Balanço 2012

Felizmente, minha relação com Moçambique não acaba nunca. Ainda que tenham sido poucos posts ao longo do ano, em 2012 tive a possibilidade de visitar Maputo mais uma vez e rever os amigos e a terra que tão bem me acolheu, além de fazer novas amizades, que trouxe no coração quando voltei para casa.

E, como sempre no fim do ano, a WordPress nos presenteia com a análise do movimento do blog no ano. Vamos ver?

Apesar do pouco conteúdo novo – apenas oito textos -, o Mosanblog foi visto cerca de 150 mil vezes, o que mostra que o conteúdo ainda tem servido como base de pesquisa para muitos internautas. O pico do movimento foi em 30 de outubro, com 878 visitas. Isso dá mais de 36 visitas por hora. Nada mal…

Os visitantes vieram de 149 países e, entre os comentadores mais ativos, aparecem na lista a Lucia Agapito e a lucia, mas eu garanto para vocês que são a mesma pessoa…

O texto mais visitado foi Navegação turbulenta do rio Zambeze, publicado em 29 de outubro de 2010.

Se quer saber mais, clique aqui e veja o relatório completo

Para finalizar, uma notícia: como a experiência de ter um blog me foi tão agradável, devo contar que não resisti e, no final de 2012, abri novo endereço: o Quem aguenta? A proposta é completamente diferente do Mosanblog, mas, como eu mesma já disse aqui em algum momento, eu também estou diferente…

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Navegação turbulenta no rio Zambeze

Pelo menos na área das relações internacionais, assim tem sido.

Primeiro, vamos conhecer o tal rio.

rio Zambeze, entre Beira e Quelimane

O rio Zambeze termina entre Beira e Quelimane

Agora, pode se ajeitar na cadeira, porque lá vem a história…

Essa semana, várias vezes acompanhamos nos noticiários daqui matérias sobre a navegação experimental no rio Zambeze praticada pelo governo do Malawi.

No dia 23 de outubro último, o presidente do Malawi, Bingo wa Mutharika, estava em um evento — inauguração do porto de Nsanje — a aguardar uma embarcação que deveria chegar no rio Chire (no mapa abaixo grafado Shire), que banha a parte sul do Malawi e deságua no Zambeze, para depois encontrar o Oceano Índico.

Malawi

No entanto, wa Mutharika ficou na espera. A embarcação esperada tinha sido interceptada ainda em Moçambique. A razão é que o governo moçambicano entende que seu vizinho deveria aguardar o término de estudos de viabilidade e de impacto ambiental da navegação nos rios Chire e Zambeze antes de iniciar as navegações.

Moçambique alega ainda que os presidentes do Zimbabwe e da Zâmbia foram convidados formalmente para o evento em Malawi, enquanto Moçambique, diretamente interessado, recebeu uma nota verbal ao seu Alto Comissariado naquele país, solicitando a confirmação da participação de seu presidente, Armando Guebuza.

Para completar o estrago diplomático, o adido militar da missão diplomática do Malawi em Moçambique, James Kalipinde, encontrava-se na embarcação e teria saído de Maputo sem a devida autorização do Ministério da Defesa Nacional (MDN), procedimento padrão.

O adido militar foi detido pela Polícia da República de Moçambique (PRM), tendo ficado na cidade de Quelimane (província da Zambézia) até o dia seguinte, quando se confirmou que ele era um diplomata.

Por seu lado, o governo do Malawi, na figura do alto comissário em Moçambique, Martin Kansichi, diz estar indignado com a forma como o governo moçambicano trata o processo. Para ele, Moçambique teria quebrado acordo entre os dois países que, pelo entendimento malawiano, previa a realização de uma viagem experimental para provar a navegabilidade dos rios até o porto de Nsanje.

“Existem documentos que comprovam que existe um acordo que prevê a realização de uma viagem experimental. O Malawi é um país que respeita os procedimentos” afirmou Kansichi em matéria do jornal O País. De acordo com o embaixador malawiano, esta viagem experimental não necessita estudo de viabilidade.

Kansichi manifestou-se ainda indignado com declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros de Moçambique, Oldemiro Baloi, a respeito do caso. Em entrevista coletiva, Baloi qualificou os malawianos como impacientes e os acusou de estar a forçar o avanço do projeto, sem observar a necessidade dos estudos de viabilidade e de impacto ambiental.

Turbulência histórica

As relações entre os dois países iniciaram na década de 1960, quando o Malawi conquistou a independência. Depois de 1975, independência de Moçambique, o relacionamento ficou tenso, devido às diferenças nas ideologias políticas seguidas por cada um dos países.

No artigo Relações entre Moçambique e Malawi, Saite Júnior explica que Moçambique seguiu a orientação socialista e Malawi era apoiado pelos países capitalistas, tendo também se tornado aliado dos regimes colonial fascista português e do apartheid da África do Sul.

Entre 1976 e 1992 Moçambique viveu sob uma guerra civil e Malawi apoiou a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), contra a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), movimento reconhecido internacionalmente por ter lutado pela independência do país e negociado com Portugal por meio dos Acordos de Lusaka. A Frelimo foi a força política que assumiu o poder de forma constitucional.

No final do século, no entanto, Moçambique abriu-se ao mercado internacional do ocidente, rendendo-se ao regime democrático liberal e ampliando suas relações diplomáticas. Do outro lado, com o fim do apartheid, o Malawi perdeu o seu aliado estratégico, e devido à posição geográfica, viu-se na obrigação de rever suas relações, para garantir acesso aos corredores de desenvolvimento de Nacala e Beira e poder alcançar o Oceano Índico.

As relações vinham sendo pacíficas até 2009, quando ocorreu o incidente de Ngaúma: agentes da polícia do Malawi invadiram Moçambique e causaram a destruição por completo de um quartel da Força de Guarda de Fronteira do distrito de Ngaúma, na província de Niassa. Meses depois, o presidente malawiano Bingo wa Mutharika, esteve em visita oficial de Estado a Moçambique e o país esperava ouvir um pedido de desculpas oficial, o que não aconteceu. Então, diante do clima tenso, wa Mutharika viu-se obrigado a interromper bruscamente a visita.

Ao longo dos anos, vários outros incidentes foram contabilizados, como o de maio deste ano, quando seis moçambicanos foram condenados à pena de morte no Malawi. Depois de negociações conseguiu-se converter as penas para prisão perpétua.

Ou seja, a relação é complicada e, nesses casos, a atenção deve ser redobrada em qualquer ação ou palavra. Fiquemos atentos.

Tenha mais informações sobre o episódio dessa semana em matéria que o Eduardo Castro fez para a Agência Brasil e publicou no ElefanteNews.

Veja mais em Zambeze: um rio de problemas e incidentes diplomáticos.

Sobre a troca de acusações, leia detalhes em Malawi considera provocatórias declarações de Baloi.

Conheça a posição dos ambientalistas, em matéria divulgada pelo blog Moçambique para Todos intitulada Ambientalistas descartam navegabilidade do Zambeze.

E saiba mais sobre a relação histórica entre os dois países, aqui, no citado artigo de Saite Júnior.

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