Das difíceis relações trabalhistas em Moçambique (3)

Um barulho na madrugada nos acorda. Vamos até a varanda ver o que se passa e o vizinho tem uma discussão com o segurança. Mesmo do segundo andar é possível perceber que o vizinho está bastante alterado pelo álcool. Não temos como interferir. Voltamos para a cama, para tentar dormir, apesar da barulheira na rua.

Minutos depois toca a campainha. É o segurança, reclamando que o vizinho bateu nele, porque o pegou cochilando.

Não foi a primeira vez que isso aconteceu. Há cerca de dois meses, outro segurança tocou a campainha de casa, chorando, afirmando ter apanhado do vizinho. Desta vez era mais cedo, ainda estávamos acordados. Fomos ao encontro do vizinho, na escada, ver o que se passava. Em momento nenhum ele negou ter dado safanões no empregado.

E quando tentamos argumentar que talvez essa não fosse a melhor maneira, ouvimos: “vocês são estrangeiros, não sabem nada. Aqui funciona assim, se não for assim, não trabalham”. Vale observar que ele pode até ter nascido em Moçambique, mas é visto como estrangeiro pelos moçambicanos nativos “de raiz”, porque é de origem indiana. É o chamado “munhé”.

Como o cheiro do álcool já estava quase nos deixando bêbados, resolvemos não discutir nessas condições e tudo que fizemos foi aconselhar o segurança a procurar a esquadra (delegacia) e relatar o ocorrido. O jovem o fez e no dia seguinte pediu demissão. Nunca mais tivemos notícia do caso.

Em conversa com outro funcionário do prédio depois da segunda ocorrência, soube que este também já tinha sofrido agressão por parte do mesmo vizinho. Eu não tinha ficado sabendo e acho que nem ficaria se não tivesse puxado o assunto. Ele comentou que já aconteceu com ele, assim, como se comenta que se comeu pão com manteiga de manhã. Para ele, pode não ter sido bom, mas é algo visto como normal.

Provavelmente, pela polícia também. Porque o segundo que bateu à nossa porta também fez registro de ocorrência na delegacia e até agora não temos notícia de que tenha acontecido nada em nenhum dos dois casos.

Já relatei aqui, em outro texto desta série sobre as relações trabalhistas em Moçambique, que a violência física é algo tratado como parte da relação trabalhista. Para mim, nunca uma herança tão obscura dos tempos da escravidão poderá ser aceitável.

Juntando os casos relatados no primeiro texto da série e esses que aconteceram literalmente na porta da minha casa, percebo muito das razões pelas quais todo trabalhador em Maputo é tão submisso, tem sempre cara triste, ar pesado e fica até surpreso quando nos dirigimos a ele para um obrigada ou qualquer outra palavra de educação que se deve usar normalmente a alguém que está a te servir.

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3 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Bom post!
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    Tudo de Bom para Vocês,

    Abraço

  2. Acho que tratar as pessoas bem é uma coisa natural pra nós que não dá pra ver essas coisas acontecendo. Quando você indica alguém pra trabalhar, voce tem que olhar dos dois lados. Quem voce está indicando e também pra quem você está indicando. Porque tem lugares que não dá pra trabalhar mesmo. E ver essas injustiças do lado da sua casa deve ser muito dificil. Ainda mais quando não te deixam dormir…

  3. Um absurdo essa arrogância que certas pessoas têm com quem nos serve. E mais inaceitável ainda é quando querem posar de bonzinhos para o resto da sociedade….Se por aqui estou prestes a cometer um vizinhocídio, se morasse aí já o teria feito e estaria presa rsss.


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