Os números de 2015

Afinal, 2016 chegou e os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório sobre o ano de 2015 do Mosanblog. Vamos ver o que descobriram…

Apesar de só ter dois novos posts publicados, o blog seguiu no seu ritmo de receber muitas visitas. Para se ter uma ideia, a sala de concertos em Sydney, Opera House tem lugar para 2.700 pessoas. O Mosanblog foi visto cerca de 50.000 vezes em 2015. Se fosse um show na Opera House, precisaria de aproximadamente 19 shows lotados para que todas essas pessoas pudessem vê-lo.

As visitas vieram de 115 países! A maior parte de Moçambique, União Europeia e Brasil. O post mais visitado foi o que explica o que é Mulungo. Se você não leu ainda, pode ler clicando aqui.

Clique aqui para ver o relatório completo

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Mosanblog em 2014

Apesar da pouca atividade do Mosanblog em 2014, os duendes do WordPress não deixaram de produzir o relatório anual, com gráficos e imagens. Como sempre, vou falar dele.

Ao longo do ano, foram publicados só dois novos textos. Um justamente falando do balanço de 2013 e outro em homenagem a uma figura histórica de Moçambique, a dona Isaura.

Foram 73 mil visitas ao longo dos 12 meses e o dia com mais tráfego foi 12 de agosto, com 370 visitas. O mais divertido é que os cliques que trouxeram leitores ao Mosanblog foram dados em 128 países. O mundo se encontra aqui!

visitas Mosanblog 2014

Os posts mais lidos no ano foram: Parabéns, Isaura!, Índice dos presidentes africanos, O pedido é mais importante que o casamento, Mas o que é mulungo, afinal? e Números de 2013.

Para ver o relatório completo, clique aqui.

Parabéns, Isaura!

Hoje, 20 de julho, foi um dia muito especial para Moçambique. Não é data marcada no calendário oficial, mas olha, bem que podia… Na página da dona Isaura Macedo Pinto no Facebook, eu deixei a mensagem: “Todas as homenagens serão poucas para a pessoa maravilhosa que você é. Parabéns, muita saúde, muita felicidade. Taí uma pessoa que merece!”

É aniversário da grande amiga Isaura, que fez parte de nossa vida enquanto moramos em Maputo e que muito nos honra com seu carinho e sua atenção por ser alguém que, de fato, representa a história de Moçambique. E, pensando em como mais eu poderia homenageá-la, resolvi escrever um post para fechar a data.

Isaura completou 56 anos. Inacreditáveis 56 anos. Com tanta energia e cara de menina, parece ter muito menos. Com tanta história e tanta importância política para seu país, poderia ter muito mais.

Isaura esteve presente em um momento crucial de Moçambique. Foi militante na luta pela independência e foi grande influência na formação do novo país que surgia em 1975. Foi assessora do ministério de Relações Exteriores, trabalhando diretamente com o primeiro ministro da pasta, Joaquim Chissano – que viria a ser presidente de 1986 a 2005 –, e sendo importante referência naqueles primeiros anos, do governo de Samora Machel.

Isaura era muito jovem, mas seu cérebro ágil, sua inteligência e sua energia, a colocaram em contato com autoridades de diversos países. Ela ajudou a construir o país e se manteve importante nas altas rodas da sociedade moçambicana. Mesmo assim, em nenhum momento perdeu a espontaneidade e a modéstia. Com a nova nação nos trilhos, fez carreira em um importante banco, para aposentar-se em 2013. Nos últimos anos também retomou os estudos, provando que sua energia continuava a mesma de menina e sua perseverança é infinita.

Também recentemente, se aventurou nas páginas de jornal. Passou a assinar uma coluna no semanário Magazine Independente, onde conta histórias de Moçambique e de pessoas que passam por lá. Imaginem que até eu fui agraciada por tal coluna. E receber uma homenagem de uma pessoa que merece todas as homenagens, é uma honra enorme para mim. Por isso, resolvi retomar o Mosanblog hoje, mesmo sem estar em Moçambique. Afinal, eu saí do país, mas o país não sai nunca mais de mim. Assim como não consigo me desvincular das pessoas maravilhosas que conheci por lá, como a grande Isaura.

Parabéns, Isaura!

