A ONU, o milênio e os objetivos

Em junho de 2010, o Secretário-Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), Ban Ki-moon, afirmou que suas sucessivas visitas ao continente africano serviam para reforçar sua convicção de que a região irá cumprir as Metas do Milênio. Eu não sei se o camarada é muito mal informado ou muito otimista. Mas, vendo a estrutura da ONU na África, tenho a impressão de que é mal informado.

Claro que tem gente fazendo trabalho sério aqui. Claro que tem funcionário da ONU que entende a realidade onde está. Mas não sei se são muitos. O que eu vejo são grandes estruturas, casas bem localizadas, com dezenas de escritórios, computadores, aparelhos de fax e tudo mais que é necessário para mandar os mais bem elaborados relatórios para o sr. Ban. Os funcionários são muito bem pagos e vivem com uma série de regalias (justo, afinal estão vivendo o sacrifício, não é?). Os carros nos quais eles andam, nem vou comentar…

Enquanto isso, a 30 minutos da capital de Moçambique, crianças morrem de fome e comunidades inteiras são dizimadas pela Aids. Há alguns dias, o ministro da saúde de Moçambique, Alexandre Manguele, disse estar envergonhado com a alta taxa de mortalidade materna no país, estimada em 579 mortes por cada 100 mil nascimentos, de acordo com notícia da Agência Lusa.

Para atingir as metas que a ONU estabeleceu para serem alcançadas até esse início de milênio (ano de 2015), o número teria que cair de 579 mulheres mortas para 250. Apesar de Moçambique vir registrando redução contínua nesse índice (sim, era pior!) e da ONU dizer que o país “tem potencial” para atingir a meta, quem conhece a vida real está preocupado. “A realidade é que a mortalidade infantil continua elevada, a mortalidade materna continua a envergonhar-nos, a prevalência da malária e a tuberculose continuam a preocupar-nos. A desnutrição continua a ser o pano de fundo da maioria das doenças na infância”, por isso, “a saúde está longe daquilo que todos desejamos que seja o nosso país”, reconheceu o ministro, em citação da Agência Lusa.

Há um ano atrás, notícia da Agência de Informações de Moçambique informava que complicações de gravidez e parto matam onze mulheres por dia. Estudo divulgado pelo Ministério da Saúde referia ainda que, em cada mil crianças que nascem vivas por ano, 48 morrem, entre os zero e 28 dias de vida, por razões aliadas a problemas ocorridos durante a gravidez e o parto.

Ao trabalhar em diferentes tipos e tamanhos de projetos sociais, aprendi muitas coisas e uma delas é que relatório de trabalho social não é avaliação de escola, onde você sempre tem que ter bom resultado. O mais importante em um projeto social é o relatório ser transparente e realista. Mesmo que isso signifique dizer que todo o trabalho dos últimos meses não resultou em nada ou até a situação está pior. Afinal, só analisando friamente é que se pode intervir da melhor forma, revendo métodos, ferramentas, pessoal e tudo mais que for preciso para levar o projeto para o caminho certo. Mas, infelizmente, acredito que muitos consultores têm medo de assumir que não estão tendo sucesso e acabam por “maquiar” os dados.

Na matéria da Agência Lusa, o ministro da Saúde de Moçambique ainda observa que “a qualidade dos dados (da saúde) em geral é um assunto que merece uma reflexão”. Na verdade, acho que os dados que chegam ao sr. Ban carecem de ser mais realistas. Afinal, o milênio já está aí!

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O fantasma da inflação está por aqui

Em 2010, a inflação média anual de Moçambique foi de 12,7%, de acordo com o Instituto Nacional de Estatísticas (INE), 3% acima da projeção inicial do governo. As medidas de austeridade e de redução de custo de vida — tomadas após as manifestações de um e dois de setembro de 2010 — continuam até março de 2011. No entanto, análise do Banco de Moçambique conclui que foram medidas insuficientes para travar o aumento do preço de produtos alimentares no país.

