Craveirinha

Vamos começar a semana com poesia. Eu já tinha ouvido falar do poeta José Craveirinha, moçambicano, de Maputo. Mas outro dia, vi alguns versos dele que me tocaram de uma forma especial. Achei linda a suavidade com a qual ele abordou assunto tão árido:

Menino gordo comprou um balão
e assoprou
assoprou com força o balão amarelo.

Menino gordo assoprou
assoprou
assoprou
o balão inchou
inchou
e rebentou!

Meninos magros apanharam os restos
e fizeram balõezinhos.
(José Craveirinha, Fábula, in Karingana wa Karingana)

Karingana wa Karingana é o nome do segundo livro de Craveirinha (o primeiro é Xibugo) e é como “Era uma vez” em língua ronga, falada em Moçambique.

José Craveirinha nasceu em Maputo e morreu no ano que iria completar 81 anos, 2003. Filho de pai branco português, algarvio, e mãe negra moçambicana, ronga. Em 1991 recebeu o Prêmio Camões, concedido por um júri composto por especialistas
do Brasil e de Portugal.

Mas ninguém melhor que ele, para contar a própria história:

«Nasci a primeira vez em 28 de Maio de 1922. Isto num domingo. Chamaram-me Sontinho, diminutivo de Sonto.[1] Isto por parte da minha mãe, claro. Por parte do meu pai, fiquei José. Aonde? Na Av. Do Zihlahla, entre o Alto Maé e como quem vai para o Xipamanine. Bairros de quem? Bairros de pobres.
Nasci a segunda vez quando me fizeram descobrir que era mulato…
A seguir, fui nascendo à medida das circunstâncias impostas pelos outros.
Quando o meu pai foi de vez, tive outro pai: seu irmão.
E a partir de cada nascimento, eu tinha a felicidade de ver um problema a menos e um dilema a mais. Por isso, muito cedo, a terra natal em termos de Pátria e de opção. Quando a minha mãe foi de vez, outra mãe: Moçambique.
A opção por causa do meu pai branco e da minha mãe preta.
Nasci ainda outra vez no jornal O Brado Africano. No mesmo em que também nasceram Rui de Noronha e Noémia de Sousa.
Muito desporto marcou-me o corpo e o espírito. Esforço, competição, vitória e derrota, sacrifício até à exaustão. Temperado por tudo isso.
Talvez por causa do meu pai, mais agnóstico do que ateu. Talvez por causa do meu pai, encontrando no Amor a sublimação de tudo. Mesmo da Pátria. Ou antes: principalmente da Pátria. Por parte de minha mãe, só resignação.
Uma luta incessante comigo próprio. Autodidacta.
Minha grande aventura: ser pai. Depois, eu casado. Mas casado quando quis. E como quis.
Escrever poemas, o meu refúgio, o meu País também. Uma necessidade angustiosa e urgente de ser cidadão desse País, muitas vezes, altas horas a noite.»

1. Domingo em língua ronga, um dos idiomas banto falados em Moçambique

Leia também Quero ser tambor e ainda outros poemas de José Craveirinha aqui.

Leia mais sobre ele aqui e também aqui.

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2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Gostei mais do José Craveirinha contando sua história: é que minha história com poesia também tem uma HISTÓRIA rsss. Mas de fato nascer várias vezes é muito bom, principalmente se pudermos voltar com um upgrade bem melhor hahaha. Gostei de conhecer mais um moçambicano de quem nunca tinha ouvido falar! Beijos

  2. Interessante a ideia que nascemos sempre. Para cada coisa. Lembro que o ditado “A vida começa aos 40” foi bem forte na minha vida. Eu mudei muito nesses tempos. Agora sei que isso é nascer de novo.


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