Coluna da Isaura, no dia em que, com muita honra, fui entrevistada

Coluna da Isaura, para a qual fui entrevistada

Cidade do Cabo em quatro dias

Conheci a Cidade do Cabo na semana passada. Foram apenas quatro dias, mas muito intensos. A cidade é linda, tem vários passeios obrigatórios e muito diversos um do outro.

E também, estou numa boa altura para dobrar o Cabo da Boa Esperança. Afinal, a cidade é do cabo, por causa dele, o cabo, já chamado também das Tormentas. Inclusive, deu para entender bem porque das Tormentas. Como venta naquela região!

E esse vento define a possibilidade de se fazer alguns passeios muito bons. Então, a grande dica é: desde o primeiro dia que estiver na região tente fazer o passeio a Robben Island e subir de teleférico na Table Mountain.

Robben Island é a ilha onde fica a prisão na qual Nelson Mandela passou 18 anos cumprindo parte de seu confinamento de 27 anos. Chega-se à ilha de barco e muitas vezes o passeio é cancelado por causa do vento forte. No dia que fomos, o guia avisou que estava muito feliz em nos receber, porque durante cinco dias não tinha havido passeios devido às condições climáticas. Depois, o percurso é feito de ônibus.

O grande valor histórico do passeio e essa dificuldade logística-climática fazem com que seja bom comprar o bilhete com antecedência, porque há sempre muita procura. Três semanas antes já é possível fazê-lo pelo site Webtickets. Foi o que fizemos e deu muito certo. Compramos para o primeiro dia que estaríamos lá, pensando no risco de não ir por causa do vento. Mas foi justamente nesse dia que o vento deu uma folga! Cada pessoa paga ZAR 220,00 (R$ 51,65).

A ilha é habitada há milhares de anos. Desde que os holandeses chegaram, no século XVII, passou a ser usada principalmente como prisão. Sua história é de muita tristeza, o que faz o passeio ser de grande reflexão. No século XVII o local abrigou importantes príncipes e xeques da Índia, Malásia e Indonésia, prisioneiros da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais por incitarem a resistência contra os dominadores europeus. Os britânicos também enviaram para lá os governantes nativos do povo xhosa. Em 1963, chegaram na ilha Nelson Mandela e outros sete ativistas condenados à prisão perpétua. O lugar serviu ainda como campo de treinamento e defesa durante a II Guerra Mundial e como hospital para pessoas com hanseníase e doenças mentais ou crônicas de 1846 a 1931.

Em 1991, os últimos prisioneiros políticos foram libertados. Desde 1997 a ilha é um museu a céu aberto, sobre todos esses isolamentos. E quem nos conta a história são ex-prisioneiros transformados em guias turísticos. Definitivamente, visitar a África do Sul hoje é aprender muito sobre perdão e não-revanchismo. O nosso guia foi o simpático e divertido Yussif, que na foto aparece de camisa branca e colete, despedindo-se dos turistas.

saída do ônibus em Robben Island

Cela do Mandela em Robben Island

Foto nada original, mas obrigatória da cela do Mandela em Robben Island

pôr do sol na Table MountainO segundo passeio que tem que ser tentado desde o primeiro dia é subir na Table Mountain. Nós só conseguimos encontrar o teleférico aberto e topo da montanha não encoberto por nuvens no último dia. O ideal é ir no pôr do sol, que é lindo visto lá de cima. Mas desde o segundo dia já estávamos conformados em ir a qualquer hora que abrisse o tempo. Deu certo de ser no final da tarde. A subida e a descida podem ser feitas a pé também. Mas às vezes o vento é tão forte, que nem mesmo a pé é possível.

O teleférico da Table MountainO nome significa Montanha da Mesa, porque seu amplo platô (cerca de 3 quilômetros de uma ponta a outra) faz com que a montanha tenha mesmo um aspecto de mesa. O portal do teleférico fica em um ponto já bem elevado, depois de uma estrada cheia de curvas. O ingresso ida e volta no teleférico sai por ZAR 195,00 (R$ 45,80). Ele é redondo, todo fechado e gira. Desta forma, em qualquer lugar que você se posicionar quando entrar, vai ter vista de 360 graus duas vezes durante o trajeto.