Nos últimos meses do ano, a inflação era possível de ser vista em nossas mãos: no fim de cada mês, sempre muitas cédulas novas de metical passavam a circular. Era o governo imprimindo notas novas. De acordo com comunicado recente do Banco Central de Moçambique “as medidas combinadas de natureza fiscal, orçamental e monetárias implementadas em Setembro de 2010, para atenuar o custo de vida revelaram-se importantes para amortecer a pressão inflacionária e contrariar as expectativas de inflação inercial, mas não se revelaram suficientes para anular o surto inflacionário e a pressão sazonal associada à quadra festiva”.

Um fator crucial tem sido a crise mundial da economia, que leva a restrições por parte de produtores de alimentos. Assim, os países menos industrializados, dependentes da importação, como Moçambique, sofrem mais. E isso já está visível nas prateleiras dos mercados. Alguns produtos que encontrávamos facilmente todos os meses, nesse começo de janeiro já não estavam à venda.

De acordo com a notícia Inflação assombra economia do país, do jornal O País, as projeções de organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), não são das melhores, pois apontam para uma subida dos preços de arroz, trigo, carnes, entre outros produtos básicos, uma vez que 2011 deverá ter inflação alta de matérias-primas.

Cinema em Moçambique

Fomos ao cinema em Maputo pela primeira vez. Já tínhamos assistido a alguns filmes aqui, durante o Dockanema, mas, por coincidência, nenhum tinha sido em sala de cinema propriamente. Agora, fomos assistir ao filme O último voo do flamingo.

O destaque ficou para a sala Xenon (na avenida Julius Nyerere, 776). Enoooorme. Sala do tipo que não existe mais no Brasil há umas duas décadas, pelo menos. Com direito a lugares no balcão e tudo mais. Cabem ali umas 400 pessoas, seguramente. Compramos pipoca e, ao som de uma tenebrosa campainha, que mais parecia coisa de filme de terror anos 50, entramos na gigantesca sala. Apagam-se as luzes, uma propagandazinha e, pronto, começa o filme. Eduardo comentou: não tem trailer. Pois é…

No meio do filme… INTERVALO. Gente, fantástico! Eu nunca tinha ido em cinema com intervalo. O amigo Pedro, que estava conosco, disse que em Portugal havia isso até algum tempo atrás, mas já faz muitos anos que não há. Pausa de sete minutos para repor a pipoca, fumar, ir ao banheiro ou ficar lá mesmo, a apreciar os trailers!

Adorei. Soubemos depois que sempre é assim aqui e que todas as salas são grandes como essa.

cartaz do filme O último voo do flamingoO filme? Bem, o filme é baseado no livro de mesmo nome, do escritor Mia Couto. Uma ficção sobre os tempos pós guerra, em que soldados da ONU (Organização das Nações Unidas), os conhecidos capacetes azuis, estiveram em Moçambique na missão de manutenção de paz. O romance narra estranhos acontecimentos de uma pequena vila imaginária, Tizangara.

A direção foi do moçambicano João Ribeiro, formado em cinema em Cuba e em Moçambique e que, com esta obra, faz sua estréia no longa-metragem. A adaptação do texto foi feita por Gonçalo Galvão Teles. Entre os atores, a brasileira Adriana Alves, além de Alberto Magassela, Carlo D’Ursi, Cláudia Semedo e Elliot Alex.

Não li a obra original, mas fiquei com a impressão de ser daqueles casos em que o livro é melhor que o filme. Louvo a intenção da produção, mas Mia Couto é mesmo muito literário… há frases no filme, que percebemos terem sido transportadas literalmente do livro, onde devem fazer efeitos incríveis, mas que no cinema ficam perdidas. Além disso, os atores não ajudam lá muita coisa. Os melhores são Cláudia Semedo e Elliot Alex, mas não conseguem salvar o filme. Mas a história é muito boa, então, podes conhecê-la sorvendo do maravilhoso texto de Mia Couto. Por outro lado, o filme vale pelas imagens de Moçambique. Foi filmado aqui pertinho de Maputo, em Marracuene.

