Das difíceis relações trabalhistas em Moçambique (2)

Há alguns meses tive que realizar uma série de contratações de professores. Nas entrevistas, os que mais me interessavam, os profissionais atuantes em emissoras de rádio, televisão ou agências de comunicação, sempre apresentavam um problema: os turnos de trabalho em seu emprego principal.

Explico: a escola seria um emprego secundário, uma vez que o profissional viria para uma hora e meia ou duas horas de trabalho e receberia no fim do mês um valor correspondente a isso e não a um salário cheio para sustentar a família. No entanto, em seus trabalhos, seus horários não são fixos. Uma semana faz a manhã, na outra faz a noite, e na terceira nem se sabe. Há empresas que definem o turno dia a dia. Hoje, ao sair, o funcionário fica sabendo a que horas vai trabalhar amanhã.

Assim, não se pode marcar uma consulta médica, não se pode fazer um curso, não se pode ser professor. E eu argumentava: “mas se disseres à tua chefia que vais dar aula, isso é bom para a empresa, ter um funcionário que é professor… não consegues negociar para ficar sempre no mesmo horário?”.

Aí é que a coisa piorava. A chefia não poderia nem sonhar que seu funcionário estava dando aulas. Alguns até conseguiram um jeito para dar as aulas em cursos de curto período (são todos cursos de cerca de três meses, profissionalizantes), trocando os turnos com colegas, semana a semana, em um super esquema de ajuda sem que as chefias desconfiassem. Mas, se fossem descobertos, teriam que escolher. Afinal, na visão dessas gerências e diretorias, ter um rendimento extra não é interessante, porque o funcionário passa a não depender totalmente daquela empresa e pode começar até a exigir direitos.

Depois, tive mais uma vez contato com o problema dos turnos quando um rapaz interessado em fazer o curso de digitação rápida, que dura um mês, disse que não conseguia fazer porque no supermercado onde trabalha a cada semana ele tem o horário alterado. Então, ele só poderia vir semana sim, semana não, uma vez que o curso é sempre no mesmo horário. Como o curso é bastante individual, cada aluno tem um computador e segue suas lições independente dos outros, ele fez a matrícula e está a freqüentar o curso em dois meses. Semana sim, semana não, ele está lá.

Na mesma época, um amigo moçambicano resolveu mudar o esquema de trabalho em sua empresa. Até então, metade dos funcionários trabalhava pela manhã e início da tarde e a outra metade entrava no fim da manhã e ficava até o início da noite. Todos faziam os mesmos horários todos os dias. Assim, os que entravam no fim da manhã podiam se programar para fazer cursos e ter compromissos próprios de manhã e os que saíam no meio da tarde tinham o fim do dia para isso. Três desses que entravam cedo estavam até a fazer faculdade à noite.

Eis que o amigo vem comentar comigo que vai alterar: vão trabalhar cada semana num turno. Eu tentei argumentar que não seria justo com aqueles que faziam faculdade, que não poderiam mais cursar indo uma semana sim outra não. E, por outro lado, a empresa não ganhava nada com isso, porque o número de funcionários em cada horário continuaria o mesmo. “Se o funcionário tem comprometimento com a empresa tem que ser assim, não pode ter outras coisas para fazer, tem que se dedicar com exclusividade até que a empresa tenha condições de permitir isso”, foi o que ouvi.

Contando os casos para uma outra amiga, brasileira, que trabalha na área administrativa de uma empresa, ela falou que sofre com questão semelhante, porque o dono da empresa não facilita em nada o acesso dos seus funcionários ao estudo. Se um funcionário pede para sair uma hora mais cedo porque se matriculou na escola, ela pede o comprovante da matrícula com o horário e adapta a jornada do funcionário, diminuindo o horário do almoço até o limite permitido pela lei ou fazendo com que entre mais cedo. E então, o dono da empresa, desautoriza e diz que não se pode dar flexibilidade para esses casos.

O que ele chama de “esses casos” poderiam ser a contribuição para uma empresa melhor, com funcionários mais bem qualificados, gente mais produtiva e, com certeza, animada para trabalhar, em reconhecimento pela empresa ter contribuído com sua formação. Mas, a pergunta que fica é: será mesmo que esse tipo de empresário quer funcionários mais bem preparados?

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5 ComentáriosDeixe um comentário

  1. […] Muitas vezes, tem a ver com o senso de propriedade que o patrão tem de seu empregado. Já falei aqui sobre a questão dos turnos. Ela mostra o quanto o empregador quer o empregado dependente e […]

  2. Concordo com o David, acho que ainda é uma herança de um país que só deixou de ser colônia há muito pouco…quem lidera no país ainda não tem essa mentalidade de desenvolvimento próprio (muitas vezes inclusive porque isso implica fazer as coisas direito: dar aos trabalhadores seus direitos, salários coerentes, etc.).

    Mas sua argumentação com um amigo seu me lembrou algo que li recentemente (infelizmente não lembro onde): um CEO novo resolve mudar radicalmente a politica de desenvolvimento dos funcionários e investir pesado em cursos e aprimoramento. Com isso, um diretor lhe pergunta: “E se nossos funcionários ficarem tão bons que eles sairão para outras empresas? O que vai acontecer?”

    A resposta do CEO: “O que você acha que vai acontecer se eles continuarem ruins e ficarem?”

  3. Cultura e momento diferentes de desenvolvimento fazem isso. Um cômico/sociólogo/filósofo americano que gosto muito (Bill Hicks, se quiserem investigar) dizia que quando ele lia o jornal no trabalho o chefe dele dizia “Hei, tu! Porque não estás a trabalhar?”. Ele respondia “porque não tenho nada a fazer neste momento”. O chefe “e porque não finges pelo menos que estás a trabalhar?”. Ele “e porque TU não finges que EU estou a trabalhar? Tu ganhas mais que eu!”

  4. E depois reclamam da crise no país. E parecem que não leêm noticia onde mostram que investir nos trabalhadores só tem ganho pra empresa e pro país. E o pior é que aqui, onde temos isso, nem sempre aproveitamos a oportunidade de fazer cursos e crescer.

  5. Hilário!!!! Certeza que esse tipo de empresário NÃO quer funcionários mais bem preparados, senão eles podem começar até a exigir direitos….😦


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