Lá de cima ficamos a 1.086 metros de altitude e pode-se ver o Atlântico, a Robben Island nele, o Índico e toda Cidade do Cabo até o Cabo da Boa Esperança. É de tirar o fôlego. Não sei se durante todo o ano é a mesma coisa, mas agora em outubro estava um frio enorme e um vento forte. Mesmo bem agasalhados, logo tivemos que nos abrigar no café.

Eduardo e Sandra no alto da Table Mountain

vista da Table Mountain

Seguindo na linha dos passeios obrigatórios, tem a ida ao Cabo propriamente dito: ponta de terra que entra pelo mar adentro, a 160 quilômetros da cidade. O ideal é fazer dois caminhos distintos para ida e volta, assim se pode conhecer mais a região. Optamos por ir pela costa Atlântica e voltar pela Índica. O passeio é tão lindo que fica impossível estimar um tempo de duração. Depende de quantas vezes você vai parar para apreciar a paisagem, os animais (de macacos a baleias!) e a própria estrada, que é uma escultura em volta das montanhas. Paramos inúmeras vezes. Mas sempre é possível ir no início da manhã e voltar no fim da tarde.

Sandra com Hout Bay ao fundo

Uma das primeiras paradas para curtir a vista

Babuínos na estrada para Cape Point

Macacos na estrada do parque do Cape Point

O auge é o Cape Point. Um parque nacional onde é possível ir até o Cabo da Boa Esperança. Mais uma vez, vento, muito vento. E aqui estão as atormentantes águas do cabo:

Seguimos pela estrada que continuou linda e ainda nos reservou algumas paradas para ver baleias e tubarões e chegamos à pequena Simon’s Town. Na rua principal, uma grande variedade de restaurantes garante uma agradável pausa para o almoço. Depois, uma visita à praia Boulders, onde vive uma colônia de mais de 2.300 pingüins africanos. Divertidíssimo encontrar macacos e pingüins ao longo do mesmo passeio…

Pingüim na África do Sul

Estando nessa região da África é preciso reservar tempo também para visitar uma vinícola. Estivemos na Constantia. Fica mesmo dentro da Cidade do Cabo e é a mais antiga da África do Sul. Depois do tour guiado com explicações sobre a produção do vinho, é possível fazer degustação e passear pelos jardins e vinhedos até o efeito do álcool passar para poder dirigir novamente.

Vinhedos em África do Sul

Ainda tivemos tempo para ir a Stellenbosch e Franschhoek, duas cidades há cerca de 50 quilômetros da Cidade do Cabo. A primeira tem como forte característica as construções em estilo holandês. O centro é de uma típica cidade antiga européia e pode ser explorado a pé em uma hora e meia. Franschhoek tem características mais francesas e é conhecida pela ótima gastronomia. Na rua principal, uma série de restaurantes oferece variados cardápios, com predominância da culinária francesa. Ambas estão também na rota do vinho da África do Sul e há nelas diversas vinícolas para serem visitadas.

Ainda na rota do vinho, mais uma parada, desta vez, histórica, em Paarl, na prisão Victor Verster, onde Mandela estava quando foi libertado em 1990.

estátua de Mandela na frente da prisão onde ele esteve

Estátua de Mandela na frente da prisão Victor Verster

Para os fãs das comprinhas, Cidade do Cabo também não deixa a desejar. No centro da cidade, cercada por bonitos e bem conservados prédios históricos e simpáticos cafés, fica a Greenmarket Square, uma praça que recebe diariamente uma diversificada feira de artesanato. Para os ainda mais consumistas, vale uma visita ao shopping do V & A Waterfront. O Vitoria & Alfred Waterfront trata-se de um projeto de reconstrução do cais de Cidade do Cabo. Há um grande shopping, mais de 80 restaurantes e lanchonetes (muitos com vista para o mar), hotéis, edifícios residenciais e comerciais e é de lá que saem alguns passeios marítimos, como o para Robben Island.

Sei que o texto ficou enorme, mas tudo na Cidade do Cabo merece registro.

E para ler ainda mais sobre essa viagem, visite o ElefanteNews.

