Revolução pacífica

Há alguns dias, Afonso Dhlakama, presidente da Renamo (Resistência Nacional Moçambicana), principal partido de oposição ao governo de Moçambique, passou a ganhar mais espaço nos jornais do país, ao apresentar proposta de reagrupar seus antigos guerrilheiros desmobilizados em um quartel-general em Cabo Delgado. Em seguida, a Renamo voltou a falar sobre organização de manifestações em todo o país. A promessa de tais manifestações foi feita inicialmente logo após as eleições gerais de 2009 e seriam protestos contra alegadas fraudes nas eleições.

As manifestações e o reagrupamento dos guerrilheiros fazem parte de uma revolução que está sendo incitada por Dhlakama. Note-se que o líder da oposição chama a ação de revolução pacífica. Peço que me explique quem puder, em que português é possível ter sentido a expressão “revolução pacífica”. E se vai ser pacífica, para que é preciso então, os ex-guerrilheiros serem aquartelados para “assegurar a defesa dos cidadãos que decidam aderir”, como afirmou o porta-voz da Renamo, Fernando Mazanga, em entrevista à Voz da América. Aliás, o mesmo porta-voz afirmou ainda que o partido possui armas de fogo, que serão disponibilizadas aos guerrilheiros aquartelados. Pacífica…

Segundo a Renamo, a ação é resultado da insatisfação dos antigos guerrilheiros com a atual situação do país e incumprimento, por parte da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), do acordo geral de paz, especialmente, no que diz respeito à formação do exército nacional. O objetivo é que até o final do ano corrente o partido no poder promova uma transição gradual e a Renamo assuma o governo.

Vale observar que a Renamo surgiu como dissidência da Frelimo, após a independência de Moçambique. A Frelimo era partido único e governava o novo país. Então, Renamo e Frelimo protagonizaram uma guerra civil, que durou 16 anos, terminando em 1992.

Note-se também que até as ondas do Pacífico sabem que eleição por aqui é assunto obscuro. Sempre se diz que há muita confusão nas eleições, que talvez o resultado fosse mais apertado do que foi nas últimas eleições e há quem fale até que a Frelimo tem apoio de organismos internacionais e por isso está aí. Tratei sobre o tema no post Democracias.

Mas, é preciso dizer que, inclusive para agradar os tais organismos internacionais, o governo atual tem feito algumas alterações nas regras da dinâmica eleitoral, visando dar mais transparência e domonstrar lisura no processo.

Agora, uma coisa (a confusão nas últimas eleições) não pode justificar a outra (chamado à revolução, ainda que com a capa de “pacífico”). Seja lá como for, Moçambique é um estado de direito democrático, há liberdade de expressão e há meios verdadeiramente pacíficos de se mudar uma situação que desagrade à grande massa da população.

Claro está que esses meios dão muito mais trabalho. O pensamento das lideranças de oposição tem que ser muito elaborado. As ações e declarações têm que ser mais assertivas e menos espalhafatosas. Nem sempre se está disposto a tanto.

Na mais recente edição do jornal Domingo (7 de agosto de 2011), o editorial bateu de forma certeira em alguns pontos que devem ter destaque nesse enredo todo: “A construção democrática do Estado exige um repensamento contínuo e uma organização em função do bem comum, com leis que criem condições para que a parte má do ser humano nunca consiga arvorar-se em sistema jurídico, privilegiando os egoísmos castradores do desenvolvimento do povo em cidadania”.

Afirma ainda o editorial que, no país, “o incitamento à guerra, à violência, é crime e deve ser reprimido como tal. Afonso Dhlakama privilegia o caminho da violência e da guerra, para conseguir chegar ao poder”. Mas o texto logo observa, talvez para tranqüilizar o leitor, que “dada a sua personalidade, há a tendência generalizada para o não levar a sério”.

Sendo levado a sério ou não, o que se sabe, e o editorial confirma é que “Dhlakama virou agitador, ameaçando, publicamente, dar tiros na cabeça aos polícias que contrariem os seus intentos belicistas”. No editorial, o veículo de comunicação defende que Dhlakama seja chamado à ordem enquanto é tempo. “Não por contestar o regime, não por advogar a sua reestruturação, mesmo a sua destruição, direito que lhe assiste, mas por advogar tudo isso com recurso à guerra.

