Dia do Trabalhador em dose dupla

Aqui em Moçambique, de acordo com a Lei de Trabalho (artigo 37, parágrafo 3), quando um feriado cai em um domingo, passa automaticamente para a segunda-feira. Assim, o Dia do Trabalhador, 1º de Maio, que em 2011 caiu em um domingo, foi celebrado com direito a mais um dia de descanso.

Para além de ser importante em todos os países onde é comemorada, a data de homenagem ao trabalhador tem um sabor especial em Moçambique. Sabor de conquista ainda muito recente. Afinal, até o fim do período colonial (1975), os moçambicanos eram proibidos de celebrar a data. Mesmo assim, há registros de algumas manifestações na data contra o tipo de relações laborais do período.

Nas comemorações desse ano, o presidente de Moçambique, Armando Guebuza, mandou recado inclusive para os estrangeiros que aqui trabalham e que “têm emprestado a sua experiência e saber em prol do bem-estar dos moçambicanos”. A estrangeira aqui agradece.

Veja mais sobre o discurso de Guebuza no Dia do Trabalhador, no site África 21 Digital.

Leia na Wikipedia sobre o Dia do Trabalhador em Moçambique.

Ninguém na liderança e orientações contraditórias no celular

Desde o início das manifestações contra a carestia dos produtos de primeira necessidade em Moçambique, no dia 1 de setembro de 2010, observei aqui e aqui, o quanto acho estranho e perigoso a greve-protesto ter sido deflagrada por mensagens de celular e não haver uma liderança apresentada, que possa servir de interlocutor entre o povo e o governo, que possa apresentar quais são as reivindicações efetivas que o povo traz.

O meu medo é que a disposição séria do povo contra as condições de vida acabe por ser abafada por cenas de baderna. Temo ainda que pessoas mal intencionadas se aproveitem das mensagens anônimas para incitar violência, que pode se tornar sem controle, especialmente em uma cidade como Maputo, onde há um homem armado à frente de cada casa, como segurança.

Ontem, quinta-feira, à noite, começaram as mensagens contraditórias: primeiro circulou uma dizendo que a movimentação continuaria e às 5 horas da madrugada estariam a manifestar em frente à casa do presidente Armando Guebuza; depois outra dizia para os compatriotas fazerem uma pausa pela manhã de hoje, até 12h, para poderem levantar dinheiro e fazer estoque de comida e bebida. Depois do meio-dia, era para voltar para casa e retornar ao trabalho só na quarta-feira, porque terça é feriado.

Fiquei na dúvida: era para ir para a casa do presidente? Era para ir às compras? Haveria comércio aberto? Ou era para ir à casa do presidente e depois às compras até meio-dia?

O que se deu foi que não apareceram na casa do presidente. Pelo menos, não vi nada e moro bem perto. Os bancos e o comércio, de fato, abriram e as pessoas estavam mesmo a fazer estoque. Aqui perto de casa foi o que vi. Não era uma preparação só para cinco dias, faziam grandes compras. Muita carne, muita água. Depois, não exatamente ao meio-dia, mas com o correr da tarde, as lojas foram fechando até que, às 17h, no centro de Maputo, restavam só algumas padarias abertas, com filas (bichas) enormes.

Os canais abertos de TV já não estão mais com programação especial e parece que as vias estão liberadas, sob forte policiamento. Dessa forma, quem precisa voltar para casa não está a ter grandes dificuldades. Mas não sabemos ainda como vai ser amanhã.

Esperemos as mensagens de ninguém que hão de pipocar nos celulares no fim da noite.

Dia da Independência

Foi ontem, 25 de junho. Comemorou-se em Moçambique os 35 anos que o país deixou de ser colônia de Portugal. É estranho para uma brasileira estar em um país que deixou de ser colônia de Portugal quando eu já era nascida. A independência do Brasil foi algo que estudei na escola, como fato distante, lá do começo de nossa história…

E pensar que Moçambique foi invadido por Portugal dois anos antes o Brasil. Nós, em 1500, eles em 1498. Mais exatamente em 2 de março de 1498, foi quando a armada comandada por Vasco da Gama, completando o contorno da costa africana, aportou nas terras de Moçambique.

Em entrevista a um caderno especial do jornal O País, o ex-presidente de Moçambique, Joaquim Chissano, lembra do período em que foi primeiro-ministro durante o primeiro governo independente, liderado por Samora Machel: “O nosso país, contrariamente a alguns do continente africano, não teve uma experiência de transição com a participação de um governo colonial. Então, tivemos que descobrir como faziam os colonialistas, mas animava-nos a idéia de que não queríamos, pura e simplesmente, herdar do colonialismo, queriamos criar coisas novas”.

O 25 de junho no palco montado na praça da Independência começou com a chegada da tocha da Chama da Liberdade, que nas últimas semanas percorreu as onze províncias (seriam os estados no Brasil) do país. Então, o presidente Armando Guebuza acendeu a pira ao som de 21 salvas de canhão.

Mesmo tendo sido realizadas apenas 35 festas de independência, já fazem diferença positiva em alguns aspectos: após a recepção da Chama da Liberdade, a abertura do evento teve três orações — uma feita pelo arcebispo, outra pelo sheik mulçumano e a última por um pastor protestante. Acho isso positivo, porque, se tem que colocar religião no meio, que se dê direito à pluralidade. Apesar que vou gostar mesmo do dia que não tiver religião envolvida com Estado…

Depois, claro, teve o desfile militar e o desfile civil, com os estudantes de escolas públicas. Essa parte foi bem parecida com o que vemos todos os anos no 7 de setembro no Brasil. Então, ex-combatentes que lutaram pela independência discursaram no palco. E o mais interessante é que os discursos eram alternados com apresentações culturais típicas de cada província. O presidente Guebuza assistindo a tudo, para discursar no final. Gostei de ver o presidente assistindo às manifestações culturais.

E não foi só ele, estavam lá convidados como os presidentes do Zimbabwe, Robert Mugabe, e de Botswana, Ian Khama, os reis do Lesotho, Letsie III, e da Suazilânidia, Mswati III, além de embaixadores e ministros de negócios estrangeiros de dezenas de países que mantém relações diplomáticas com Moçambique.

Após uma tarde de descanso, o dia acabou aqui na frente de casa, no salão de festas da Presidência…

atrás do muro branco, o salão de festas da presidência

Muro do salão de festas da casa do Presidente de Moçambique, visto da janela da sala de nossa casa

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