Sabonetes de quase todo o mundo

Moçambique tem poucas indústrias. Portanto, boa parte dos produtos que encontramos nos mercados é importada. Em um só estabelecimento é possível comprar, por exemplo, sabonetes de diversos países. Tantos quantos eu nunca vi em um mesmo lugar no Brasil.

Os preços variam também. Assim como em qualquer lugar, referente a qualquer produto, dependendo da marca, do tamanho, da qualidade. Compra-se sabonete desde o equivalente a R$ 0,75 até mais de R$ 6,00.

Sabonete de Dubai

Dubai

Sabonete da Espanha

Espanha

Sabonete dos Estados Unidos da América

Estados Unidos

Sabonete da França

França

Sabonete da Índia

Índia

Sabonete do Paquistão

Paquistão

Sabonete de Portugal

Portugal

Sabonete do Vietnã

Vietnã

Sabonetes da Tailândia

Tailândia

Encontrei até esse Lux, nosso conhecido no Brasil, mas que não é do Brasil e não consegui descobrir de onde é. Se alguém identificar…

Sabonete Lux

E não tem sabonete brasileiro? Incrivelmente, nessa variedade toda que encontrei, não vi nenhum da Indústria Brasileira. Pelo menos não nesse mercado. Mas isso não significa que a nossa indústria não esteja bem representada por aqui, em vários outros produtos, o que é assunto para um outro dia…

É… acordei meio azeda hoje – ou fiquei depois que fui às notícias

Tenho muitas restrições às grandes organizações. Sejam grandes empresas ou grandes órgãos de representação ou grandes organizações não governamentais. Pela minha experiência, quanto maior, mais se afasta de seu objetivo, menos o beneficiário é de fato beneficiado.

Hoje estão divulgando por aqui uma notícia da rádio ONU (Organização das Nações Unidas – algo pode ser maior que as Nações Unidas? Ainda que não sejam todas as nações, vamos considerar que maior que isso só o dia que tivermos os planetas unidos!). Enfim, a notícia divulgada é que o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, vem à África pela terceira vez no espaço de um mês e diz que suas visitas estão a reforçar sua convicção de que a região irá cumprir as Metas do Milênio.

É chique isso, não? A África, que sempre está lá no fim das listas de desenvolvimento, vai cumprir as Metas do Milênio.

Seria um lindo dia, se eu não tivesse me proposto a ter outras informações além daquelas que a ONU divulga por aí. E então, descobri que em Moçambique, 85 bebês são infectados pelo HIV diariamente e cerca de 149 mil mulheres grávidas vivem com o vírus no país. E esses dados são do Unicef – o Fundo das mesmas Nações Unidas para a Infância e Adolescência.

Na Suazilândia, país vizinho aqui, o índice de mortalidade registrou aumento acima do dobro durante a última década. Por que isso? Consequência dos efeitos da pandemia do HIV/Sida (Aids), de acordo com o Gabinete Central de Estatísticas do país.

Em matéria do jornal O País desta terça-feira, são apresentadas estatísticas das Nações Unidas (olha elas aí de novo!) indicando que o índice de prevalência do HIV na Suazilândia, é de 40%, o mais elevado do mundo inteiro.

Então, se estamos mesmo a atingir as Metas do Milênio até 2015, ou é preciso correr muito, ou rever as metas.

É por isso que eu me afasto cada vez mais dos gigantes e sigo fazendo meu trabalho de formiguinha.

Até tu, Brutus?

Quem me conhece sabe que nunca fui amiga de praia. Sempre troquei um passeio no mar por qualquer outro. Mas agora, morando em Maputo, me pego todos os dias apreciando essa calma maravilhosa que vem do mar.

praia em Maputo

Um dia que eu fico sem essa visão, já sinto falta.

