Sucesso moçambicano

Há cerca de um ano eu deixava a direção da Academia de Comunicação, sediada em Maputo. A escola já estava a andar bem, os funcionários estavam treinados, era tempo do dono moçambicano assumir a direção e impor seu método de gestão.
Alguns meses depois, eu deixei Moçambique e, apesar de manter contato com algumas pessoas, não pude bem acompanhar tudo. Afinal, a distância é grande e a comunicação é difícil.

Estou de volta a Maputo pela primeira vez desde então. E para minha felicidade, em três dias aqui, encontrei três ex-alunos da Academia de Comunicação, cujas histórias muito me marcaram.

Hamina chegou na escola com muita vontade e determinação, com boa argumentação, mas com uma certa timidez que insistia em prevalecer sobre sua capacidade comunicativa. Chegou também quase sem dinheiro. Foi à minha sala tentar uma negociação. As inscrições para o curso de Técnicas de Reportagem estavam a encerrar e ela teria dinheiro só em alguns dias, mas queria muito fazer tal curso. Ela tinha alguns Rands (moeda da África do Sul), que propôs deixar como caução e em dez dias pagaria todo o valor em metical, como tinha que ser.

Naquele momento, percebi ali um talento e uma história verdadeira. Eu já tinha ouvido muitas e tinha sido obrigada a falar muitos nãos. Contra ela ainda tínhamos o fato do curso escolhido ser um dos mais caros. Afinal, Técnicas de Reportagem seria como um mini curso de jornalismo, um Jornalismo Básico de qualquer universidade. Ou seja, era um curso robusto e muito importante. Ao fim, Hamina conseguiu um acordo e em alguns meses concluiu o curso.

Outro dia chegou à escola o pai de um pretendente a aluno e pediu para falar comigo. Ele tinha visto a propaganda que eu fazia na televisão e achou que estava ali o futuro do filho. Mas ele não tinha dinheiro naquele momento, porque precisaria fazer um empréstimo no banco para conseguir o valor. As aulas já iam começar e ele me pediu uns dias para trazer o dinheiro, sem prejuízo da presença do Zefanias no curso de edição de vídeo. Esse era um curso muito procurado, o professor era Orlando Mesquita, um dos mais respeitados (senão o mais) profissionais da área em Moçambique. Se Zefanias começasse o curso e não pagasse, eu teria perdido uma vaga que com certeza seria preenchida por outro. O pai me mostrou o crachá do trabalho para me dar confiança e foi de uma sinceridade que me convenceu. Antes de vencer o prazo que eu tinha dado a ele para pagar ou o filho não poderia continuar o curso, veio me visitar a mãe do Zefanias. Trouxe um envelope cheio de notas. O empréstimo saíra e eles estavam a pagar o curso todo sem parcelar.

Então, veio o Hermenegildo. Fez a matrícula e começou as aulas, colega de Hamina, no curso de Técnicas de Reportagem. O professor do curso era Ricardo Botas, experiente jornalista sênior, ótimo professor, mas com uma didática bastante diferente da tradicional à qual os moçambicanos estão acostumados. Hermenegildo deu trabalho. Na primeira semana queria o regulamento interno da escola. Por ser uma escola muito nova, o regulamento ainda estava a ser adaptado a algumas regras dos órgãos oficiais e não estava publicado. Era uma pendência que seria resolvida rapidamente. Mas, enquanto não foi, Hermenegildo batia à porta da secretaria quase todos os dias a pedir o documento.

Além disso, a didática pouco convencional do professor também foi motivo de questionamentos por parte do jovem. Mas eu via ali um perfil de alguém realmente capaz de ser um jornalista como poucos há em Moçambique: questionador, independente, ousado. Driblamos as dificuldades com ele até o final de todos os módulos e o jovem conseguiu seu certificado.

Agora, ao retornar a Moçambique, encontrei Hamina. Uma outra mulher. Quase não a reconheci. Mais forte, com a cabeça erguida, feições confiantes. Trazia consigo alguns exemplares do jornal Público, para o qual escreve regularmente, às vezes mais de uma matéria na mesma edição, várias assinadas.

Junto com Hamina, estava o colega Hermenegildo. Com este eu havia mantido algum contato, porque ele, depois de formado na Academia, me tinha sido indicado pelo professor Ricardo para um trabalho de pesquisa que eu faria e continuei a fazer a partir do Brasil. Então, troquei alguns e-mails com ele nesse tempo. Sabia que ele tinha conseguido vaga em um jornal de esportes, onde recebia até um bom salário. Infelizmente, há algumas semanas o jornal fechou. Agora, está a dar aulas de português e tem a certeza que outros jornais virão. Eu também.

Depois, fui visitar uma importante produtora de vídeos estabelecida em Maputo e encontrei Zefanias trabalhando, como profissional do quadro da empresa. Fiquei muito feliz em ver que o sacrifício do pai dele foi compensado. Eu me sentia responsável, não só pelo fato de ser a diretora da escola, mas por ele ter insistido que eu o convencera com a propaganda na televisão e por ele ter precisado fazer um empréstimo ao banco para conseguir garantir o estudo do filho. Tudo isso ficou pequeno diante do grande caminho que Zefanias está seguindo.

Tenho certeza que esses três exemplos que encontrei nesses dias são apenas alguns de muitos que tiveram suas vidas encaminhadas para o difícil mercado de trabalho de Moçambique, a partir da passagem deles pela Academia de Comunicação, uma empresa 100% moçambicana.

matéria pescado
Matéria de Hamina Lacá no jornal Público de 16 de abril de 2012, onde ela conta como mudanças climáticas podem estar causando escassez de pescado em Maputo e afetando toda uma comunidade

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6 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Alem de tudo mocambique e maravilhoso

  2. A semente está plantada. Agora é só ver os frutos crescerem. Beijão.

  3. Maravilha! Nada mais gratificante do que ver os frutos do que semeamos em terra fértil. Mais ainda quando testemunhamos exemplos de superação. Parabéns por fazer a diferença na vida das pessoas. Bjs

  4. área de educação, o que mais compensa são esses encontros com pessoas que passaram por sua escola e venceram. Vi muito isso com meus pais que eram professores e até hoje encontramos alunos que falam que eles ajudaram a mudar a vida deles. E melhor ainda quando demos um voto de confiança para uma pessoa e podemos ver os resultados positivos desse ato. Parabéns pelo seu trabalho aí e é bom você estar vivendo isso esses dias. beijos

  5. Espetáculo! Viste que afinal sempre deu para semear alguma coisa?😉

  6. Lindo! Gostoso de ler!


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