entender um pouco mais desse mundão que fica sempre tão escondido dos outros continentes. O Guilherme deixou a marca dele por muitos lugares, inclusive no cardápio do Coisa Nossa, que agora tem o Sandes Guilherme. E o Otto passeou por lugares e viu coisas que jamais um cãozinho nascido no meio do cerrado brasileiro poderia sonhar.

Foi muito bom também acompanhar a interação entre os leitores. Muitas vezes, pessoas que eu sei não se conhecerem, trocaram idéias de forma tão leve e descontraída que pareciam todos amigos, participantes de uma confraria qualquer… a confraria dos que se relacionam com África, talvez.

Desde o início do Mosanblog, foram oferecidas mais de 300 colheres de ração para cães que sofreram maltratos, por meio de respostas às pesquisas da Socialvibe, aqui na lateral direita do blog. E espero que os leitores continuem contribuindo com mais cliques, uma vez que o blog vai continuar no ar.

Foram 374 textos publicados. Entre eles, 73 Quintas Quentes, onde ouvimos música de 19 países africanos e também de brasileiros que cantaram a África e na África.

Fico pensando agora no que vou encontrar no retorno ao Brasil (para onde estou a caminho nesse momento) e me vem a certeza de que não vou encontrar nada como estava antes de eu partir, porque, afinal, eu que volto já não sou a mesma.

A verdade é que foi pouco tempo para perdermos as referências, mas também foi tempo demais para as mantermos inalteradas. Era algo que eu precisava viver e agradeço por ter vivido.

* O desconforto foi causado por situações como as descritas na série De como os mulungos sofrem e nos textos Será que paguei propina? e Casei com Moçambique.

Os gatos da EdM

Se eu visse a cena abaixo em qualquer cidade, chamaria na hora o piquete (como dizem plantão por aqui) da empresa de energia…

Mas depois de ter vivido em Maputo tantas histórias onde a própria EdM — Eletricidade de Moçambique fez gambiarras na minha frente, já nem perco meu tempo.

Para conhecer ou lembrar essas histórias leia os posts de 16 de março de 2011, À espera da EdM, e de 26 de março de 2011, A EdM voltou.

Apesar da lista

Tem alguns assuntos que entram em pauta, vão embora, depois voltam… ficam nos rodeando, até que não dá para não falar. O do sr. Bachir é um deles. A história começou há mais de um ano. O gajo em questão, Mohamed Bachir Suleman, foi citado em uma lista divulgada pelos Estados Unidos em junho de 2010 como narcotraficante de grande escala. Cidadão moçambicano, por aqui ele é oficialmente empresário — presidente do grupo MBS — e apoiador da Frelimo.

Bachir negou, claro, qualquer envolvimento com o narcotráfico. O governo moçambicano disse que faria sua própria investigação. Esta semana, a Procuradoria Geral da República de Moçambique informou que, após averiguações, não foram encontrados indícios suficientes da prática de atos que “consubstanciem o tráfico de estupefacientes ou substâncias psicotrópicas pelo referido cidadão”.

A embaixada dos EUA em Maputo mantém a posição de que há “evidências suficientes” para considerar o empresário moçambicano Mohamed Bachir Suleman “barão de droga”. Em comunicado, a representação diplomática norte-americana diz que as violações fiscais e aduaneiras encontradas nas atividades do grupo empresarial de Mohamed Bachir Suleman “em muitos casos servem como base para investigações de tráfico de estupefacientes e outros” atos ilegais, de acordo com notícia da agência Lusa, divulgada no blog Moçambique para todos.

Enfim, é um diz que diz que não vale a pena entrar no mérito, porque apesar de, nas ruas, todos concordarem com a grande possibilidade da acusação ser verdadeira, provas não há.

