Ser escritor em Moçambique

O Mia Couto é hoje o mais bem conceituado escritor moçambicano. Eu já revelei minha admiração por ele aqui, no post Quanto melhor, mais simples.

Para além de ser um grande escritor e ótima pessoa, Mia sempre rende boas histórias. Entrevista sua é deleite na certa. Transcrevo abaixo trecho de uma resposta que ele deu em entrevista aos alunos do 3º ano do Ensino Médio do Colégio São Luís, em São Paulo, transcrita por Marina Azaredo e divulgada no blog Moçambique para todos.

À pergunta como é ser escritor em Moçambique, Mia respondeu: “Vou contar um pequeno episódio que pode ajudar a responder a essa questão. Um dia eu estava a chegar a casa e já estava escuro, já eram umas seis da tarde. Havia um menino sentado no muro à minha espera. Quando cheguei, ele se apresentou, mas estava com uma mão atrás das costas. Eu senti medo e a primeira coisa que pensei é que aquele menino ia me assaltar. Pareceu quase cruel pensar que no mundo que vivemos hoje nós podemos ter medo de uma criança de dez anos, que era a idade daquele menino. Então ele mostrou o que estava a esconder. Era um livro, um livro meu. Ele mostrou o livro e disse: “Eu vim aqui devolver uma coisa que você deve ter perdido”. Então ele explicou a história. Disse que estava no átrio de uma escola, onde vendia amendoins, e de repente viu uma estudante a entrar na escola com esse livro. Na capa do livro, havia uma foto minha e ele reconheceu-me. Então pensou: “Essa moça roubou o livro daquele fulano”. Porque como eu apareço na televisão, as pessoas conhecem-me. Então ele perguntou: Esse livro que você tem não é do Mia Couto?”. E ela respondeu: “Sim, é do Mia Couto”. Então ele pegou o livro da menina e fugiu.”

Mia é isso. É uma capacidade de ser leve para falar das coisas difíceis que vê e uma perspicácia admirável para saber falar de um mundo desconhecido a platéias de todo canto. Só ele poderia contar assim a relação dos moçambicanos com o livro, que é algo caro, inacessível para a maioria e ainda muito novo…

Sugiro a leitura da entrevista completa no texto Onze perguntas de crianças para Mia Couto e uma entrevista inspiradora feitas numa escola brasileira.

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O anjo branco

Com 678 páginas, divididas em três partes (Paraíso, Purgatório e Inferno), o livro o Anjo Branco (editora Gradiva) é daqueles nos quais um capítulo chama o outro e quando a história acaba o leitor pede mais.

O autor José Rodriges dos Santos conta a história de seu pai, um médico que não escolhia pacientes, nem tratava melhor ou pior a nenhum deles (branco, negro, doutor, guerrilheiro, soldado, capitão, rico, pobre…). Ação difícil de ser colocada em prática nos anos de guerra pela libertação em Moçambique.

A história mostra o sentimento humanitário que o médico carregava e que deveria estar dentro de todos os que exercem a medicina. Só alguém com esse sentimento acima de tudo teria sido capaz de criar o Serviço Médico Aéreo na distante província de Tete, na colônia Moçambique, em meados do século XX.

Romance baseado em fatos reais, boa parte do livro se passa em Portugal, do nascimento do médico em Penafiel até sua formatura no Porto. Na seqüência, mostra o trabalho do médico em Moçambique, na década de 1960, primeiro em Xai Xai, depois em Tete. O ápice da história é o massacre de Wiriyamu.

O livro nos faz refletir sobre como o exército português conseguiu fazer com que os portugueses que viviam nas cidades em Moçambique ficassem alheios por muito tempo à guerra que acontecia no país. Sempre acreditando que as manifestações anticolonialistas seriam controladas e não passariam disso: manifestações. Triste é ver no fim do livro com que métodos o exército pretendia controlar a guerrilha…

Mas, para além da descrição histórica de um dos fatos mais importantes da guerra da independência em Moçambique, que foi o massacre de Wiriyamu, todo o cenário político, social e econômico presente no livro é de grande valia para o leitor, desde a vida em Portugal durante a Segunda Guerra Mundial até o cotidiano dos portugueses que viviam nas colônias africanas.

Em entrevista ao Jornal de Notícias o autor afirma que quis “escrever um romance como nunca tinha sido escrito sobre a guerra colonial e os portugueses em África”. Parece que conseguiu. E da melhor forma.

Para quem está em Moçambique, a história do anjo ensina sobre o passado, ajuda a compreender o presente e faz refletir sobre o futuro. Para quem não está, é uma forma de chegar mais perto.

