Quatro filmes de um festival

Acabou a 6a edição do Dockanema e consegui assistir apenas quatro filmes, sendo que um deles foi Os Fuzis, do Ruy Guerra, diretor homenageado do ano.

Depois, assisti Robert Mugabe… what happened? (Robert Mugabe… o que aconteceu?), que retrata a ascensão e perda de controle do presidente Robert Mugabe, do Zimbábue. Há 30 anos no poder, já foi condenado como terrorista e nomeado cavaleiro pela rainha Elizabeth. Um homem de contradições, em um país também assim, dentro de um continente mais assim ainda, de um planeta que nem se fala… O filme é baseado em entrevistas, quase todas com alguns dos camaradas de Mugabe.

O terceiro foi Tambores, do qual já tinha falado um pouco no post Tambores do mundo em Maputo. Filmado em seis países, o documentário mostra como o tambor está presente em sociedades tão distintas e é um instrumento democrático, usado em diferentes situações, por diferentes tipos de pessoas e que pode ser feito de forma tradicional, utilizando materiais rústicos, ou com materiais sintéticos. O melhor do filme é guardado para o final, quando… bom, final de filme não se conta, não é? Mesmo sendo documentário. Procurem assistir e surpreendam-se também.

No último dia do festival, fui compreender um pouco mais das difíceis relações políticas na África, no documentário An African Election (Uma eleição africana), que retrata as eleições presidenciais de 2008 no Gana, que foram para o segundo turno e, no final, com um resultado muito difícil de ser apurado, a comissão eleitoral acabou optando por um terceiro turno em um dos distritos do país. Lembra muito a eleição de George Bush em 2000, que foi definida depois de muita recontagem de votos na Flórida.

Recomendo todos os que vi e lamento pelos que não vi… mas ainda vou procurá-los por aí, porque sei que a seleção do Dockanema costuma ser de boa qualidade.

Tambores do mundo em Maputo

Ritmo e tambor são duas palavras que sempre relaciono com África. Depois de viver aqui e de tantas Quintas Quentes, então, isso nunca poderá ser de outra forma. E parece que não sou só eu que penso assim. Um documentário que será lançado na quinta-feira, dia 15 de setembro, chamado Tambores, faz uma incrível viagem musical por seis países, apresentando os ritmos de seus tambores. O continente africano é o mais representado no filme: Moçambique e Zâmbia. O documentário viaja também pelo Brasil, China, Catar e Portugal.

O vídeo foi produzido e idealizado pela Cinevídeo, em parceria com a Cine Internacional — a filial da Cinevídeo no continente africano — e mostra que a percussão está presente em diversos momentos em muitas culturas: homenagem a ancestrais, passagem de ano, luto, culto aos deuses, nascimento e os mais diversos rituais. O canto e a dança de muitas comunidades são marcados pelo compasso forte do tambor, que em cada região do mundo tem um significado próprio.

Chaisson e primo

Chaisson (direita) com um primo

No documentário, o tambor moçambicano é representado por Chaisson Meja, jovem que perdeu sua mãe quando tinha apenas um mês, vítima da guerra civil. Desde pequeno ele teve a vida conectada com o tambor pela influência de seu avô, que fabricava o instrumento, e de seu tio, músico.

Quem está em Maputo poderá ter acesso ao lançamento internacional deste vídeo e conhecer as histórias dos tambores dos outros cinco países. Será, às 18h do dia 15 de setembro, no Centro Cultural Franco Moçambicano, como parte da 6a edição do Festival Dockanema. A entrada é gratuita. Após o filme, os espectadores poderão assistir também apresentação do grupo cultural da Associação de Jovens de Nacala – AJN, que participa do filme e se apresenta em Maputo pela primeira vez.

Vou conferir e depois trago as impressões para aqueles que não estão por aqui ficarem com mais água na boca.

cartaz Tambores

P.S. Clique aqui para ver o vídeo de divulgação do documentário.