Mar Maputopraia na verticalNavio

Quem te viu, quem te vê…

Published in: on 27/06/2010 at 15:54  Comments (6)  
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Dia da Independência

Foi ontem, 25 de junho. Comemorou-se em Moçambique os 35 anos que o país deixou de ser colônia de Portugal. É estranho para uma brasileira estar em um país que deixou de ser colônia de Portugal quando eu já era nascida. A independência do Brasil foi algo que estudei na escola, como fato distante, lá do começo de nossa história…

E pensar que Moçambique foi invadido por Portugal dois anos antes o Brasil. Nós, em 1500, eles em 1498. Mais exatamente em 2 de março de 1498, foi quando a armada comandada por Vasco da Gama, completando o contorno da costa africana, aportou nas terras de Moçambique.

Em entrevista a um caderno especial do jornal O País, o ex-presidente de Moçambique, Joaquim Chissano, lembra do período em que foi primeiro-ministro durante o primeiro governo independente, liderado por Samora Machel: “O nosso país, contrariamente a alguns do continente africano, não teve uma experiência de transição com a participação de um governo colonial. Então, tivemos que descobrir como faziam os colonialistas, mas animava-nos a idéia de que não queríamos, pura e simplesmente, herdar do colonialismo, queriamos criar coisas novas”.

O 25 de junho no palco montado na praça da Independência começou com a chegada da tocha da Chama da Liberdade, que nas últimas semanas percorreu as onze províncias (seriam os estados no Brasil) do país. Então, o presidente Armando Guebuza acendeu a pira ao som de 21 salvas de canhão.

Mesmo tendo sido realizadas apenas 35 festas de independência, já fazem diferença positiva em alguns aspectos: após a recepção da Chama da Liberdade, a abertura do evento teve três orações — uma feita pelo arcebispo, outra pelo sheik mulçumano e a última por um pastor protestante. Acho isso positivo, porque, se tem que colocar religião no meio, que se dê direito à pluralidade. Apesar que vou gostar mesmo do dia que não tiver religião envolvida com Estado…

Depois, claro, teve o desfile militar e o desfile civil, com os estudantes de escolas públicas. Essa parte foi bem parecida com o que vemos todos os anos no 7 de setembro no Brasil. Então, ex-combatentes que lutaram pela independência discursaram no palco. E o mais interessante é que os discursos eram alternados com apresentações culturais típicas de cada província. O presidente Guebuza assistindo a tudo, para discursar no final. Gostei de ver o presidente assistindo às manifestações culturais.

E não foi só ele, estavam lá convidados como os presidentes do Zimbabwe, Robert Mugabe, e de Botswana, Ian Khama, os reis do Lesotho, Letsie III, e da Suazilânidia, Mswati III, além de embaixadores e ministros de negócios estrangeiros de dezenas de países que mantém relações diplomáticas com Moçambique.

Após uma tarde de descanso, o dia acabou aqui na frente de casa, no salão de festas da Presidência…

atrás do muro branco, o salão de festas da presidência

Muro do salão de festas da casa do Presidente de Moçambique, visto da janela da sala de nossa casa

Véspera de feriadão é tudo igual

Não tem jeito, véspera de feriadão, basta ser uma cidade que tem carros, para o congestionamento aparecer. Hoje, véspera da Independência de Moçambique, até Maputo teve o seu momento.

Congestionamento na véspera do 25 de junho

Rua Vladimir Lenine, às 16 horas

Published in: on 24/06/2010 at 16:50  Comments (2)  
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Qual é a música?

Samba é a música do Brasil. Tango, da Argentina. Rumba é cubana. E em Moçambique? Moçambique dança a marrabenta. E é disso que vou escrever um pouco nessa nossa segunda Quinta quente no quinto virtual…

A marrabenta apareceu nos anos 1950, em Lourenço Marques, a capital do país (hoje chamada Maputo). O nome deriva do verbo “arrebentar” e o som tem influências da cultura tradicional moçambicana e portuguesa. As letras tratam desde detalhes da vida cotidiana até fatos históricos de Moçambique.

Originariamente, a marrabenta é tocada em acústico por um cantor do sexo masculino, acompanhado por um coro de mulheres. Entre os mestres da marrabenta estão Francisco Mahecuane Alexandre Langa, Lisboa Matavele, Abílio Mandlaze e Wazimbo.