O Anjo Branco pode ser encontrado em livrarias de Portugal por cerca de € 24,00 ou de Moçambique por cerca de MT 1.400,00. No Brasil, encontrei na Livraria Cultura online, por R$ 77,65.

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Veja aqui a sinopse do livro.

Leia mais sobre a obra no blog da Vania, no Uma biblioteca aberta e no Sugestão de Leitura.

Feira do Livro de Maputo

Por apenas três dias (29 e 30 de abril e 1 de maio) acontece em Maputo um feira do livro. Para além de exposição e vendas de livros, o evento conta com muitas atividades culturais, como entrevistas, declamações de poesias, presença de contadores de histórias, lançamentos de livros, sessões de autógrafos, entre outros.

Vale muito percorrer todas as barracas (que nem são muitas, infelizmente), porque lá se encontram desde livros sendo vendidos pelos mesmos preços das livrarias (o que aqui significa muito dinheiro), até livros sendo doados. Sem contar com os livros novos a preços mais baixos, livros usados e livros que estão lá apenas para exposição e valem ser folheados já que não podem ser carregados.

A Feira do Livro de Maputo acontece no Parque dos Continuadores, que fica entre as avenidas Mártires da Machava, Armando Tivane e Mao Tse Tung (com entradas nas duas primeiras). Fica aberta das 10h às 18h.

Abaixo, a programação.

E conheça também o site oficial do evento, clicando aqui.

Animal

Algumas palavras têm diferentes significados, que não tem nada a ver um com o outro. É o caso de manga, por exemplo. Uma fruta e uma parte de uma peça de roupa. Complicado entender como é que isso se deu.

Uma palavra que eu até entendo o raciocínio dos homens para chegar a sentidos tão diferentes, mas nunca concordo é animal. O dicionário Aulete, por exemplo, diz que animal é um ser vivo organizado, com sensibilidade e capacidade de locomover-se, e, ao mesmo tempo, a palavra designa pessoa estúpida ou abrutalhada. Os animais não mereciam isso. Não é justo que seres com sensibilidade e capacidade de organização sejam comparados a humanos estúpidos.

No fim de semana fomos ao Kruger Park. Vimos lá muitos animais. Pela definição do dicionário, todo tipo de animal…

Exemplo de como animais estacionam o carro

Acordo em pauta

Já tratei aqui algumas vezes sobre a questão do acordo ortográfico da língua portuguesa, que ainda não é um acordo para muitos países, como Moçambique. Na verdade, não tenho nada contra nem a favor do acordo e nem é o acordo o foco de minha atenção. O que me faz sempre voltar ao assunto é o fato de Moçambique não ter clareza na documentação de seu idioma. O idioma é fonte de referência e ligação entre as pessoas de um país. Desde sua independência, Moçambique nunca teve suas próprias regras, sua norma de grafia. A introdução do acordo ortográfico talvez possa ser um bom momento para isso. A discussão com relação ao acordo já seria saudável, porque colocaria em pauta a questão do idioma.

Mas desde que cheguei aqui (há um ano) não ouvi referências ao tema. Agora, parece que um grupo de comunicação do país, o SOICO, dono da STV e do jornal O País, resolveu colocar a questão na pauta do dia. Desde o início do ano temos visto matérias sobre o assunto (ainda que seja para levantar a questão de que o país não trata do tema) e hoje no início da tarde houve até um programa de televisão cujo tema era o Acordo Ortográfico entre os países de Língua Portuguesa. O programa Opinião Pública conta com a participação de telespectadores por telefone e foi interessante ver a percepção das pessoas de diversas partes do país sobre o assunto. Um que me chamou a atenção observou, por exemplo, que os moçambicanos já não escrevem mais exatamente o português de Portugal . Há pessoas que usam o brasileiro e há pessoas que misturam, usando um e outro. Por exemplo, uma mesma pessoa pode escrever acto, mas ação (para ter coerência, seria acção). Isso é claramente falta de normas explícitas, regras do país, que digam o certo e o errado.

Em matéria de ontem do jornal O País foi tratada a questão do custo da implementação do novo acordo: estimada em 100 milhões de dólares americanos. O investimento seria destinado a modificar livros de todo sistema nacional de ensino, formar professores à nova ortografia, capacitar jornalistas, funcionários públicos, pessoal de programas de rádio e televisão, entre outros. A proposta da implementação do acordo no país será levada à Assembléia da República no primeiro trimestre de 2012. Só então saberemos se Moçambique vai ou não aderir ao acordo. E se não aderir? Que normas serão seguidas aqui?

Veja mais em Acordo?, A difícil construção da identidade e no texto do jornal O País Acordo ortográfico custará 100 milhões de dólares americanos.

