Joburg, circuito histórico

Como eu citei no post exatamente anterior a este, vou escrever sobre nossa viagem a Joanesburgo em três partes. A primeira foi a turística e agora vem a histórica. Depois, falo do esporte.

A África em si tem história, muita história para contar. Afinal, é aqui o berço da humanidade, foi aqui que tudo começou para o homo sapiens, é daqui que todos viemos e acho que para os brasileiros, que tiveram tantos africanos sendo levados para sua terra em tempos recentes, isso se faz ainda mais verdade.

Então, temos história de milhares de anos para conhecer na África. Mas nosso passeio por Joanesburgo, por falta de tempo para mais, conteve-se na história moderna, recentíssima: segunda metade do século passado.

Iniciamos com um passeio pelo famoso bairro do Soweto. O nome vem da sigla South West Townships (distrito do sudoeste). Soweto foi criado em 1963, durante o regime do Apartheid, para juntar em um mesmo espaço negros que viviam em diversos bairros. Foi, basicamente, um reassentamento, para alocar os negros em um espaço separado e afastado dos brancos. O bairro ficou conhecido por ser foco de resistência anti-racista e de protestos dos negros contra a política oficial de discriminação.

Soweto visto da estrada

Soweto visto da estrada

Um dos protestos que ficou mundialmente conhecido é o chamado Massacre de Soweto, que aconteceu em 16 de junho de 1976, dando origem ao Dia da Criança Africana. Hector Pieterson tinha 11 anos e participava de uma passeata contra a lei que obrigava todos os meninos a estudarem em Africâner, a língua dos brancos. Os meninos não tinham nenhuma arma. A polícia abriu fogo e morreram centenas de jovens, inclusive Hector. Hoje, um bonito memorial no bairro marca o acontecimento.

Memorial Hector Pieterson

Na frase do memorial: Em honra dos jovens que deram suas vidas na luta pela liberdade e democracia

O memorial Hector Pieterson fica em uma praça onde acaba a rua Vilakazi, considerada a rua mais famosa do Soweto. Lá ficam as casas de dois prêmios Nobel da Paz: o arcebispo Desmond Tutu, que ganhou o prêmio em 1984, e Nelson Mandela, que também recebeu o prêmio, em 1993.

endereço da casa do Mandela em placa na entrada da casa museu A casa onde Mandela viveu foi transformada no Museu da Família de Mandela e nela podem ser vistas coleções de fotografias, pinturas, recortes de jornais, placas de homenagem, cartas, documentos de doutoramentos honorários entregues a ele por universidades de todo o mundo, além de objetos pessoais e móveis da época em que Mandela viveu ali, como a poltrona na qual ele gostava de sentar.

Mandela estava nesta casa quando foi preso, em 1962. Lá, vivia com sua segunda mulher, Winnie Mandela. No chão do corredor que fica entre a cozinha e a sala é possível ainda ver a marca de um muro que Winnie construiu na época, para dormir por trás dele com os filhos, no chão da cozinha, e abrigar-se de ataques da polícia, que passava nas ruas atirando para dentro das casas. Nessa situação, os quartos e sala da casa, com janelas voltadas para a rua, tornavam-se vulneráveis.

sala e cozinha da casa de Mandela

Da porta da casa, é possível ver as Torres de Orlando, duas chaminés de uma usina elétrica nuclear construída na década de 1950. Não é de espantar que a energia gerada não era distribuída em Soweto. Lá ficavam apenas os riscos à saúde. A energia ia para os bairros de brancos de Joanesburgo. A usina foi desativada em 1998 e há alguns anos as torres passaram a ser usadas para a prática de esportes radicais, como bungee jumping.

