Descrença

Certa vez eu cheguei em uma comunidade muito carente no interior do nordeste do Brasil, em um carro alugado, com uma câmera fotográfica na mão. Os meninos da cidade me rodearam, perguntando se eu ia fazer foto para jornal. Aquilo me intrigou e eu quis entender melhor.

Eles me explicaram que toda hora ia fotógrafo lá fazer foto para jornal. Alguns até já tinham se visto em jornais. A inocência daquelas crianças não deixava que elas percebessem que não eram elas as fotografadas, mas sua pobreza. Eu me lembrei de que, em minhas pesquisas antes de me dirigir para o local, tinha visto várias matérias sobre a seca, a falta de renda, as dificuldades todas daquela cidade pobre. Em todas as matérias, fotos. Muitas com crianças. De costas, de olhos com tarja, com o rosto desfocado, mas eram aquelas crianças. Afinal, as pessoas se sensibilizam com elas.

Naquele dia eu percebi que, muitas vezes, o objetivo ao divulgar essas situações não passa do objetivo comercial de venda. E o desejo implícito dos donos dos veículos de comunicação seria que aquela pobreza não acabasse. Afinal, se acaba, acaba uma fonte de venda.

Quando cheguei em Moçambique, estudei algumas instituições que fazem trabalho social aqui, na busca por um lugar para pedir emprego. Percebi que muitas delas não trabalham para mudar o estado vigente. Apenas atuam para manter seus funcionários bem acomodados e remunerados e garantir que todos os pobres da África não morram, porque se morrerem, acaba a fonte de vida dessas instituições. O mais cruel foi perceber que, se essas pessoas filhas da pobreza passarem a viver bem, sem necessitar de ajuda externa, acaba a razão de ser das instituições da mesma forma. E onde vão se empregar os consultores bem remunerados?

Então, encontrei aqui muita descrença, muita gente desiludida com os estrangeiros. Foi triste eu perceber que poderia ser confundida com essas pessoas. E sempre que possível fiz entender que eu não estava aqui para isso. No entanto, eu sei que ainda há quem pense que eu vim apenas em busca de oportunidade. É verdade que vim. Mas de oportunidade de contribuir seriamente, de ajudar a fundo, de tentar encontrar o caminho da mudança. No entanto, não é dessa oportunidade que se fala quando o assunto é estrangeiro em Moçambique…

Eu tenho visto sim gente a fazer trabalho sério. Mas, infelizmente, os moçambicanos estão tão acostumados com os estrangeiros-eternos-colonizadores-exploradores que, quando se deparam com gente desinteressada, que não quer oportunidade de se dar bem, mas apenas de fazer o bem, não acreditam que isso seja possível. O olhar é sempre o mesmo que me foi lançado por aqueles meninos do interior do nordeste brasileiro: de desconfiança.

Jardim dos professores

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7 ComentáriosDeixe um comentário

  1. […] contei no texto Descrença que tipo de oportunidade eu buscava quando mudei para Moçambique. Assim como muitas pessoas que […]

  2. Então é isso. A minha companheira e eu temos tentado ajudar, ajudar mesmo. Temos tentado passar ideias para que as pessoas possam melhorar, por si mesmas, a sua condição. Os contactos têm sido através de ONGs pequenas e até indivíduos.

    Sentimos que “não há interesse” em melhorar nada. Será isso então? A desconfiança que “lá vem mais um encher a barriga”?

    Já tinhamos pensado nisso, mas não estavamos convencidos.
    Beijos,
    ‘nando

    • Infelizmente Nando, só consigo pensar que seja isso mesmo.

      Tomara pessoas como você, sua companheira, eu e outros que conheço consigamos reverter ao menos um pouquinho de todo mal que já foi feito…

      Abraços e força!

      Sandra.

  3. Pode ser um salto grande…mas para mim tudo se reduz a uma única pergunta: porquê que o que é “mau” vende mais que o “bom”? É a mesma premissa que motivou o texto sobre “o papel da mídia” (no blog “para um mundo melhor”). Se encontrássemos a fórmula que faz as pessoas se interessarem mais por coisas positivas do que por coisas negativas, a história poderia ser mudada. Até lá…

    • Parece que o que faz as pessoas se interessarem mais pelo que é negativo do que pelo positivo é um defeito no projeto do ser humano. Então, vai ser difícil encontrar a fórmula.

      Mas, por agora, recomendo a leitura do post citado pelo David, que modestamente, ocultou o link: http://1-mundo-melhor.blogspot.com/2011/07/o-papel-da-midia.html. Um belo acerto com a mídia e que nos faz pensar muito em nossas próprias atitudes e escolhas diárias.

      Beijo.

  4. Eu acompanhei voce na fase das pesquisas e lembro como eram as coisas por lá. Nunca fui na região mas as noticias que temos hoje, é que eles querem mostrar o que conseguiram desenvolver. É o sair da situação anterior. Sei como é o seu coração nisso. Como voce quer ajudar a mudar essa realidade. Ver o crescimento e não o continuísmo dessa situação. E temos uma história de alimentar a seca do nordeste pra alguns ganharem. Hoje vemos muito disso no Brasil. Quantos já saíram do estado de pobreza e isso incomoda algumas pessoas. Agora é torcer pra África encontrar o seu caminho e ter um futuro melhor para os seus moradores.

  5. Poxa, já tinha DESCONFIADO de instituições que “administravam” a pobreza para garantir sua existência e de seus empregados, mas nunca tinha lido isso com a força e a verdade que você escreveu: muitooO sentimento nas tintas! Entendi a sua descrença, os motivos dela, as dificuldades que a questão já impõe naturalmente quando se quer fazer algo, mas fiquei tão tocada com o relato que pensei que o melhor título para o post seria CRUELDADE…. 😦


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