Carne em Maputo

fachada do talhoOutro dia falei sobre o Ramadã, dos novos horários do comércio nesse período, roupas tradicionais, etc. e me lembrei de outro fator relacionado à religião muçulmana que acaba fazendo parte do dia-a-dia de todos aqui, que é a carne halal.

A primeira vez que ouvi o termo foi alguns meses depois que estava em Moçambique, em um casamento, quando o mestre de cerimônias avisou que seria servido o jantar e que todos poderiam comer tranqüilamente, porque era halal.

A partir daí, passei a reparar nas portas de açougues (talhos, por aqui) ou mercados, o selo Halal. A carne halal é a carne permitida de ser consumida para os muçulmanos. Para ser halal (que significa lícito), é preciso ter uma série de características:

– não pode ser carne de porco, cachorro e semelhantes, animais com presas, pestilentos, pássaros predadores e criaturas repulsivas;
– o animal deve estar saudável no ato do abate;
– os equipamentos e utensílios devem ser próprios para o abate halal. A faca deve ser bem afiada e permitir uma sangria única, que minimize o sofrimento do animal;
– o corte deve atingir a traquéia, o esôfago, as artérias e a veia jugular, para que todo o sangue seja escoado e o animal morra sem sofrimento;
– o abate deve ser acompanhado por inspetores muçulmanos e ser executado por muçulmano mentalmente sadio e que entenda, totalmente, o fundamento das regras e das condições relacionadas com o abate de animais no islã;

As comidas que não atendem a todas estas características são consideradas haram (que significa ilícito): carnes de porco ou outros animais proibidos, carnes de animais impropriamente mortos ou mortos em nome de outra divindade que não seja Alá (o deus muçulmano), alimentos que contêm álcool ou sejam intoxicantes, sangue e produtos derivados, comidas contendo gelatina derivada de animais.

Para quem não é muçulmano, não faz diferença comer a carne halal ou não halal. E, como aqui em Maputo, quase todos os talhos têm o selo halal, a gente come carne assim muitas vezes. Ela é menos vermelha do que a que estamos acostumados, mas isso se deve à forma de abate visar justamente eliminar ao máximo o sangue do animal. De certa forma, acaba por ser mais saudável, uma vez que o sangue tem um alto teor de proteína, o que aumenta a rapidez da putrefação e diminui a capacidade de conservação. Então, quando o abate não elimina tanto o sangue, a carne tem que ser ainda mais bem cuidada com relação ao resfriamento, o que nem sempre pode ser garantido em uma cidade onde falta energia elétrica dia sim e dia também.

Veja mais sobre o assunto nos sites da ABIEC (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne) e da Cibal Halal (Central Islâmica Brasileira de Alimentos Halal).

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5 ComentáriosDeixe um comentário

  1. […] costumam ficar fechados só no primeiro dia. Esse ano, hoje é o dia. Então, nada de comprar carne halal no açougue mais próximo, nada de fazer comprinhas na mercearia da esquina (geralmente são de […]

  2. […] “haram”. O contrário de “haram” é “halal”, como explicou a Sandra há alguns dias no Mosanblog, e eu repito aqui […]

  3. Tenho uma teoria de que é essa quantidade menor de sangue que faz os brasileiros acharem a carne daqui mais seca e com menos sabor. Mas vá saber…

    • Faz sentido. Afinal, a carne fica menos suculenta, uma vez que o sangue é que a torna assim…

  4. Não conhecia essa história do Halal… Muito interessante.


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