Dockanema homenageia Ruy Guerra

As exibições públicas da 6ª edição do Dockanema — Festival do Filme Documentário de Moçambique — começam hoje, 10 de setembro. O Dockanema 2011 contará com 80 filmes, dos quais cerca de metade são de produção africana. O site do evento — que, aliás, está muito bom — é o http://dockanema.wordpress.com/. Há um post só com o catálogo da 6ª edição do evento, onde é possível ver a resenha de cada filme.

E o festival de 2011 ainda tem um componente mais importante para nós brasileiros: homenageia o cineasta Ruy Guerra, moçambicano de nascimento, mas um dos maiores autores do cinema brasileiro, consagrado como um dos fundadores do Cinema Novo no Brasil.

Para além de trazer Ruy Guerra de volta a Moçambique, o Dockanema será uma oportunidade de contato com o cineasta, durante palestra no Centro Cultural Brasil-Moçambique (Av. 25 de setembro, 1.728), no dia 15 de setembro, às 18h, e também com sua obra: hoje, 10 de setembro, o filme Os Fuzis será apresentado, às 19h30, no Centro Cultural da Universidade Eduardo Mondlane (av. Agostinho Neto, 926); dia 17 de setembro, às 18h, de novo no Centro Cultural Brasil-Moçambique, será apresentado A Queda. Os dois filmes receberam Urso de Prata no Festival de Berlim. O primeiro em 1964 e o segundo em 1977.

Ruy Guerra recebeu vários outros prêmios e reconhecimentos internacionais. Filmou em França, Brasil, Espanha, Cuba, México, Portugal e Moçambique. Ele conhece cinema sob todos os aspectos. Antes de ser um diretor consagrado, foi câmara, fotógrafo, ator, roteirista e documentarista.

Roteiro

Ruy Guerra nasceu na atual cidade de Maputo em 1931. Na juventude, em Moçambique, foi ativista contra o colonialismo e o racismo, o que lhe valeu problemas com as autoridades. Seus pais resolveram enviá-lo para Portugal, mas lá foi preso, por motivos políticos, logo na sua chegada. Depois viveu em Paris e, em 1958, seguiu para o Brasil onde se fixou.

Mas nunca deixou Moçambique para trás. Com a independência do seu país natal, Ruy Guerra passou a colaborar na criação de uma cinematografia moçambicana. Pela sua mão, importantes figuras do cinema internacional participaram, no quadro do Instituo Nacional de Cinema, na formação de operadores de câmera, técnicos de som, roteiristas, produtores e realizadores do nosso país.

Para além do cinema, andou por outras artes. Escreveu e dirigiu obras teatrais, foi autor de letras de canções de sucesso (muitas na voz de Chico Buarque) e produziu espectáculos com os maiores nomes da música popular brasileira. Também é poeta, escritor e jornalista.

programação Dockanema 2011

P. S.: O bilhete custa MT 50,00 por sessão ou MT 500,00 para todo o festival. A entrada é gratuita para estudantes e pessoas até 26 anos.

Kugoma

O Cineclube Komba Kanema é um núcleo formado por jovens voluntários que desenvolvem, desde abril de 2007, atividades de divulgação, programação e exibição de cinema.

Logomarca KugomaAgora, o cineclube vai realizar a 1ª edição do Kugoma, fórum de cinema de curta metragem. Serão projeções diárias, em quatro bairros da cidade de Maputo: Mafalala, Aeroporto, Ka Tembe e Baixa. Com isso, o cinema será transportado até o público econômica e geograficamente excluído das salas de cinema convencionais.

As salas convencionais, no entanto, serão também pólo de projeções: receberão filmes de temáticas consideradas mais restritas pelos organizadores e, eventualmente, filmes que não disponham de legendagem em português.

Cerca de 90 títulos de até 30 minutos, grande parte deles lusófonos (Angola, Portugal, Brasil e Moçambique), além de produção espanhola, farão parte do fórum.

A proposta é realizar um festival de curtas em um formato diferente, que inclua salas de projeção e apresentações ao ar livre e que aproxime o cinema da população nos seus bairros de residência e de um público mais jovem.

Com isso, os organizadores querem fazer chegar e tornar acessíveis a uma camada mais vasta da população trabalhos cinematográficos não disponíveis nas salas comerciais nem no mercado de DVD nacional, recriando o hábito do cinema no bairro e contribuindo para a formação de novos públicos.

O acesso a todas as sessões é livre e gratuito, de 10 a 14 de novembro, em dois horários: 18h30 e 20h. As sessões serão de 60 minutos. As produtoras dos curtas poderão ainda colocar seus filmes à venda em uma Feira do DVD que será montada nos diferentes locais de exibição.

Vale lembrar que, há menos de dois meses, falei aqui no Mosanblog sobre o Dockanema — Festival do Filme Documentário de Moçambique. Isso é, ao meu ver, um bom sinal dos tempos. Sinal de que o povo moçambicano consegue agora dedicar um pouco de sua vida à arte, seja para produzir, seja para contemplar. Isso é maravilhoso, especialmente, em um lugar que passou as últimas décadas com as atenções centradas em guerras (independência e depois civil). O caminho é longo, mas já demos os primeiros passos.

Informações sobre a 1ª edição do Kugoma no site do evento.

Veja também matéria do jornal O País.

Enfim, Sérgio

Outro dia contei aqui que tentamos assistir ao filme Sérgio, durante o 5º Dockanema – Festival do Filme Documentário de Moçambique, e, quando chegamos na porta da sala de exibição descobrimos que a programação havia mudado e não teria Sérgio naquele dia. Ontem, dia 16 de setembro, voltamos ao Centro Cultural Brasil-Moçambique, para assistir Sérgio. O filme começou e, dez minutos depois, sentimos umas gotas caindo do céu (a exibição era no pátio do Centro Cultural, a céu aberto). Chuva.

Não, não quero fazer inveja para o pessoal do Brasil, especialmente meus parentes e amigos de São Paulo e Brasília, que estão sofrendo com a seca, mas é verdade, aqui chove. E tinha que chover bem na hora do documentário mais esperado por mim durante toda a semana. Nos abrigamos até o pessoal da exibição decidir o que fazer. Então, nos levaram para uma sala de projeção pequena, mas capaz de abrigar todos os presentes da noite.

Depois de todas essas tentativas do destino de nos fazer desistir, enfim, assistimos ao documentário que conta a história do brasileiro Sérgio Vieira de Mello, diplomata brasileiro e alto comissário para direitos humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), que para muitos de nós só ficou conhecido depois de morrer em um atentado no Iraque, em agosto de 2003.

O documentário começa com a reação de Sérgio ao convite para ir para o Iraque: aceita a missão como um bom soldado e com a esperança de fazer algo positivo para as pessoas que lá estão.

Ao longo da narrativa do atentado e tentativa de resgate do diplomata ainda vivo até a divulgação de sua morte, são retratados momentos de sua vida e de sua atuação incansável pela garantia dos direitos humanos.

São impressionantes as imagens do momento do atentado, quando estava sendo realizada uma conferência de imprensa no prédio da ONU e o cinegrafista, outro herói dessa história, não perdeu o senso de profissionalismo e continuou a registrar tudo que se passava.

Também impressiona ver como o escritório de Sérgio Vieira de Mello desaparece no espaço em questão de segundos. Entristece perceber um brasileiro alvo direto de um atentado. Especialmente um brasileiro que podia contribuir para a renovação das Nações Unidas, que havia dedicado sua vida a países como Cambodja, Timor Leste, Indonésia e, por dois anos, Moçambique. Mas, infelizmente, ele foi confundido com o que representam as Nações Unidas nesses lugares: uma cobertura para ações dos Estados Unidos e uma estrutura hiperburocrática de pouca eficiência.

E, mesmo dentro desse mamute pré-histórico, ele era um eterno otimista e fazia a parte dele com primazia. Sérgio foi o cordeiro em pele de lobo.

