Mudanças acontecem. Devagar…

Um dos blogs que eu mais gostei de conhecer quando vivia Moçambique e em Moçambique foi o Devagar… A gaja para além de escrever muito divertidamente, pegou bem o espírito da vida aqui e sabe traduzir como ninguém as sensações de quem se vê obrigado a viver em um outro tempo. Eu mesma também tentei em alguns textos mostrar o conflito de quem está a andar num ritmo diferente dos outros e minhas tentativas de me adaptar, o que, até certo ponto, consegui bem.

Agora, chegar a Moçambique depois de meio ano é interessante porque fez perceber mudanças que talvez nem notasse no dia-a-dia, justamente por causa da velocidade mínima na qual elas acontecem.

As ruas continuam sujas, muito sujas, com o vento provocando rodamoinhos de plásticos pretos e poeira que se enroscam em suas pernas enquanto você anda pela cidade. Os artesãos continuam a te seguir pelas ruas, a pedir para comprar qualquer coisa e ao final a te oferecer tudo que têm nas mãos pelo preço inicial de uma peça, para poder ter algum metical para almoçar. A internet continua lenta, bem lenta, e cara, muito cara. As novelas brasileiras continuam a dominar a televisão local e os assuntos nos salões. A rede de celular a toda hora está busy (ocupada). O movimento nas ruas é muito, uma leva de desempregados com fome a vender crédito de celular, tomates, bananas, roupas usadas, na tentativa de movimentar um pouco a economia e garantir a sobrevida. As gambiarras da empresa de energia de Moçambique (EdM) estão por toda parte e alguns postes ainda “ardem” quando começa a noite e o maior uso de energia nas casas.

Mas houve mudanças. Ao entrar no país, minha mala chegou no mesmo vôo que eu, não foi aberta na alfândega, eu passei na imigração tranquilamente e entrei no país sem gastar nenhum dinheiro a mais do que estava previsto nas regras. A obra de reabilitação do Mercado Central de Maputo, que começou pouco antes de eu partir está quase pronta e as barracas, que tinham sido transferidas para a área externa do mercado, em breve vão estar de volta ao pátio interno renovado. Tudo dentro do prazo previsto. Há aqui e ali alguns pontos de internet wi-fi que até funcionam nos cafés e principais jardins de Maputo. Os preços de alimentos e transporte não tiveram alta significativa, especialmente, os de primeira necessidade.

As mudanças acontecem. Talvez mais visíveis para quem se afastou por um tempo, porque são devagar, mas acontecem.

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Published in: on 03/07/2012 at 11:38  Comments (6)  
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6 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Sanflosi disse:

    “Mudanças acontecem. Devagar…”

    “…As ruas continuam sujas, muito sujas, com o vento provocando redemoinhos de plásticos pretos e poeira que se enroscam em suas pernas enquanto você anda pela cidade. …”

    A propósito do lixo, sujidade, mijar na rua (sem nenhum pudor) em Maputo: – ao ler a citação acima mencionada, fez-me lembrar algo que tinha lido no jornal “Domingo” de Maputo, do dia 9 de Setembro de 2012 – Secção “Bula-Bula” (pág. 30 – última página):

    “COPIAR E DEPOIS FICAR A RIR-SE DE NÓS!”

    “Os escribas moçambicanos que estiveram em finais de Agosto passado em Kigali, capital do Ruanda, trouxeram-nos uma dessas estórias em que o discípulo supera o mestre, enquanto este adormece e esquece tudo o que ensinou àquele. Isto vem a propósito do seguinte: todos os que chegam à cidade de Kigali admiram a sua urbanidade e civismo. Conta-se, amiúde, que é uma cidade limpa, limpíssima. Não se vê um papel sequer no chão. Mas o que os moçambicanos não sabiam e ficaram a saber desta vez é que o exemplo foi copiado da cidade de Maputo, pouco depois da independência e nos anos 80, tempos em que havia campanhas de limpeza e saneamento do meio ambiente. Cada quarteirão saía à rua, todos os sábados, com vassouras, ancinhos, pás, para limpar o seu quinhão. Os chefes de “DEZ CASAS” e o de “QUARTEIRÃO” tinham listas para marcar as presenças e as faltas dos moradores a este trabalho voluntário. “BULA-BULA”, que a seu tempo participou nas famosas campanhas, pode garantir que isso tornava a nossa capital numa das cidades mais limpas. Os ruandeses copiaram o exemplo e perpetuaram-no. Todos: ricos, pobres, tutsis, hutus, com carro ou sem carro, saem aos sábados para limpar a cidade, numa jornada cívica com marca moçambicana. Quem diria, hem!!, vendo como está agora a cidade das acácias?
    _________
    Meu comentário: O que “BULA-BULA” fala aqui sobre a cidade de Maputo dos anos 80 é mesmo verdade. Lembro-me de que alguns viajantes até comentavam então que Maputo era mais limpa que Johannesburgo, (naquela altura).