Cervejas de Moçambique

Já faz um tempo que eu tenho pensado em escrever um post sobre as cervejas moçambicanas. Agora, um evento publicitário desta semana me faz trazer o assunto imediatamente. Primeiro devo explicar que Moçambique tem duas marcas de cerveja produzidas comercialmente em larga escala. Ambas pela empresa Cervejas de Moçambique.

Uma delas é a Laurentina, de sabor quase nostálgico, graças a este nome que homenageia a antiga capital de Moçambique no tempo colonial, Lourenço Marques. Produzida desde 1932, ela tem recentemente a Laurentina Premium, que recebeu, em 2009, a medalha Grande Ouro no concurso internacional de qualidade Monde Selection, realizado na Bélgica. Em 2008, a Laurentina Preta já tinha obtido a medalha de ouro do mesmo instituto europeu, que realiza anualmente concurso de qualidade de produtos do mundo inteiro.

Garrafa 2MA outra marca é a 2M, nome em homenagem ao conde de Mac-Mahon que, quando presidente de França, em 1875, decidiu a favor de Portugal numa disputa com a Grã-Bretanha relativa à posse da região sul de Moçambique. Eu, particularmente, gosto mais da 2M. O que não significa nada, porque não sou nem de longe uma grande cervejeira.

O curioso é as duas manterem nomes do tempo da colônia (literalmente), quando quase todas as nomenclaturas do país foram alteradas. A começar pelo próprio nome da capital, Lourenço Marques, que inspirou a Laurentina e hoje chama-se Maputo.

Essa é a história que eu vinha guardando para contar dia desses. Mas eis que o pessoal da publicidade da Laurentina Preta me saiu com uma essa semana… que não dá para deixar passar.

Publicidade Laurentina preta

A propaganda está, em forma de outdoor, em diversos pontos da cidade. Propaganda apelativa assim e de mau gosto não costuma ser comum por aqui. A publicidade moçambicana é fraca, mas tem lá sua ética…

E isso acontece justamente durante os Jogos Africanos, quando visitantes de toda a África estão no país. A Liga dos Direitos Humanos e o Fórum Mulher logo se posicionaram contra, pedindo a imediata retirada dos anúncios em todos os espaços públicos.

Em matéria no jornal Fala Moçambique da TV Miramar, nesta terça-feira, ouviram o povo nas ruas e um garotinho de uns dez anos falou sobre o que achava do outdoor: “acho que se uma mulher sair assim na rua, as pessoas não vão gostar”.

Em entrevista coletiva, o representante da empresa ainda piorou as coisas. Explicou que a publicidade usa a palavra preta porque é como a cerveja é conhecida e “ficou de boa para melhor” porque o novo formato da garrafa é “melhor de pegar”.

Sabe aqueles momentos que é melhor não tentar explicar, porque só vai te complicar? Esse é um deles, Laurentina…

Veja mais sobre a repercussão negativa da publicidade, no blog Moçambique para todos.

P.S.: No dia seguinte à publicação desse texto, li a notícia da Rádio Moçambique de que a empresa decidiu retirar todo o material da campanha do ar. Veja aqui.

Revolução pacífica

Há alguns dias, Afonso Dhlakama, presidente da Renamo (Resistência Nacional Moçambicana), principal partido de oposição ao governo de Moçambique, passou a ganhar mais espaço nos jornais do país, ao apresentar proposta de reagrupar seus antigos guerrilheiros desmobilizados em um quartel-general em Cabo Delgado. Em seguida, a Renamo voltou a falar sobre organização de manifestações em todo o país. A promessa de tais manifestações foi feita inicialmente logo após as eleições gerais de 2009 e seriam protestos contra alegadas fraudes nas eleições.

As manifestações e o reagrupamento dos guerrilheiros fazem parte de uma revolução que está sendo incitada por Dhlakama. Note-se que o líder da oposição chama a ação de revolução pacífica. Peço que me explique quem puder, em que português é possível ter sentido a expressão “revolução pacífica”. E se vai ser pacífica, para que é preciso então, os ex-guerrilheiros serem aquartelados para “assegurar a defesa dos cidadãos que decidam aderir”, como afirmou o porta-voz da Renamo, Fernando Mazanga, em entrevista à Voz da América. Aliás, o mesmo porta-voz afirmou ainda que o partido possui armas de fogo, que serão disponibilizadas aos guerrilheiros aquartelados. Pacífica…

Segundo a Renamo, a ação é resultado da insatisfação dos antigos guerrilheiros com a atual situação do país e incumprimento, por parte da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), do acordo geral de paz, especialmente, no que diz respeito à formação do exército nacional. O objetivo é que até o final do ano corrente o partido no poder promova uma transição gradual e a Renamo assuma o governo.

