Casei com Moçambique

Brinca-se muito com a questão do casamento, de como a relação de amor, carinho e paixão costuma ser simplesmente destruída graças a um sim. Eu sou casada há muitos anos (com o ElefanteNews, aliás) e nunca entendi o que queriam dizer com isso. Mesmo depois de mais de uma década, nossa relação é de amizade, compreensão, amor, paixão e tudo de bom.

No entanto, nos últimos tempos tenho percebido melhor o que se quer dizer. Não graças ao meu casamento, mas por causa da minha relação com o lugar onde estou. Depois do casamento é que a gente conhece mesmo a outra pessoa. A convivência diária, a integração de culturas, a divisão de responsabilidades, tarefas e contas… Enfim, a aproximação que nos faz conhecer melhor a outra pessoa pode nos levar a ficar ainda mais encantados ou desencantar de vez.

Parece-me que casei com Moçambique. Até pouco tempo eu namorava Moçambique. Era uma relação onde eu só via a parte bacana, leve. Primeiro, porque morávamos na tal Zona Restrita, onde havia toda uma burocracia lusitana para se entrar e receber bens e serviços, mas, por outro lado, havia também a proteção (ou sensação de, ao menos) do exército, uma divisão com o cotidiano da cidade.

Agora não, agora vivemos em uma rua comum, com segurança comum, com limpeza comum. Poderia dizer nenhuma, mas não é para tanto também. Temos mais contato com outras pessoas que vivem na mesma região e contam histórias. E como o povo gosta de contar histórias, exagerar, fantasiar, maquiar… mas isso será assunto de outro post.

http://www.adorocinema.com/filmes/como-se-fosse-a-primeira-vez/

Embalagens jogadas no chão na rua de casa

Agora também trabalho por aqui. Antes era só um reconhecimento de terreno, trabalho voluntário aqui ou acolá, mas sem contato diário, regular. Hoje tenho equipe de trabalho, gente para treinar, cobrar, checar se fizeram o previsto, acompanhar. Tenho que prestar contas ao investidor. Vivo e convivo diariamente, 24 horas com outra cultura, outros valores, outra história, como em um casamento mesmo.

Eu não sou do tipo que gosta de generalizações, não acho que brasileiro isso ou aquilo, nem que moçambicano isso ou aquilo. Sei que ser humano é ser humano… Mas nessa convivência diária mais próxima, podendo conhecer mais os hábitos, as atitudes cotidianas, a forma como encaram o trabalho, o cumprimento de horários, as responsabilidades, parece que acabou o encanto. Acabou o espaço para respirar fora da relação.

Já não é divertido ver a diferença da visão do que é profissionalismo, porque agora é preciso lidar com isso e resolver os problemas que traz. Já não é cômico assistir aos improvisos, porque são em cima do meu trabalho. Está complicado encontrar paciência para explicar, explicar, explicar e no dia seguinte ter que explicar de novo as mesmas tarefas porque, como no filme Como se fosse a primeira vez, os interlocutores já não se lembram mais de ontem depois do sono.

É triste perceber a visão exploradora dos poucos que conseguiram conquistar alguma coisinha a mais depois da tão recente independência do país. Basta ter um pouco de recursos, ter tido uma pequena oportunidade de estudar e ser nadica mais esperto e pronto, a pessoa já se vê no direito de explorar os demais. Sem perceber que está cometendo com seus semelhantes o que Portugal fez com suas colônias.

Está difícil conviver com a importância que aqui se dá ao dinheiro, com gente que só pensa em ganhar mais o tempo todo, ainda que isso signifique não ter ética, não ter serviço de qualidade, não ser honesto, não praticar gestão de suas empresas pensando na sustentabilidade das mesmas.

Casos como os que já contei aqui, da empresa de energia ou do ar condicionado são exemplos cotidianos de uma realidade de desleixo e desprezo pelo cliente, pelo bem fazer, pela excelência.

Afinal, o que me pego pensando é que, se por aqui estamos engatinhando hoje no desenvolvimento, deveríamos olhar o caminho traçado por quem já percorreu longa distância e não cometer os mesmos erros, para assim chegar mais cedo ao desenvolvimento desejado e sustentável. Mas não é isso que vejo acontecer.

É quase desanimador. Mas tem horas que esse mesmo desânimo é que nos dá forças, por mais incongruente que isso seja. Aí me agarro no outro casamento da vida e sigo a trilha do elefante.

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7 ComentáriosDeixe um comentário

  1. […] como as descritas na série De como os mulungos sofrem e nos textos Será que paguei propina? e Casei com Moçambique. -18.665695 35.529562 Se gostou, divulgue no seu blog, por e-mail ou nas redes sociais das quais […]

  2. Corinthiano nunca esmorece ou perde a esperânça.
    EEEHHH! EEEHHH ! SANDRÃO.
    EEEHHH! EEEHHH ! SANDRÃO.
    Beijos. Luiz Macedo

  3. Em algum momento já comentei, ou por aqui ou no Elefante já não me lembro rsss, que vocês teriam muito trabalho por aí e muita contribuição para dar aos moçambicanos. Vocês não foram parar aí a passeio… Realmente é desanimador, às vezes, principalmente quando não entendemos por que não procuram aprender com aqueles que já percorreram o mesmo caminho do desenvolvimento como você bem disse! Por outro lado, quando as sementes que vocês estão plantando germinarem, a satisfação vai ser ainda maior: porque você pode ter certeza de que muitos serão impregnados pelas suas boas ações, pelos seus ensinamentos, pelos seus exemplos! Como sabemos que o trabalho de formiguinha demora um pouco para aparecer, só resta lhe desejar paciência e força na sua caminhada por aí. Beijos

  4. Como eu te entendo. Mas também é preciso se repetir várias vezes que essa situação é consequência direta de processos desastrosos de colonização, descolonização, pseudo-assimilação etc, etc. É um chavão mas é verdade que é triste que o continente africano pague hoje as consequências do desenvolvimento dos países colonizadores. Como tínhamos falado no teu post sobre as fronteiras e a noção de nação, o que se vê hoje é o resultado de séculos de choques civilizacionais. O mesmo aconteceu em todas as Américas com os índios… eu fico sem palavras para explicar o que sinto ao te ler. Mas coragem. Confia nos teus instintos e na capacidade de recuperação do ser humano (mesmo se sei que tens pouca fé nele 😉
    Beijão

    • É porque pensamos em todo o processo histórico que leva hoje o mundo a ser o que é, que vamos ficando por mais um tempo. Cada dia que estou aqui tento contribuir de alguma forma para que a África seja enquadrada no mundo de forma mais justa.

      Obrigada pela força. Sempre.

      Beijos.

      Sanflosi.

  5. É porisso que este projeto não está na mão de qualquer um! Somente pessoas com valores mais elevados, despojadas, são capazes de promover mudanças.
    O importante é plantar a semente, e isso voces estão fazendo com maestria e muita generosidade.
    Imagino que o trabalho seja árduo, às vezes desanimador como foi dito, mas é sem dúvida uma das melhores propostas de vida: a de “salvar” pessoas, de si mesmas e de seus distorcidos conceitos, além de aparelhá-las para que sigam a vida com dignidade e o estima.
    O trabalho de voces aí, faz a diferença. E é disso que o mundo precisa.

  6. Sabe que sinto isso em relação ao serviço público? Você quer fazer um bom trabalho, tem planos para melhorar o ambiente mas as pessoas nem sempre correspondem a sua vontade. Só pensam em ganhar mais dinheiro e vivem humilhando as outras pessoas. Falta paciencia mesmo…


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