A difícil construção da identidade

Há menos de 20 anos Moçambique saiu de um período de guerras que assolou o país, deixou muitos mortos e profundas marcas em sua cultura. De 1976 a 1992 foi a guerra civil. Antes disso, de 1964 a 1975 foi a guerra pela independência. Assim, a construção do país ainda está por acontecer. Afinal, antes de 1975 era colônia de Portugal. Depois, quando se ia iniciar a construção da identidade do novo país livre, veio a guerra civil.

Nesse momento que estamos vivendo aqui, estamos justamente acompanhando a construção dessa identidade, a formação de um país. Essa experiência é maravilhosa. Cansativa, às vezes, confesso, mas riquíssima. Por exemplo, uma discussão ainda muito insipiente por aqui, mas que começa a dar sinais de que existe é a da adoção do Acordo Ortográfico dos países de língua portuguesa, sobre o qual falei no post “Acordo?”.

O fato é que no meio dessa confusão de deixar de ser colônia, criar suas próprias regras, leis, normas e conceitos, mas tudo durante uma guerra civil, algumas questões não foram sequer tratadas. O nosso querido português (o idioma, deixo claro), é uma dessas. Como explicou o docente da Universidade Pedagógica, Agostinho Goenha, em artigo publicado no jornal O País no dia 26 de fevereiro, “Em Moçambique, a norma linguística adoptada como referência é a do português europeu”, porém “Em conformidade com a documentação moçambicana consultada, nenhum Decreto-Lei ou dispositivo legal refere explicitamente que a norma padrão do Português em Moçambique é a européia”.

Ou seja, quando éramos colônia, naturalmente, o idioma oficial era do colonizador. Ao se conquistar a independência, apenas se definiu que o idioma oficial seria o português, até mesmo para contribuir para a comunicação da nação, visto que originalmente o território de Moçambique tem várias línguas diferentes e, sem o português como elo de ligação o norte não falaria com o sul, que não entenderia o centro.

Porém, com tanta coisa a se construir e com o idioma já sendo falado e escrito aqui e ali da forma como os portugueses o fazem, os governantes nem se deram conta que seria necessário definir as normas do idioma em seu país. Nada se fez.

Assim como nada está sendo feito com relação ao acordo ortográfico, que seria um bom momento para regulamentar a questão. No mesmo artigo, Agostinho observa que o governo deveria ao menos sinalizar se tem intenção de assinar o acordo e traçar um calendário, ainda que a longo prazo (para ser compatível com a realidade social e financeira do país).

Agora, se o português adotado aqui baseia-se no português europeu (ao menos me parece que é isso que se tenta fazer), então, com Portugal já se movimentando para adotar o Acordo Ortográfico, o mesmo deveria acontecer por aqui. No entanto, não há sinais nesse sentido.

Nas escolas, os professores fogem do assunto. Nas ruas, onde apenas 30% da população fala português, as pessoas nem sabem que o assunto existe. E no dia a dia o idioma vai sendo cada vez mais diverso do europeu, não igual ao brasileiro e totalmente sem documentação.

Leia mais na matéria Acordo ortográfico divide académicos, do jornal O País.

O olho de Hertzog

No final de 2010 publiquei os textos Mais uma tentativa e Sobre o prêmio BCI de literatura, onde contei do lançamento de um prêmio de literatura em Moçambique.

De acordo com o regulamento, a premiação no valor de MT 200.000,00 (aproximadamente R$ 10.000,00) seria atribuída ao melhor livro (poesia, prosa, crônica ou dramaturgia ou outro gênero de ficção) publicado no ano de 2010 por um escritor moçambicano. O resultado tinha previsão de divulgação em 27 de janeiro de 2011.

Agora, nada mais correto do que divulgar quem venceu. Foi o autor Paulo Borges Coelho, com o livro O olho de Hertzog, da editora Ndjira.

O romance se passa em 1919, em Lourenço Marques (nome da capital de Moçambique quando colônia). O oficial alemão Hans Mahrenholz se faz passar por empresário e jornalista inglês. Descobrir os motivos que o levaram a este lugar, que fazem com que esconda sua verdadeira identidade e por que procura desesperadamente um mulato com nome grego e uma longa cicatriz são os elementos que fazem o leitor percorrer as quase 450 páginas do romance.

Vale observar que o mesmo livro ganhou o prêmio Leya 2009, como já contei no post Nossa pátria está em crise. Como o prêmio BCI seria destinado ao melhor livro publicado em 2010, imagino que em 2009 o livro tenha sido publicado em Portugal e não em Moçambique ou, talvez, o juri tenha aceito a possibilidade de premiar um livro que não tenha tido sua primeira publicação, mas sim tenha sido reeditado no ano em questão.