Vale observar que a Renamo surgiu como dissidência da Frelimo, após a independência de Moçambique. A Frelimo era partido único e governava o novo país. Então, Renamo e Frelimo protagonizaram uma guerra civil, que durou 16 anos, terminando em 1992.

Note-se também que até as ondas do Pacífico sabem que eleição por aqui é assunto obscuro. Sempre se diz que há muita confusão nas eleições, que talvez o resultado fosse mais apertado do que foi nas últimas eleições e há quem fale até que a Frelimo tem apoio de organismos internacionais e por isso está aí. Tratei sobre o tema no post Democracias.

Mas, é preciso dizer que, inclusive para agradar os tais organismos internacionais, o governo atual tem feito algumas alterações nas regras da dinâmica eleitoral, visando dar mais transparência e domonstrar lisura no processo.

Agora, uma coisa (a confusão nas últimas eleições) não pode justificar a outra (chamado à revolução, ainda que com a capa de “pacífico”). Seja lá como for, Moçambique é um estado de direito democrático, há liberdade de expressão e há meios verdadeiramente pacíficos de se mudar uma situação que desagrade à grande massa da população.

Claro está que esses meios dão muito mais trabalho. O pensamento das lideranças de oposição tem que ser muito elaborado. As ações e declarações têm que ser mais assertivas e menos espalhafatosas. Nem sempre se está disposto a tanto.

Na mais recente edição do jornal Domingo (7 de agosto de 2011), o editorial bateu de forma certeira em alguns pontos que devem ter destaque nesse enredo todo: “A construção democrática do Estado exige um repensamento contínuo e uma organização em função do bem comum, com leis que criem condições para que a parte má do ser humano nunca consiga arvorar-se em sistema jurídico, privilegiando os egoísmos castradores do desenvolvimento do povo em cidadania”.

Afirma ainda o editorial que, no país, “o incitamento à guerra, à violência, é crime e deve ser reprimido como tal. Afonso Dhlakama privilegia o caminho da violência e da guerra, para conseguir chegar ao poder”. Mas o texto logo observa, talvez para tranqüilizar o leitor, que “dada a sua personalidade, há a tendência generalizada para o não levar a sério”.

Sendo levado a sério ou não, o que se sabe, e o editorial confirma é que “Dhlakama virou agitador, ameaçando, publicamente, dar tiros na cabeça aos polícias que contrariem os seus intentos belicistas”. No editorial, o veículo de comunicação defende que Dhlakama seja chamado à ordem enquanto é tempo. “Não por contestar o regime, não por advogar a sua reestruturação, mesmo a sua destruição, direito que lhe assiste, mas por advogar tudo isso com recurso à guerra.

E sugere: “Que crie jornais, que ponha de pé estações de rádio e televisão. Que se bata, com denodo, informando o povo, que privilegie o conhecimento que é o substracto da liberdade e da construção do Estado. Será o povo informado a pronunciar-se”.

Concordo plenamente com a sugestão do Domingo. Mas, conforme escrevi no post já aqui citado Democracias, não sei se a oposição em questão tem habilidade política e intelectual para tanto. Como já observei, esta via dá mais trabalho e exige capacidade intelectual mais elaborada do que a que temos visto.

Veja mais sobre o reagrupamento de antigos guerrilheiros, em notícia do Moçambique para todos.

Comida e história

Estamos hoje, em Maputo, na região onde, antes da chegada dos portugueses no século XV, constituiu-se o Império de Gaza, um dos maiores da África, que se expandia por parte do que hoje é a África do Sul e Zimbabwe. As principais culturas agrícolas desse povo eram de cereais (milho, sorgo, milheto e arroz) e leguminosas (basicamente feijão e amendoim), além de batata doce, mandioca e algumas hortaliças. Para completar a alimentação, havia ainda criação e caça de animais.