E sugere: “Que crie jornais, que ponha de pé estações de rádio e televisão. Que se bata, com denodo, informando o povo, que privilegie o conhecimento que é o substracto da liberdade e da construção do Estado. Será o povo informado a pronunciar-se”.

Concordo plenamente com a sugestão do Domingo. Mas, conforme escrevi no post já aqui citado Democracias, não sei se a oposição em questão tem habilidade política e intelectual para tanto. Como já observei, esta via dá mais trabalho e exige capacidade intelectual mais elaborada do que a que temos visto.

Veja mais sobre o reagrupamento de antigos guerrilheiros, em notícia do Moçambique para todos.

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6 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Sanflosi escreveu:
    “Vale observar que a Renamo surgiu como dissidência da Frelimo, após a independência de Moçambique…”
    ______________

    O que dizem certas fontes sobre a origem da RENAMO ? Vejamos o que diz uma dessas fontes:
    ________________
    :: Revista Militar ::-Revistas – Das causas da guerra às razões da …
    http://www.revistamilitar.pt/modules/…/article.php... –
    15 out. 2006

    A RENAMO começou por ser um instrumento de agressão externa por parte dos que se opunham à autodeterminação dos africanos negros, dos que lutavam contra o alastramento do comunismo e dos que combatiam ambas as tendências. Fugidos da descolonização moçambicana, alguns ex-colonos e militares refugiaram-se na Rodésia, onde se estabelecera um governo racista condenado pela comunidade internacional. Seria a partir dos refugiados do antigo regime colonial português e de jovens europeus fanáticos, de tendência neo-nazi, que o Central Intelligence Office da Rodésia recrutaria os primeiros membros da RENAMO. Para a Rodésia branca, era urgente, sob risco de sufocação económica e política, enfraquecer o regime de Maputo9. A esses receios juntou-se desconforto da África do Sul, incomodada com a vizinhança de um regime de tendência comunista que proferia discursos contra o apartheid. Os sul-africanos investiam na criação em seu redor de um cordão sanitário 10 de estados neutrais e até coniventes com a segregação racial.
    _____________
    (Sanflosi disse: …Então, Renamo e Frelimo protagonizaram uma guerra civil…)

    O que diz Mia Couto sobre a ”GUERRA CIVIL” em Mocambique?:
    _______________
    Rádio Moçambique
    Mia Couto e a paz em Moçambique: “O retrato oficial de guerra civil é falso”
    Qui, 21 de Junho de 2012 01:02
    Por: Estevan Muniz (www.redebrasilatual.com.br)

    Como foram esses 20 anos de paz para o país, politicamente e socialmente?

    Para falar da paz é preciso falar da guerra. Tivemos uma guerra atípica, não era uma guerra civil, embora hoje se dê esse nome. Não foi uma parte do povo que se revoltou contra outra, tão pouco foram etnias. A guerra nasceu fora do país, de uma agressão externa, que depois se converteu num certo grau de violência interna…..

    E a grande bandeira da Renamo, que fazia guerra contra a Frelimo, era contra o comunismo, mas ninguém aqui sabia o que era comunismo. Portanto, o retrato oficial da guerra, de clichês e estereótipos, é falso……

    E para a literatura moçambicana, de um modo geral, qual foi o peso desse conflito?

    Do ponto de vista da literatura, a guerra teve consequências gravíssimas. A Renamo, quando atacava uma aldeia, começava pela escola e matava os professores. E a escola deixou de existir em grande parte deste país. E era a escola o único veículo da língua portuguesa e era ela que fazia chegar os livros.
    _

  2. Sanflosi escreveu:

    “Vale observar que a Renamo surgiu como dissidência da Frelimo, após a independência de Moçambique. A Frelimo era partido único e governava o novo país. Então, Renamo e Frelimo protagonizaram uma guerra civil, que durou 16 anos, terminando em 1992.”
    _________
    As declarações acima citadas suscitam em nós a pergunta: “AFINAL COMO SURGIU A RENAMO?” ; “QUEM FORMOU A RENAMO E COM QUE OBJECTIVOS?” “QUANDO É QUE A RENAMO FOI FORMADO?”

