De como os mulungos sofrem (1)

Lembra quando no Brasil não havia a obrigatoriedade de preços nas vitrines das lojas? Moçambique está nessa fase ainda. Aliás, está pior, aqui o preço do produto varia de acordo com a cara do cliente. Se é mulungo – estrangeiro, branco – tem grande chance de pagar mais caro. Não é modo de dizer, é fato.

Eu entro em uma loja e pergunto o preço de uma calça. O vendedor olha para a calça e rapidamente calcula o preço dela acrescido do valor da minha branquidão na pele, somado à taxa de sotaque de novela brasileira (onde todos são ricos sem nem trabalhar), pronto, a calça custa uns MT 1.300,00. Em seguida, uma moçambicana entra na mesma loja e pergunta ao mesmo vendedor o preço da mesma calça: MT 600,00. Já fizemos o teste e funciona.

Dito isso, passo a contar aqui a história da porta.

Eu estava a procurar uma porta para a sala de casa. A antiga não estava a fechar muito bem e o dono da casa sugeriu que procurássemos uma mais imponente, que contribuísse para embelezar a sala.

Depois de ver muitas, escolhi uma que me pareceu a melhor relação custo x benefício, considerando inclusive que entregavam e instalavam a tal, coisa que quase nenhum lugar fazia.

Fui com o Eduardo à loja, para que ele decidisse junto se era aquela mesmo. Então, se deu o diálogo:

– Bom dia, essa porta vocês entregam e instalam?, perguntou o Eduardo ao vendedor, que não era o mesmo que tinha me atendido anteriormente.

– Sim, ela vai completa e instalamos, ajustamos o tamanho, fica tudo certo. Tudo isso por doze mil meticais.

– Doze mil meticais?!?!??, pergunto antes de quase desmaiar.

– Outro dia eu vim aqui e eram seis mil meticais, continuei.

– Ah…Hã… É… Doze mil é com a maçaneta! Sem a maçaneta são seis mil mesmo. Mas veja que é uma maçaneta muito boa, explicou o vendedor, depois de ter pensado rápido, cerca de quatro segundos.

– Deve ser, para custar o preço da porta com dobradiças, entrega e instalação, respondeu Eduardo.

Eu ainda me recuperava do choque, quando Eduardo deu a cartada final:

– Então vamos levar sem maçaneta. Vamos comprar à parte.

– Claro, tudo bem. O senhor pode comprar em qualquer loja de ferragens. Mas veja que vai ser difícil encontrar outra tão boa, concluiu o vendedor.

Pagamos MT 6.000,00 e fomos embora.

Alguns dias depois, chegam em casa os instaladores. Trouxeram porta e maçaneta. Aquela fantástica-melhor-do-mundo. Não questionaram nada, não comentaram nada, instalaram tudo.

E aí está:

a porta da salaclose na maçaneta

close na maçaneta com a porta aberta

Observo ainda que, depois do episódio, já vi a tal maçaneta para vender em uma loja e ela era, de fato, a mais cara: MT 1.950,00 (ainda assim, um terço do valor que o camarada quis dizer que valia). Ressalto, no entanto, que os valores de maçaneta aqui começam por MT 300,00.

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5 ComentáriosDeixe um comentário

  1. […] Bem no canto direito da foto está a já conhecida porta, cuja história contei no post De como os mulungos sofrem (1). […]

  2. […] dias atrás também já falei de como os mulungos sofrem. Daí o 2 logo após o título de hoje. Na verdade, quando fiz o texto anterior já sabia que não […]

  3. “a antiga não estava a fechar
    :~~~
    processo de tropicalização concluído.

  4. Oh lôco, nem se a maçaneta fosse o fino do fino poderia valer o preço da porta! Esse vendedor já viu o Eduardo na televisão hahaha. Para “Mulungo Celebridade” é ainda mais caro rsss. Mas isso não é privilégio só de Maputo. Como disse o David, por aqui também tem disso, infelizmente! Bjs

  5. Ahh, mulungo sofre! Em qualquer parte do mundo. E a prova disso é eu ter pensado, eu mulungo desta parte do mundo, que essa coisa da adaptação do preço “á cara do cliente” era brasiliense. Eu descobri que o mesmo produto em lojas diferentes da mesma cadeia ou marca, têm preços diferentes. Explicando: a dita maçaneta de porta no Extra da asa norte custa, por exemplo, R$ 15,00. No Extra do lago sul custa R$ 25,00, e no Extra de Taguatinga custa R$ 10,00. O mesmo produto! Ahpoizé! E todo o mundo sabe e acha normal.
    😀 Woohoo. I’m a alien, I’m a legal alien. I’m a mulungo in a strange land… la la la…😀


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