Mapa de Marracuene

Quanto vale:
– entrada de cinema: MT 120,00 (R$ 5,60)
– pipoca: MT 45,00 (R$ 2,10)
– refrigerante 600 ml: MT 45,00 (R$ 2,10)
– livro O último voo do Flamingo: R$ 29,90 pelo Submarino.

Observação: os horários das sessões no Xenon são 15h, 18h e 21h.

Enfim, Sérgio

Outro dia contei aqui que tentamos assistir ao filme Sérgio, durante o 5º Dockanema – Festival do Filme Documentário de Moçambique, e, quando chegamos na porta da sala de exibição descobrimos que a programação havia mudado e não teria Sérgio naquele dia. Ontem, dia 16 de setembro, voltamos ao Centro Cultural Brasil-Moçambique, para assistir Sérgio. O filme começou e, dez minutos depois, sentimos umas gotas caindo do céu (a exibição era no pátio do Centro Cultural, a céu aberto). Chuva.

Não, não quero fazer inveja para o pessoal do Brasil, especialmente meus parentes e amigos de São Paulo e Brasília, que estão sofrendo com a seca, mas é verdade, aqui chove. E tinha que chover bem na hora do documentário mais esperado por mim durante toda a semana. Nos abrigamos até o pessoal da exibição decidir o que fazer. Então, nos levaram para uma sala de projeção pequena, mas capaz de abrigar todos os presentes da noite.

Depois de todas essas tentativas do destino de nos fazer desistir, enfim, assistimos ao documentário que conta a história do brasileiro Sérgio Vieira de Mello, diplomata brasileiro e alto comissário para direitos humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), que para muitos de nós só ficou conhecido depois de morrer em um atentado no Iraque, em agosto de 2003.

O documentário começa com a reação de Sérgio ao convite para ir para o Iraque: aceita a missão como um bom soldado e com a esperança de fazer algo positivo para as pessoas que lá estão.

Ao longo da narrativa do atentado e tentativa de resgate do diplomata ainda vivo até a divulgação de sua morte, são retratados momentos de sua vida e de sua atuação incansável pela garantia dos direitos humanos.

São impressionantes as imagens do momento do atentado, quando estava sendo realizada uma conferência de imprensa no prédio da ONU e o cinegrafista, outro herói dessa história, não perdeu o senso de profissionalismo e continuou a registrar tudo que se passava.

Também impressiona ver como o escritório de Sérgio Vieira de Mello desaparece no espaço em questão de segundos. Entristece perceber um brasileiro alvo direto de um atentado. Especialmente um brasileiro que podia contribuir para a renovação das Nações Unidas, que havia dedicado sua vida a países como Cambodja, Timor Leste, Indonésia e, por dois anos, Moçambique. Mas, infelizmente, ele foi confundido com o que representam as Nações Unidas nesses lugares: uma cobertura para ações dos Estados Unidos e uma estrutura hiperburocrática de pouca eficiência.

E, mesmo dentro desse mamute pré-histórico, ele era um eterno otimista e fazia a parte dele com primazia. Sérgio foi o cordeiro em pele de lobo.

Abaixo, um trailer do documentário, para fazer vontade de ver inteiro. Infelizmente, não encontrei legendado. Então, é só para os falantes de língua inglesa:

Informações técnicas: o documentário é dirigido por Greg Barker, tem 94 minutos de duração e foi baseado no livro O Homem que queria salvar o mundo. Uma Biografia de Sergio Vieira de Mello, de Samantha Power, editado no Brasil pela Companhia das Letras.

Na apresentação durante o Dockanema, o ponto negativo fica para a exibição apenas em inglês. Um filme sobre um brasileiro, apresentado em um país de língua oficial portuguesa, no centro cultural Brasil-Moçambique, merecia o carinho de uma legenda, até para atingir maior público. Mas a escolha do filme para participar do evento é ponto positivo que supera todo o resto.

O Dockanema acontece até 19 de setembro. Clique aqui para visitar o site oficial do evento, onde é possível encontrar toda a programação e resumo dos documentários.

