Será que paguei propina?*

Quando se entra em Moçambique, no aeroporto, há grandes cartazes que pedem aos usuários do serviço público que não paguem nada além das taxas oficiais. Já vi a mesma campanha em outros espaços e até anúncios na TV. As propagandas também lembram aos funcionários públicos que receber dinheiro dos cidadãos é contra a lei.

Mesmo assim, com todo mundo que conversamos, sempre há uma história de corrupção a ser contada. Às vezes nem é declarado ou tratado como tal. Acho que foi o que aconteceu comigo, que ainda não tinha nenhuma história dessas para contar…

Fiz uma compra na internet de um produto que não há em Moçambique. O produto foi enviado diretamente da loja, em São Paulo, para mim. Chegou à minha casa o aviso de que havia encomenda a retirar no correio central. Nem era um pacote grande, mas aqui o carteiro só entrega envelopes.

Fui ao correio, lá estava o pacote e um formulário para eu retirar indicando a taxa de MT 130,00 por terem armazenado o pacote da sexta-feira, quando fui avisada da chegada da encomenda, até a segunda-feira, quando fui retirar. Até aí, tudo bem.

Eu já ia colocando a mão no pacote, depois de ter pago os MT 130,00, quando o funcionário do correio me informou que tínhamos que ir até a alfândega, para fazer cálculo das taxas. Dirigimo-nos à porta ao lado. Lá o funcionário da alfândega pegou o pacote, pegou a nota fiscal que o acompanhava, somou o valor do produto com o valor do frete cobrado pela empresa brasileira – anotando tudo à mão, num canto de um papel qualquer que estava em cima do balcão – e multiplicou por 22. Imagino que essa operação fosse para chegar ao valor que eu gastei em meticais, uma vez que o valor do real é quase isso. Olhou o resultado, calculou 7,5%. Olhou mais uma vez o resultado e, com cara de quem não estava satisfeito, calculou 3,5% e somou ao resultado anterior. Olhou o resultado, parece que agora gostou e anotou no mesmo papel, já todo rabiscado com outras tantas coisas (entre elas possíveis contas de mulungos — estrangeiros, brancos — como eu): MT 841,00.

— A senhora tem que pagar MT 841,00 de alfândega para retirar a mercadoria. Pode dar só MT 800,00, para arredondar.

Fiquei confusa, mas por um momento achei que podia ser. Foi nesse momento que paguei.

Claro que ele se esgueirou para um canto para receber. Depois, já no carro, percebi que, da forma como ele fez, ninguém tinha visto eu pagar. Mas isso só me veio à cabeça quando estava voltando para casa e, repensando o que se passara, me dei conta de que não recebi nenhum recibo da “taxa de alfândega”. Enfim, juntando todas as cenas daquela manhã na minha cabeça lerda, acho que só os MT 130,00 foram de fato para o governo. Os MT 800,00 foram uma propina velada, não pedida, não extorquida, não negociada.

Lição aprendida. Vou receber outras coisas pelo mesmo correio. Vou pedir recibo que explique as contas e discrimine o pagamento. Vou pagar a falar bem alto: “Aqui estão os MT 800,00 da taxa de alfândega”. Se ainda assim ele receber. Se eu levar comigo um recibo oficial das alfândegas discriminando o pagamento, tudo bem.

* No português brasileiro, propina significa dinheiro que se oferece a alguém em troca de favor ou benefício quase sempre ilícito, é aquela gorjeta forçada.

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13 ComentáriosDeixe um comentário

  1. […] foi causado por situações como as descritas na série De como os mulungos sofrem e nos textos Será que paguei propina? e Casei com Moçambique. -18.665695 35.529562 Se gostou, divulgue no seu blog, por e-mail ou nas […]

  2. […] os guardas de trânsito do texto De como os mulungos sofrem (2) ou o agente do correio do texto Será que paguei propina? E como eu não preciso disputar espaço com quem não me quer no seu pedaço, deixo Moçambique. É […]

  3. Também fiquei na dúvida, mas no meu caso, me pediram bem menos e eu tive um recibo. Acho que quando abriram e viram que o objeto não era grande coisa, não pediram mais.
    http://viagensdairis.blogspot.com/2010/01/post-office-continued.html
    Eu não gosto quando pedem suborno… mas também não sei dizer se não faria o mesmo, se eu recebesse menos que 1.500 meticais por mês, que muitas vezes é o caso.😦

  4. […] conta para o motorista e todo mundo sai a ganhar. Mas eu vou sempre preferir a multa. Depois do que passei no correio outro dia, estou bem esperta e vou sempre pagar com prazer tudo que me venha com recibo. Nem que […]

  5. Eu já paguei propina. Ou melhor, já paguei gasosa. Foi em Luanda. Eu cheguei num vôo de Lisboa à 2 da manhã e um fiscal me pediu a carteira de vacinas. Como eu não tinha ele se prontificou a dar a dita vacina porque eu não podia entrar sem ela. E disse que a vacina custava 20 USD. Isso mesmo, dólares. Eu lhe perguntei se dava para pagar a vacina e não tomar a vacina (sei lá o que teria na dita vacina). Ele disse que nesse caso… era 25 USD. Paguei e fui embora… sem recibo.
    Beijos

    • Como assim??? Pagou mais caro para o cara não dar a vacina? Tem lugares que se superam mesmo…
      Beijos.

      • É o mercado da procura e demanda. Quando a procura do “não-tomar-vacina” é alto, o preço sobe!

  6. Acho que aqui no Perú já passamos por épocas de corrupcao desse tipo, muitas, em todo momento e situacao. Se bem já é difícil em certos orgaos do governo, ainda a policia pede uma propina pra nao colocar uma multa em vc.
    é uma pena.
    Mas é difícil mesmo se vc está num país diferente identificar o que é propina e o que é legal mesmo, né?
    Já quase estou por lá! Semana que vem viajo!!

    • É verdade, está chegando a hora de sua viagem!

      Seja bem-vinda a Moçambique e conte comigo para o que precisar.

      Beijos.

      Sandra.

      • Sandra, obrigada pelas dicas e as respostas aos meus emails!
        Chego domingo, tal vez a gente possa se encontrar a noite para beber um chopp.🙂

      • Vamos nos encontrar sim!

        Domingo, para mim, precisa ser depois das 19h30.

        Pode escolher o lugar!

        Besos.

        Sandra.

  7. Pronto: Moçambique já ficou distante pra mim de novo (não só pelo avião hahaha) porque sou a rainha do e-commerce exatamente para receber tudo em casa. Se aí não entregam já não me serviria e ainda por cima ficaria “quebrada” no primeiro mês, uma vez que a minha média de encomendas/mês é acima de 3 pacotes kkkk. Estou esperando ansiosamente que você peça outra encomenda para eu ver você detonar com esse correio: porque o funcionário vai achar que poderá repetir a mamata, mas todo mundo só precisa de uma vez para reconhecer malcaratice, não é vero? Adorei o “cabeça lerda” rssss. Beijos

  8. É revoltante quando voce se sente passada pra trás. E o pior é saber que ajudou um corrupto. Mas a gente aprende, né? Eu sou muito de deixar as coisas passarem mas hoje tenho aprendido um pouco a lutar pelos meus direitos e não ir pagando tudo assim.


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