Conheçam o ritmo:

E para completar, um vídeo de 1970, que explica a Marrabenta:

Persistência

Quarta-feira é dia de manifestação nas ruas de Maputo. Toda quarta-feira. Sempre a mesma manifestação. Já a encontrei várias vezes. Perguntei a algumas pessoas ao meu lado o que se passava e as respostas foram sempre vagas — como quem não soubesse direito ou não achasse bom contar: “manifestam contra a Alemanha… é por um dinheiro que deviam ter recebido do governo alemão por terem trabalhado lá… dizem que a Frelimo (partido no poder em Moçambique) ficou com um dinheiro que era deles…”

Magermanes na avenida 24 de julho

Até que fui aos manifestantes entender o que se passava. Caminhei ao lado deles durante algum tempo na avenida 24 de julho e me explicaram que os que ali estavam foram contratados por meio de um acordo de cooperação entre Moçambique e a República Democrática Alemã (RDA) ou Alemanha Oriental, que levou mais de 20 mil moçambicanos àquele país, em 1979.

madgermanes com cartazesConhecidos como Madgermanes, trabalhavam lá em cerca de 200 fábricas e empresas e o governo alemão passava ao governo moçambicano os valores descontaos nos salários referentes aos direitos de segurança social e outros benefícios. De acordo com os trabalhadores, estava previsto nos contratos de trabalho que esses recursos seriam recebidos quando regressassem à Moçambique. No entanto, eles alegam que esses benefícios nunca foram recebidos, desde quando retornaram ao seu país, em 1989. É isso que reivindicam, toda quarta-feira.

E eles se dizem preocupados, porque muitos estão vivendo em condições precárias e esse dinheiro ajudaria muito. Sem contar os que têm problemas de saúde e podem vir a falecer sem receber antes os direitos reivindicados.

A ministra do trabalho de Moçambique, Maria Helena Tipo, já declarou, em entrevista ao Canalmoz e ao Canal de Moçambique que o caso dos madgermanes estava encerrado. No entanto, na quarta-feira seguinte, os manifestantes lá estavam. E na próxima e na próxima e até hoje.

De acordo com o site Moçambique para Todos “o director nacional do Serviço Migratório, Paulino Muthombene, veio dizer que ainda há mais de 1.700 regressados da ex-RDA que ainda não receberam os valores que lhes foram descontos quando se encontravam emigrados”.

Há ainda a informação de que a maior parte dos que não foram pagos não tinham apresentado toda a documentação, o que aconteceu agora. De acordo com o Serviço Migratório muitos madgermanes já receberam seus pagamentos. Para o governo, há divergências de cálculos em alguns casos, mas estão a ser resolvidas.

Madgermane com cartazNão é o que pensam os madgermanes. Nessa quarta-feira eles passaram pela avenida 24 de julho, subiram a avenida Julius Nyerere, entraram na avenida Mao Tse Tung e foram até a sede de sua associação, onde vão se encontrar novamente na próxima quarta-feira e repetir o ato.

Pode falar português!

Quem não me conhece pessoalmente pode conferir nas fotos do Mosanblog que sou branca. Mas branca mesmo. Sempre que tenho que preencher algum formulário com aquela parte de cor da pele ou raça ou etnia, fico procurando a opção “transparente”. Porque eu nem chego a ser branca de tão clara que sou. Quando vou tirar sangue é uma beleza, a veia está sempre lá, à mostra. Nem precisa dar aquela batidinha no braço, para ficar mais visível, a pele não interfere em nada para achar a veia.

E em Moçambique, estão muito acostumados com brasileiros, mas as pessoas transparentes, normalmente, vêm da Europa, não do Brasil. Afinal, aqui estão acostumados com estrangeiros de toda parte. Daí que sempre acham que sou alemã, holandesa ou qualquer outra coisa de uma terra que receba muito pouco a visita do sol.

Para nossa alegria, aqui gostam bastante de brasileiros. Afinal, somos muito parecidos: alegres, receptivos, dispostos, bem humorados, festeiros, lutadores, fomos colonizados pelos mesmos senhores… Então, ser reconhecida como brasileira é bom. De forma que, logo nas primeiras semanas eu já percebi que quando entro em alguma loja ou vou a um restaurante ou café, eu tenho que sempre me adiantar à pessoa que vai me atender e falar um “Olá! Bom dia!”, em bom português, para ficar claro que apesar da aparência, falo português.

