Sem elevador

Outro dia se deu o seguinte diálogo entre mim e uma colega de trabalho, que está à procura de casa para alugar:

Eu: — E então? Foi ver alguma casa hoje?
Ela: — Sim, fui ver um apartamento, até que bem bonitinho, bom preço, mas estou na dúvida…
Eu: — Por quê?
Ela: — É 14º andar, sem elevador (traduzindo: significa que tem elevador, mas quebrou um dia e não se sabe se vai ser arranjado).

Dúvida? Ela ainda tinha dúvida se ia ou não arrendar o imóvel?

Para mim, parecia óbvio. Não, não se aluga algo no 14º andar com a perspectiva de nunca vir a ter elevador. Mas não é tão óbvio. Tanto não é que o proprietário colocou para alugar, a imobiliária apresentou para uma interessada e a interessada estava pensando.

O proprietário que me desculpe, mas perdeu a cliente. Eu usei todos os argumentos que podia para convencer a colega a continuar procurando. Afinal, penso que se todos os proprietários de apartamentos em andares altos passarem a ter dificuldade em alugar seus imóveis, talvez comecem a ponderar a idéia de melhor conservarem os edifícios e seus equipamentos.

Mas, na verdade, a questão é mais profunda do que isso. Os próprios inquilinos aqui não têm por hábito o pagamento de taxas para a conservação do prédio. A famosa taxa de condomínio simplesmente não existe. Então, as pessoas cuidam das suas casas, da porta para dentro e o lado comum fica largado ao destino. Não tem segurança, não tem iluminação, não tem elevadores (ou melhor, tem. Quando os prédios foram construídos — muitos no tempo da colônia — colocaram os equipamentos, mas nunca se conservou, nunca se pagou conta de energia, pararam de funcionar), não tem limpeza, não tem…

No prédio que vivemos, por exemplo, alguns moradores se cotizam e pagam os guardas, que também fazem a limpeza das escadas e nós mesmos colocamos iluminação na portaria. Há uma família que não quer pagar. Não paga.

Por coincidência, alguns dias depois desse diálogo, no jornal Domingo, do dia 20 de março, li a matéria: Vive-se de sobreaviso nos prédios altos, assinada por Pedro Mucavele.

O texto traz uma importante contextualização histórica. Lembra que no final da década de 1970, os moçambicanos “passaram a usufruir daquilo que lhes era negado durante o período da colonização. Tinham sido eles a erguer, com muito sacrifício, os prédios”. E o mesmo texto explica que essa entrada dos nacionais para as cidades do país, onde passariam a se beneficiar de habitações condignas, não foi acompanhada de preparação.

Hoje, o que se vê pela cidade é resultado dessa falta de preparação: prédios totalmente degradados, com infiltrações aparentes, fiação que passa pelo exterior, ausência de elevadores, de extintores de incêndio e, em alguns casos, até mesmo de reservatório de água. Em muitos, os vãos dos elevadores são utilizados como lixeiras.

Será preciso um trabalho sério de conscientização e organização desses moradores, para que os edifícios da capital do país não sejam todos condenados à demolição devido à falta de cuidados com os mesmos.

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2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Depois da descrição sobre o estado dos prédios daí, fiquei muito preocupada e resolvi te pedir um favor: da próxima vez muda para uma casa tá? Isso porque a conscientização vai demorar um pouco e vou ficar preocupada com você nesses tipos de imóveis por aí. Que coisa de doido: por aqui poucos querem morar nas famosas quatrocentos para não subir 3 andares no pezão hein? kkk

  2. Muitas vezes reclamamos de taxa de condominio aqui no Brasil, mas quando não existe, os problemas são bem maiores. O que temos mesmo que fazer, é acompanhar pra ter uma boa gestão e cuidado. Mas subir 14 andares, todo dia e depois de um dia de trabalho, ninguém merece.


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