O tempo que temos é o tempo em que devemos viver

Viver em Moçambique tem me ajudado a ver a vida sob outro ângulo, como não podia deixar de ser. Foi da mesma forma quando saí de quase duas décadas vividas na zona Norte de São Paulo, para a viver na zona Oeste. E depois disso, quando saí do Brasil, para viver nos Estados Unidos. Também mudou completamente o ângulo de visão do mundo quando morei em Brasília. Nunca antes o mar tinha sido algo tão distante para mim. Lembro que achei curioso encontrar uma pessoa já com algumas décadas de vida que nunca tinha visto o mar. Depois, percebi que no cerrado brasileiro isso é mais comum do que meu umbigo imaginava. Em África, a perspectiva é outra ainda. Diferente das anteriores; nem melhor, nem pior.

Cada uma dessas experiências contribuiu para eu entender melhor o mundo, ver o quanto ele é maior do que parecia da janela de casa. Aqui, em Moçambique, aprendi mais do que ver o mundo de um novo ângulo, mas também a viver nele em um outro ritmo. No início, eu achava estranho a matéria do jornal da TV falar de algo que aconteceu há três dias. Afinal, jornal de TV para mim, era o resumo do dia. O que não entrou hoje, se perdeu. Aqui não. Coisas importantes para as pessoas demoram para chegar à sede da emissora, que nem por isso deixa de dar a informação. Dois, três, quatro dias depois. E daí? Quantas vezes, nas ânsia de informar mais rápido, antes do outro, no momento que o fato acontece, os jornalistas não cometem equívocos? Ou então, as notícias saem aquelas coisas sem nenhuma elaboração que tanto estamos acostumados a ver por aí. Texto fraco, sem nexo, nem beleza, mas que saiu rápido.

Com o tempo, aquilo que era estranho passou a ser compreensível. Com mais tempo, passou a ser desejável.

Explico: nas últimas décadas, com novas descobertas tecnológicas e no campo da saúde, a expectativa de vida aumentou. Teoricamente, com mais anos de vida e equipamentos mais modernos que permitem fazer as coisas em menos tempo, um ser humano hoje deveria conseguir fazer coisas que seu avô planejou, mas não teve tempo de vida para fazer. Mas o humano é um ser em busca da frustração eterna. Ele não se contenta com isso. Ele quer fazer o que seu avô não fez e ainda planejar fazer um tanto de coisas que não vai conseguir.

E o pior é que, quando vivemos inseridos nessa roda viva, deixamos de perceber o que estamos fazendo e que mundo estamos alimentando. Não percebemos a dor e o sofrimento ao nosso lado. Não vemos as belezas nem sentimos fundo todas as alegrias. Não percebemos que estamos envolvidos em um sistema que quer, justamente, que não possamos refletir sobre o que fazemos. As pessoas falam quase com orgulho: há cinco anos não tiro férias… não tive um fim de semana livre esse mês… recebo e-mails no celular até quando estou no cinema… ãhn???

Estamos todos virando Zips, como no vídeo abaixo:

Mais incrível é pensar que os prazos curtos e as amarras fortes são criados pelo próprio homem. Claro que aí vem a ganância do chefe, a vontade de enriquecer do dono, a competição do estagiário estúpido. Mas nós somos cada um desses.

Aqui, em África, eu vejo muita coisa ruim. Não estou no paraíso. Mas aqui eu não vejo tantos Zips…

Antes de vir para cá, assisti inúmeras palestras de filósofos e educadores que falam sobre o quanto a vida está corrida, o quanto as pessoas não convivem mais, o quanto os valores do tempo estão distorcidos, o quanto “era bom antigamente” e a platéia (pelo menos 97% dela) ficava encantada, pensando que queriam rever os modelos que estão aplicando, que aquele filósofo está certo… depois saíam do evento e voltavam para suas vidas agitadas, de e-mail no celular, de contato com qualquer lugar do mundo a qualquer hora, até mesmo enquanto dirige, para ganhar tempo. Ganhar tempo?

Aqui, é como se o tempo decorresse mais devagar… Ou será que em outros cantos é que tem estado a correr demais?

