Partir mais uma vez

Nascer do sol em África

Enfim, aqui estou eu pela segunda vez em um avião que deixa para trás Moçambique. Foi uma despedida singela, um dia normal, jantar em casa, com alguns amigos, mas não todos. Afinal, em breve vamos nos ver de novo.

O caminho já não parece tão distante. E dessa vez é mesmo menor, sendo que, sem o Otto, não preciso ir via Lisboa. E para pequenas temporadas o Otto pode sempre ficar em casa, tranqüilinho, feliz à minha espera.

A curta estadia também me faz suportar melhor as diferenças que me incomodam e diminui as probabilidades de cenas com as quais eu não sei conviver, como um guarda a pedir dinheiro porque tem fome ou o fato do governo ter aplicado esse ano um aumento significativo (e necessáario) no salário mínimo e algumas empresas onde eu perguntei ainda não estarem praticando. E provavelmente não vão praticar.

Mas a distância de alguns meses fora também ajudou a perceber melhor as mudanças positivas que se deram, como já contei no texto Mudanças acontecem. Devagar… Enfim, acho que encontrei uma fórmula boa para conviver e contribuir com Moçambique: nunca deixá-lo, mas não ficar imersa por muito tempo.

Neste vôo de volta, o que me acompanha é a sensação de que Moçambique não me pertence mais, mas que parte de mim sempre vai pertencer a Moçambique.

Fim?

folhas no chão no jardim dos professores junho 2011

Os primeiros seis meses foram de encanto. O segundo semestre foi de choque cultural (sim, por mais estranho que seja, o choque se deu tempos depois). O terceiro semestre foi de desconforto*.
Era tempo de pensar em ir embora.

O Mosanblog não será o primeiro nem o último com vida curta. Muitos dos blogs que venho freqüentando desde antes de minha passagem pela África são assim. As pessoas criam o espaço para dividir com o mundo suas impressões desse continente mágico e suas impressões são, muitas vezes, por períodos curtos. Alguns, mesmo depois de deixarem a África, continuam seu trabalho de divulgação. Outros não. Acho que o Mosanblog vai se enquadrar na segunda categoria.

Mas vai continuar no ar, para servir de pesquisa a todos que se interessam pelo assunto. Pelo menos essa é minha intenção, até enquanto o WordPress permitir. Sempre que possível procurei incluir citações, referências e links nos textos, para que as pessoas interessadas em aprofundar seu conhecimento sobre o tema tenham essa oportunidade. Acho que isso é importante, especialmente pela pouca (e, às vezes, equivocada) divulgação que temos normalmente da África.

E devo dizer que, ao visitar as estatísticas do blog, na área administrativa, nada me dava mais alegria do que perceber que quando os diferentes mecanismos de busca da internet direcionavam as pessoas para o Mosanblog, elas encontravam de fato a resposta que procuravam.

Nesse período tanta coisa aconteceu que parece terem sido décadas e não anos. Em Moçambique, assisti a casamentos, despedidas dos mortos, aniversários, celebrações de datas cívicas, rituais… Trabalhei com públicos muito diversos, e tudo isso enriqueceu bastante minha experiência.

O Eduardo fez muita matéria interessante, nos ajudando a conhecer e entender um pouco mais desse mundão que fica sempre tão escondido dos outros continentes. O Guilherme deixou a marca dele por muitos lugares, inclusive no cardápio do Coisa Nossa, que agora tem o Sandes Guilherme. E o Otto passeou por lugares e viu coisas que jamais um cãozinho nascido no meio do cerrado brasileiro poderia sonhar.

Foi muito bom também acompanhar a interação entre os leitores. Muitas vezes, pessoas que eu sei não se conhecerem, trocaram idéias de forma tão leve e descontraída que pareciam todos amigos, participantes de uma confraria qualquer… a confraria dos que se relacionam com África, talvez.

Desde o início do Mosanblog, foram oferecidas mais de 300 colheres de ração para cães que sofreram maltratos, por meio de respostas às pesquisas da Socialvibe, aqui na lateral direita do blog. E espero que os leitores continuem contribuindo com mais cliques, uma vez que o blog vai continuar no ar.

Foram 374 textos publicados. Entre eles, 73 Quintas Quentes, onde ouvimos música de 19 países africanos e também de brasileiros que cantaram a África e na África.

Fico pensando agora no que vou encontrar no retorno ao Brasil (para onde estou a caminho nesse momento) e me vem a certeza de que não vou encontrar nada como estava antes de eu partir, porque, afinal, eu que volto já não sou a mesma.

A verdade é que foi pouco tempo para perdermos as referências, mas também foi tempo demais para as mantermos inalteradas. Era algo que eu precisava viver e agradeço por ter vivido.

* O desconforto foi causado por situações como as descritas na série De como os mulungos sofrem e nos textos Será que paguei propina? e Casei com Moçambique.

Em poucos dias, Otto de novo no avião

Começa o mês de outubro e, com ele, as férias. Férias com gosto de mudança. O final delas tem destino ainda incerto, mas sabemos que é lá para as bandas de São Paulo. Vamos começar com uns dias em Cidade do Cabo, na África do Sul. Depois, uns dias de volta a Maputo e uma passagem por Lisboa, já na rota de retorno.

Chegamos em São Paulo em meados de outubro, sem destino definido, contando com a boa vontade da hospedagem familiar. Nem casa vamos ter nesse momento. Então, é procurar trabalho e fixar endereço. Claro que não muito, porque se tem coisa que essa família aqui não tem é raiz, para ficar presa feito árvore.

E lá vai o Otto, na sua caixinha de andar de avião!

Otto na caixa de viagem

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