Abaixo, um trailer do documentário, para fazer vontade de ver inteiro. Infelizmente, não encontrei legendado. Então, é só para os falantes de língua inglesa:

Informações técnicas: o documentário é dirigido por Greg Barker, tem 94 minutos de duração e foi baseado no livro O Homem que queria salvar o mundo. Uma Biografia de Sergio Vieira de Mello, de Samantha Power, editado no Brasil pela Companhia das Letras.

Na apresentação durante o Dockanema, o ponto negativo fica para a exibição apenas em inglês. Um filme sobre um brasileiro, apresentado em um país de língua oficial portuguesa, no centro cultural Brasil-Moçambique, merecia o carinho de uma legenda, até para atingir maior público. Mas a escolha do filme para participar do evento é ponto positivo que supera todo o resto.

O Dockanema acontece até 19 de setembro. Clique aqui para visitar o site oficial do evento, onde é possível encontrar toda a programação e resumo dos documentários.

Kinshasa Symphony

Nesta segunda-feira, 13 de setembro, saímos de casa para ir ao Centro Cultural Brasil-Moçambique, participar do 5º Dockanema – Festival do Filme Documentário de Moçambique. Chegamos lá, pagamos MT 100,00 por dois ingressos e fomos informados que o filme previsto para o horário, Sérgio – um cidadão do mundo, não seria exibido. Havia um outro no lugar, do qual ainda não tínhamos ouvido falar.

Consultamos o programa e vimos que no mesmo horário, no Teatro Avenida, logo ali do lado, passaria Kinshasa Symphony. Pegamos nosso dinheiro de volta, corremos e chegamos no comecinho.

mapa Congo KinshasaO documentário alemão, de 95 minutos de duração, dirigido por Martin Baer e Claus Wischmann, mostra a montagem de uma orquestra sinfônica na cidade de Kinshasa, capital e maior cidade da República Democrática do Congo. A resenha do filme trata uma orquestra sinfônica como “um dos mais complexos sistemas de cooperação humana alguma vez inventado”. E é assim mesmo que aparece no documentário.

O filme é bastante interessante, porque retrata como pessoas comuns, comuns mesmo, sem conhecimento de música clássica ou do idioma alemão, dedicam-se, em meio a todas as suas tarefas para a sobrevivência diária, para durante uma noite apresentarem-se cantando em alemão e tocando a nona sinfonia de Beethoven majestosamente.

Fachada Teatro Avenida

Teatro Avenida: Av. 25 de setembro, 1.179, Maputo

Clique aqui para visitar o site oficial do evento, onde é possível encontrar toda a programação e resumo dos documentários.

Semana dos documentários em Maputo

Começou no dia 10 de setembro a 5ª edição do Festival do Filme Documentário de Moçambique, o Dockanema. Os filmes estão sendo exibidos em seis espaços de Maputo até o dia 19 de setembro. Ontem, fomos ao Mama Africa, da produtora brasileira CineVideo, com direção de Alê Braga, filmado em dez países do continente africano.

Clique aqui para visitar o site oficial do evento, onde é possível encontrar toda a programação e resumo dos documentários.

O preço por sessão é MT 50,00. Há também o bilhete de trânsito livre Dockanema, que pode ser comprado por MT 500,00. A entrada é livre para estudantes e jovens até 26 anos.

marca Dockanema-2010

Abaixo, os endereços dos locais de exibição dos filmes:

Centro Cultural Brasil-Moçambique: Av. 25 de setembro, 1.728.
Faculdade de Letras e Ciências Sociais: Universidade Eduardo Mondlane – Campus Principal.
Teatro Avenida: Av. 25 de setembro, 1.179.
Cinema Scala: Av. 25 de setembro, 1.514.
Cine-teatro Gilberto Mendes: Travessa do Varieta, 21 – 57.
Cinema Xenon: Av. Julius Nyerere, 776, r/c.

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