E o resultado dessa correria, para além de acabar com a saúde das pessoas, é o fim da criatividade e do surgimento de grandes pensadores. Não temos mais a capacidade de longos raciocínios. Pensamos sempre em respostas breves para questões urgentes e paramos de pensar com elaboração, com longas linhas de raciocínio, que levavam a grandes descobertas.

Para reverter isso, precisamos parar de desejar dias de 30 horas ou semanas de 10 dias, porque eles não vão acontecer. Nossa loucura não vai mudar a rotação da Terra. Por outro lado, se vivermos em um ritmo menos acelerado, talvez consigamos chegar a descobertas que vão tornar nossas vidas melhores e até nosso trabalho mais rentável. Temos que aprender a viver no tempo que temos e fazer dele o mais produtivo e, de preferência, criativo possível.

Published in: on 19/09/2011 at 22:36  Comments (9)  
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9 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Olá Sandra, gosto da forma como você descreve a outra dimensão do tempo – mais lento – que por aqui se vive, como um ‘pianissimo’ que se vai saboreando e nos vai remetendo para a nossa essencialidade.
    Faz-nos bem , custa a habituarmos-nos…

    • Acho que ver a outra dimensão do tempo desta forma foi a maneira que encontrei para conviver com esta diferença de um hábito de toda a vida. Habituar “devagar…”

      Abraço.

  2. Cara Sandra. Se você “tiver tempo”, sugiro uma leitura: Momo e o Senhor do Tempo. Obrigado por seu texto.

    • André, obrigada você pela dica de leitura.

      Vou arranjar, sim, tempo!
      🙂

  3. Essa semana, uma colega aqui estava falando que o filho de 12 anos precisa levar o celular pra escola pois ele pode ter problema na volta pra casa se o tranporte contratado não aparecer. (Coisa que acontece raramente). Como sobrevivemos todos esses anos sem celular pra essa eventual emergencia? Foi o drama da semana dela. E eu fico triste quando vejo o quanto o celular atrapalha nossas vidas. Sei como é bom poder resolver problemas na rua, chamar o guincho quando o carro quebra, mas um garoto de 12 anos ir pra escola com celular, pra mim é demais. Mas é o novo mundo que estamos contruindo. Onde tudo é tão rápido. E muitas vezes, o fim pode chegar mais cedo, porque o celular e a notícia rápida é mais importante…
    Saudade…

  4. É isso aí. Agarramo-nos à tal “produtividade” para fazer mais, sempre mais e depois, só mais um pouquinho… para o chefe ver como somos bons…

    No tempo em que eu tinha que ir trabalhar para “fazer mais”… já nao me lembro bem o que era o tal “mais”, muitas vezes pensava que a tal “productivity” nao era mais do que “prod activity”.

    Claro que isto era na terra do Uncle Sam, famosa pelo “been there, done that”, “let’s do that now”… whatever “that” is or was…

    Nao consegui fugir aos anglicismos. Desculpem.
    Bjs,

    p.s. este teclado é espanhol e nao tem o “til” excepto no ñ…

  5. Qualquer pessoa que deseja dias de 30 horas ou semanas de 10 dias merece conseguir isso. Só para ela. Sou a favor das pessoas conseguirem o que desejam. Voilá.
    Aqui o je-moi-meme deseja ganhar na loteria e nunca mais ouvir a palavra “trabalho” na vida. Como dizia Sacha Guitry: o homem não foi feito para trabalhar. Prova disso é que ele cansa.”
    Beijos!

  6. Belo texto. Fruto de uma reflexão, de quem parou e pensou. De fato quanto “paramos”, talvez estejamos evoluindo e quando corremos ,engolidos pela demanda massacrante, é que talvez estejamos parados !
    Adorei.

  7. Certíssimo: “Mas o humano é um ser em busca da frustração eterna”. Também me pergunto “para que” e “para onde” corremos tanto??? Mas a pior constatação é pensar que tem muita gente que não teria paciência para assistir o ZIP hehehe. Genial. Parabéns pelo texto.


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