De como os mulungos sofrem (2)

Já expliquei anteriormente que mulungo, em idioma changana (um dos mais de 20 falados em Moçambique além do oficial Português), significa pessoa de origem estrangeira, branco. Explico novamente porque a nossa comunidade de leitores do Mosanblog está sempre a crescer e é como rádio: tem “audiência” rotativa. 😀

Alguns dias atrás também já falei de como os mulungos sofrem. Daí o 2 logo após o título de hoje. Na verdade, quando fiz o texto anterior já sabia que não ia parar por lá e, infelizmente, tenho certeza que esse número ainda crescerá, porque vida de mulungo é difícil.

Outro dia fui jantar em uma região pouco movimentada à noite. Estava acompanhada e quando chegamos na rua achamos estranho, porque é uma zona que freqüentamos mais de dia e, à noite, era só breu. Apenas algumas das luzes da rua estavam acesas.

Enfim, éramos uma turma, o restaurante é agradável, lá fomos. Ao final, saímos em três. Viemos dois em um carro e um em outro. Na saída do estacionamento, o amigo que estava sozinho foi à esquerda, nós à direita.

No entanto, depois de andarmos cem metros, olho para o carro dele e o vejo parando, com duas pessoas a aproximarem-se. Nenhuma iluminação, nada que identificasse o que poderiam ser aquelas pessoas. Na verdade, quepes na cabeça identificavam, mas àquela distância e naquela escuridão eu não notei. Estava de óculos, mas não era possível ver.

Alertei ao motorista do carro em que eu estava e ele virou o carro para passarmos perto do amigo e ver se havia algo errado. Quando chegávamos perto percebemos que eram dois policiais de trânsito. Como fazia frio, estavam com pulôveres escuros e não era possível perceber o uniforme. Iluminação, indicação, cones? Nada. Dois seres humanos com fuzis (coisa que aqui todo segurança que toma conta da porta das residências carrega), roupas escuras e sem sinalização nenhuma do que faziam. De perto, vimos o quepe, mas de longe, não tinha como…

Abrimos o vidro e o motorista do meu carro explicou que tínhamos voltado porque não entendemos o que estava acontecendo e ficamos preocupados com a possibilidade de nosso amigo estar a ser assaltado. O guarda mandou que encostássemos nosso carro ao lado do carro do nosso amigo e pediu os documentos. Foram todos entregues.

Então, começa o bate-boca. Eu já tinha visto isso em uma outra situação, onde o guarda dizia que o motorista do carro que eu estava tinha andado irregularmente na faixa, passando da esquerda para a direita em um lugar que não podia. Então o motorista explicou que fez isso porque o carro do lado, bêbado que devia estar, tinha vindo para cima do nosso e, na tentativa de evitar um acidente, ele de fato saíra da faixa, mas com segurança, certificando-se de que não havia outro carro perto. Faz meses que ocorreu, mas lembro claramente da discussão e da argumentação do amigo, que dizia que o guarda deveria ter parado o carro que quase causou o acidente também, não só o nosso. Mas o nosso era carro de mulungo…

Bem, voltando à noite mais recente: o guarda que argumentava com a gente começou, então, o mesmíssimo discurso do outro dia. Fiquei impressionada porque percebi que qualquer que seja a razão de te pararem, o discurso é o mesmo, já pronto e decorado: “o senhor não pode fazer o que quer aqui, tem que conhecer as leis de nosso país. No seu país não sei como é, mas aqui é preciso fazer como está no código. Tens que conhecer o código”. Então, o motorista argumenta que não fez nada errado ou que, se fez, foi em virtude de uma causa externa, como no caso do amigo que “pulou” de faixa para evitar um acidente. Aí vem a segunda parte do discurso: “Vais querer agora me ensinar a trabalhar? Me dizer como devo fazer aqui? Não podes vir ao meu país dizer como tenho que fazer.”

Em um primeiro momento, você se sente culpado, fica pensando o que disse para parecer que estavas a ditar regras. Mas como já não era minha primeira cena dessas e como vários mulungos já nos contaram a mesma história, passamos a ver de outra forma. Então, o motorista do meu carro sugeriu que o guarda passasse a multa: “não quero dizer como tens que trabalhar, mas se fiz algo errado, devo ser multado, ou levado para a esquadra (delegacia). O que vai ser, então? Não posso é ficar parado aqui na rua, sem ir nem vir, argumentando com o senhor e o senhor comigo até amanhecer.”

Isso acaba com o esquema. Que coisa mais sem graça. Mulungo tá ficando esperto. Em vez de pedir a multa, o que o guarda espera é que você ofereça um “refresco” (como carinhosamente chamam o suborno por aqui). O refresco sai mais em conta para o motorista e todo mundo sai a ganhar. Mas eu vou sempre preferir a multa. Depois do que passei no correio outro dia, estou bem esperta e vou sempre pagar com prazer tudo que me venha com recibo. Nem que seja multa saída da cabeça do guarda.

Observação: contei a história sob o prisma de mulungo, porque pelo que me contam, somos mais visados, até pela facilidade de enganar alguém que pode não dominar o conhecimento das leis e, em muitos casos, sequer o idioma, mas sei que o próprio moçambicano sofre com a questão da corrupção aqui. O governo tem feito campanhas pedindo que as pessoas não ofereçam, não cedam, não busquem o caminho mais fácil. Espero, sinceramente, que essas campanhas toquem os corações das pessoas. Afinal, só existe corrupção, onde existe corruptor.

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6 ComentáriosDeixe um comentário

  1. […] Eles e outros que cruzaram meu caminho por aqui, como os guardas de trânsito do texto De como os mulungos sofrem (2) ou o agente do correio do texto Será que paguei propina? E como eu não preciso disputar espaço […]

  2. […] no post De como os mulungos sofem (2), o David comentou “na Guiné e em Angola, o conceito de ‘mulunguice’ não está […]

  3. Parece uma espécie de vingança histórica do colonizado :D. Não sei como é em Maputo mas na Guiné e em Angola, o conceito de “mulunguiçe” não está ligado à cor de pele, não é racista. Eu era mulungo em Luanda também 😀

  4. como se diz por aqui, rapadura é doce mas não é mole não. Eu também prefiro pagar a multa. Principalmente se realmente estiver errada, mas também se estiver com a razão. Dá certo em todo o mundo, o corrupto desiste.
    Boas energias, querida, pra você!

  5. olha só! me lembrou um encontro meu com dois policiais também…
    http://viagensdairis.blogspot.com/2010/06/pictures-in-this-blog-post-cost-me-4-t.html

  6. Estou ficando indignada com esses tomadores de “refresco”! É isso mesmo: exigir o recibo. Quero ver se eles vão querer encarar todas, não é vero? Bjs


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