Usinas de Soweto

De lá, partimos para um mergulho no Apartheid. O que vimos no Museu do Apartheid se confunde muito, como não poderia deixar de ser, com a vida de Mandela. Em uma parte do museu, há, inclusive, uma exposição temporária sobre Mandela, mostrando suas diversas faces: líder, camarada, negociador, prisioneiro, estadista.

fachada museu do Apartheid

O museu foi inaugurado em 2001. É impactante, revelador, instigante. Logo na entrada, ao comprar os bilhetes, você recebe aleatoriamente entrada para o portão dos negros ou dos brancos. E um mesmo grupo de amigos ou familiares pode ser separado ali por estar com a cor diferente. No corredor a seguir a entrada, várias placas que foram usadas na época do regime Apartheid, que não por acaso significa separação em Africâner, em transportes e serviços públicos, lojas e empresas, indicando justamente onde era o local para brancos e onde para negros. Nunca se juntavam e, onde havia situação melhor, como estar sentado ou em pé, a mais confortável era sempre dos brancos.

Mas quem era branco e quem era negro e quem era mestiço e quem era índio e quem era asiático? Isso era definido por uma comissão de classificação racial. Quando havia o censo, a classificação poderia mudar e uma pessoa que anteriormente tinha sido classificada como mestiça, podia passar a ser negra, perdendo alguns dos direitos que tinha anteriormente. Mas, no geral, a divisão era entre brancos e não brancos.

O museu também descreve as leis que garantiram a manutenção do Apartheid por tantos anos, como a que proibia casamentos mistos (entre duas raças diferentes), lei de reserva de benefícios sociais, que criou praias, veículos públicos, hospitais, escolas e outros reservados para pessoas com determinada cor de pele, leis de segregação da educação e, logicamente, leis de repressão à resistência.

O museu é uma caminhada entre instalações, objetos históricos, vídeos e muita informação das mais diversas formas sobre como o regime de segregação se constituiu no país e como a África do Sul superou esse horror.

Eu saí de lá com a sensação que, mais uma vez na história, o instinto egoísta do ser humano e a economia foram fatores fundamentais para uma aberração social. Em um momento de crise econômica, o Apartheid foi apoiado por uma elite que percebeu que, ao transformar 20 milhões de não brancos em cidadãos de segunda classe, teriam muito menos gente para dividir as riquezas do país. Junta-se a isso, claro, o espírito ignorante de preconceito contra o diferente.

O museu tem cenas fortes, como uma sala onde há 131 nós de enforcamento pendurados representando os prisioneiros políticos enforcados durante o regime e a reprodução da minúscula cela onde Mandela ficou preso por quase três décadas de sua vida por defender um ideal de justiça e igualdade social.

Passamos três horas lá dentro, mas tão envolvidos com tanta informação, que sentimos como se tivesse sido só uma. Com tanto tempo investido lá e pouco tempo para Joanesburgo, não conseguimos visitar o Constitution Hill, onde Mandela esteve preso, e a Gandhi Square, construída em 1893 como Government Square e que mais tarde, após uma reforma, recebeu o nome atual em homenagem ao político indiano Mahatma Gandhi, que viveu em Joanesburgo no início do século XX e atuou como advogado, tendo muitas atividades na Transvaal Law Courts, que ficava na praça.

Saiba mais sobre o Massacre de Soweto em matéria que Eduardo Castro publicou no Elefante News.

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Joburg, circuito turístico

Passamos dois dias em Joanesburgo, carinhosamente chamada aqui de Joburg. Apesar de ser uma cidade sem graça, como São Paulo, tem muito o que fazer e poderíamos ficar muito mais dias lá, como São Paulo. Parece até contraditório, mas é assim mesmo. Não é uma cidade de belezas naturais, predominância de prédios históricos ou arquitetura especial. Mas é um importante centro econômico e as coisas sempre acontecem nesses lugares…

Então, vou dividir a cidade em turístitica, histórica e esportiva, para organizar os posts. Para se ter uma idéia da dimensão de Joburg, vamos começar pela visita ao prédio mais alto da África, o Carlton Centre, onde um terraço no alto do prédio oferece vista panorâmica do 50° andar, a 223 metros de altura.

Entrando na ponte Nelson MandelaComo se percebe, o prédio fica bem no meio da cidade. Para chegar nele, passamos pela famosa ponte Nelson Mandela, inaugurada em 2003, e que liga duas importantes áreas de negócios da cidade: Braamfontein e Newtown. A ponte tem 284 metros de comprimento e é estaiada (suspensa por cabos) tipo leque. A estrutura foi nomeada Nelson Mandela em reconhecimento pelo papel dele na unificação da sociedade sul-africana.