Quando chegaram os portugueses, esse povo foi dominado e a alimentação da região passou a sofrer influência da nova cultura. O arroz passou a ganhar mais espaço nos pratos e foram descobertos fritura e açúcar refinado. Essa influência fez com que hoje a comida preparada à base de óleo seja vista como melhor. Afinal, os portugueses subjugaram os nativos e isso faz com que eles e seus hábitos sejam vistos, muitas vezes, como superiores.

As comidas tradicionais ainda são preparadas, mas estão sempre ligadas à idéia de pobreza e falta de cultura, não de melhor valor alimentar. A pessoa come matapa (prato à base de folhas de mandioca cozidas com água de coco e amendoim pilado) porque não tem dinheiro para comprar óleo e fazer algo frito.

Talvez por isso, por essa visão de que o que é original da terra não é bom, tenhamos poucos restaurantes moçambicanos de qualidade por aqui e os que encontramos servem pouca variedade. Outra curiosidade é que já ouvi algumas histórias de moçambicanos felizes quando aprendem a fazer “comida de branco”.

carrinhos de frutas

Já falei no Mosanblog que sinto falta aqui de sucos naturais. Há muitas opções de frutas na região, pelo clima tropical do país. Inclusive, é muito comum encontrarmos vendedores empurrando carrinhos (chamados chovas) com grande variedade de frutas para vender: laranja, banana, uva, maçã, mamão, lichia, morango… e nada de suco natural nos bares e restaurantes. sumo Compal laranjaNo entanto, suco de caixinha e de garrafinha sempre tem. Talvez a lógica seja a mesma: acharem que o industrializado é melhor, porque foi introduzido por outros povos.

No site Slow Food Brasil há a constatação de que a educação alimentar e a transformação para valorizar as comidas nacionais exigirão esforço de toda a sociedade moçambicana, incluindo governo e sociedade civil, na conscientização da população sobre os bons hábitos alimentares. “Aliás, comer bem não é apenas comer o que é dos outros (dos brancos, como comumente designado em Moçambique), mas também — e principalmente — a valorização das comidas tradicionais”, afirma Tomás Adriano Sitoe no artigo Colonização e independência em Moçambique: hábitos alimentares em mudança.

venda de temperos e verduras nas ruas

Frutas, verduras e temperos naturais podem ser comprados em cada esquina, mas já não são tão importantes na dieta de arroz e frituras

Saiba mais sobre o assunto lendo o artigo de Tomás Adriano Sitoe no site Slow Food Brasil.

Veja também o que foi dito no Na ponta do lápis sobre xima, um dos alimentos típicos de Moçambique.

Turismo em Moçambique

Recentemente descobri o site do Guia Turístico de Moçambique. Traz informações sobre clima, fauna, flora, cultura do país e das províncias.

É muito bem feito. Nele se descobre, por exemplo, que os povos primitivos de Moçambique foram os bosquímanes (ou bosquímanos ou khoisan). Entre os anos 200 a 300 D. C. é que vieram os povos bantos, oriundos da região dos Grandes Lagos, que empurraram os povos originais da região para áreas mais pobres, ao Sul. No final do século VI, surgiram nas zonas costeiras os primeiros entrepostos comerciais patrocinados pelos Swahilárabes que procuravam a troca de artigos por ouro, ferro e cobre vindos do interior. No século XV é que se inicia a dominação portuguesa, com a chegada de Pêro da Covilhã às costas moçambicanas e o desembarque de Vasco da Gama na Ilha de Moçambique.

Tem informações sobre como tirar o visto para ingresso no país, a moeda (o metical), feriados, endereços e telefones de embaixadas, aeroportos e muito mais. Além, claro, de dicas de locais para se visitar. Tudo muito completo, com endereços de lugares para se hospedar, compras, informações de serviços e lazer.

Percebi que ainda tem informações a serem completadas, mas, no geral, é uma boa dica para quem visita o país.

página inicial do site de turismo em Moçambique

Dia do Mandela

No Mandela Day, publico aqui duas frases que encontrei no Museu do Apartheid, em visita que fiz a Joanesburgo recentemente e ajudam muito a entender a grandeza deste homem.