ElefanteNews em Ruanda

Já ouviu falar em Ruanda? Sabe onde fica? Sabe o que está acontecendo por lá?

Talvez já tenha ouvido falar porque o país ficou tristemente conhecido devido ao genocídio ocorrido lá na década de 1990, que matou 10 % da população do país.

O massacre
O país estava dividido em dois grupos rivais: hutus e tutsis. Os colonizadores — inicialmente alemães e depois belgas — atribuíram privilégios e cargos de comando apenas a uma restrita elite dos tutsis. Isso despertou o ódio dos hutus. Com a independência do país, o poder foi para as mãos dos hutus, que eram maioria. Entre janeiro de 1993 e março de 1994, graças sobretudo a financiamentos franceses, Ruanda adquiriu quase 600 mil armas, chegando a ser o terceiro maior importador de armas da África, mesmo com suas pequenas dimensões e grande pobreza. Em 6 de abril de 1994, o presidente de Ruanda, Juvenal Habyarimana, representante dos hutus, foi morto. Isso deflagrou a perseguição dos tutsis por parte da guarda presidencial, do exército e de esquadrões da morte.

As eleições
Mas o que aconteceu lá essa semana pouca gente comenta. Eleições presidenciais. O general tutsi Paul Kagame foi reeleito na segunda-feira, dia 09 de agosto, para um mandato de sete anos. E o Eduardo Castro foi lá para contar essa história. As matérias que ele fez para a Agência Brasil e TV Brasil, você vê no ElefanteNews.

Daqui de Maputo a Kigali, capital de Ruanda, são quase 4 mil quilômetros, e não se chega nem no meio da África, esse enorme, diverso e maravilhoso continente.

Para saber mais sobre o país e sua história, clique aqui — foi da revista Mundo e Missão n.º 85 que retirei quase todos os dados históricos desse texto — ou leia o livro, que virou também documentário: Shake Hands With the Devil, de Romeo Dallaire, general que comandava as tropas da Organização das Nações Unidas (ONU) no país à época do massacre.

É… acordei meio azeda hoje – ou fiquei depois que fui às notícias

Tenho muitas restrições às grandes organizações. Sejam grandes empresas ou grandes órgãos de representação ou grandes organizações não governamentais. Pela minha experiência, quanto maior, mais se afasta de seu objetivo, menos o beneficiário é de fato beneficiado.

Hoje estão divulgando por aqui uma notícia da rádio ONU (Organização das Nações Unidas – algo pode ser maior que as Nações Unidas? Ainda que não sejam todas as nações, vamos considerar que maior que isso só o dia que tivermos os planetas unidos!). Enfim, a notícia divulgada é que o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, vem à África pela terceira vez no espaço de um mês e diz que suas visitas estão a reforçar sua convicção de que a região irá cumprir as Metas do Milênio.

É chique isso, não? A África, que sempre está lá no fim das listas de desenvolvimento, vai cumprir as Metas do Milênio.

Seria um lindo dia, se eu não tivesse me proposto a ter outras informações além daquelas que a ONU divulga por aí. E então, descobri que em Moçambique, 85 bebês são infectados pelo HIV diariamente e cerca de 149 mil mulheres grávidas vivem com o vírus no país. E esses dados são do Unicef – o Fundo das mesmas Nações Unidas para a Infância e Adolescência.

Na Suazilândia, país vizinho aqui, o índice de mortalidade registrou aumento acima do dobro durante a última década. Por que isso? Consequência dos efeitos da pandemia do HIV/Sida (Aids), de acordo com o Gabinete Central de Estatísticas do país.

Em matéria do jornal O País desta terça-feira, são apresentadas estatísticas das Nações Unidas (olha elas aí de novo!) indicando que o índice de prevalência do HIV na Suazilândia, é de 40%, o mais elevado do mundo inteiro.

Então, se estamos mesmo a atingir as Metas do Milênio até 2015, ou é preciso correr muito, ou rever as metas.

É por isso que eu me afasto cada vez mais dos gigantes e sigo fazendo meu trabalho de formiguinha.

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