    Vejamos o que diz esta fonte histórica sobre as perguntas acima:
    (Título do livro: United States Relations with South Africa: a critical overview. Page 272. Autor: Y. G-M. Lulat – 2008 – History):

    “TERRORISM: SAAG AND RENAMO

    Who or what then was RENAMO? RENAMO was initially a creature of the Rhodesian Central Intelligence Organization (CIO); though it would receive from time to time cooperation for SAAG in running RENAMO.

    It was formed in 1974 by Ian Smith’s white minority regime to harass both ZANU and Frelimo guerrillas, and after independence in Mozambique, the Frelimo government. The deal that led to the creation of RENAMO took place between the CIO director-general, KEN FLOWER, and the head of the infamous Portuguese Security Police, PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado – International Police for the Defense of the State), Silva Pais, in Lisbon in late April 1974. Thereafter, on June, the first contigent of the soon to be mercenaries from Mozambique arrived in Rhodesia led by Óscar Cardoso. However, most of them would leave for greener pastures within a year: They left to join FNLA in Zaire where CIA largess promissed better pay.

    It was not until June 1976, however,when an escape from an open rural prison at Sacuze in Mozambique – a former Frelimo officer by name of André Matade Matsangaiza convicted of stealing a Mercedes Benz automobile – that CIO was able to make headway in its efforts to create RENAMO.

    The actual name of RENAMO (Resistência Nacional Moçambicana) was concocted, it appears, at a meeting on May, 1977, at the suburban Salisbury home of a former PIDE agent, Orlando Cristina (who at the time was working for the CIO – RENAMO radio station “Voz da África Livre” which had been broadcasting – mainly anti-Frelimo propaganda – since July 5, 1976. At this meeting, besides Cristina, where three others: Armando Khembo dos Santos, once a member of Frelimo at the time of its formation; Evo Fernandes, a Portuguese national who once worked for Jorge Jardim, the Portuguese godson of the Portuguese dictator António Salazar, who would play an important role in the finaning of RENAMO; and Leo Aldrige Clinton, Jr., a U.S. african american from Texas, who had, while pretending to be a Mozambican and going by the pseudonym Leo Milas had at the time of the formation of Frelimo, become and important official in the organization until his expulsion on August 25, 1964.

    Specifically, the purpose behind RENAMO creation was to use it as a “fitth column” to gather intelligence for the Rhodesian intelligence services in respect of ZANU guerrillas operating out of Mozambique – as well as act as a “cat paw” (to borrow Hanlon’s term) for the Rhodesian army. Initially, RENAMO comprised PEOPLE WHO HAD BEEN PART OF SPECIAL COMMANDO UNITS SET UP BY THE PORTUGUESE to terrorize the civilian population in areas where Frelimo operated, as well as to carry out specific actions against Frelimo itself. These people had fled Mozambique to Rhodesia in 1974, either because they were unwilling to live under Frelimo government or because they feared retribution for their savagery from those of their victims who were still alive. RENAMO would remain in the Rhodesian hands only until 1980 when Rhodesia became independent. Thereafter RENAMO was transferred into SAAG hands, with grave consequences for Mozambique. For, by the time SAAG took direct charge of RENAMO, Frelimo had, by and large, secured the safety of the country from RENAMO’s activities. With SAAG in charge, however, this situation would not last for long. …”

  3. eu não copio isso nem morta

  4. […] e não partidário para contribuir com a Frelimo a superar o momento delicado que está vivendo de ameaças da Renamo contra a paz aparentemente […]

  5. Olá. Bom dia!

    Discordo, totalmente, do molde de revolução proposto pela Renamo. Mas também discordo, totalmente, do seguinte trecho: “(…) Peço que me explique quem puder, em que português é possível ter sentido a expressão “revolução pacífica”. (…)”. Tenho certeza de que há, em qualquer vertente de português, sentido na expressão “revolução pacífica”, inclusive na definição proposta pela Lucia.

  6. Pelo menos por uma das definições de revolução — “movimento de revolta contra um poder estabelecido, e que visa promover mudanças profundas nas instituições políticas, econômicas, culturais e morais” — o adjetivo pacífico já se mostra totalmente incoerente!!! Essa questão de lisuras nas eleições africanas parece ser sempre motivo para rebeliões, pelo menos alguns casos recentes comprovam isso…Muito bom o post.


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