Acordo?

Outro dia li a notícia Português ainda não é igual para todos no jornal O País e fiquei surpresa com algumas informações, como, por exemplo, que Angola e Moçambique ainda não ratificaram o novo acordo ortográfico, que visa homogeneizar as diversas formas de escrever português.

Eu bem estava achando estranho o assunto andar tão fora de pauta por aqui. Os textos são todos escritos sem a aplicação do acordo e eu nunca tinha visto nada na mídia sobre o assunto. Até agora só tinha ouvido comentários de alguns amigos sobre o acordo, observando as dificuldades que essa ou aquela mudança podem causar.

Depois de ler a notícia é que entendi porque o assunto está tão fora de pauta. Moçambique sequer reconhece o acordo. Em Cabo Verde parece que a adoção já está em andamento, ainda que classificada na matéria como “devagar”. São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Timor ratificaram mas não iniciaram a aplicação. Apenas o Brasil e Portugal ratificaram e já criaram mecanismos para a implementação.

No Brasil, a nova ortografia entra em vigor no país em 1 de janeiro de 2012. A data é determinada em decreto presidencial de setembro de 2008. Em Portugal, o novo acordo ortográfico entrou em vigor em janeiro de 2009. Mas, até 2015, decorre um período de transição, durante o qual ainda se pode utilizar a grafia atual.

Em entrevista também ao jornal O País, o escritor e jurista Jorge de Oliveira, secretário-geral da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), opina que o parlamento de Moçambique já deveria ter aprovado o acordo ortográfico. Ele vê as novas regras do acordo como pontos que “ajudariam muito a crescer em termos de redacção e simplificação da escrita”. Para Jorge, Moçambique está a ficar para trás.

O ministro da Educação de Moçambique, Zeferino Martins, citado na matéria do jornal O País, afirma que “No momento certo, levaremos o assunto ao Conselho de Ministros e à Assembleia da República para aprovação. O nosso objectivo é que os moçambicanos participem suficientemente no debate”. Mas se não se fomenta o debate? Como é que os moçambicanos participarão?

Acesse aqui um guia rápido para a nova ortografia.

Sobre o prêmio BCI de literatura

Faz alguns dias contei no post Mais uma tentativa sobre o lançamento do prêmio BCI de Literatura 2010. Comentei ali que não sabia como seria conferido o prêmio, quem poderia se inscrever e que procuraria o regulamento para divulgar.

Pois bem, promessa cumprida. Entrei em contato com a Associação dos Escritores Moçambicanos, que promove o prêmio em parceria com o banco BCI, e fui informada de que “o prêmio é atribuído ao melhor livro (poesia, prosa, crônica ou dramaturgia ou outro gênero de ficção) publicado no ano, por um escritor moçambicano”. Não tem necessidade de se inscrever, portanto não há valor de inscrição e nem prazo. Ou seja, todos os livros de moçambicanos publicados em 2010 estão automaticamente concorrendo.

Como já tinha informado no post anterior sobre o assunto, o vencedor receberá MT 200.000,00 (aproximadamente R$ 10.000,00) e terá seu nome divulgado na última quinta-feira (27) de janeiro de 2011. Aguardemos!

Mais uma tentativa

No texto Nossa pátria está em crise, comentei sobre a decisão dos jurados do prêmio Leya de não premiar nenhum concorrente nesse ano, por falta de qualidade nos textos apresentados.

Agora, o banco moçambicano BCI (Banco Comercial e de Investimentos) também lança um prêmio de literatura, em parceria com a Associação dos Escritores Moçambicanos. O Prémio BCI de Literatura 2010 tem como objetivo estimular o gosto pela leitura na sociedade moçambicana e criar condições para a produção e publicação de obras de qualidade em âmbito nacional.

O júri usará como critérios de avaliação a criatividade das obras, a beleza, a literatura, a ficção, entre outros. O vencedor do prêmio receberá MT 200.000,00 (aproximadamente R$ 10.000,00) e terá seu nome divulgado na última quinta-feira (27) de janeiro de 2011.

Ainda não consegui informações mais detalhadas, como o regulamento do concurso. Mas continuo na busca e, conseguindo, publicarei no Mosanblog. Tomara que esse prêmio tenha melhor sorte que o Leya e encontre candidaturas à altura de serem contempladas e divulgadas.

Veja notícia do jornal O País sobre o lançamento: Prémio para a literatura.

P.S. No dia 18 de dezembro de 2010 publiquei o texto Sobre o prêmio BCI de literatura com as informações sobre como se dará a escolha do vencedor.

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