Música e educação

Como a nossa Quinta Quente bem vem mostrando ao longo de sua existência, a musicalidade é uma característica muito forte da África. Batida forte e ritmo empolgante são a marca da música africana. E os africanos gostam muito desta expressão artística. Tudo é motivo para ela, e ela é motivo para dançar.

A partir disso, um moçambicano muito especial, Feliciano dos Santos (que eu conheci na Carta Aberta publicada neste blog em 21 de agosto último), encontrou uma forma de usar música para ajudar as gerações presentes e futuras a terem melhor qualidade de vida. Ele reúne pessoas em aldeias isoladas no interior do país, onde não há sinais de modernidade, onde nunca se viu tocar uma banda com aparelhagem elétrica. Para essas pessoas, Feliciano dos Santos, com sua banda, chamada Massukos, toca músicas que falam sobre higiene pessoal, saneamento básico, meio ambiente, prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e tudo mais que possa ajudar as pessoas a alcançarem melhor qualidade de vida.

Ele canta em língua local e acredita que, com esse tipo de música, ajuda as pessoas a evitarem doenças como cólera, diarréia, poliomielite e outras. É fantástico. Ele fala a língua que é melhor compreendida e atrai as pessoas pela musicalidade. É lindo ver as pessoas dançando ao som de “vamos lavar nossas mãos, para as crianças ficarem saudáveis, para os mais velhos ficarem saudáveis, para as mães ficarem saudáveis” ou “nós construímos latrinas…” Tenho certeza que quem ouve e canta junto com eles essas músicas, aprende a lição. As pessoas saem cantando depois pela vida afora e vão sempre se lembrar de lavar as mãos, por exemplo.

Em sua infância na província Niassa Feliciano foi vítima da poliomielite, que o deixou com uma deficiência física em uma das pernas. Já adulto, formou a banda Massukos e uma associação, a Estamos, que trabalha com técnicas de eliminação de excrementos humanos. Para se aproximar dos aldeões e tratar do assunto, ele usa a música. A associação também promove a agricultura sustentável, lidera projectos de reflorestamento e patrocina iniciativas de combate ao HIV/Aids (HIV/Sida).

Em entrevista publicada no site LusoÁfrica.net ele mesmo explica a estratégia: “Em África, quando se toca um batuque, as pessoas aglomeram-se e aquele é o momento próprio para começar a transmitir aos outros aquilo que lhe vai no coração”.

Graças a sua iniciativa, Feliciano dos Santos recebeu, em 2008, o prêmio Goldman Prize, considerado o mais importante no que se refere a questões do meio ambiente. No site do prêmio, a explicação: “Usando a música para difundir a mensagem de saneamento ecológico nas partes mais remotas de Moçambique, Feliciano dos Santos habilita os habitantes das aldeias a participar do desenvolvimento sustentável e deixar a pobreza para trás. Na província do Niassa, muitas aldeias não contam nem mesmo com uma infra-estrutura de saneamento básico. Sem acesso confiável a sistemas de fornecimento de água limpa e tratamento de dejectos, a população está altamente sujeita a enfermidades. Santos, que cresceu na região, é hoje o líder de um programa inovador que está a trazer esperança renovada ao Niassa. Com a sua banda, Massukos, reconhecida internacionalmente, Santos utiliza a música para divulgar a importância da água e do saneamento em Moçambique. Actualmente, o seu programa serve de modelo para outros programas de desenvolvimento sustentável em todo o mundo.”

Vamos ouvir agora uma música de conscientização do valor da família. Fala sobre os pais que abandonam suas casas, inclusive as crianças, vão se aventurar nas cidades e depois querem voltar, quando os filhos já são grandes. Não encontrei a letra, só a explicação e a tradução do título: Mudacia Wana significa Deixaste as crianças.

No vídeo do Frontline World, a história de Feliciano é contada de forma muito didática. O único senão é ser em inglês. Mas, a quem domina o idioma, recomendo fortemente clicar aqui para assistir.

Veja sobre o prêmio Goldman Prize que Feliciano recebeu, clicando aqui.

The URI to TrackBack this entry is: https://mosanblog.wordpress.com/2011/08/25/musica-e-educacao/trackback/

RSS feed for comments on this post.

6 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Oi, Sandra

    Obrigada pela informação o Feliciano, o estive procurando por um bom tempo, mas o site está fora do ar. Vc pode me passar o teu email para te escrever e fazer outras perguntas sobre Moçambique? O meu é mochilacult@gmail.com
    Obrigada, abraço.

  2. muito bom. E esse nome parece de brasileiro. Acho que é porque conheci um Feliciano aqui.

  3. Que bonito! Feliciano acertou na mosca hein? “Ele fala a língua que é melhor compreendida e atrai as pessoas pela musicalidade”. De fato nunca tinha pensado que, na África, o som de um tambor reúne pessoas e aí você pode mobilizá-las para outros fins. De fato a sustentabilidade, higiene e outras necessidades básicas podendo ser alcançadas usando a música é algo maravilhoso!!! E que voz forte e marcante ele tem, além da determinação de um líder! Também adorei o vídeo http://youtu.be/2ZXYGIXbN8A – Niassa by Massukos: pelo batuque, pelas imagens e pela exaltação a sua província. Muito bom.

    • Grande Lucia Agapito! Sempre contribuindo para esquentar ainda mais a nossa quinta.🙂

      • 🙂 Já estou preocupada se um dia não tiver mais Quinta Quente!

      • Quando não tiver mais, a gente inventa outra coisa para fazer, Lucia… somos criativas!😉


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: