O moçambicano e a autoestima

Moçambique é um país maravilhoso. Tem belezas naturais inimagináveis, tem fauna e flora riquíssima, tem solo fértil e rico, tem um povo simpático, acolhedor, bem humorado, respeitador. Mas continua com um dos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) mais baixos do mundo. Tem alguns problemas e dificuldades tão entranhados no país, que o brilho de tudo isso que é bom acaba por se apagar.

Depois de conviver e conhecer mais a fundo esse povo e esse país tenho acreditado cada vez mais que o que falta aqui é autoestima. O moçambicano precisa acreditar mais em seu potencial e valorizar o que faz, o que tem, o que é. Vivendo em Maputo, no sul do país, estamos muito perto da fronteira com a África do Sul. Não sei se o mesmo se repete em outros pontos do país, mas aqui chega a ser enervante o quanto o moçambicano valoriza seu vizinho, sem aplicar a ele o mesmo senso crítico que aplica a si próprio.

Sim, a África do Sul é mais rica, tem mais desenvolvimento tecnológico e seu Índice de Desenvolvimento Humano é melhor. Mas a África do Sul está bem longe de ser o exemplo do tudo perfeito que os moçambicanos vêem. Estou hoje em Cidade do Cabo, a quarta cidade que conheço da África do Sul. As outras foram Nelspruit, Joanesburgo e Pretória, sem contar o Kruger Park, que é um mundo à parte.

Em todos esses lugares sofri com atendimento ineficiente, vi lixo na rua (bem menos que em Maputo, é verdade, mas vi), vi favelas, encontrei gente pedindo esmola, convivi com serviços mal feitos e gente sem educação, enfim, vivenciei problemas. Mas quando o moçambicano fala da África do Sul, fala do país perfeito, de cidades sem favelas, do lugar onde todos têm emprego e ganham bem (verdade que ganham mais que em Moçambique, mas gasta-se mais também), do lugar limpo onde o povo não faz xixi na rua.

Ou seja, os moçambicanos tendem a não ver os problemas que também existem (talvez em menor escala) no seu vizinho. E mais: não percebem que os problemas que não existem no vizinho dependem, em muito, da atitude do próprio povo. Quem faz xixi na rua em Maputo? Os postes? Não, o povo. Quem joga lixo a céu aberto? As árvores? Não, o povo. Talvez, falte ao moçambicano perceber que se ele cuidar do que está a volta dele, pode conseguir um ambiente melhor e ter o que tanto acha bonito no seu vizinho.

Isso me lembra muito a atitude de alguns brasileiros com relação aos Estados Unidos. Vivem dizendo que “se fosse nos Estados Unidos não seria assim”, “lá as coisas funcionam”, “lá as pessoas são sérias”… Eu vivi lá e pude ver de perto e sentir na pele que não, não é nada disso…

Talvez se o moçambicano notar o seu valor, as suas cidades bonitas e a sua terra fértil, consiga fazer com que tudo isso seja igual ou melhor do que o que está no vizinho. Falta se perceber capaz, se valorizar e não se deixar abalar por uma fronteira. O mesmo moçambicano que passa o dia na África do Sul sem fazer xixi na rua, o faz quando chega em Maputo. Por quê? Porque “aqui é assim mesmo”. E se cada um resolver que não quer mais que seja?


Obs.: escrevendo este texto, lembrei de um outro, muito bom, escrito pelo Guilherme alguns meses atrás no Na ponta do lápis, chamado Miragem, e da Carta aberta a todo moçambicano e moçambicana, do ‘nando Aidos, publicada aqui no Mosanblog.

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6 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Na africa do sul quem controla essas coisas e o policia emkuanto que em Mocambique o policia e o primeiro a mijar nas ruas, comer bananas dequalquer maneira nas ruas e dai k nao sei si ele pode sujar e educar o outro a nao sujar a cidade

  2. espero que isso melhore

  3. concordo consigo pk eu sou moçambicana e sei que o pais precisa de autoestima e o pais deve querer desenvolve e fazer d tudo para isso acontecer e cuidar do ceu pais saber que a africa do sul esta como esta hoje por esforço e ajuda por parte do proprio povo

  4. Reli o seu post e lembrei-me de uma observação que faço com frequência, com grande tristeza, um sentimento de culpa até, mas com muita convicção:

    Infelizmente muitos desses hábitos, incluindo o “lá fora é que é bom”, foram ensinamentos deixados pelos colonizadores. Para mal de todos, foram aprendidos com muito esmero. Ao longo do tempo, “requintes de malvadez” foram adicionados. E esses maus hábitos ficaram por fim o tal ” aqui é assim mesmo” que não tem outra razão de ser.

    Sinto vontade de dizer bem alto ” não nos imitem nestas coisas”! Na burocracia estagnante, nos maus hábitos de higiene, na falta de auto-estima e auto-confiança, no “lá fora é que é bom”!

    Parem!!! Chega!!!

  5. “E se cada um resolver que não quer mais que seja?” – é isso mesmo!

    O governo, só por si, seja ele bom ou mau, correcto ou corrupto, não pode fazer isto. O cidadão TEM DE o fazer!

  6. Disse tudo, inclusive o que seria meu comentário rsss. “Essa mania de alguns brasileiros com relação aos Estados Unidos”. Basta que cada um resolva que não quer mais que seja do jeito que desagrada e fere os princípios da boa cidadania, ora pois!!! Beijos


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