Para compras, um shopping diferente. A Mandela Square é uma praça, cercada de edifícios comerciais que são interligados no subterrâneo por lojas, lojas e mais lojas. No térreo (ou rés do chão), ficam principalmente restaurantes e cafés. Fica no bairro Sandton e no centro da praça tem uma grande estátua de Nelson Mandela.

À noite, jantar em um cassino. Escolhemos o Montecasino. Como acontece, em geral, nos cassinos, a decoração é temática. O tema desse é a Itália. Então, tudo reproduz um vilarejo italiano. Os restaurantes e lojas começam a fechar cedo, por volta das 21h30. Mas a parte de jogo a dinheiro funciona 24 horas. Jogamos um pouco, pela diversão. Mas já não é mais tão divertido como antes.

O legal de ir a um cassino era jogar naquelas máquinas que derrubavam um monte de moedas quando você ganhava alguma coisa, mesmo que fossem centavos e que todas juntas não dessem muito dinheiro. Mas o som das moedas e a brincadeira de andar com potes cheios delas era a graça. Hoje, tudo tomado pela tecnologia, o dinheiro vem marcado num código de barras e o barulho das moedas caindo existe apenas pela nostalgia e é reproduzido eletronicamente (tipo máquina fotográfica digital que faz o som do disparo da foto). Perdeu o glamour. Empatamos os R20 (vinte rands) que jogamos e fomos embora. Acho que o Guilherme se divertiu mais, porque ficou na área de jogos eletrônicos.

Geral do Montecasino

Para fechar um passeio na África, nada melhor do que uma visita aos leões. Lion Park. É um parque para safari e, apesar do leão no nome, girafas, avestruzes, zebras, gepardos, cachorros do mato e outros animais nativos estão por lá. Para receber os visitantes, as girafas ficam soltas. E fazem logo amizade. Tem a opção de comprar ração para dar a elas. Nós nem precisamos. Essa se aproximou sem levar nada em troca.

Girafa encara Guilherme e Eduardo

No começo do passeio, há duas áreas cercadas onde ficam leões ainda pequenos. Os bebês podem receber visitas. Grupos de cinco pessoas entram na área e podem brincar com os bichos, que mais parecem grandes gatos.

Eduardo acaricia um leãozinho

Os que já são maiores não podem interagir. Mas são tão lindos quanto os pequenos.

leões na cerca

E os grandes de verdade, adultos e ferozes, ficam nos acampamentos. Assim como alguns filhotes, que ainda precisam da presença da mãe. Nessas áreas entramos de carro, com todas as janelas obrigatoriamente fechadas e passamos perto, bem perto mesmo das feras. Leões, cachorros do mato, guepardos… é emocionante. Foi aí que vimos uma zebra dar uma rasteira numa avestruz, que ficou com as pernas para cima, feito barata que levou uma chinelada. Ela demorou alguns minutos para se recompor, coitada. Quando conseguiu, a zebra ainda correu atrás dela. Depois desistiu, mas saiu olhando para trás, mantendo a ave na mira. Vai saber o que a avestruz falou para a zebra, que ficou assim tão brava.

Leões brincando

Guepardo passa no meio dos carros

Leão albino

Zebras e avestruzes no Lion Park

Nesta parte, há várias áreas cercadas, nas quais entram alguns carros de cada vez. Numa delas, na hora de sairmos, tivemos que esperar a movimentação dos leões que estavam a espreitar a vida lá fora, bem no portão…

Leões ficam no portão e impedem carro de sair

Bem, esse foi nosso primeiro Joburg turístico. Ainda tem muito mais para ver, como a South African Breweries (SAB), uma das maiores cervejarias do mundo em termos de volume produzido (120 milhões de barris por ano), o parque de diversões Gold Reef City, que recria o período em que Joanesburgo era um grande campo de mineração, o MuseuMAfricA e muito mais. Se voltarmos lá, publico aqui. Senão, ficam as dicas para os leitores que forem a Joburg com mais tempo descobrirem como são essas atrações.

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