Mas resolvi entrar na história para contar uma situação inusitada que se criou a partir dessa acusação. O Bachir é dono do Maputo Shopping e do mercado Hiper Maputo que se encontra no mesmo shopping. Quando o governo dos Estados Unidos divulgou seu nome como possível narcotraficante, algumas empresas optaram por não mais ter relacionamento com o camarada, até que a situação se esclarecesse. Em menos de um mês, dois bancos (Millenium bim e Barclays) que tinham agências no shopping, saíram.

Além disso, a rede de cartões Visa (única presente no país) também tomou sua posição: tirou as máquinas do Hiper Maputo, impedindo assim que fossem aceitos pagamentos em cartão de crédito ou débito. Quando isso aconteceu, foram afixados avisos no mercado de que, por uma “avaria grave no sistema”, não estava sendo aceito cartão no estabelecimento. Pagamentos só em dinheiro.

Todo mundo sabia do que se tratava a avaria grave no sistema. Ficou até ridículo o aviso. Mas fato é que mais de um ano se passou, o aviso da avaria grave continua lá, as pessoas continuam comprando no mercado e não me consta que o sr. Bachir esteja mais pobre ou muito preocupado com as listas que se divulgam por aí com seu nome.

Veja mais sobre o caso Bachir no jornal O País e no Moçambique para todos.

É hoje o Eid

Até ontem o fim da tarde, não se sabia ainda se hoje seria o dia do Eid ou não. Pela manhã, eu ouvi duas pessoas conversando sobre isso em uma loja e o senhor dizia à senhora que à noite provavelmente se confirmaria porque o céu já estava menos nublado. No fim da tarde, fui à mercearia vizinha aqui de casa e perguntei ao dono, muçulmano: já sabem se amanhã vai ser o dia do Eid? Ele disse que esperavam a confirmação para a noite.

Explico: como já contei, os muçulmanos estavam vivendo o mês do Ramadã. Ele termina quando a lua nova é avistada no céu. Ocorre que antes de ontem o céu estava muito nublado e não foi possível avistar lua nenhuma. A expectativa toda era que ontem se pudesse avistar a lua nova e anunciar, então, o início do mês Shawwal.

Este mês começa com o Eid al Fitr (ou Eid ul-Fitr, encontrei as duas formas), que na verdade é يد الفطر, em árabe. Significa algo como a celabração da quebra do jejum. No primeiro dia do novo mês, os fiéis, ainda em jejum, vão para a mesquita de manhã, realizar uma oração especial. O dia celebra o fim do jejum e é dedicado a agradecer a força que foi recebida de Alá para passarem por ele.

Nesse dia é comum a troca de presentes e as pessoas usarem roupas novas. Eid também é uma época tradicional de perdão e reconciliação. Fazendo uma comparação com o nosso calendário, acho que seria como o ano novo.

É também o momento de pagar o Zakatul Fitr (caridade do desjejum). O chefe da família dá comida ou dinheiro aos pobres, em um valor mínimo determinado pela religião. Isso é feito antes da oração do Eid, para que o jejum esteja completo e seja aceito. Se for pago depois não tem validade como caridade do desjejum, é apenas uma boa ação. O objetivo é proporcionar às pessoas menos favorecidas a oportunidade de participarem da festa do desjejum, podendo preparar doces ou uma refeição melhor, comprar roupas novas e brinquedos para as crianças.

O Eid dura três dias, mas, aqui em Maputo, os estabelecimentos comerciais de muçulmanos costumam ficar fechados só no primeiro dia. Esse ano, hoje é o dia. Então, nada de comprar carne halal no açougue mais próximo, nada de fazer comprinhas na mercearia da esquina (geralmente são de muçulmanos) e até mesmo algumas lojas dos centros comerciais estão fechadas…

Veja mais sobre o Eid ul-Fitr na Wikipedia, no Patopor.com e nos blogs A mulher no Islam e O islam é….

Encontro de culturas

Uma polonesa (polaca, como dizem aqui) deu uma festa na casa dela um sábado desses. Convidou gente de diversas nacionalidades. O convite foi o mesmo para todos: “Sábado vamos reunir uns amigos lá em casa. Esperamos você lá às 20h”.

