Ninguém podia dançar

Muitas vezes, as pessoas que têm um pouco de ascenção ao poder resolvem exercê-lo a seu bem querer e acabam por extrapolar os limites. É comum um segurança de empresa agir como se fosse o presidente, dando ordens que nem o próprio acharia adequadas, criando regras que nem os diretores teriam pensado.

Em Moçambique não é diferente. Nem é agora, nem foi no passado. Houve um tempo por aqui, entre 1975 e 1977, logo após a independência do país, que as casas de show foram fechadas, muitos artistas deixaram o país e até mesmo os restaurantes onde havia música ao vivo sofreram com a proibição de se dançar. Os músicos faziam suas apresentações, mas o público não podia acompanhar com dança. Era como se fosse proibido manifestar alegria, bem-estar, disposição para a vida.

Dia desses, conversando com algumas pessoas ligadas ao mundo cultural de Moçambique quis entender sobre isso, como tinha sido, qual a razão. E então eles foram unânimes no relato: houve a proibição, todo mundo sabia que não podia, mas ninguém sabia de onde tinha surgido a ordem. Um dia, o presidente Samora Machel se empolgou em um restaurante onde um músico tocava a típica marrabenta e saiu a dançar. O público que estava no local seguiu o exemplo e dançou também. No dia seguinte, o burburinho na cidade foi formado pelas pessoas que contavam: “pois ontem à noite eu dancei, em meio a um restaurante!”. “Dançou na frente de todo mundo?” “Pois sim, e com o presidente ao lado”…

Assim acabou a ordem.

Muitos dos artistas dessa época, intrigados, resolveram descobrir de onde tinha surgido a proibição. Até hoje, ninguém sabe que ordem foi essa, de quem e de quando. “Quando se questionou a fundo, nunca se soube quem ordenou”, observou um dos meus interlocutores.

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6 ComentáriosDeixe um comentário

  1. A Sanflosi disse:

    “Muitos dos artistas dessa época, intrigados, resolveram descobrir de onde tinha surgido a proibição. Até hoje, ninguém sabe que ordem foi essa, de quem e de quando. “Quando se questionou a fundo, nunca se soube quem ordenou”, observou um dos meus interlocutores.” :

    “Nunca se sabe quem ordenou”.

    Comentário:
    Nos primeiros anos de independência aconteceram muitos casos daquilo que se diz: “EXCESSO DE ZELO”, por parte dos “GRUPOS DINAMIZADORES” e ”COMITÊS DO PARTIDO”, nos bairros e nos locais de trabalho. Muitos desses “militantes” ou simpatizantes da Frelimo, nesses locais, muitas vezes interpretavam literalmente os discursos de Samora Machel. Se Samora, nos seus discursos em comícios populares, criticasse algum comportamento negativo na sociedade, alguns desses “militantes” ou “simpatizantes” dos “GUPOS DINAMIZADORES” ou “COMITÉS”, consideravam que ele estava decretando uma “lei” ou uma “ordem” que devia ser “religiosamente” aplicada. Isso explica os excessos que houve durante a controversa “OPERAÇÃO PRODUÇAO”, as prisões e perseguições a certas pessoas ou grupos religiosos, sem justa causa, que muitas vezes quando o caso chegava às autoridades competentes se concluía que não havia nenhuma base legal para tal e a(s) pessoa(s) era(m) solta(s). Mas em alguns casos a pessoa ia parar até nos “campos de reeducação”, para depois se descobrir que houve “EXCESSO DE ZELO”.

    Samora muitas vezes criticava, em seus discursos proferidos em comícios populares, certos comportamentos negativos relacionados com os “bailes” do tempo colonial, como “cultura degradante do colonizador” e aí alguém interpretou isso como “proibição”.

    • Muito interessante esta sua abordagem, Miguel.

      Abs.

  2. Concordo com a Patrícia: África sem dança é inimaginável… Realmente nunca se descobre a autoria de ordens ridículas. Bjs

  3. Foi o momento Monty Python de Moçambique. Genial.
    Do que eu me lembro se Samora Machel de facto não o via proibir a dança 😀

  4. Não consigo imaginar a África sem danças. É uma das coisas que acho mais especial na Africa. O sorriso e as danças… Pra mim é um real sentido de superação, poder mesmo com problemas, dançar e transmitir alegria da dança. Eu queria muito saber dançar mas tb cresci com essa proibição e hoje me sinto dura. E assim como na África, isso surgiu nas igrejas evangelicas como um pecado e hoje já se consertou isso na maioria das igrejas. Meu pai não era contra mas para não escandalizar os outros, não podíamos também. E nessas horas, não aparece o dono dessas ordens ridículas.

  5. […] Justamente esse lado duro (de certo modo, inevitável, quando visto pelo prisma das circunstâncias do momento) gerou histórias como a que a Sandra colocou hoje no Mosanblog – sobre a proibição para… dançar. Clique aqui para ler. […]


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