Primeiro, o arcebispo Desmond Tutu fala sobre Mandela:

Quando Mandela foi preso ele era um jovem furioso, intimidado por um erro judicial. Aqueles anos na prisão foram muito cruciais. O sofrimento aprofundou suas faculdades espirituais, e ele cresceu naquela época em magnanimidade e generosidade de espírito

Quando Mandela foi preso ele era um jovem furioso, intimidado por um erro judicial. Aqueles anos na prisão foram muito cruciais. O sofrimento aprofundou suas bases espirituais, e ele cresceu naquela época em magnanimidade e generosidade de espírito

Aqui, outra, que mostra o quanto ele foi superior a seus opressores, mesmo depois de quase três décadas de prisão:

Após 27 anos na prisão, Nelson Mandela ainda podia fazer gracejos. Ele saiu determinado a trazer paz e democracia para a África do Sul. Ele não tinha tempo para vingança ou amargura. Ele havia realmente passado por cima.

Após 27 anos na prisão, Nelson Mandela ainda podia fazer gracejos. Ele saiu determinado a trazer paz e democracia para a África do Sul. Ele não tinha tempo para vingança ou amargura. Ele havia realmente passado por cima.

Veja o post Joburg, circuito histórico, para saber mais sobre o Museu do Apartheid. E leia mais sobre o Mandela Day no ElefanteNews.

Joburg, circuito histórico

Como eu citei no post exatamente anterior a este, vou escrever sobre nossa viagem a Joanesburgo em três partes. A primeira foi a turística e agora vem a histórica. Depois, falo do esporte.

A África em si tem história, muita história para contar. Afinal, é aqui o berço da humanidade, foi aqui que tudo começou para o homo sapiens, é daqui que todos viemos e acho que para os brasileiros, que tiveram tantos africanos sendo levados para sua terra em tempos recentes, isso se faz ainda mais verdade.

Então, temos história de milhares de anos para conhecer na África. Mas nosso passeio por Joanesburgo, por falta de tempo para mais, conteve-se na história moderna, recentíssima: segunda metade do século passado.

Iniciamos com um passeio pelo famoso bairro do Soweto. O nome vem da sigla South West Townships (distrito do sudoeste). Soweto foi criado em 1963, durante o regime do Apartheid, para juntar em um mesmo espaço negros que viviam em diversos bairros. Foi, basicamente, um reassentamento, para alocar os negros em um espaço separado e afastado dos brancos. O bairro ficou conhecido por ser foco de resistência anti-racista e de protestos dos negros contra a política oficial de discriminação.

Soweto visto da estrada

Soweto visto da estrada

Um dos protestos que ficou mundialmente conhecido é o chamado Massacre de Soweto, que aconteceu em 16 de junho de 1976, dando origem ao Dia da Criança Africana. Hector Pieterson tinha 11 anos e participava de uma passeata contra a lei que obrigava todos os meninos a estudarem em Africâner, a língua dos brancos. Os meninos não tinham nenhuma arma. A polícia abriu fogo e morreram centenas de jovens, inclusive Hector. Hoje, um bonito memorial no bairro marca o acontecimento.

Memorial Hector Pieterson

Na frase do memorial: Em honra dos jovens que deram suas vidas na luta pela liberdade e democracia

O memorial Hector Pieterson fica em uma praça onde acaba a rua Vilakazi, considerada a rua mais famosa do Soweto. Lá ficam as casas de dois prêmios Nobel da Paz: o arcebispo Desmond Tutu, que ganhou o prêmio em 1984, e Nelson Mandela, que também recebeu o prêmio, em 1993.

endereço da casa do Mandela em placa na entrada da casa museu A casa onde Mandela viveu foi transformada no Museu da Família de Mandela e nela podem ser vistas coleções de fotografias, pinturas, recortes de jornais, placas de homenagem, cartas, documentos de doutoramentos honorários entregues a ele por universidades de todo o mundo, além de objetos pessoais e móveis da época em que Mandela viveu ali, como a poltrona na qual ele gostava de sentar.

