Imprensa livre

Uma das coisas que já fiz muitas vezes foi participar de entrevistas coletivas, como jornalista. Quase todas foram no Brasil, onde os jornalistas muitas vezes aproveitam uma entrevista de um assunto para abordar outro, que esteja mais em voga no momento. Algumas vezes, os jornalistas até abusam dessa prática, ignorando o assunto que os levou ali e fazendo só perguntas sobre o outro tema, que, teoricamente, teria mais interesse público.

Por um acaso desses que não têm explicação, outro dia assisti a uma entrevista coletiva de um diretor da empresa moçambicana de celulares Mcel. Eu estava lá de platéia, pessoa comum… A entrevista era sobre um patrocínio que vão fazer aos Jogos Africanos 2011. É como o Panamericano para nós aí das Américas…

Um dia antes da entrevista, os contatos via Mcel estavam impraticáveis. Quando se mandava mensagem de texto, essa voltava ou era enviada dez vezes. As ligações não eram completadas. No próprio dia da entrevista ainda estava muito mal… com poucas ligações conseguindo ser completadas.

Na tal entrevista, foi anunciado que a Mcel oferecia para a organização dos jogos três mil aparelhos celulares de diversas marcas e trinta Blackberries, além de 15 mil chips (aqui chamados de giros iniciais). Ao final das declarações do diretor comercial da Mcel, foi aberto espaço para os questionamentos dos jornalistas. Não sem antes ser avisado que os jornalistas poderiam “fazer perguntas afeitas ao tema abordado nas declarações”.

Então, os jornalistas assim o fizeram. A empresa tem mais de 3,8 milhões de clientes em todo o país (Moçambique tem cerca de 21 milhões de habitantes), abocanhando 66% do mercado (dados retirados do site da Mcel). Nas últimas 30 horas esses clientes tinham tido suas comunicações totalmente prejudicadas. E os jornalistas ficaram perguntando como seria o uso dos celulares nos jogos, quais os critérios de entrega dos celulares e dos créditos, o que seria feito dos celulares depois dos jogos…

Todas essas perguntas eram pertinentes, claro. Mas custava muito alguém perguntar: quando todos esses novos 3 mil aparelhos, todas essas novas 15 mil linhas passarem a funcionar ao mesmo tempo no início de setembro, vamos ter problemas de comunicação como os que estamos experimentando nas últimas 30 horas?

Ninguém perguntou! Como se estivesse tudo bem, como se a empresa que atende quase quatro milhões de pessoas estivesse funcionando às maravilhas.

E essa situação não é inédita. Estamos aqui há pouco mais de um ano e já tivemos essa dificuldade de comunicação uma meia dúzia de vezes. O que eu não sei se é comum é ter uma coletiva dando sopa em um momento crítico desses.

Moçambique é tido como um país diferenciado na África, por ter uma imprensa livre, que não sofre censuras nem retaliações. Mas também, a uma imprensa dessas, não se pode dar uma tartaruga para tomar conta, porque há de fugir…

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3 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Nada a ver com o assunto em epígrafe mas eu ri muito dos “giros iniciais” 😀

    • Afinal, como tu sabes, estar aqui é muito giro!

      rsrsrsrs

  2. Imprensa amordaçada…


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