    Mas como as coisas “MUDARAM…” para Maputo se tornar no que é hoje: uma cidade suja, uma cidade-mictório, etc. etc.? Aí as “MUDANÇAS ACONTECERAM DEVAGAR…” também. A guerra da “Renamo” teve um efeito devastador em Moçambique: Para exemplificar: No auge da guerra as pessoas doutra margem, na KATEMBE, tinham que atravessar para vir pernoitar em Maputo. Assim também do lado de Boane, a guerra tinha chegado tão perto de Maputo como Matola-Rio; aí também as pessoas vinham pernoitar na Matola. Do lado da estrada no.1 populações de Maluana, Bobole, Bokiso, etc., também tinham que buscar refúgio perto da cidade. Do lado lado da Costa do Sol era possível ouvir o estrondo das armas, a uns poucos quilómetros da própria presidência da República; e as pessoas aí residentes tinham que se refugiar na cidade. Isto sem mencionar as pessoas da Província de Maputo, Gaza e Inhambane que fugiram de lá e vieram refugiar-se em casas de familiares aqui na Cidade de Maputo e noutras cidades do País. O centro das cidades eram os únicos sítios seguros. A cidade sofreu uma pressão tremenda deste influxo de pessoas deslocadas (sujidade, hábitos rurais, superpopulação, etc.).

    Pondo a guerra da Renamo de lado, houve as famosas cheias e secas repetidas de tempos a tempos que provocaram por sua vez também um êxodo das populações afectadas para a Cidade de Maputo (ou capitais provinciais).

    Com o fim da guerra, houve maior abertura e liberdade de circular de pessoas. O mato, isto é, as zonas rurais estavam infestadas de minas e outros engenhos explosivos, as pessoas não podiam voltar às suas terras para cultivar e viver. Isto resultou que os únicos sítios, onde as pessoas podiam praticar qualquer tipo de negócio de sobrevivência eram as cidades, principalmente a Cidade Capital Maputo – daí outra causa do êxodo maciço de pessoas de todas as províncias do país para as cidades capitais e Maputo.

    Tudo isto resultou num novo fenómeno, numa “MUNDAÇA…DEVAGAR”: “A RURALIZAÇÃO DA CIDADE” com as sua consequências daí decorrentes.

    Com o advento do multipartidarismo a Frelimo também perdeu o seu poder mobilizador, que usou nos primeiros anos da independência, para organizar as pessoas em grupos de “10 CASAS” com seus chefes, “QUARTEIRÕES” com seus chefes, Bairros com os seus “COMITÉS”, e assim por diante que lideravam as referidas campanhas de limpeza nos fins-de-semana. A “DESCENTRALIZAÇÃO” do poder para os munícipios também teve e trouxe novos desafios e problemas – como instituições novas que eram e que são até agora.

    Outra “MUDANÇA” foi a atitude de “Restaurantes, Casas de pasto, Pastelarias, etc.” que a dado momento deixaram de permitir que qualquer um se servisse das suas ”casas de banho, retretes” – a não ser que seja um cliente (consumindo algo), que para isso deve solicitar a chave da “WC” no balcão ou pagar alguma taxa (2.00Mt, por ex. no Bazar Central) – antes, no tempo colonial e nos primeiros anos de independência não havia tal exigência. Isto e com a degradação das “WC” públicas nos jardins públicos, prédios públicos ou noutras instituições, a superpopulação das cidades e a “RURALIZAÇÃO” das mesmas, precipitou a “mijeira (passe a expessão)”, nas ruas.

    Tudo isso acima mencionado, junto com a nossa falta de “auto-estima”, o espírito de “deixa-andar”, o “cabritismo”, etc. contribui para a sujeira, falta de urbanismo (mijar em público), enfim…. É este o nosso Moçambique, que vai ‘MUDANDO …DEVAGAR…’- que até certas vezes tem dado um “bom exemplo” a outros e ele mesmo regride, para depois ir aprender dos seus “imitadores”. – (Que flagrante falta de auto-estima)

    • Miguel, obrigada por mais esta visita e contribuição com dados históricos relevantes para a compreensão de Moçambique.

      Abs.

  2. […] fora também ajudou a perceber melhor as mudanças positivas que se deram, como já contei no texto Mudanças acontecem. Devagar… Enfim, acho que encontrei uma fórmula boa para conviver e contribuir com Moçambique: nunca […]

  3. É bom ter a perspectiva do tempo, não é?
    E como diziam em Luanda :”fica só bem, ya?”

  4. Realmente quando estamos do lado de fora percebems com maior clareza as mudanças, mesmo as mais lentas. Mas a Pat disse bem: elas contribuem para analisarmos nossas mudanças interiores. Ando querendo me afastar de mim mesma para fazer essa análise profunda rsss. Muito bom viajar por aí com você! Bjs

  5. É interessante quando começamos a analisar as mudanças que acontece na vida das pessoas depois de um tempo fora pois no dia a dia não sentimos isso. Você sentiu isso quando voltou ao Brasil? Mas sei o quanto te acrescentou esse tempo em Moçambique e essa nova viagem vai te mostrar mais essas mudanças que também aconteceu dentro de você. Como não fui aí ainda, vou vivendo essas mudanças em mim através dos seus relatos e do que leio.Gosto de ler sobre a cultura de outros lugares e ver como vive o povo. Obrigada por me proporcionar essas histórias.


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