Mandela estava nesta casa quando foi preso, em 1962. Lá, vivia com sua segunda mulher, Winnie Mandela. No chão do corredor que fica entre a cozinha e a sala é possível ainda ver a marca de um muro que Winnie construiu na época, para dormir por trás dele com os filhos, no chão da cozinha, e abrigar-se de ataques da polícia, que passava nas ruas atirando para dentro das casas. Nessa situação, os quartos e sala da casa, com janelas voltadas para a rua, tornavam-se vulneráveis.

sala e cozinha da casa de Mandela

Da porta da casa, é possível ver as Torres de Orlando, duas chaminés de uma usina elétrica nuclear construída na década de 1950. Não é de espantar que a energia gerada não era distribuída em Soweto. Lá ficavam apenas os riscos à saúde. A energia ia para os bairros de brancos de Joanesburgo. A usina foi desativada em 1998 e há alguns anos as torres passaram a ser usadas para a prática de esportes radicais, como bungee jumping.

Usinas de Soweto

De lá, partimos para um mergulho no Apartheid. O que vimos no Museu do Apartheid se confunde muito, como não poderia deixar de ser, com a vida de Mandela. Em uma parte do museu, há, inclusive, uma exposição temporária sobre Mandela, mostrando suas diversas faces: líder, camarada, negociador, prisioneiro, estadista.

fachada museu do Apartheid

O museu foi inaugurado em 2001. É impactante, revelador, instigante. Logo na entrada, ao comprar os bilhetes, você recebe aleatoriamente entrada para o portão dos negros ou dos brancos. E um mesmo grupo de amigos ou familiares pode ser separado ali por estar com a cor diferente. No corredor a seguir a entrada, várias placas que foram usadas na época do regime Apartheid, que não por acaso significa separação em Africâner, em transportes e serviços públicos, lojas e empresas, indicando justamente onde era o local para brancos e onde para negros. Nunca se juntavam e, onde havia situação melhor, como estar sentado ou em pé, a mais confortável era sempre dos brancos.

Mas quem era branco e quem era negro e quem era mestiço e quem era índio e quem era asiático? Isso era definido por uma comissão de classificação racial. Quando havia o censo, a classificação poderia mudar e uma pessoa que anteriormente tinha sido classificada como mestiça, podia passar a ser negra, perdendo alguns dos direitos que tinha anteriormente. Mas, no geral, a divisão era entre brancos e não brancos.

O museu também descreve as leis que garantiram a manutenção do Apartheid por tantos anos, como a que proibia casamentos mistos (entre duas raças diferentes), lei de reserva de benefícios sociais, que criou praias, veículos públicos, hospitais, escolas e outros reservados para pessoas com determinada cor de pele, leis de segregação da educação e, logicamente, leis de repressão à resistência.

O museu é uma caminhada entre instalações, objetos históricos, vídeos e muita informação das mais diversas formas sobre como o regime de segregação se constituiu no país e como a África do Sul superou esse horror.

Eu saí de lá com a sensação que, mais uma vez na história, o instinto egoísta do ser humano e a economia foram fatores fundamentais para uma aberração social. Em um momento de crise econômica, o Apartheid foi apoiado por uma elite que percebeu que, ao transformar 20 milhões de não brancos em cidadãos de segunda classe, teriam muito menos gente para dividir as riquezas do país. Junta-se a isso, claro, o espírito ignorante de preconceito contra o diferente.

O museu tem cenas fortes, como uma sala onde há 131 nós de enforcamento pendurados representando os prisioneiros políticos enforcados durante o regime e a reprodução da minúscula cela onde Mandela ficou preso por quase três décadas de sua vida por defender um ideal de justiça e igualdade social.

Passamos três horas lá dentro, mas tão envolvidos com tanta informação, que sentimos como se tivesse sido só uma. Com tanto tempo investido lá e pouco tempo para Joanesburgo, não conseguimos visitar o Constitution Hill, onde Mandela esteve preso, e a Gandhi Square, construída em 1893 como Government Square e que mais tarde, após uma reforma, recebeu o nome atual em homenagem ao político indiano Mahatma Gandhi, que viveu em Joanesburgo no início do século XX e atuou como advogado, tendo muitas atividades na Transvaal Law Courts, que ficava na praça.

Saiba mais sobre o Massacre de Soweto em matéria que Eduardo Castro publicou no Elefante News.

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