Os ingleses chegaram às 20h. Seguidos dos poloneses que chegaram uns cinco minutos depois. Entre 20h30 e 21h chegaram italianos.

Às 23h, os poloneses já estavam saindo (“afinal, a dona da casa tem uma filha bebê, não seria adequado ficar até mais tarde”, “os donos da casa não têm empregada, precisariam ainda arrumar a casa”…) e encontraram na escada, a chegar, os moçambicanos.

Assim é a divertida vida em uma capital, sempre com muitas nações, hábitos e culturas convivendo.

O mundo na cabeça e o futuro nas costas

Elas carregam o mundo na cabeça e o futuro nas costas. Assim são as mulheres africanas. Em Moçambique, já ouvi muitos homens assumindo que elas é que definem a política do país. A OMM (Organização da Mulher Moçambicana) é respeitada e ouvida pelas principais figuras nacionais.

E essas mulheres tão fortes, tão influentes, carregam pelas ruas do país, literalmente, tudo na cabeça. É difícil andar pela cidade sem cruzar uma mulher que esteja carregando quilos de frutas, sacolas com roupas, madeira e lenha, botijão de gás e o que mais for necessário, sempre na cabeça. E isso se repete por toda a África. Matéria da AngoNotícias, de Angola, conta que as mulheres trabalham até mesmo em transporte de carga pesada, lado a lado com homens.

Muitas vezes, nas costas estão crianças dormindo placidamente ou a brincar com os cabelos ou colares da mãe. As mãos da mulher ficam livres para poder cortar as frutas, embalar os produtos que vendem ou contar o dinheiro. Há mulheres que trabalham até mesmo em serviços de limpeza com a criança às costas.

Para colocar o filho nesta posição, é simples: a mãe se curva para a frente, coloca o bebê com a barriga encostada nas suas costas, coloca a capulana por cima do bebê e enrola o tecido em volta dela, prendendo o bebê. É possível ver crianças de até cerca de três anos carregadas dessa maneira.

Há quem diga que as mulheres fazem assim para ficarem com as mãos livres e poderem fazer outras coisas além de carregar o que precisam. Outros dizem que é porque o peso na cabeça dá a sensação de ser mais leve, mais bem distribuído para ser carregado. Se perguntamos às mulheres, elas riem e nem sabem explicar. Aprenderam assim, sempre fizeram assim, nunca pensaram em fazer diferente…

Cientificamente, o que temos é uma pesquisa da Universidade de Tecnologia da Cidade do Cabo sobre o assunto. Em 2010, o blog Formação Adicional divulgou o resultado, informando que carregar objetos na cabeça “não é mais eficiente do que as outras maneiras e ainda causa dores fortes no pescoço”. De acordo com a pesquisa, não se gasta menos energia ao carregar o objeto na cabeça e a quantidade de oxigênio consumida é a mesma.

Mas, por aqui, as mulheres continuam seguindo a tradição.

Veja mais sobre as formas como as mães carregam seus filhos no site Amanhecer da Verdade.

Leia mais sobre a pesquisa da Universidade de Tecnologia da Cidade do Cabo no texto Mais um mito é derrubado.

Não se pode ter tudo

Estávamos sem sinal da TV a cabo em casa. Chamamos o técnico. Uma hora antes do mesmo chegar, perdi a conexão com a internet. Coisa não rara por aqui.

Chegou o técnico e logo reparou a questão da TV a cabo. Pedi que visse o problema da internet, uma vez que se trata da mesma empresa. Ele detectou que a freqüência do sinal que chega da rua estava baixa. Teria que vir outro técnico para resolver, especialista em rede.

Passamos a ter os canais a cabo, mas não a internet. Não se pode ter tudo, afinal…

Passadas mais de doze horas veio a solução da internet e aproveito para contar a história aqui. Rápido, antes que caia novamente.

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