Mas o problema está quando as pessoas é que vêm me abordar. Andando na rua com o Otto, por exemplo, sempre vem alguém fazer um comentário… afinal, o cãozinho é simpático à beça, viu? E aí, chegam falando inglês. Ai, meus céus… inglês!!! Tenho cara de gringa? Tenho, o pior é que tenho. E eu fico tão frustrada. Porque o português é nosso elo de ligação, é o que mais me aproxima dos moçambicanos. É o que me faz conseguir mais facilmente penetrar na cultura deles e viver como eles.

Mas brasileiro é assim mesmo. Não tem cara, não tem cor. Meu marido Eduardo costuma dizer que se em uma mesa de um restaurante estiverem sentados, um alemão, um japonês, um indiano e um moçambicano, poderiam todos ser brasileiros. Porque o brasileiro é a mistura de tudo isso.

As agências de publicidade ainda não perceberam e em seus anúncios a família representada é sempre francesa (brancos e magros). Mas nas ruas a gente vê que não é assim. E eu venho desse lugar, onde todo tipo de gente fala português, até os branquelos…

Published in: on 22/06/2010 at 17:45  Comments (2)  
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Otto solidário

Neste domingo, a Associação Sorriso da Criança, de Moçambique, que ajuda crianças com cancro (é como se diz câncer no mundo lusófono fora do Brasil), promoveu uma caminhada em Maputo. Às 7h da manhã, o Otto já estava pronto para começar.

Otto aguardando o início da caminhada

Para ganhar a camiseta, era feita a inscrição por MT 150,00 (cerca de R$ 8,00). O valor arrecadado será destinado ao tratamento das crianças. Foi uma agradável manhã de domingo, mas ao final, estávamos bem cansados…

Otto aguardando o início da caminhada

Início da caminhada

Mesmo com o frio da manhã, muita gente se animou...

a caminhada indo

... e seguiu a marcha solidária

caminhão de apoio

Caminhão de apoio

A filosofia dos índios

Quando eu ainda morava na casa dos meus pais, várias vezes ouvi meu pai dizer que não tinha arrumado alguma coisa que estava fora do lugar em respeito a quem deixou lá. Então, se tinha um lençol no chão da sala (exemplo extremo, tá?), ele passava por cima e nem pensava em tirar e guardar.

Ele justificava a atitude com a “filosofia do índio”. De acordo com ele, entre os indígenas havia o hábito de agir assim, porque se alguém deixou algo no chão, havia alguma razão para isso e então era para ficar lá. Não sei se em alguma cultura indígena isso confere, mas para mim sempre soou como uma boa desculpa para não fazer as coisas.

De toda forma, o outro extremo, de sempre mexer no que achamos que está fora do lugar também não é bom. Essa semana tive um exemplo disso. Caminhando na minha rua de manhã cedo vi, debaixo de uma árvore, diversas tampinhas no chão. Meu primeiro impulso foi pegá-las e guardar para algum trabalho manual ou jogar no lixo.

Mas eu estava com o Otto e ia ser uma confusão para conseguir atingir meu objetivo. Quando eu me aproximasse das tampinhas, ele viria também, até porque ele só sai com coleira e guia, então sempre vai na direção que eu vou. Ele certamente pegaria uma com a boca e eu ficaria louca tentando tirar aquilo da boca dele… ou seja, as tampinhas lá ficaram.

No dia seguinte, passei um pouco mais tarde pela mesma árvore e as tampinhas não estavam mais lá e sim no “tabuleiro” que tinha sido desenhado no chão:

Tampinhas como peças de um jogo

E dois vendedores de frutas que ficam naquela calçada, perto da árvore, estavam lá jogando e passando o tempo entre um freguês e outro. Ou seja, a árvore é o armário das peças do jogo… ainda bem que não tirei do lugar.

Published in: on 19/06/2010 at 09:07  Comments (3)  
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